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quarta-feira, 15 de março de 2017

Os idos de março: prudência ou covardia?

Por Leandro Kamal.


Os idos de março: prudência é covardia?
Júlio César chegou ao cume por ser destemido. Foi assassinado pelo mesmo motivo.
Um adivinho havia dito: cuidado com os idos de março! Os meses começavam com a lua nova, as calendas, de onde deriva nossa palavra calendário. No meio do mês assinalavam-se os idos. O general ignorou a advertência e também fez ouvidos de mercador ao sonho ruim da esposa. Os sonhos eram um depósito de verdades cifradas, como aconteceu, depois, com a mulher de Pilatos. Calpúrnia estava correta e seu marido deveria ter ouvido. Um senador presente à casa dela ironizou a crença mágica. Júlio César compareceu ao Senado e lá foi assassinado, a 15 de março do ano 44 a.C. O mais famoso atentado político da história mudou o destino de Roma. 



A morte de César levaria a uma nova guerra civil e dela emergiria, lentamente, seu sobrinho-neto: Otávio, futuro Augusto. O tio-avô foi assassinado pouco antes de completar 56 anos. Otávio tinha apenas 19 anos quando as punhaladas ocorreram. No futuro, os meses nos quais nasceram Júlio César e Augusto teriam os nomes mudados para julho e agosto. De onde saíram esses dias? Do sacrificado fevereiro, cada vez mais nanico e exótico diante dos outros 11 companheiros. Tem de tirar? Tira de fevereiro! Tem de enxertar? Coloca o bissexto em fevereiro. Literalmente, nasci num mês alvo de bullying de calendário.

Voltemos ao leito da História. César teve indicativos claros de que havia um complô. Foi informado várias vezes antes do sonho de sua terceira esposa. Marco Antônio ficara temeroso. É provável que o sucesso seja o pior conselheiro de todos. A carreira do militar tinha sido marcada pela coragem. Ele avançou e chegou ao ponto em que estava porque havia sido ousado e enfrentara o medo e os detratores. Assim fora na longa campanha da conquista da Gália. Fosse prudente e Vercingétorix estaria vivo e com poder. Imortalizou a frase “a sorte está lançada” ao cruzar o rio proibido e avançar com tropa sobre Roma, ignorando um tabu jurídico. Tinha conquistado uma aliança com a improvável Cleópatra e gerado um filho no ventre da rainha greco-egípcia. Tinha enfrentado Pompeu e Crasso, membros astutos e mais ricos do seu Triunvirato. Sobrevivera porque era intimorato e não fazia o que os outros esperavam. Era um líder mirando além do horizonte. 



A atitude de César contém a semente da ousadia de toda liderança forte. Fora assim Alexandre, o Grande. Seria assim com Napoleão. Não haveria a derrota dos persas pelas tropas do macedônio ou o fracasso das forças austro-russas diante do corso se houvesse medo, prudência ou fidelidade à matemática dos exércitos. O líder pula essa parte, ousa, enfrenta o risco e segue. Considerações racionais formam o bom escriturário. Ousadia cria Césares, Alexandres e Napoleões. 

Ora, a coragem que seria louvada tanto tempo depois costuma levar a uma sequela permanente: a cegueira, filha legítima e direta da confiança. César mirou num controle do mundo a partir do seu trono de ouro no Senado. Olhou tão alto que desconsiderou as heras venenosas que lançavam gavinhas minúsculas sob seus pés. Descortinava a glória eterna e desconsiderava a inveja doméstica. Alexandre imaginou que todo o seu exército teria o entusiasmo que ele tinha para conquistar além. Ele estava comprometido com a eternidade, seus soldados com o soldo, a comida e as famílias saudosas. Napoleão saiu de Elba supondo que o mundo seria seu como sempre fora. Há o risco de Waterloo para toda vitória. O drama é que o líder vai criando confiança em vitórias precedentes e supõe que o medo seja coisa de derrotados. Foi o argumento de Hitler contra os generais: vocês diziam que não era hora de atacar a França e eu ataquei e fui vitorioso. Agora dizem que não se deve atacar a URSS e eu irei atacar! Bem, os generais erraram na França e acertaram na URSS. A decisão foi um desastre absoluto e o início da derrocada do Terceiro Reich.



Parece que a vida deveria ter duas personagens distintas. No campo empresarial, uma seria aquela que constrói o patrimônio, outra, aquela que, após o sucesso, usufrua dele. Geralmente, o mesmo espírito de acúmulo e prudência que marca a construção das fortunas impede que o fundador faça pleno uso dela. Gastar será tarefa dos filhos, noras e genros. O mesmo ocorre com generais vitoriosos. Conquistam confiança e acertam muitas vezes. Vão perdendo o medo, um conselheiro fundamental, e ousando cada vez mais até que recebem punhaladas do destino ou dos assessores. O problema de estar num posto elevado é que as pessoas só dizem o que se deseja ouvir.

Júlio César, o ousado, chegou ao cume porque era destemido. Foi assassinado pelo mesmo motivo. Ouvir ou ignorar a fraqueza? Como saber em que momento a prudência se torna covardia? Qual a linha que separa o justo temor da fraqueza? Se você tem essa dúvida, parabéns. Os que não tiveram erraram bastante. Entre a prudente estratégia de Dédalo de voar baixo e o enfoque inovador-kamikaze de Ícaro, temos de construir vidas bem mais pacatas. Quem aqui teria sangue de heróis? Boa semana a todos.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A memória é sua eternidade

Por Fabíola Simões.

Esse texto circula na web há anos, mas não perde sua essência.

O que a memória ama, fica eterno
Quando eu era pequeno, não entendia o choro solto de minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro.

O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis.
Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender.

O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo.
Nós temos pressa, mas é preciso aprender que a memória obedece ao próprio compasso e traz de volta o que realmente importou, eternizando momentos.

Crianças têm o tempo a seu favor e a memória muito recente. Para elas, um filme é só uma animação; uma música, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

Diante do tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente se despede.
Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis.
Nossos filhos são nossas crianças, os amigos estão perto, nossos pais ainda são nossos heróis.

A frase do título é de Adélia Prado: “O que a memória ama, fica eterno”.
Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente.

Quando nos damos conta, nossos baús secretos_ porque a memória é dada a segredos _ estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você _ foi a trilha sonora de um amor, embalou os sonhos de uma época ou selou uma amizade verdadeira _ e mesmo que os anos tenham se passado, alguma parte de você se perde no tempo e lembra alguém, um momento ou uma história.

Ao reencontrar Amigos da juventude, do Colégio ,nos esquecemos que somos adultos e voltamos a nos comportar como meninos cheios de inocência, amor e coragem.

Do mesmo modo, perto de nossos pais, seremos sempre “As Crianças”, não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos.
Para eles, a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das histórias contadas ao cair da noite… serão sempre recentes, pois têm vocação de eternidade.

Por isso é tão difícil despedir-se de um Amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas.

Dizem que o tempo cura tudo, mas talvez ele só tire a dor do centro das atenções. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na ferida.
Mas aquilo que amamos tem disposição para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando.

Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que nos tocou pode ser facilmente reativado por novos gatilhos _ uma canção cala nossos sentidos; um cheiro nos paralisa lembrando alguém; um sabor nos remete à infância.

Assim também permanecemos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex amores, amigos, irmãos.
E mesmo que o tempo nos leve daqui, seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram."

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Advogado, adivogado ou adevogado?

Por Camila Vaz
Crônica

Você sabe realmente por que a pronúncia ADEVOGADO é ridicularizada?
Muito se critica a pronúncia da palavra ‘advogado’ com o som da letra E logo após o D na primeira sílaba (aDEvogado). As piadas são inúmeras, geralmente associando essa pronúncia a pessoas sem instrução ou até mesmo ‘burras’. Num rótulo mais generalizado, quem fala assim “não sabe português”, “assassina o português”, “assassina a língua”...

Isso é muito curioso por algumas razões. A primeira, essa pronúncia não está necessariamente associada a pessoas sem instrução. Acho que entre paulistanos essa pronúncia é bastante comum entre todas as classes sociais, embora não tenha base científica para afirmar categoricamente. Em segundo lugar, essa inserção do som da letra E é uma variação da inserção mais comum – e usada generalizadamente em qualquer classe social – do som da letra I.

Em resumo, a maioria das pessoas pronuncia a palavra com um som de I após o D na primeira sílaba: ADIVOGADO! A outra parte da população insere o som da letra E: ADEVOGADO!



Então, por que há tanto preconceito com a pronúncia ADEVOGADO se, de uma forma ou de outra, há sempre a inserção de um som de uma vogal?

Bem, os puristas vão dizer que a pronúncia correta é ADVOGADO (com D ‘mudo’). É até possível que num passado (bem) distante, as classes mais privilegiadas[1]até pronunciassem dessa forma, o que justificaria a grafia da palavra. Hoje em dia isso não mais acontece. Eu duvido, mas duvido mesmo, que alguém, numa fala normal, corrente, seja em ambiente formal ou informal, pronuncie essa palavra caprichando para que o som do D apareça sem a vogal I. Observem vocês, leitores, e façam as análises de vocês. Pessoalmente eu não conheço ninguém.

Os falantes brasileiros têm uma grande dificuldade de pronunciar sons consonantais sem vogais, porque eles não são comuns na nossa língua. Quando estudamos línguas estrangeiras que têm sons consonantais puros, um dos sotaques que mais identificam os brasileiros é justamente essa inserção de sons vocálicos. Por exemplo, quando um brasileiro pronuncia as palavras italianas STRADA ou STELLA, invariavelmente vai colocar um som de I antes: ISTRADA e ISTELLA. Nossa língua pede esse som. O mesmo acontece com o inglês STAR. Isso fica muito patente quando essas palavra seguem uma outra que tenha um som vocálico: LA (I) STRADA, LA (I) STELLA, THE (I) STAR. A bem da verdade, esses exemplos não são exatamente iguais aos do caso de ADVOGADO/ADEVOGADO, mas servem para ilustrar uma tendência.

Entretanto, situações bem similares à de AD (I) VOGADO se encontram em AB (I) SOLUTO, AD (I) MISSÃO, AD (I) VERTIR, OB (I) SOLETO... Também, em DIG (UI) NIDADE, IMPREG (UI) NAR, CONSIG (UI) NAR, casos em que, para representar graficamente o som realmente produzido devemos inserir duas letras. Aliás, 'impregnar' e 'consignar', costumam causar problemas de conjugação pela obviedade da inserção do som vocálico após o G; quem nunca ouviu alguém dizer "esse cheiro IMPREGUINA o ambiente" ou "a agência compra vende e CONSIGUINA..."?

Vejamos agora um caso muito semelhante ao do ADVOGADO, mas simplesmente aceito pelas pessoas, sem qualquer traço de preconceito: a palavra FUTEBOL.

Brasileiros em geral pronunciam essa palavra com o som do I em vez do E: FUTIBOL. Outros pronunciam-na FUTEBOL, especialmente em São Paulo. Tanto uma pronúncia como a outra são aceitas, sem discriminação, sem menosprezo, sem considerar a ‘outra’ forma como ‘errada’.

Parêntesis: estou considerando o som DI e TI como falado pela maioria dos brasileiros (e não pela totalidade), que é alguma coisa como ‘DGI’ e ‘TCHI’, diferentemente do padrão que deveria ser seguido se a língua não mudasse nunca.

Por que isso acontece? Acontece porque nós temos uma mania de tentar basear a língua falada pela sua forma escrita, o que é um equívoco. Afinal, quem repete todos os sons expressos na grafia das palavras? Se a palavra é ADVOGADO, por que falamos ADVOGADU (com um som de U quase apagado)? Por que falamos ISPERIÊNCIA e não EXPERIÊNCIA? (nesse caso, vejam que a grafia do X representa um som de S). No fundo, o que fazemos é buscar meios para discriminar quem fala diferente das pessoas que nos servem de modelo, que geralmente são as pessoas que compõem as classes sociais mais altas. Algumas pronúncias acabam por desaparecer, quando a pressão é muito forte. Outras permanecem e vão entranhando na sociedade, atingem as classes mais altas e passam a ser aceitas. Alguns exemplos práticos: o som do L em final de sílaba era lateral e hoje em dia é um som totalmente vocálico (U). Pessoas mais idosas ainda têm marcas dessa pronúncia, mas é bem rara. Outro exemplo, dessa vez de um caso de pronúncia que até pouco tempo era ridicularizada: o R vibrante em final de sílaba, aquela de PORRRTA, característico da variedade caipira. Hoje em dia, com a ascensão econômica dos falantes dessa variedade, sobretudo do interior de São Paulo, sul de Minas Gerais, Goiás, essa variedade não é mais discriminada, no máximo é comentada. Pessoas que têm essa pronúncia não mais se monitoram e a evitam, não há mais essa preocupação. Na TV temos diversos exemplos dessa pronúncia em programas variados, coisa que poucos anos atrás só era vista em programas de humor, como caricaturas de gente do interior.

Em resumo, a língua tem tudo a ver com poder econômico. Não podemos nos basear em grafia de palavras para determinar como deve ser sua pronúncia. É exatamente o contrário: a grafia das palavras é que é determinada de acordo com a fala. Claro, a língua muda constantemente e não é possível alterar a grafia a todo instante, mas isso não significa que a grafia é o ‘certo’ e a pronúncia divergente é ‘errada’. Ortografia é mera memorização!

Por fim, lembrem-se: a escrita é a representação da fala e não o contrário.

[1] Cito ‘as classes mais prestigiadas’ para explicar que toda a gramática, incluindo a ortografia, sempre foi criada com base na variedade dos falantes que detêm o poder. No nosso caso, nobreza e clero.



quinta-feira, 12 de maio de 2016

Joões e Joãos

Por Pasquali Cipro Neto.
Crônica



Joões e Joãos
Coincidência ou não, em alguns dos últimos textos analisei questões cujo mote foi a propaganda. A coluna de hoje vai pelo mesmo caminho, sugerido, desta vez, pela (bela) publicidade "junina" de um banco brasileiro. "Joãos, Antônios e Pedros", dizia-se na abertura da peça publicitária, gravada em Campina Grande (PB), talvez a capital das tradicionais festas juninas realizadas em todo o querido Nordeste.

Pensei em escrever sobre essa propaganda para comentar o emprego da forma "Joãos", mas, como havia outros assuntos na "fila", deixei o caso para depois. O pessoal que fez o filme foi mais rápido: nas últimas edições do comercial, a forma "Joãos" foi substituída por "Joões" ("Joões, Antônios e Pedros").

Pois é justamente a troca de "Joãos" por "Joões" o mote desta coluna. Nomes próprios têm plural? Se têm, o de "João" é mesmo "Joões"? E por quê?

Nomes próprios podem ser postos no plural, sim. Por que será que o título de uma das obras de mestre Eça de Queirós é "Os Maias"? Pois bem, o plural de "João" é um caso delicado, já que essa palavra termina em "ão". Há padrão para o plural dessas palavras? Não há. Os únicos vocábulos terminados em "ão" que têm plural uniforme são os paroxítonos: todos fazem o plural com o simples acréscimo de "s" ("bênçãos", "sótãos", "órfãos", "órgãos" etc.).

Das oxítonas terminadas em "ão", a maior parte faz o plural em "ões" ("corações", "portões", "balões" etc.), mas há as que fazem o plural em "ãos" ("mãos", "irmãos"), em "ães" ("alemães", "cães", "tabeliães") e as que admitem mais de uma forma de plural ("guardiães" e "guardiões"; "anciãos", "anciães" e "anciões"). O senhor absoluto dessa questão é o uso.

Pois foi o uso que consagrou a forma "joões" como plural de "joão", palavra presente em inúmeros compostos de nossa língua ("joão-teimoso", "joão-de-barro", "joão-ninguém", "joão-bobo", que, no plural, fazem, respectivamente, "joões-teimosos", "joões-de-barro", "joões-ninguém", "joões-bobos").

Quem não se lembra dos inúmeros joões do genial Mané Garrincha (que, por sinal, se jogasse hoje, seria massacrado pelos pobres defensores da tosca tese - corroborada por alguns "jornalistas" - de que os dribles humilham o adversário)? O termo "joão" foi tão usado e difundido que virou verbete de dicionário. No "Aurélio", por exemplo, encontra-se isto: "Denominação dada por Garrincha (Manuel Francisco dos Santos) aos seus marcadores". Em seguida, o dicionário informa que, por extensão de sentido, "joão" significa "jogador que é driblado facilmente".

Não resisto à tentação de citar um trecho de "Paulicéia Desvairada", de Mário de Andrade: 

"Eu insulto as aristocracias cautelosas! / Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros! / que vivem dentro de muros sem pulos; / e gemem sangues de alguns mil-réis fracos / para dizerem que as filhas da senhora falam o francês / e tocam os "Printemps" com as unhas!". 

Como se vê, não falta registro de "joões". Aos "Joões", portanto, o que é deles, ou seja, o plural consagrado! É isso.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Zapzapeando

Por Tatiane Alcântara.
Crônica

O verbo zapzapear
Hoje tive a dimensão do fenômeno que é o WhatsApp. Antes que alguém pergunte, eu continuo sem ter, talvez um dia quem sabe. Ainda não senti vontade de aderir a essa nova tecnologia. 

Fiquei uma hora e meia no engarrafamento, e meus ouvidos já não aguentavam mais ouvir tantos assobios, não, eu não estava sendo paquerada, infelizmente. Eram os passageiros conectados em seus WhatsApps. Todos pareciam usar cabresto, ou tapa, não sei exatamente como se chama, mas é aquele instrumento colocado nos cavalos para limitar sua visão. Enfim, cada um no seu mundinho zapzapeando. 

Passei então a admirar o tempo, totalmente fechado com nuvens carregadas, o céu estava cinza, me senti por um momento como se estive morando em São Paulo novamente, por um instante, senti saudades do tempo frio e cinzento. Foi quando observei os carros parados no engarrafamento e tive a audácia de contar: 12 motoristas dirigindo com uma mão só, a outra estava segurando o Smartphone. De repente ouço uma buzina bem forte e um som de freio, quase uma batida. O motorista de trás dispara: - tá maluco cara? O da frente não dá à mínima e faz um gesto com a mão para fora do carro. Ganha um doce quem adivinhar o que o motorista da frente estava fazendo: estava com a mão e os olhos vidrados no Smartphone.



Cheguei ao meu destino, como sempre eu ando muito rápido, mesmo estando em um Shopping Center, vou direto ao que me interessa, não tenho paciência para vitrines. Entrei numa loja para pedir informação sobre um produto, perguntei, recebi a resposta e até agora não sei como era a cara da pessoa que me atendeu, pois ela sequer olhou para mim, afinal, estava ocupada com seu Smartphone. Levei 3 trombadas, sendo que a última quase resultou em uma queda. Ganha outro doce quem adivinhar o motivo das trombadas: as outras pessoas estavam andando com os olhos grudados nos seus smartphones. Passei então a andar por mim e pelos outros, pois não estava mais disposta passar vexame. Senti-me um piloto de fórmula um, pois eu desviava de praticamente todas as pessoas. Foi então que me dei conta de que elas estavam zapzapeando. Isso ficou martelando em minha cabeça: como seria a conjugação do novo verbo da língua portuguesa zapezapear? Eis a minha sugestão. 


Eu zapozapo
Tu zapazapas
Ele zapazapa
Nós Zapezapeamos
Vós Zapezapeais
Eles zapezapam


quinta-feira, 28 de abril de 2016

Tostão e a nova tecnologia de comunicação

Por Tostão.
Crônica
Saudade e saudosismo
Nesta semana, me disseram que existe na internet algo parecido com “você pergunta, Tostão responde”. Quem me conhece tem certeza de que não sou eu. Espero que as respostas sejam mais interessantes que as que eu daria.

Escrevo apenas para jornais impressos. Não tenho blog, Twitter, Facebook, Instagram, Whatsapp. Nem sequer tenho smartphone.



Uso celular apenas para fazer e receber ligações. Ainda uso caneta, agenda de papel, leio livros com prazer, falo ao telefone ao invés de enviar mensagens escritas, vou à banca para comprar jornais, converso pessoalmente ou por telefone com a gerente para resolver minhas necessidades bancárias e muitas outras coisas que, progressivamente, se tornam obsoletas. Estou perdido no tempo.

Não pense que acho charmoso e que tenho orgulho disso. Com frequência, recebo mensagens para trocar meu celular. Qualquer dia, vão dizer para jogá-lo no lixo e que, se eu não jogar, serei expulso do mundo. A pressão é cada dia maior.

Não associe essa minha resistência ao saudosismo. Sou fascinado pela ciência e pelo conhecimento. Mantenho uma distância, mas admiro esse novo mundo. A internet é um dos fatos mais marcantes e revolucionários da história da civilização humana.

Atualizo-me sobre tudo o que acontece, no futebol, no país e no mundo, pelos noticiários da TV, que filtram todas as informações úteis e inúteis que surgem na internet. Além disso, vejo, diariamente, partidas de futebol, na íntegra, do Brasil e de todo o mundo. Tiro minhas conclusões. Conhecimento não é apenas informação. É também observação.

Não sou saudosista, modernista nem futurista. Não há solução sem conhecimento, mas não me iludo que a ciência explique tudo e que tudo o que acontece em um jogo de futebol é decorrente de estratégias. A vida e o futebol se passam também nas entrelinhas, nos acasos, no não dito e no imponderável.

Os saudosistas falam que o futebol brasileiro precisa voltar à sua essência, como nos anos 1960. O futebol e o mundo mudaram. Temos de aprender com o passado, porém, sem repeti-lo. É preciso separar a nostalgia, a saudade, um delicioso sentimento sem o qual não sobrevivemos, do saudosismo de achar que, “no meu tempo”, tudo era melhor. O tempo passa ou somos nós que passamos?

Por outro lado, existem os modernistas, que não são, necessariamente, pessoas jovens, que se referem ao passado com o enorme distanciamento, às vezes, desprezo, do tipo: “isso é coisa de outra época”, como se houvesse uma completa ruptura e um Fla x Flu entre os saudosistas e os modernistas.

Não há nenhum momento em que aconteça essa divisão. O presente é continuação do passado.

Por causa da globalização, do grande número de jogadores de países diferentes espalhados pelo mundo, há pouca variação de estilo, de estratégia, a não ser as particularidades de cada clube, de cada país e de cada continente.

A técnica, individual e coletiva, a lucidez para tomar decisões, o planejamento, a estratégia e as condições físicas e emocionais passaram a ser mais decisivas que a habilidade e a improvisação, características do futebol brasileiro dos anos 1960. É preciso recuperar a fantasia, a imaginação e o talento individual, porém, com disciplina e organização tática.

quinta-feira, 10 de março de 2016

A Marilyn Monroe negra

Por Manuel S. da Fonseca
Crônica


Cheiras muito à Quinta Avenida
Oito da manhã ou oito da noite, com Dorothy Dandridge todas as horas eram sensuais.

Ainda nem meio-dia seria quando ela entrou no escritório de Otto Preminger. Actriz negra, ou mestiça, ou café au lait, como escrevia, nos anos 50, a imprensa negra americana, queria ser a Carmen da Carmen Jones que a 20th Century Fox mandara Preminger filmar. Vinha sofisticadíssima, ou seja, disfarçada. Camuflara-se num tailleur da Saks, um chapéu de rainha de Inglaterra. Atrás da sua secretária art deco, Preminger, bruto como as casas, olhou para ela e, se combinarmos o que eu penso que ele disse com o que os livros dizem que ele disse, saiu-lhe esta frase: “Ó filha, cheiras muito a Quinta Avenida. Se vens para Carmen, vieste ao engano.”



Ao engano já Dorothy levava mais de trinta anos. Trazia no corpo mil gotas de sangue em ebulição e não se ficou. Era uma cantora de sucesso em Nova Iorque, mas o que queria era Hollywood. E Hollywood, preconceituosa, para não dizer racista, escondia-a atrás de um avental de criada, de um pé descalço escravo. Em Carmen Jones, concebido como um “filme de raça”, ou seja, destinado à população negra, Dorothy via-se protagonista, ao lado do já famoso Harry Belafonte.




Saiu do escritório de Preminger e foi directa ao guarda-roupa da Fox. Atirou ao lixo a doçura dos trapinhos Quinta Avenida e vestiu uma rude blusa preta que não se atrevia a cobrir-lhe mais de metade do nobre peito e uma saia vermelha de racha lateral, que deixava faiscar um metro de perna. E, com uma daquelas formas de andar que desequilibram o mundo, trouxe de novo o longilíneo S maiúsculo que era o seu corpo até Preminger.

Escusava de dizer, mas digo: houve um sobressalto atrás da secretária art deco de Preminger. Carmen fechara a porta depois de entrar. No filme, ela viria a cantar este verso: “Um homem trata-me como se eu fosse lama e é esse o homem a quem dou tudo o que tenho.” Deu tudo a Preminger, que, casado, muito e clandestinamente a amou.

Esse filme bastou para que Hollywood a nomeasse para o Oscar e a chamasse a “Marilyn Monroe negra”. Comparação fatal: o incompleto amor de Preminger e a sexualizadíssima imagem acolchoaram um destino trágico. Sem glória, Dorothy morreu, doze anos depois, com uma overdose de antidepressivos.


  • Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.
  • Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Mulheres e cachorros

Por João Pereira Coutinho.
Folha SP em 16FEV
Crônicas

Mulheres e cachorros
Dúvidas sobre o casamento, todos temos. Mas Charles Darwin enfrentou o dilema com o racionalismo característico do século 19. Em 1838, perante o dilema de casar ou não casar com a prima Emma Wedgwood, o eminente cientista resolveu fazer uma lista com os prós e contras do matrimônio.

Conhecia a história, mas confesso que nunca tinha lido a lista com atenção. Um jornal inglês, no aniversário do nascimento de Darwin (12 de fevereiro) e antes do dia de São Valentim, publicou essa preciosidade.

Então encontramos duas colunas, nas quais razões para não casar suplantam incentivos para dar o nó.

Entre as primeiras, Darwin elenca o fim da liberdade para ir onde quiser; a necessidade de socializar com os parentes da mulher; a diminuição do dinheiro disponível para livros (e do tempo correspondente para lê-los); e a hipótese de haver discussões conjugais que são sempre uma perda de tempo (grande verdade, Charles).

Nas razões para casar, Darwin é mais lacônico: é bom ter companhia (sobretudo na velhice); é bom ter alguém para tomar conta da casa; e, bem vistas as coisas, "uma mulher sempre é melhor que um cachorro".
Apesar da escassez de motivos, Darwin acabou por casar. Podemos fazer listas e listas e listas. Mas o amor que sentimos por uma mulher acaba com qualquer lista.

Passaram quase dois séculos. E esse amor que Darwin sentia por Emma -visível nos seus escritos mais pessoais- talvez não se ajuste aos tempos modernos. Hoje, as manifestações de afeto do sexo masculino podem ser formas sutis de degradação do feminino. Estranho?

Longe disso. Ainda sobre o dia de São Valentim, a jornalista Jessica Abrahams escreveu na revista "Prospect" um ataque a esse dia apaixonado.

Para Abrahams, a data de São Valentim só expressa o "sexismo benevolente" que os homens ainda cultivam em relação às mulheres. Esse "sexismo", apesar de "benevolente", é apenas outra forma de subjugar o sexo feminino, atribuindo às mulheres um papel "démodé" e francamente inferior.

Oferecer flores, chocolates ou simplesmente "fazer a corte" é reduzir a mulher a um sujeito passivo e, quem sabe, sexualmente disponível. Exatamente como ocorre quando um cavalheiro abre a porta a uma dama ou paga a conta do jantar.

As palavras de Abrahams são corajosas e certeiras. Experiência pessoal. Durante anos, perdido em clichês conservadores, também eu abria portas a senhoras ou torrava o cartão de crédito em refeições elaboradas. Mas um dia, em Lisboa, um exemplar da espécie rosnou qualquer coisa contra o meu "sexismo benevolente".

Acordei do meu sono embestado e, sem exagero, renasci para a masculinidade. Para começar, os jantares eram pagos rigorosamente a meias -bebida a bebida, azeitona a azeitona-, e a poupança permitiu-me investir o pecúlio em livros, viagens e farras privadas.

E, em matéria de portas abertas, devo ter quebrado várias dentaduras a senhoras emancipadas. No início, ainda pensei em avisar: "Cuidado com a porta, madame!". Mas isso seria mais um gesto de "sexismo benevolente", especialmente quando a libertação das mulheres permite que elas paguem do próprio bolso uma reconstituição dentária.

Claro que, na relação entre sexos, ainda conservei por uns tempos noções arcaicas de afeto e galanteio. Flores, chocolates, mensagens privadas. Agora, graças a Jessica Abrahams, compreendo que reduzi as mulheres a um papel submisso e indigno. Mil perdões a todas elas.

E mil avisos a todos eles: rapazes, não sejam selvagens. Tratar uma mulher como mulher é, segundo Jessica Abrahams, agir de acordo com "pressupostos baseados em papéis de gênero". Melhor não agir. Melhor não ter pressupostos. Se isso significar uma separação permanente entre eles e elas, paciência: melhor a extinção da espécie do que o "sexismo benevolente".

E para quem pensa no casamento, nada melhor que reler a lista de Darwin e riscar os argumentos a favor do "sim". Até porque Darwin estava errado. "Uma mulher sempre é melhor que um cachorro?"
Isso é sexismo benevolente. Porque há mulheres e mulheres. E há cachorros e cachorros.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O cinema é a arte de fazer perguntas aos olhos.

Por Manuel S. Fonseca.
Crônicas
A longa penugem no pescoço
Agora, que já nem é preciso pedir licença a Tom Cruise, comecemos o ano com a límpida e clara nudez de Nicole Kidman. Com ou sem licença de Cruise, despiu-a Stanley Kubrick em Eyes Wide Shut.

Estava o ecrã todo a negro para melhor passarem os nomes dos artistas e, mal se lia o nome do obsessivo Kubrick, a omnipotência dele punha-nos os olhos numa sala iluminadíssima. Víamos uma mulher de costas. Fosse ou não porque os violinos da valsa nº 2, da Suite para Orquestra de Shostakovich, lhe afagassem a loura penugem do pescoço, ela deixava cair o vestido preto. E noto que, atrapalhado, nem falei do diluviano decote que, vestindo, já despia o lado lunar e calipígio de Kidman.



Cai-lhe um vestido preto aos pés e Nicole Kidman não tem nada por baixo. Está ali, altíssima e nívea, as costas perfeitas, a delicada curva da cintura, a aveludada perna direita que se levanta para sair da mancha de seda negra que é agora o vestido no chão, depois a ágil perna esquerda.

E, entre a cintura e as pernas que tudo sustentam, está essa região sumptuária, criada, como tudo o que é redondo e a dobrar, só para estético enlevo da humanidade e insofismável prova da existência de Deus. É uma mulher nua, em cima de um par de sapatos de finos saltos, as pernas a suave distância uma da outra, para que entre elas passe a santa luz. Bailarina de Degas sem tutu, toda a sua palpável plenitude coroada pela alegria de um arco de violino de Shostakovich…



Filme que começa assim não é gago nem cego. Jean-Luc Godard, realizador circense, começou com igual rabo, que por acaso era diferente, o seu Le Mépris. Muito menos branca, num quarto de sombras e uma réstia de luz deliquescente, está deitada e nua Brigitte Bardot. É irresistível olhar-lhe para as tão displicentes nádegas, porque ela mesmo diz ao actor com quem contracena, mas também a toda a plateia: “E as minhas nádegas, achas que são bonitas?

A pergunta de B.B. é irrespondível por ser feita directamente aos olhos. Responde-se-lhe de “olhos desmesuradamente fechados” como o título de Kubrick nos ensinou. E termino: o cinema é a arte de fazer perguntas aos olhos, perguntas que vão à origem, à escassa essência. Não admira que a inverbalizável mulher nua seja, tantas vezes, o seu começo e o seu fim, seu génesis e seu apocalipse.

  • Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.
  • Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Família, feliz quem tem!!

Trechos do livro  O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo

Crônicas


Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema... não é para qualquer um. 

Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir... 

Mas a vida... sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. 



Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente...Já estão aí? Todos? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza. 

Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa. Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto: é um verdadeiro desastre. 

Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte.

As vezes o ídolo da família, o bonzinho, o bola cheia que sempre ajudou azedou a comida só porque meteu a colher. O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Família é afinidade, é à Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito. Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. 



Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.

Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. 

Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete!
Família: Feliz quem tem!!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O levante das Raimundas

Por José Carlos Fernandes.
Crônicas
O levante das Raimundas
Li, meses atrás, que a Justiça de Goiás decidiu agilizar processos de troca do primeiro nome. Sabe-se que pedidos dessa monta podem se arrastar por anos, sem sucesso, por serem considerados problemas menores – um fricote. Além do mais, há quem desista, diante da enxaqueca que é nascer de novo nos cartórios, no banco, nos boletins escolares, na certidão de casamento, na firma, na cadernetinha do fiado, o diabo.



Mas não dessa vez. A razão de tanta sensibilidade foi a recepcionista goiana Raimunda de Jesus Ananias Mendonça, 44 anos, atormentada com a associação imediata de seu nome ao ditado popular – “Raimunda, feia de cara…”. Com base no direito à felicidade, o pedido foi acatado pelo desembargador Itamar de Lima, ele mesmo, suspeito, à mercê do trocadilho “Itamar & Itapior”, agravado depois da gestão Itamar Franco (1992-1995).

Tenho cá para mim que alguém deveria escrever sobre a convivência traumática com o próprio nome. Renderia rios. É raro, afinal, quem não tenha ouvido pelo menos uma história de desacertos com o registro de nascimento. Às minhas.

Na juventude – passada em parte na cidade de Ribeirão Preto (SP) – fiz amizade com uma Lázara, figura de grande humor, exceto quando a chamávamos pelo nome de pia. Fechava o tempo. Nem um carinhoso Lazinha ela consentia, desferindo beliscões a quem ousasse quebrar a regra. Exigia um apelido, que deixo aqui em segredo. Seu nome, dizia, invocava o Lázaro da Bíblia, que nos catecismos aparecia em trajes de múmia e, por suposto, na maior fedentina; além do terrível adjetivo “lazarenta”.

  Na mesma época, tropecei em outra Lázara, essa uma amante do próprio nome. Dizia-o com as vogais bem abertas, tornando-o uma música para os ouvidos. “LÁ-zA-rA. Acho lindo. Ao ouvir minha arguição pró-Lalá, Lazinha quase me atirou na linha do trólebus da Vila Tibério. Como as Raimundas em geral, as ruindades sofridas por causa do nome lhe despertavam uma bílis de ódio. De nada adiantava argumentar que existiam casos melhores ou piores que o dela.

Eu mesmo conhecia um exemplo, de um grande chapa do ensino médio, piracicabano talentoso, batizado de Reosvaldo Benedito. Um caso único. Nosso professor de Grego não se conformava. Como alguém podia ser “duas vezes Osvaldo?”, interpelava-o, incrédulo. “Reos”, como chamávamos, não só curtia a alcunha como fez dela uma marca. Seu pseudônimo, usado nos versos que traçava, não era menos exótico: “Suetônio”. Penso que assim permanece, uma persona rara. Talvez por causa da sua atitude brincalhona, amores e rancores a nomes pessoais me atraiam tanto.

Na pequena cidade de General Salgado (SP) conheci – ainda no tempo dos dinossauros – duas irmãs que se chamavam “João” e “Antônio”. Era o nome que o pai pretendia dar aos filhos que nasceram filhas, e não arredou o pé. Ouvir “oi, eu sou a João. Ela é a Antônio” fazia a gente se sentir dentro de algumas das brasileiríssimas historietas de Ariano Suassuna, nas quais tudo pode acontecer.

Na mesma ocasião, fui apresentado a uma religiosa que, ao fazer os votos, teve o belíssimo nome Inês substituído por Sérgia. Debaixo dos véus da castidade, pobreza e obediência, não sabia se chorava o nome perdido ou o fardo ganho. Ao escutar o relato, em consolo, um conhecido disse, em ato falho: “Que triste, irmã Jorja”. Era essa a sina de Sérgia desde então – ser chamada de Orlanda, Hamilta, Plínia ou qualquer outra coisa que não funcionasse no feminino, nem que Deus mandasse. Até hoje me pergunto se Sérgia conseguiu ser Inês de volta – era seu desejo confesso.

Parte dos dissabores, eu acuso, é culpa dos anos 80 – pródigos em fabricar diversão fácil com piada chulé. Em vez de inspirar – como as Cecílias de Chico Buarque –, o nome passou a ser usado para avacalhar. Desconheço alguma mulher que deteste se chamar Amélia por causa da música de Ataulfo Alves e Mário Lago. Ai, que saudades da Amélia é tão incrível que, aposto, tem feminista que a canta no banheiro. Não se pode dizer o mesmo das Adelaides.

Nos tempos do besteirol, bastava uma Adelaide se pronunciar para alguém cantarolar “Adelaide, minha anã paraguaia”, hit gosma do grupo Inimigos do Rei. Cerca de 90% das atingidas eram da minha família, na qual o nome tem longa tradição. Parentas amadas, desculpe acordar esse monstro da lagoa. Kátia Flávia, a louraça belzebu de Fausto Fawcett, teve destino melhor: o refrão “um Exocet – calcinha”, numa referência erótica aos mísseis usados na Guerra das Malvinas, fez mais sucesso do que a heroína muito doida. Além do mais, as Kátias já tinham sua piadinha pronta desde 1982: “Não está sendo fácil viver assim…”

Também oitentista, o obscuro duo Piu Piu de Marapendi causou torturas em série com oMelô do Waldemar. Cruel. O estrago só não foi maior porque o nome ficou no passado, com difícil chance de renascer, a exemplo de Astolfo ou Valdir. Em tempo – as Cleusas e Creusas devem ter rogado praga no Renato Aragão.

Convenhamos, em matéria de aporrinhação, nada se compara à provocada pela campanha da prevenção da aids de 1995. O ator Emílio de Mello aparecia conversando com seu pênis, o Bráulio. A ideia nasceu aqui em Curitiba, com base em pesquisa. Na lista de epítetos apontados para o dito cujo constava Petrônio, Bastião e Tonhão, todos à prova de bullying. Mas a escolha recaiu sobre… Para terror dos Bráulios, que há 20 anos escutam risinhos nervosos assim que o interlocutor liga o nome à pessoa.

Um Bráulio me disse que desenvolveu uma tática para neutralizar os tios do churrasco, que insistem na mesma lorota. Consta de um risinho cínico de canto de boca, acompanhado de ar de desprezo. Aprendeu tudo com os Mários, esses incansáveis...


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Síndrome do WhatsApp

Por Marlon Strecker.
Publicada no FOLHA.UOL  em 03FEV2015
Crônicas
Síndrome do WhatsApp
Hoje apelei para uma profissional de enorme competência, a Lili. Comecei de novo um tratamento de fisioterapia. Em dezembro, a médica já tinha me receitado também uma injeção de anti-inflamatório, além de bolsas de água quente e exercícios. Mas os exercícios só comecei agora, porque piorei.

Estou com várias tendinites de novo, além de dor nas costas. Não vou pôr a culpa no excesso de trabalho nem em ninguém. O problema sou eu mesma. Passei as férias lendo os três grossos volumes da biografia do Getúlio, escrita pelo Lira Neto (Companhia das Letras). Ótima, aliás. Só que li metade na cama e a outra metade na esteira de praia. Deitada.




O resto do tempo, quando não estava dormindo, cozinhando ou lavando louça, passei lendo notícias no iPad, checando o Instagram e trocando mensagens por SMS, WhatsApp e e-mail, entre outras atividades no celular. Alguém pode imaginar a posição do meu pescoço?

A Lili me contou que hoje mesmo atendeu um rapaz de 18 anos com uma baita hérnia de disco no pescoço. O rapaz é alto, mas o agravante, segundo ela, é o tempo que ele passa checando o WhatsApp. Síndrome de WhatsApp, me disse com a maior naturalidade.

Escrevo WhatsApp e na imaginação ouço vozes pronunciando What's Up! Mas melhor seria dizer Whats Down! Para baixo! É para o celular que a gente dobra o pescoço. É com o celular que a gente também tensiona o indicador, ou o polegar, ou ambos: para digitar. A propósito, também estou com tendinite na mão direita.


Arte de ALPINO


Voltei ao trabalho e passo o dia inteiro em frente a um computador enorme, lindíssimo. Pescoço projetado para a frente do corpo, esse é um dos meus vícios posturais. Outro problema é que a mega tela do computador, descobri hoje, mais de dois anos depois de comprá-lo, é que é grande demais para mim. Eu, que sou pequena, tenho de levantar a cabeça para enxergá-la direito, e com isso tensiono o pescoço.

A alternativa seria levantar a altura da cadeira, mas aí os meus pés não alcançariam o chão e detesto aqueles apoios de pé. Sinto que fico engessada. Quem acredita que um mobiliário "padrão" serve para quem é pequeno ou para quem é grande? Quantos serão os "normais"?


Outra alternativa para o meu caso, pensei agora, seria abaixar a altura da mesa, mas aí eu não poderia dividi-la com outras pessoas, como faço hoje.

O custo de passamos mais tempo conectados não é só de eletricidade, telefonia, troca de equipamentos com obsolescência programada, atualizações de softwares etc. O custo é de saúde física.




Mas tem três coisas que eu adoro no WhatsApp. 

  • Funciona. Até em circunstâncias em que o SMS não funciona (não me pergunte por que o SMS anda tão ruim); 
  • Ele não tem publicidade! Que delícia não ser interrompida por mensagens que não estou interessada em receber 
  • É uma forma de comunicação mais barata que SMS e telefonia.

Mas sou do tipo que entende o WhatsApp como instrumento de comunicação um a um. Não gosto de receber no WhatsApp mensagens que não foram escritas especificamente para mim.

Minha filha é diferente. Acho que meu assistente também, porque os dois vivem com o celular sem som, mas sempre tremendo em cima da mesa por conta do grande número de mensagens que recebem. Não gosto disso porque me interrompe o fluxo do raciocínio, da memória, do trabalho. Distrai. Tira a concentração e a produtividade. É chato, viu?

Marion Strecker é jornalista e cofundadora do UOL.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Mostrando tudo

Por Luiz Fernando Veríssimo.
Crônicas



Mostrando tudo
Vivíamos na busca incessante da mulher nua. Tinha mulheres nuas em filmes franceses proibidos até 18 anos, mas — danação! — nós não tínhamos 18 anos. E os porteiros de cinema, a categoria humana mais desumana que existe, não caíam na nossa conversa.


— Eu juro que tenho 18 anos.

— Mostra a identidade.

— Esqueci em casa.

— Vai buscar.

Propina não adiantava. E, mesmo, quem tinha dinheiro para subornar porteiros? Os abençoados pela natureza (que tinham 18 anos) nos contavam como eram os filmes que não podíamos ver. Só para aumentar nosso sofrimento.

— Aparece mulher nua?

— Nuinhas.

— Se vê tudo?

— Bom, tudo não.

Mesmo nos filmes franceses não aparecia tudo. Apareciam seios e bundas, geralmente da Martine Carol. Tudo não. Tudo aparecia nas revistas de nudismo feitas na Alemanha (ou na Holanda, sei lá) que trocávamos entre nós.

Mas nas revistas de nudismo mulher bonita mostrando tudo era raro, o que mais se viam eram famílias inteiras peladas. E quem se interessava em ver mulheres feias e famílias como as nossas, só mais brancas, nuinhas?

A própria “Playboy”, lançada nos Estados Unidos em 1953, custou a mostrar tudo. Só anos depois do famoso primeiro número com a foto da Marilyn Monroe começaram a aparecer os pelos pubianos. Mais tarde, numa progressão natural, veio tudo mesmo.

Li que a edição brasileira da “Playboy” vai deixar de ser publicada, pelo menos por enquanto. A disponibilidade atual de sexo e nudez nas redes, para todas as idades, talvez tenha tornado a pelada impressa obsoleta, ou no mínimo supérflua.

Mas a notícia mais intrigante vem dos Estados Unidos, onde anunciaram que a “Playboy” deles continua, mas vai alterar sua política editorial e dar menos ênfase a mulher nua e mais aos textos, seguindo uma preferência dos leitores. O que traz para a realidade uma brincadeira que se fazia aqui.

— Compras a “Playboy”?

— Compro, mas só pelos artigos.