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quarta-feira, 10 de março de 2010

Lula e a greve de fome

Por Lucia Hippolito, em seu blog
Lula e a greve de fome
Apoiado em índices estratosféricos de popularidade, aclamado no Brasil e no exterior, considerado o "homem do ano", "um dos mais importantes da década", elogiado por jornais e revistas estrangeiras, o presidente Lula decidiu que não tem contas a prestar a ninguém.

Lula nunca teve problemas de relacionamento com ditadores. Da África, do Oriente Médio, da Ásia, da América. Elogia o presidente do Irã, abraça-se com Kaddafi. Com Fidel, então, Lula chega a revirar os olhinhos de tanta alegria.

charge de Samuca


A ditadura mais embolorada da América, uma relíquia do século passado, com os irmãos Castro perdidos em devaneios antiimperialistas. Tudo tão antigo. Como é também antigo o desrespeito do governo de Cuba aos direitos humanos, como são antigas as prisões cubanas, como é antigo o hábito de amordaçar qualquer tentativa de liberdade de expressão, seja uma blogueira ou um ativista de direitos humanos.

O presidente Lula foi mais uma vez a Cuba e chegou justamente no dia em que morria, depois de 82 dias de greve de fome, o operário Orlando Zapata. Era um preso político, um preso de consciência.

Fotografado às gargalhadas ao lado dos irmãos Castro, Raúl e Fidel, pálidas caricaturas da Guerra Fria, Lula, ao ser perguntado sobre a morte de Zapata... botou a culpa no morto. Quem mandou fazer greve de fome?! Onde já se viu?!

Foto de Ricardo Stuckert


Muito criticado, no Brasil e no exterior, o presidente saiu pela tangente, afirmando que pessoalmente é contra greve de fome como recurso de prisioneiros e que não tem pos hábito imiscuir-se na política interna de outros países.

Vamos esquecer, por um momento, dos elogios à eleição do presidente do Irã ou mesmo a recusa a reconhecer as eleições presidenciais em Honduras. Vamos nos concentrar nos presos políticos e suas greves de fome.

Ontem, o presidente Lula realmente extrapolou. Entrevistado pela agência de notícias Associated Press, declarou o presidente:

"Greve de fome não pode ser utilizada como um pretexto de direitos humanos para libertar pessoas. Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem libertação."
charge de Sponholz

Ao comparar presos políticos com bandidos, o presidente desrespeita, não apenas sua própria biografia, mas faz pior: agride frontalmente a ministra Dilma Rousseff, sua candidata à presidência da República.

Não é segredo para ninguém que Dilma foi presa política durante alguns anos. Torturada. Não sei se fez greve de fome, mas isto é irrelevante. Ao compará-la a um bandido, o presidente Lula comete uma grosseria que nem os gorilas da direita mais hidrófoba ousaram, durante a ditadura.

Uma das greves de fome mais emblemáticas durante a ditadura brasileira durou 32 dias. Preso no Presídio Frei Caneca, no Rio de Janeiro, Nelson Rodrigues Filho participou, junto com Perly Cipriano e Jorge Raimundo Júnior, de uma greve de fome que só terminou com a aprovação da Lei da Anistia pelo Congresso Nacional, em 22 de agosto de 1979.

O presidente Lula tem todo o direito de se relacionar com ditadores alegando razões de Estado. O presidente Lula tem todo o direito de desrespeitar a própria biografia. Mas não tem o direito de desrespeitar a trajetória polítca de milhares de brasileiros, alguns até muito próximos dele.

O presidente Lula pode muito, muito mesmo. Mas não pode tudo. Ainda bem.

segunda-feira, 2 de março de 2009

No último 27 de fevereiro publiquei um artigo da jornalista Lúcia Hippolito intitulado "A desmoralização da mentira" (leia aqui) sobre o caso dos pugilistas cubanos no PAN de 2007. Pois bem, face 'as novas informações, LH faz um pedido de desculpas públicas ao ministro Tarso Genro (abaixo) ao que o Pilórdia a acompanha, dando o mesmo espaço que deu anteriormente.

"Ocupada com as consequências emocionais -- e práticas -- do falecimento de minha mãe, só agora, alertada por comentaristas aqui no blog, tomei conhecimento da entrevista do boxeador cubano e de suas declarações.
Assisti ao vídeo. Não tenho por que duvidar das palavras do atleta.
Jamais tive compromisso com o erro. Jamais tive problemas em pedir desculpas quando erro. Errei, peço desculpas. Sem problemas.
Assim sendo, quero pedir desculpas de público ao ministro da Justiça Tarso Genro.
Pelas declarações do pugilista, as declarações de sua Excelência de que os cubanos estavam desejosos de retornar a Cuba eram corretas.

O fato de os dois terem fugido de Cuba tempos depois parece ser independente de sua rápida deportação pelas autoridades brasileiras.

Ainda mais porque, segundo declarações do atleta cubano, o próprio presidente da República lhe perguntou ao telefone se ele não gostaria de permanecer no Brasil.
Portanto, mais uma vez com minhas desculpas ao ministro Tarso Genros, considero que o episódio encerrou-se da malhor forma possível. Os dois pugilistas cubanos estão fora de Cuba, competindo e tocando a vida.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A desmoralização da mentira.

fotomontagem do pagando o pato

Por Lucia Hippolito. Em seu blog



A desmoralização da mentira

Imagino que muita gente ainda se lembre de Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara. Os dois pugilistas cubanos tentaram desertar durante os Jogos Panamericanos do Rio de janeiro em julho de 2007. Pretendiam seguir para a Alemanha, já com promessa de contrato.
Entretanto, foram presos pela Polícia Federal e imediatamente deportados. Um avião posto à disposição do governo cubano pelo presidente da Venezuela Hugo Cháves levou os pugilistas de volta para Cuba.
Criticado pela sofreguidão do governo brasileiro em "prestar um favor" a Fidel Castro, o ministro da Justiça Tarso Genro declarou que os cubanos tinham expressado a vontade de voltar para a casa, para a família.
Em Cuba, os pugilistas foram sumariamente excluídos da seleção nacional de Cuba e proibidos até de treinar.
Pois a farsa não durou nem seis meses. Erislandy Lara fugiu para a Alemanha, deixando a família para trás.
Recentemente, o caso dos dois cubanos voltou ao noticiário no Brasil, depois que o ministro da Justiça, contrariando todos os pareceres e decisões de instâncias especializadas, decidiu, monocraticamente, conceder status de refugiado político ao italiano Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua em seu país por ter cometido quatro assassinatos.
Sua Excelência o ministro Tarso Genro continuou sustentando a farsa de que os cubanos estavam doidinhos para voltar para casa, mortos de saudade das famílias.
Esta semana, a farsa desmoronou de vez. Guillermo Rigondeaux também fugiu, deixando mulher e filho -- a mulher apoiou inteiramente a fuga. Está na Flórida e parte em breve para a Alemanha, para se reunir a outros pugilistas cubanos, Erislandy Lara entre eles.
E agora, o que se pode dizer das afirmações categóricas do ministro da Justiça? No mínimo, que sua Excelência mantém relações cerimoniosas com a verdade.
Não sei não, mas certas pessoas não desmoralizam apenas a verdade. Conseguem desmoralizar a mentira.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Prefeitos "prendas do lar"





O exemplo das donas de casa
No discurso de posse dos prefeitos, de Norte a Sul do país, as expressões mais ouvidas foram: “ajuste de caixa”, “auditoria”, “redução de cargos”, “enxugamento da máquina”.
Prefeitos reeleitos já assumiram o novo mandato com uma disposição diferente de quatro anos atrás. João Henrique, em Salvador, reduziu de 18 para 11 o número de secretarias. No Sul, José Fogaça determinou corte de 20% nos gastos de custeio. Beto Richa, em Curitiba, Iris Resende, em Goiânia, também se juntaram ao coro de ajuste e corte de gastos. Bom sinal. A ficha caiu para prefeitos veteranos e novatos. Ajuste é a palavra de ordem. Porque o mundo mudou.
A crise está aí. Os tempos de bonança eram uns, agora os tempos são, no mínimo, de cautela e moderação. Portanto, é fundamental rever contratos. Negociar descontos. Enxugar gastos inúteis. Profissionalizar a gestão.
Pensar com mais racionalidade o uso dos recursos públicos, porque certamente a arrecadação vai diminuir um pouco. Os recursos de que os prefeitos podem lançar mão são, principalmente, aqueles oriundos do IPTU, do ISS e do Fundo de Participação dos Municípios.
Os dois últimos devem cair, porque serviços são o primeiro setor da economia afetado por uma crise. E o FPM, que se origina de recursos federais arrecadados nos municípios, também terá uma queda, tendo em vista a já detectada queda de arrecadação federal. Muitos municípios, por esse Brasil afora, vivem exclusivamente do FPM, da aposentadoria rural e do Bolsa-Família. São incapazes de gerar renda própria. Por isso, todo cuidado é pouco.
Além de menos recursos, o prefeito pode contar com uma população mais atenta, mais preocupada com a destinação do dinheiro do seu imposto.
A Câmara de Vereadores de São Paulo aprovou uma lei, proposta pelo movimento “Nossa São Paulo”, que obriga o prefeito a fixar metas semestrais de desempenho – e a prestar contas dessas metas.
No Rio, o prefeito Eduardo Paes se comprometeu com o movimento “Rio Como Vamos”, a enviar à Câmara projeto semelhante – e a se comportar desde o primeiro dia como se a lei já tivesse sido aprovada. Seria muito bom se esta lei se disseminasse por todos os municípios do país. Metas claras, realizáveis. E, mais importante que tudo, cobráveis pela população.
Os tempos são outros. É hora de apertar o cinto. Se sobrar dinheiro lá adiante, tanto melhor. O prefeito poderá fazer mais obras no final de seu mandato, o que poderá garantir bons dividendos político-eleitorais.
Nunca antes na história deste país uma metáfora do presidente Lula foi tão apropriada. Ele sempre disse, nos vários palanques que frequenta, que os dirigentes da economia do Brasil devem se comportar como uma dona-de-casa, sempre de olho no orçamento doméstico.
Pois é o que se recomenda aos novos (e renovados) prefeitos: agir como dona-de-casa. Jamais gastar além do orçamento doméstico, evitar o desperdício, cobrar participação de todos os membros da família e punir com severidade aqueles que se comportarem mal.
Em suma, cuidar de sua cidade, porque é aí que se inicia todo o processo democrático. O dr. Ulysses sempre dizia: “Nós moramos no município, não moramos nem no estado nem na União.” E é no município que se tem uma visão mais clara de como funciona a política, de como é gasto o nosso dinheiro. E finalmente: nada de aumentar o desperdício do dinheiro público com um desnecessário, oneroso e antiético aumento no número de vereadores.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Espuma. Só espuma.

Por Lucia Hippolito, em seu blog
Muito barulho por nada
Para que servem essas pesquisas de intenção de voto realizadas com tanta antecedência em relação à eleição presidencial?
Primeiro, servem para consumo interno. Vão consolidando os nomes dentro dos partidos, afastando os possíveis concorrentes, atraindo financiadores. E mantêm o nome do candidato na mídia e no imaginário coletivo.
Segundo, servem para orientar os marqueteiros, em termos de correção de rumo, alterações no perfil do candidato, mudanças na aparência: penteado, gestual, dicção, guarda-roupas. A ministra Dilma Roussef já substituiu os óculos por lentes de contato e clareou o cabelo, para parecer menos dura, mais simpática.
Mas os dados da última pesquisa Datafolha mostram algumas curiosidades. Por exemplo, as intenções de voto em Dilma cresce à medida em que os eleitores são mais escolarizados e com renda familiar maior. Ou seja, por enquanto a ministra está descolada da base de apoio do presidente Lula, que fica majoritariamene entre os menos escolarizados e com menor renda.
Já o governador José Serra se sai melhor na base de apoio do presidente Lula e vai perdendo intenção de voto conforme sobem a escolarização e a renda familiar do eleitor.
Ciro Gomes e Aécio Neves ainda não estão fora do jogo, mas precisam crescer um pouco mais. Ciro precisa "sair" do Nordeste e Aécio precisa "sair" do Sudeste.
Não é nada, não é nada, por enquanto não é nada mesmo. Só espuma.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

... e o mundo não se acabou

Por Lucia Hippolito, postado em 11 de setembro em seu blog
... E o mundo não se acabou.
"Hoje passei o dia agoniada, achando que o mundo ia acabar. Tudo por conta do super-hiper-mega ativador de partículas que uns cientistas malucos (cruza de professor Pardal com doutor Frankenstein) decidiram construir para simular o Big Bang, isto é, o surgimento do Universo.

Podia dar certo. Mas podia dar um revertério.

Não divulgaram, para impedir que seitas messiânicas e milenares pusessem em prática suicídios coletivos. Mortandade em massa. Procissões pela volta de Jesus, de Alá, essas coisas. Sem contar o Beato Salu e o Antonio Conselheiro, que poderiam reencarnar.

Mas mesmo assim, escondidinha, a experiência de recriar o nascimento (físico) do Universo causou grande apreensão em almas mais sensíveis, entre as quais me incluo.

Já que o mundo não acabou (o que Dunga teria adorado, para não ter que prestar contas amanhã), presenteio vocês com umas das mais sérias reflexões filosóficas a respeito: o samba-choro “...E o mundo não se acabou”, de Assis Valente.

Boa noite e até amanhã, porque está garantido que vai existir o amanhã. O depois de amanhã ainda não está confirmado, mas os prognósticos são bons.


...E o mundo não se acabou
[samba-choro de Assis Valente.
Acompanhamento do conjunto Regional.
Gravado em 9 de março de 1938,
por Carmen Miranda.
Ouça aqui

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada
Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei na boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô..
.e o tal do mundo não se acabou
Chamei um gajo com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
gastei com ele mais de quinhentão
Agora eu soube que o gajo anda dizendo
coisa que não se passou
Ih! vai ter barulho e vai ter confusão...
porque o mundo não se acabou

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

por Lúcia Hippolito
Dilma faz musculação para candidata
O palanque de ontem (02.09) na costa do Espírito Santo teve menos a ver com petróleo e mais a ver com a sucessão presidencial de 2010.
A respeito do petróleo, foi aquilo que já se sabe: apenas um teste. O poço de Jubarte é o que possui a área menos espessa de pré-sal, a Petrobras já estava com uma plataforma ali. Quanto à exploração comercial do petróleo do pré-sal, só mesmo a partir de 2014, segundo cálculos da própria Petrobras (maior autoridade mundial em exploração em águas profundas). Ainda não existe sequer tecnologia para isso.
Mas em matéria de sucessão presidencial, os resultados já começaram a ser colhidos desde ontem. O presidente Lula está seguindo corretamente seu projeto de fazer o sucessor.
As possíveis candidaturas petistas foram caindo uma a uma, todas com problemas com a polícia e a justiça. Acusados de formação de quadrilha, corrupção, violação de sigilo bancário. Com isso, o presidente decidiu construir uma candidatura e fixou-se na ministra Dilma Roussef. Tomou a si a tarefa de fornecer a necessária socialização política à sua candidata.
Lula é doido por um palanque. Fica numa alegria de menino. Faz brincadeiras, gafes, pronuncia inconveniências, constrange uns e outros, se espalha. Fica inteiramente à vontade ou, como se diz aqui no Rio, “feliz que nem pinto no lixo”.
E carrega Dilma para todo canto. Ela não lhe faz sombra, não lhe tira o papel de protagonista. E vai aprendendo.
Dilma não tem experiência política, não tem militância partidária, não tem traquejo. Ainda tem muito caminho pela frente até ser considerada pronta para enfrentar a dureza e a imprevisibilidade de uma campanha presidencial.
Dilma é aluna aplicada. E está se esforçando. Outro dia, por exemplo, num jantar de apoio ao candidato a prefeito de Vitória, Dilma discursou durante um hora. Quase matou os convidados de chateação!
Mas vai melhorando aos poucos. Já está começando a abandonar os gestos rudes e o tom ríspido que a acompanham desde sempre. Já começou a sorrir, o que é um progresso extraordinário, vamos combinar.
Até 2010, ainda teremos muita obra inacabada para inaugurar, muito palanque, muita fita de inauguração para cortar. Tudo isto vai servindo para alegrar o presidente, que troca tudo por um bom palanque, vai dando experiência à candidata.
Dilma segue fazendo musculação para candidata em 2010.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Ponto de Vista

Charge de Andrade.

Escrito por Lucia Hippolito, em seu Blog
Decisão equivocada


Foi lamentável a decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal ao conceder habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas no início da madrugada de ontem. E por quê? Não cabe aqui contestar o conteúdo da decisão do presidente do STF. Mas cabe, sim, fazer algumas considerações sobre o ato do ministro Gilmar Mendes.


A decisão acaba confirmando as piores opiniões a respeito da justiça brasileira: que a Justiça é lenta, que só tem mão pesada sobre os mais pobres, que colarinho branco não fica na cadeia.


A decisão contraria jurisprudência do próprio STF, um órgão colegiado, de que habeas corpus para soltura só seja concedido por decisão colegiada, isto é, dos 11 ministros.


(Aliás, também contrariando a jurisprudência do Supremo, o ministro Marco Aurélio Mello concedeu habeas corpus ao também banqueiro Salvatore Cacciola, e o resultado é o que se viu. Cacciola fugiu para a Itália, foi condenado à revelia e só agora vai ser extraditado.)


As autoridades brasileiras às vezes não se dão conta do enorme significado simbólico de suas atitudes.


Será que o ministro Gilmar Mendes precisava agir tão precipitadamente, no início da madrugada, sem ouvir ninguém?


O que pensarão os juízes de primeira instância, os presidentes de outros tribunais?!


Daniel Dantas já demonstrou que não tem limites para sua ação. Tentou corromper delegados, criou e liderou uma “sofisticada organização criminosa” (mais uma, meu Deus!), mandou espionar altas autoridades, criou dossiês falsos sobre contas de autoridades brasileiras em paraísos fiscais. E por aí vai.
A Polícia Federal o acusa de formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, espionagem. Se isto não é razão suficiente para manter alguém na cadeia, não sei o que será.
E não custa repetir: algema não é humilhação. Humilhação é ser preso por acusações que cobrem quase metade do Código Penal.
O ato do presidente do Supremo Tribunal Federal joga um manto de desconfiança sobre a justiça brasileira. Confirma a afirmação de que no Brasil todos são iguais perante a lei, mas uns são mais iguais do que outros.

sexta-feira, 28 de março de 2008

A quem interessa queimar a ministra Dilma

Texto de Lucia Hippolito, em seu Blog

É preciso tratar com serenidade esta questão dos cartões corporativos. Os dados concretos são:

1º. alguém do governo vazou as contas do ex-presidente Fernando Henrique e da primeira-dama, dona Rute. Estas contas estavam arquivadas na Casa Civil, sob a guarda da ministra Dilma Roussef.

2º. as despesas com cartões corporativos do atual presidente da República, da primeira-dama e dos familiares também ficam arquivadas na Casa Civil, sob a guarda da ministra Dilma Roussef.

Portanto, a ministra Dilma Roussef é a pessoa ideal para prestar os esclarecimentos necessários à CPI. Não se trata de ofender ninguém, não é necessário exacerbar paixões nem manter uma desnecessária queda de braço entre governo e oposição.

É importante ressaltar, no entanto, que, se o vazamento das contas do ex-presidente Fernando Henrique não causaram nenhum abalo à segurança nacional, é razoável imaginar que a divulgação das contas do presidente Lula, da primeira-dama, dona Marisa, e da família presidencial tampouco sejam explosivas para a segurança nacional.

É preciso distinguir entre culpa e responsabilidade. Não acredito que a ministra Dilma seja culpada pelo vazamento das contas do ex-presidente Fernando Henrique e da primeira-dama, dona Rute. Mas a ministra Dilma é responsável, sim, pelo vazamento, porque é a ministra da Casa Civil, e tudo o que acontece na Casa Civil é sua responsabilidade.

Daí a importância dos esclarecimentos da ministra à CPI dos Cartões Corporativos. O momento do vazamento das contas do ex-presidente Fernando Henrique não poderia ter sido pior: a CPI não decolava, a oposição estava a ponto de abandonar os trabalhos.

Alguém, de dentro da Casa Civil, querendo ajudar, pode ter botado tudo a perder. Exatamente como aconteceu no caso dos “aloprados” e da compra de um dossiê contra José Serra – foram ajudar e acabaram levando a eleição presidencial para o segundo turno.

A manobra foi tão desastrada, que já se especula que existe gente dentro do Palácio do Planalto disposta a detonar a possível candidatura da ministra Dilma à sucessão do presidente Lula. No interesse do próprio governo e para preservar suas chances de concorrer em 2010, seria de todo recomendável que a ministra Dilma se oferecesse para ir à CPI prestar os esclarecimentos sobre o caso.

Ah, sim, passando antes por uma loja em Brasília para comprar uma boa figa de guiné e um poderoso galho de arruda.Tem gente torcendo contra, ministra. E dentro do Palácio do Planalto.

terça-feira, 11 de março de 2008

Lucia Hippolito: Paraíso dos Lobistas

Nota publicada no jornal Folha de S. Paulo nos informa que pelo menos 1/3 das comissões permanentes da Câmara dos Deputados será presidido por deputados que receberam doações de campanha vindas de empresas interessadas nos temas discutidos nessas comissões. Por exemplo:
Jilmar Tato (PT-SP) recebeu R$ 173 mil de uma indústria de resina e de construtoras. Vai presidir a Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio. Conveniente coincidência.
Luis Fernando Faria (PP-MG) recebeu R$ 450 mil de mineradoras, siderúrgicas, empreiteiras e petroquímicas. Vai presidir, imaginem vocês, a Comissão de Minas e Energia.
Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO), por sua vez, recebeu R$ 608 mil de montadoras, locadoras de carros, concessionárias de rodovias e postos de gasolina. Vai presidir a Comissão de Viação e Transportes, claro.
E João Matos (PMDB-SC) recebeu R$ 100 mil de um fabricante de brinquedos pedagógicos, uniformes e equipamentos escolares. Naturalmente, vai presidir a Comissão de Educação e Cultura.
A notícia é muito importante, porque desvenda situações que acontecem longe dos holofotes. Comissões permanentes atraem pouca atenção da mídia e, portanto, da própria sociedade. Em geral, as comissões se reúnem pela manhã, porque não podem competir com as sessões da Câmara e do Senado, que ocorrem à tarde.
Na maioria das vezes, são reuniões enfadonhas, e vários de seus membros não comparecem. Por isso, muita coisa é aprovada sem que boa parte do Congresso seja informada. Isto porque a Constituição permite que vários temas sejam votados nas comissões temáticas sem que haja necessidade de o projeto ir a plenário. Vai diretamente para a outra casa.
As exceções são projetos de Códigos, propostas de emenda constitucional, Medidas Provisórias ou projetos que sejam apreciados por mais de uma comissão temática. Esses precisam ser votados no plenário da Câmara ou do Senado.
Entretanto, se 10% dos parlamentares da casa encaminharem um pedido à Mesa Diretora, o projeto, mesmo aprovado na comissão, precisará ser aprovado no plenário. Como se vê, a liberdade de atuação de uma comissão temática não é muito ampla. Mas muita coisa passa sem que o Congresso e, conseqüentemente, a sociedade tomem conhecimento.
Por isso mesmo, as comissões permanentes do Congresso Nacional se transformaram no parque de diversões dos lobistas.

terça-feira, 4 de março de 2008

Artigo de Lúcia Hippolito - em seu Blog

Escalada bélica não interessa ao Brasil
A escalada da tensão na América do Sul pega os países da região em momentos políticos bem distintos.
Na Colômbia, o presidente Uribe só pensa “naquilo”: a reforma da Constituição para poder disputar o terceiro mandato. O cálculo político do presidente colombiano incluiu o risco político de um atrito com o Equador e, conseqüentemente, com a Venezuela. Incluiu até mesmo uma possível reprovação internacional.
Isto porque, internamente, Uribe entende que os ganhos políticos e militares resultantes de um duríssimo golpe nas Farcs seriam muito maiores. O fato é que há 50 anos as Farcs e a Colômbia vivem um impasse: nem o grupo narcoguerrilheiro consegue derrubar o governo colombiano, nem este consegue destruir os narcoguerrilheiros. Uribe entendeu que, desta vez, poderia ser diferente.
Os relatos terríveis dos sofrimentos infligidos pelos seqüestradores das Farcs aos reféns recém-libertados geraram uma onda de repúdio à narcoguerrilha. Onda esta que Uribe tentou manipular e transformar em onda de simpatia pelo governo da Colômbia.
Da Venezuela, muito já se falou. Chávez é espaçoso como o quê. Nos últimos anos, sentado sobre um mar de petróleo a mais de US$ 100 o barril, tem-se dedicado a apadrinhar os governos da Bolívia e do Equador e a infernizar o governo da Colômbia.
Chávez mete-se em tudo, envia malas de dinheiro para interferir na eleição presidencial argentina, critica o Congresso brasileiro. Mas internamente, sua situação está estranha. Depois de ser derrotado no plebiscito com que pretendia conquistar o direito de se candidatar eternamente à presidência, Chávez viu sua popularidade despencar nos últimos tempos, de 60% para 38%.
A Venezuela está com problemas econômicos internos, com inflação altíssima e desabastecimento de alimentos. Portanto, um inimigo externo é extremamente útil a Chávez.
E o Brasil, como fica? O Brasil há muito tempo não navega em condições econômicas e sociais tão positivas. Na economia, os números são ótimos. Economia crescendo, moeda estável, consumo crescendo, indústria produzindo como nunca, juros em baixa, real valorizado, investimentos estrangeiros não páram de entrar.
Socialmente, a calmaria é absoluta. Todos os movimentos sociais foram domesticados. As centrais sindicais praticamente comem na mão do governo Lula, a UNE recebe mesada do Ministério da Educação, o MST recebe repasse de recursos através de ONGs. Portanto, não interessa nem um pouco ao Brasil uma escalada bélica no continente. É ruim para os negócios, como se diz.
O papel do Brasil é, por isso mesmo, crucial, para acalmar os ânimos e devolver um mínimo de lógica ao processo. Afinal, sabemos que é alto o coeficiente demencial dos principais governantes envolvidos nesta confusão. Nessa hora, o presidente Lula emerge como um poço de sensatez.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

O mistério da transferência de votos




Lucia Hippolito




Segundo a última pesquisa CNT/Sensus, pouco mais de 9% dos eleitores votariam cegamente num candidato a prefeito apoiado pelo presidente Lula. Pouco mais de 35% declararam que precisariam, primeiro, analisar o eventual candidato.
Além disso, nas simulações sobre as eleições de 2010 realizadas na mesma pesquisa, todos os possíveis candidatos do PT estão na lanterna, não chegando a atingir dois dígitos: Dilma Roussef, Tarso Genro e Patrus Ananias. Ou seja, o governo Lula continua sem um candidato com um mínimo de viabilidade.
Isto tudo nos remete ao fenômeno da transferência de votos. Por que Lula não tem conseguido transferir parte de sua imensa popularidade a seus candidatos? (Em 2004, o presidente chegou a pedir votos para a então prefeita Marta Suplicy, que tentava a reeleição em São Paulo, tendo feito um governo bem avaliado pela população. No entanto, Marta foi derrotada por José Serra.)
O presidente Lula está com sua aprovação nas alturas, popularidade voando em céu de brigadeiro, mas não consegue alavancar seus candidatos. Acontece que a popularidade de Lula resulta de uma relação especialíssima entre ele e o eleitorado. Trata-se de um tremendo líder de massas, que se comunica pessoalmente com a sociedade.
Lula é, de longe, o melhor comunicador de seu governo. Fala a linguagem da massa, que se identifica com ele. Mas fala também a linguagem dos ricos, dos empresários, dos banqueiros. O presidente só tem dificuldades junto à classe média, que ele próprio não compreende direito.
Ao dividir o mundo entre ricos e pobres, entre elites e povão, Lula desconhece esta vastíssima e diferenciadíssima classe média brasileira.O resultado de tudo isso é um governo bem avaliado pela população, um presidente muitíssimo bem avaliado, popular como poucos.
E um governo sem candidato para herdar isto tudo. Por enquanto. 2010 ainda está longe, mas se o governo não começar agora a construir uma candidatura viável, poderá perder as eleições. Isto se a oposição não se incendiar em sua fogueira de vaidades internas, o que não é nada difícil, e não cometer haraquiri, o que não é nada impossível.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Ética Pública ladeira abaixo



Por Lúcia Hippolito em seu blog



Aquilo que se temia aconteceu: a Comissão de Ética Pública da Presidência da República está sendo inteiramente desautorizada. Há sete meses recomendou ao ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que escolhesse entre ser ministro e ser presidente do PDT, atividades incompatíveis, segundo entendimento da Comissão.

Primeiro, Lupi fez cara de paisagem, depois desprezou as advertências da Comissão e finalmente partiu para o confronto, agredindo o presidente da Comissão, como se fosse uma implicância pessoal contra ele, Lupi.

Não custa lembrar: a Comissão de Ética Pública da Presidência da República elaborou o Código de Conduta da Alta Administração Pública, que as autoridades se comprometem a respeitar quando assumem um cargo. Segundo entendimento da Comissão, Lupi desrespeita o Código ao acumular a presidência do PDT com o exercício do cargo de ministro do Trabalho.

Mas Lupi iniciou uma queda de braço com a Comissão. Declarou que não sai da presidência do PDT e que, do ministério, só o presidente Lula tem poder para demiti-lo. A Comissão, então, solicitou ao presidente da República que demita o ministro, mas o pedido dorme na mesa de Lula desde o final do ano passado.

O problema é que o desprezo às recomendações da Comissão se alastra pelo governo. Outras autoridades também se julgaram no direito de desafiar a Comissão. O Carnaval vem aí. Anualmente, a Comissão de Ética relembra às altas autoridades a proibição de aceitarem convites para camarotes de empresas privadas – cervejarias, por exemplo.

Pois neste ano, o elegante ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, já desafiou a Comissão, declarando que vai, sim, freqüentar todos os camarotes para os quais for convidado, públicos ou privados. E que espera ser convidado para muitos.

Agora, a Comissão decidiu enviar à Controladoria Geral da União o processo contra a ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, que gastou apenas em 2007 mais de 180 mil reais na farra dos cartões corporativos, outro escândalo da República, para o qual parece que ninguém dá bola. Com isso, a Comissão de Ética demonstra um certo recuo, uma tendência a não entrar em conflito com mais um ministro.

E assim, de desautorização em desautorização, de desafio em desafio, a Comissão de Ética Pública vai sendo desmoralizada. E caem por terra os esforços para moralizar o comportamento das altas autoridades públicas brasileiras.

Uma pena.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O PMDB não é para amadores.





Escrito por Lúcia Hippolito em seu blog

(Clique na charge para ampliar)




A cerimônia de posse do ministro Lobão ontem no Planalto é o retrato acabado da geléia geral em que se transformou a política brasileira. O presidente Lula recebeu Lobão, segundo ele, de braços abertos, declarando que a escolha de Lobão é fruto da sabedoria política.
Paulo Maluf era dos mais animados. Circulou entre vários grupos, abraçou efusivamente e beijou a ministra Dilma Roussef, que estava toda sorridente. Não reclamou não. Quem diria que, um dia, Maluf estaria dentro de um palácio petista, confraternizando com uma ministra petista. Sinal dos tempos.
A mulher do novo ministro não compareceu. Nice Lobão é deputada federal pelo DEM do Maranhão. Agora está na posição incômoda de pertencer a um partido que faz oposição ferrenha ao governo de que o marido é ministro.
Um dos filhos do novo ministro também não compareceu. Edison Lobão Filho está enroladíssimo com a justiça, tendo que explicar uso de laranjas em vários negócios, além de sonegação de impostos.
A família Sarney, patrocinadora da nomeação, também não compareceu. O chefe do clã, senador José Sarney, não quer aparecer muito como padrinho de Lobão. Vai que o novo ministro fracassa. Lula espetará a fatura na conta de Sarney.
A senadora Roseana e o deputado Zequinha Sarney também não compareceram. O problema maior é que o outro irmão, Fernando Sarney, encarregado dos negócios da família, está com problemas na Polícia Federal. Suas ligações telefônicas foram monitoradas durante um ano, e Fernando está tendo que responder por uso de caixa 2 na campanha derrotada de Roseana ao governo do Maranhão. Além disso, tem que explicar telefonemas trocados com Zuleido Veras, principal personagem da Operação Navalha, desencadeada pela Polícia Federal, que investiga fraudes em licitações públicas.
Mas nada disso tem muita importância, porque o PMDB, este sim, desembarcou em peso na posse de Lobão. O líder no Senado, Waldir Raupp, atropelou o novo ministro e já chegou com a listinha de compras do partido nas mãos.
Lobão, que chegou ontem ao PMDB, ficou até assustado com a desenvoltura do partido, mesmo tendo vindo do PFL.
No PMDB, o senador José Sarney quer nomear a presidência da Eletrobrás e a diretoria financeira da estatal. O deputado Jader Barbalho quer nomear a presidência da Eletronorte. Para o ex-governador Paulo Afonso, de Santa Catarina, o PMDB quer uma diretoria da Eletrosul (a presidência da estatal elétrica o partido entregou à senadora Ideli Salvatti).
Em Furnas, cuja presidência já foi entregue ao PMDB em troca da aprovação da prorrogação da CPMF na Câmara, o partido quer agora também as diretorias. A pobre da ministra Dilma está atarantada, tentando de todas as maneiras não ser inteiramente derrotada pela sanha fisiológica do PMDB. Tenta garantir a permanência de alguns de seu grupo, como o presidente da Empresa de Pesquisa Energética, o diretor de Engenharia da Eletronorte. Coisas assim.
Mas Dilma e o ministro Lobão estão agora lidando com o PMDB. E como eu digo sempre, o PMDB não é para amadores. É para profissionais.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Presidência a vapor.

Escrito pela cientista política Lúcia Hippolito. Transcrito de seu blog.

Durante a República Velha (1889-1930), presidentes da República viajavam de navio. Eram viagens demoradíssimas, as comunicações eram muito precárias, e o presidente ficava vários dias sem contato com o Brasil. Por isso, o presidente brasileiro passava o cargo ao vice-presidente. Na ausência deste, ao presidente da Câmara, ou ao presidente do Senado, ou ainda, ao presidente do Supremo Tribunal Federal. Esta é a linha sucessória da República brasileira.
Atualmente, quando basta possuir um telefone celular para se manter em contato com o mundo inteiro, através da Internet, essa transmissão de cargo não faz mais o menor sentido.Trata-se de um anacronismo.
Poucas coisas são tão jecas e inúteis quanto a figura patética de um vice-presidente perfilado ao pé da escada de um avião, para se despedir de um presidente que, às vezes, passa apenas 24 horas fora do país. E ainda pior: o vice, brincando de presidente, assina uns projetos nada urgentes, visita o torrão natal – inesquecível, durante o governo Sarney, a excursão de Paes de Andrade a Mombaça. E é só.
Nos Estados Unidos, matriz do presidencialismo, o presidente jamais passa o cargo quando viaja. Continua governando mesmo a bordo do avião presidencial. Nada acontece, a não ser o aumento da vigilância do Serviço Secreto sobre o vice, que fica quieto no seu canto. O vice-presidente americano só assume em caso de morte ou renúncia do titular.
Já no Brasil, deve constar de algum livro de recordes a figura folclórica de Ranieri Mazzili (PSD-SP), presidente da Câmara (1958-64), que assumiu 16 vezes a presidência da República.
Já que o Aerolula é moderníssimo, equipado com os mais avançados instrumentos de navegação e comunicação, por que o presidente Lula não pode continuar governando a bordo? Nesta semana, chegamos ao cúmulo da perversidade. O presidente Lula vai passar dois dias no exterior, e o vice-presidente José Alencar é obrigado a assumir o cargo.
Perverso, porque José Alencar está internado num hospital, lutando bravamente contra um câncer complicado. Como não pode, ele também, sair do território nacional, terá que assumir a presidência da República e despachar dentro do quarto do hospital. Está mais do que na hora de o Brasil abandonar a era da presidência a vapor e ingressar de vez no século XXI.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Lula negocia tudo e qualquer coisa

Texto da cientista política Lúcia Hippolito. Transcrito de seu blog
O presidente Lula não assimilou ainda a derrota histórica que colheu no Senado quando da derrubada da CPMF. E decidiu recuperar a maioria na casa, custe o que custar. E pode custar caro. Ao país.
Para recompor sua maioria no Senado, Lula decidiu atirar-se de vez no colo do senador José Sarney. Sarney é seu passaporte para a maioria. Para isso, o presidente da República decidiu manter as nomeações na área de Minas e Energia sob o controle do senador maranhense.
Em maio de 2007, Silas Rondeau, apadrinhado de Sarney, deixou o Ministério das Minas e Energia, abatido por denúncias de envolvimento em esquema de fraude em licitações para realização de obras públicas. De lá para cá, o ministério e as principais estatais do setor ficaram nas mãos de interinos, tudo firmemente controlado pela ministra Dilma Roussef, primeira ministra de Minas e Energia do governo Lula e que jamais desencarnou do cargo.
Mas de uns tempos para cá, o fantasma do apagão passou a rondar o Palácio do Planalto. E o governo Lula quer tudo, menos passar pelo mesmo apagão de 2001, que marcou melancolicamente o final dos oito anos de Fernando Henrique. Para isso, vale tudo.
Ceder à chantagem do governo da Bolívia, obrigar a Petrobrás a fornecer gás natural às usinas termelétricas, desabastecendo São Paulo e Rio de Janeiro, bater de frente com ambientalistas para licenciar novas hidrelétricas, ameaça de reativação de usinas nucleares. Vale tudo.
Ontem, finalmente, o governo federal acordou e tomou uma medida muito acertada: uma prestação de contas à sociedade, através de uma entrevista coletiva. Meio desorganizada, com as autoridades se atropelando nas respostas. Mas, enfim, foi uma atitude correta. Para mostrar ao país que existe, sim, um Plano B.
O problema todo é que, no mesmo instante em que as autoridades do setor elétrico davam explicações, o presidente Lula atropelava todo mundo e deixava divulgar a notícia de que o senador José Sarney tinha conseguido nomear o senador Edison Lobão como o novo ministro das Minas Energia. Ou seja, Lula esvaziou inteiramente a autoridade das palavras daquelas pessoas que se esforçavam para mostrar um programa minimamente coerente de enfrentamento de uma eventual crise energética.
Quanto ao novo ministro, sua vastíssima experiência neste setor delicado e estratégico para o crescimento econômico do país vai ao ponto de acender a luz e ligar a TV. Quanto ao microondas, ainda há controvérsias.
Pelo sim pelo não, o futuro ministro Lobão já se armou de um habeas corpus preventivo. Declarou que não será o ministro do apagão. Se, porventura houver uma crise, disse sua Excelência, a responsabilidade será das gestões anteriores. Jogou a bomba no colo da ministra Dilma Roussef. Um cavalheiro, o ministro Lobão.
Será mesmo que este é o melhor momento para o presidente Lula incluir um setor tão delicado, tão estratégico, na cesta básica do fisiologismo e entregá-lo à sanha do PMDB? Aliás, nem é bem ao PMDB, porque Edison Lobão sempre foi do PFL. Só se transferiu para o PMDB recentemente, tanto que o DEM chegou a entrar no STF pedindo seu mandato de volta.
Fica parecendo que, na ânsia de recuperar a maioria no Senado, o presidente Lula não se incomoda em atropelar a ministra Dilma, em entregar à negociação fisiológica um setor tão importante e que passa por um momento delicado.Tudo para conseguir uns votinhos no Senado.
Isto é que é confiança em São Pedro!

No reino da desconfiança.

Texto da cientista política Lúcia Hippolito - transcrito de seu blog

O ministro de Minas e Energia afirma que não há risco de apagão de energia elétrica. Mas o diretor-geral da Aneel afirma que é melhor o país preparar um Plano B, porque o nível dos reservatórios brasileiros é o mais baixo dos últimos 76 anos. E a sociedade civil? Está convencida de que o racionamento vem aí.
O ministro da Saúde afirma que não há risco de uma epidemia de febre amarela urbana. Diz que os casos são de febre amarela silvestre. A ministra do Turismo afirma que todas as pessoas devem se vacinar. A família de uma das vítimas afirma que ela se contaminou em Brasília, antes de viajar para o interior de Goiás. E a sociedade civil? Faz fila nos postos de saúde para se vacinar.
Resultado: está faltando vacina em Brasília, no Rio de Janeiro, e em outras localidades. As duas principais notícias de hoje demonstram, mais uma vez, o pesado manto da desconfiança que cobre as relações entre o Estado brasileiro e os cidadãos.
Não se trata de situação nova, o governo Lula não inaugurou nada – apenas aprofundou a desconfiança entre Estado e sociedade civil. Para o Estado brasileiro, o cidadão é sempre culpado, sempre um sonegador em potencial. Precisa ser permanentemente tutelado, vigiado, esmagado por regras, proibições, documentos em três vias com firma reconhecida em cartório, comprovante de residência.
A palavra do cidadão não basta, nunca bastou, porque o Estado desconfia dele. Para o cidadão, por sua vez, o Estado não merece confiança, porque não cumpre o que promete. O cidadão desconfia do Estado, e com muita razão.
Disseram que o Plano Cruzado era a redenção do país. O povo acreditou, despejou votos no PMDB – e o governo Sarney só esperou os resultados da eleição de 1986 para lançar o Cruzado II, com aumento de preços e aumento da inflação.
Disseram que a poupança dos brasileiros não seria confiscada – e foi a primeira medida adotada por Collor, Zélia & Cia, assim que assumiram a presidência da República.
Disseram que a CPMF seria provisória – e o governo Fernando Henrique a transformou em permanente, atitude imitada pelo governo Lula, até que o Senado acabou com a farra em dezembro de 2007.
Disseram que foram eleitos para mudar a política econômica e as práticas políticas – e o governo Lula foi ainda mais conservador que o governo FH na economia e infinitamente mais elástico nas questões éticas. Na política, atirou-se no colo dos coronéis.
Disseram que não haveria pacote e que ninguém faria a loucura de aumentar impostos para compensar a perda de arrecadação com a derrubada da CPMF – e no primeiro dia útil do ano, o governo baixou um pacote de aumento de impostos.
Agora, o governo Lula está colhendo uma safra amarga: afirma que não haverá apagão e que não haverá epidemia de febre amarela. (Mas, pelo sim pelo não, manda vacinar os funcionários do Ministério da Saúde e do Palácio do Planalto.)
Resultado: a população corre para os postos de saúde. E já está faltando vacina.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

2008 começa antes do Carnaval


Transcrito do Blog de lucia hippolito

Pelo visto, janeiro promete.

O ano político começa mais cedo, encurtando as férias de suas Excelências. O presidente Lula já desistiu de tirar uns dias de descanso, porque o governo precisa consertar o desastre provocado pela edição do pacote de aumento de impostos – e sobretudo, pela catástrofe que foi o anúncio das medidas.

É preciso ainda pacificar a base aliada, em franca rebelião diante da ameaça do governo de cortar as emendas parlamentares. Justo em ano de eleição municipal. Só na base aliada, cerca de 150 deputados e senadores são candidatos a prefeito. Para estes, as emendas são vitais. Mas a ameaça do governo é só isso mesmo: ameaça.

O governo pode contingenciar os recursos das emendas parlamentares depois de sua aprovação, para usá-las como moeda na negociação com senadores e deputados -- como, aliás, vêm fazendo todos os governos, desde Pedro Álvares Cabral. Mas o governo não tem poder de cortar emendas na fase de discussão do Orçamento – esta prerrogativa pertence ao relator da Comissão Mista de Orçamento, deputado José Pimentel (PT-CE).

Portanto, a ameaça do governo é inteiramente gratuita. E, já ensinava o dr. Tancredo, em política todo ato gratuito é um erro.

O governo federal tem duas preocupações urgentes. Primeira, garantir a aprovação da MP que aumenta a alíquota da CSLL. Para isso, precisa pacificar a base e parar de afrontar a oposição. Não podemos esquecer que a MP precisa ser aprovada dentro do prazo, na Câmara e no Senado.

A segunda preocupação é com a aprovação do Orçamento, que a oposição ameaça obstruir. Para isso, é preciso recompor minimamente as pontes de entendimento com a oposição. Esta, por sua vez, também precisa afinar o discurso e as estratégias para reagir ao governo.

Por isso, repito: janeiro promete.

domingo, 7 de outubro de 2007

No Brasil não existe "Accountability".

Este artigo, publicado inicialmente em 04 de outubro de 2006 e republicado em 18 de julho de 2007, é de autoria da cientista política Lucia Hippolito.
Nas democracias, o governante presta contas de seus atos à sociedade.
O presidente dos Estados Unidos dá entrevistas quinzenais na Casa Branca, tendo que enfrentar perguntas às vezes constrangedoras, muitas vezes duras, mas quase sempre leais.
Na França, o presidente cumpre o mesmo ritual. Nos países parlamentaristas, além das entrevistas periódicas, o primeiro-ministro vai semanalmente ao Parlamento, onde é “premiado” com uma saraivada de críticas da oposição, ouve discursos fortes, recebe perguntas sobre seus atos e pedidos de explicação sobre atos de governo. Tudo dentro da mais perfeita normalidade democrática.
Nos Estados Unidos, secretários e titulares de agências do governo comparecem rotineiramente às comissões da Casa dos Representantes e do Senado para responder a perguntas e prestar contas das ações dos órgãos sob sua responsabilidade.
Nos países parlamentaristas, então, nem se fala. Como os ministros saem, praticamente todos, do Parlamento, têm que prestar contas à sociedade, através de seus pares. O que sustenta este procedimento é a accountability, palavra ainda intraduzível em todo o seu conteúdo.
Accountability contém a idéia de que a autoridade é um servidor público. Eleito ou não, tem que prestar contas de seus atos à sociedade. Ou através de periódicas entrevistas coletivas, ou através de periódicas visitas ao Parlamento. Ou ambas.
(Nos Estados Unidos existe a figura do General Accounting Officer, espécie de presidente de tribunal de contas, a quem todos os secretários do governo prestam contas.)
Autoridades são remuneradas pelo povo. Muitas dormem em palácios pagos com o dinheiro do povo, locomovem-se em automóveis e aviões pagos pelo povo, movidos a combustível pago pelo povo. Alimentam-se às custas do povo. Devem, pois, satisfação de seus atos.
No Brasil, disseminou-se – e não é de hoje – a noção de que autoridades não precisam prestar contas à sociedade. Sentem-se como se tivessem recebido do eleitorado um cheque em branco. Tudo podem, nada devem. Ministros “fazem o favor” de comparecer às comissões da Câmara e do Senado para prestar contas sobre sua pasta.
O comparecimento de agentes do governo ao Congresso transforma-se numa batalha campal entre oposição e situação. Oposição querendo extrair o fígado da autoridade, situação prestando-se aos mais ridículos papéis para evitar a saia justa para a Excelência. Papelão!
Governos brasileiros confundem prestação de contas com publicidade. Gastam fortunas em publicidade paga, como se isto bastasse para justificar seus empregos. Sinto muito, mas não basta. Accountability não é contabilidade das empresas de publicidade.
Accountability é um dos pilares da democracia. De agentes públicos, o mínimo que se espera é respeito ao dinheiro do contribuinte, que paga seu salário e suas mordomias.
Accountability
é menos palanque e mais debate, menos pronunciamentos e mais entrevistas, menos portarias ministeriais e mais comparecimento ao Congresso.
Afinal, se uma autoridade não resiste a uma crítica ou a uma palavra mais dura, talvez esteja no cargo errado.Como se diz no interior de Minas, se não agüenta o calor, que saia da cozinha.