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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Retrato do brasileiro

Por Jânio de Freitas, na Folha de SP

O desconhecimento do eleitorado em relação a seu candidato à Presidência é chocante e perturbador
O NÍVEL de desconhecimento do eleitorado em relação ao seu escolhido para a Presidência, constatado pelo Datafolha, é chocante, por si mesmo, e perturbador, por nem ao menos indicar se provém de desinformação sobre o candidato ou de um grau extremado de ignorância política, em alta proporção dos eleitores.

Não há sentido algum em que 31% do eleitorado de Dilma Rousseff, mais de um terço, a situem entre o centro-direita e a extrema-direita. Pretendem-se eleitores de uma candidata sobre a qual não dispõem nem da mais mínima informação política. Dilma chega a ser identificada por 12% desses eleitores como de extrema-direita. É a inconsciência total.




A dedução imediata leva a atribuir o conflito entre a candidata e sua personificação, para parte tão grande do seu próprio eleitorado, à adoção incondicional da indicada por Lula. Seria a comprovação da polêmica transferência de votos.



Não se sabe, porém, que José Serra esteja beneficiado por transferência incondicional de votos de quem quer que seja. Mas seus pretendidos eleitores incidem no mesmo desvario: Serra é considerado por 44% deles como situado entre o centro-direita e a extrema-direita.



Até se compreenderia que, sendo considerado por 50% dos eleitores em geral como o mais voltado a defender os empresários e por 45% a defender os ricos, 11% dos seus próprios eleitores o situem na centro-direita. Mas que 19% o tenham como de extrema-direita, é a indicação do despropósito por inteiro.




Despropósito que se completa com os 19% dos eleitores de Marina Silva que a imaginam entre o centro-direita e a extrema-direita. E, nesta, os 6%.



O nonsense é tanto que 13% dos hoje eleitores de Dilma Rousseff se declaram de extrema-direita, assim como 14% dos “simpatizantes” do PT.



Angeli


Tudo poderia ser porque essas parcelas do eleitorado ignorem as categorias ideológicas e políticas, a ponto de não distinguir entre direita e esquerda. Há mais. A desconexão entre a pessoa e o seu papel de eleitor vai a ponto até de produzir injustiças graves, ainda que involuntárias.



Que Dilma Rousseff fique abaixo de José Serra quando se trata de considerar “quem foi mais atuante no combate à ditadura”, pode-se atribuir à ampla carência de informações gerais da maioria.

Já, na condição de eleitores, tão poucos (14%) destacarem Marina Silva ao dizer “quem é o mais democrático” dos três, contra 25% de indicação para Dilma Rousseff e 33% para José Serra, aí as definições não ficam só na desinformação.



Ique, em 2007.


Um índice coerente para encerrar esse autoperfil de uma parte do eleitorado: 26% não têm o que dizer quando se trata de definir sua própria posição política.



Com um eleitor com esse nível de ignorância política, o que se esperar das eleições?

segunda-feira, 9 de março de 2009

O PT e Collor - Ideli e Renan

charge de clayton, para acharge


Por Jânio de Freitas para a Folha de S. Paulo.

clipping

As faces da degradação
A eleição de Fernando Collor para presidir a Comissão de Infraestrutura do Senado e o artifício de Renan Calheiros que fez esta vitória formam um fato muito positivo, em duas direções.

Para a maioria que precisa de grandes aberrações para dar-se conta da realidade - arrastões em praia, invasões urbanas do PCC e outros, para admitir o nível de criminalidade -, a vitória de Collor/Renan vem demonstrar que a degradação de Senado e Câmara não é exagero dos críticos: nela germina uma ameaça nebulosa de acontecimentos, não necessariamente de origem militar, impróprios para o regime democrático. Seja como for, que a crescente degradação não levará a bom resultado, não levará mesmo.

De outra parte, a vitória de Collor, no voto, contra a petista Ideli Salvatti, comprova e castiga o fisiologismo barato a que o PT se entregou, no servilismo sem limite ao governo e à "base governista".

Quando se iniciaram as revelações sobre alguns métodos de Renan Calheiros, como o pagamento da pensão de sua filha pelo lobista de uma empreiteira, o PT alinhou-se logo ao PMDB na defesa do então presidente do Senado e em acusações ao trabalho jornalístico.

À frente dessa infantaria petista, a senadora Ideli Salvatti, autora, já no início da Comissão de Ética, da exaltada proposta de sustar ali mesmo qualquer propósito investigatório.

Renan Calheiros retribuiu a solidariedade de Ideli Salvatti, e do PT, a seus feitos, articulando agora as espertezas que a derrotaram. Ideli Salvatti, o PT e Renan Calheiros continuam aliados.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Um cameramen em ação.




Por Jânio de Freitas, para a Folha de S. Paulo
A cena completa
Satiagraha, dada como de autoria da Polícia Federal em um restaurante paulistano, ao ser reexaminada na nova investigação do caso, proporcionou uma revelação surpreendente e cômica. Algo como as velhas anedotas de polícia secreta em certo país na beira da Europa.
A tentativa, como descrita no inquérito e no processo da operação, envolve quatro pessoas: os delegados Protógenes Queiroz e, como aparente negociador pela PF, Victor Hugo Ferreira; pelo lado de Daniel Dantas, apontado como ofertante de US$ 1 milhão, Humberto Braz, ex-diretor da Brasil Telecom, e Hugo Chicaroni, ambos presos em razão do episódio.
A revisão do vídeo, porém, mostrou o inesperado e da maneira mais inesperada: em vez de câmera instalada pela PF, houve um cameraman em ação, nem sequer mencionado nos relatórios e autos.
O início verdadeiro do vídeo não é o citado no inquérito, que vem a ser o mesmo exibido, inúmeras vezes, na TV. Como qualquer espectador, os que precisaram examinar o original, em busca de pormenores talvez informativos, esperavam que fosse. O que encontraram foi uma cena também original, mas em outro sentido.
Antes do que viria a ser o flagrante do encontro de intermediários e policiais, o cameraman quis testar seu equipamento. E o fez no toalete do restaurante. Em frente ao espelho. Ótimo, equipamento OK - portanto, com a gravação do próprio cameraman refletido no espelho.
A confissão atestada de um participante deliberadamente omitido. E até agora identificado como da equipe da TV Globo ou prestador de serviço à TV Globo. Faz parte das investigações sobre a Satiagraha a descoberta (seu valor é apenas interno na PF) de quem e como vazou, para a reportagem da TV Globo, a ida de policiais à casa de Celso Pitta para prendê-lo.
Pelo que ficou então, tratou-se do aproveitamento jornalístico de uma informação policial, o que, em condições normais, não implica desvio ético no jornalismo. É claro que constituiu privilégio à Globo, mas quem o concedeu não foi a própria Globo, foi a Polícia Federal.
Incorporar-se a uma ação de polícia, no entanto, seja como repórter, fotógrafo ou o que for, é diferente: é agir como polícia, não pior nem melhor do que o jornalista como função, mas em incompatibilidade com o jornalismo.