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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Leve Bolsonaro a sério

Por David Coimbra

O Brasil em perigo - Leve Bolsonaro a sério
Recebi mais de 200 mensagens dos admiradores de Bolsonaro insultando-me porque falei mal do ídolo deles.

Isso me deixa preocupado.

Não os insultos: a admiração por Bolsonaro.

Trump elegeu-se presidente dos Estados Unidos. Trump é um troglodita, mas, perto de Bolsonaro, transforma-se em sócio de clube de cavalheiros ingleses, com cachimbo e pince-nez. Trump tem o mérito de ser um vencedor. É um bilionário, sabe ganhar dinheiro, conhece os negócios e os homens de negócios.



 Bolsonaro, não. Bolsonaro é apenas um homem grosseiro.

O medo do terror fez Trump crescer nos Estados Unidos. O medo da violência urbana faz Bolsonaro crescer no Brasil.

O medo arranca o pior dos seres humanos.

Tanto Bolsonaro quanto Trump se cevam na rejeição à vigilância moral dos politicamente corretos. É um erro terrível. Se você não gosta do politicamente correto, não significa que tenha de ser politicamente incorreto.

As pessoas estão fazendo confusão.

Você pode criticar as novas feministas, os movimentos negros e as entidades de defesa LGBTs, mas você não pode desrespeitar as mulheres, discriminar os negros e ter preconceito contra os homossexuais.

Você pode criticar o PT e a atuação dos sindicatos, mas não pode deixar de entender as necessidades dos trabalhadores.

Defender os direitos humanos não é defender bandidos — é, apenas, defender os direitos humanos, que são os SEUS direitos, leitor.

A violência não aumentou porque acabou a ditadura, até porque a atenção dos generais não estava voltada para a violência urbana e sim para a guerrilha urbana. Alguns dos países mais violentos do mundo são ditaduras, como o Congo e a Venezuela.

Houve e há militares inteligentíssimos. Golbery do Couto e Silva e Castelo Branco são exemplos ilustres que você tira de dentro do ventre da ditadura brasileira. Bolsonaro não é um deles. Bolsonaro não tem nada de inteligente. Nada. O problema de Bolsonaro não é ser militar. O problema de Bolsonaro é ser Bolsonaro.

Trump não foi levado a sério nos Estados Unidos, e hoje está assombrando a Casa Branca.

Bolsonaro tem de ser levado a sério no Brasil, antes que seja tarde.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Próximo passo, Fora Temer e Cunha e Renan e... ?

Por David Coimbra.


Dedico este texto ao querido amigo, Hamilton "Eutanásia".


Fora Temer!
Às vésperas do segundo turno para presidente, em 2014, escrevi que se encerrava, naquele momento, o mais triste processo eleitoral da história do Brasil.

Agora está se encerrando o mais triste episódio político da história do Brasil.

O pior governo brasileiro de todos os tempos sendo deposto pelo pior parlamento brasileiro de todos os tempos.

Arte de MARIANO


O que resta disso tudo?

Resta tudo.

Resta o Brasil inteiro, ainda que dividido.

Restam uma jurisprudência, um método de ação e, sobretudo, uma advertência.

A advertência é a seguinte:

Agora tem consequência.

Autoridades, homens públicos, senhores governantes: façam direito, porque agora tem consequência.

Arte de IOTTI


A queda do PT é simbólica e importante exatamente pelo apoio que tem o PT. O PT não é o partido dos pobres: é o partido dos intelectuais. Ou seja: de gente com influência. É também o partido que estabeleceu as alianças mais estreitas com os grandes empreiteiros e os grandes banqueiros. Ou seja: gente com dinheiro. E ainda é o único partido que amarrou laços de colaboração com governos de outros países. Ou seja: gente com prestígio internacional.

Mesmo assim, o PT caiu.

E não caiu pelas pedaladas fiscais. Caiu porque os governos do PT se beneficiaram da corrupção. Não fosse isso, não cairia. Não fossem as revelações da Lava-Jato, a indignação popular e a desfaçatez das reações do governo, como a nomeação de Lula para o ministério, a fim de lhe dar privilégio de foro, não fosse por isso, Dilma continuaria na Presidência.



O Congresso foi um instrumento da vontade popular, ainda que seja "este" Congresso, um Congresso formado por vários deputados que são acusados pelos mesmos crimes do governo que condenaram.

Assim, aconteceu como deveria acontecer.

Mas, a partir deste momento, as atenções devem ser concentradas em Michel Temer.

Arte de LUTE


Se houver relações espúrias com empreiteiros;

Se houver negócios absurdos, como a compra de Pasadena;

Se houver "empréstimos amigos" e perdão de dívidas a ditaduras;

Se houver concessões criminosas de terra a quem não precisa, maculando a Reforma Agrária;

Se houver mau uso de bancos públicos, fundos de pensão e empresas estatais;

Se houver algo parecido, comecem tudo de novo. Tudo: a pressão, as investigações, a revolta. Como diziam os Beatles, nós podemos fazer isso funcionar. E, como disse Jefferson, o preço da liberdade é a eterna vigilância.



Eles têm de sentir medo de errar. Eles têm de saber que o olhar da população está sobre eles dia e noite. Eles precisam ter consciência de que o homem público deve mais explicações sobre sua conduta do que qualquer outro homem.

Que sejam vigiados eternamente. Que eternamente sejam cobrados. Se fizerem certo, aplausos. Se fizerem errado, fora! Seja quem for, com a imagem e o poder que tiver.

Michel Temer, daqui a alguns dias você tomará o poder pelo qual tanto conspirou. Mas tenha cuidado. Porque, se não tiver, será simples. O Brasil gritará: FORA, TEMER!

terça-feira, 29 de março de 2016

Cidadania também é escolha

Por David Coimbra.


Mande em mim
Você consegue se imaginar pedindo para alguém:

"Me oprima! Me submeta! Mande em mim!"?

Consegue?

É o que imploram os que defendem a volta da ditadura.

Porque uma ditadura nada mais é do que uma pessoa decidindo tudo por você, a não ser que você seja o ditador. Como duvido que aquelas senhoras que andam com faixas clamando por intervenção militar tenham força e influência suficientes para se alçar ao poder, elas não vão mandar em ninguém – vão obedecer.

Essa ânsia de servidão parece ilógica.

Não é.

Faz parte do jogo de forças entre os valores da liberdade e os da segurança. No Brasil de hoje, as pessoas se sentem inseguras. Elas olham para os lados e não veem ninguém capaz de protegê-las. É como se estivessem boiando no espaço, sem ter onde se apoiar.

É uma desagradável sensação de excesso de liberdade, algo bem próximo do desespero.

Então, as pessoas procuram proteção. Alguns a encontram naquela igreja que faz promessas concretas: aumento de salário, emprego novo, amor verdadeiro. Outros a encontram naquele candidato que é macho alfa, fala alto e está sempre brandindo o punho fechado: Bolsonaro, Trump... E há os radicais, os que preferem viver sob uma ditadura a enfrentar as contradições da democracia.

Ser livre dá trabalho.

O equilíbrio entre a segurança e a liberdade é uma construção sofisticada. Os brasileiros, desacostumados com a democracia, acham que, com democracia, tudo pode. A democracia lhes garante direitos, nunca os obriga a deveres.

Mas não é assim.

Democracia é o cumprimento da lei.

E a lei existe para regular a liberdade.

Liberdade total seria pegar o que você tivesse vontade de pegar, seria eliminar quem o incomodasse, seria fazer o que você bem entendesse, quando quisesse, como quisesse.

Aí seria impossível viver em sociedade. Foi para poder viver na companhia de outras pessoas que o homem inventou a lei.

Só que a lei também é suscetível a interpretações, e dança ora para o lado da segurança, ora para o lado da liberdade.

O juiz Sergio Moro, maior personagem da República nos últimos dois anos, defende uma Justiça que prioriza a segurança da sociedade em detrimento de certas liberdades individuais. É uma necessidade que vem sentindo o brasileiro desamparado. É uma tendência do país.

No entanto, o mesmo Sergio Moro defende uma Justiça que permite ao cidadão a liberdade de conhecer as informações públicas das pessoas públicas. Moro é a favor de tornar público tudo que é de interesse público.

Curiosamente, aqueles que defendem uma Justiça mais tolerante, mais centrada no indivíduo e, em tese, uma Justiça que dê mais valor à liberdade, defendem também a não publicação de certas informações de interesse público. Mesmo jornalistas, que vivem da publicação de fatos a respeito de pessoas públicas, posicionaram-se contra a divulgação, por exemplo, de detalhes de processos contra agentes públicos.

Tomando esse caso específico, o fascinante é que os dois lados, os que são contra a divulgação e os que são a favor, usam o mesmo argumento: eles estão ao lado da democracia.

Talvez ambos estejam certos. Existem diferentes tipos de democracia. Qual é a que queremos para nós?

Ainda não sabemos.

Ainda não sabemos quem somos.

Ainda temos de nos transformar em quem nós queremos ser.

domingo, 27 de março de 2016

Os perigos da lista

Por David Coimbra.

Os perigos da lista
Calma!

Nada de ansiedade nesta hora de peles eriçadas e respirações suspensas.

A decisão do ministro Teori, de resguardar o sigilo da gravação envolvendo Dilma, não é ruim para a Lava-Jato, esse evento que, todos sabemos, é o mais importante para o país, depois do Plano Real.

Ao contrário. É ótima.



Em primeiro lugar porque, mesmo que a divulgação da gravação seja de relevância pública, Moro errou ao não consultar o STF antes de liberá-la.

Em segundo porque, com sua decisão, Teori acaba com as teorias persecutórias dos governistas. Teori demonstrou que a democracia brasileira não corre nenhum risco devido às investigações da Lava-Jato, que a soberania nacional não está em perigo e que as instâncias superiores da Justiça não se sentem acovardadas pela República de Curitiba.

Ou seja: está tudo correndo normalmente.



Não existe essa história de golpe, e o tão citado Estado democrático de direito não sofre a menor ameaça. Se Dilma cair, será por meios constitucionais. Se continuar no cargo, idem.

Moro é ótimo juiz e está fazendo ótimo trabalho, mas é jovem e, como todo jovem, às vezes se torna afoito.

Foi afoito no caso da ligação envolvendo a presidente da República.

O método de Moro, porém, tem sido o mesmo desde o começo. Há dois anos que ele autoriza conduções coercitivas, prisões preventivas e publicação do conteúdo das investigações. Para ele, tudo que é de interesse público tem de ser publicado. É uma escola do Direito.



Você pode concordar ou não com ele, mas o fato é que seu critério não mudou: ele está agindo com políticos da mesma forma que agiu com empresários, doleiros e assalariados comuns, como eu e você.

Acontece que agora a investigação chegou ao seu ponto nevrálgico: a política. E a política, como qualquer ponto nevrálgico, dói.

Um político é diferente de qualquer um de nós. Um político ganha votos. Ou seja: as pessoas estão depositando confiança nele. Um político lida com dinheiro público, com interesses públicos, e por isso sua conduta é também de interesse público.



Mas um político não tem só eleitores a cobrá-lo. Cada político é um líder, inclusive aquele verdureiro que se elegeu vereador no seu bairro. Cada político tem apoiadores, seguidores, às vezes devotos. Nos diálogos gravados de Lula, esses devotos despejam-se às catadupas. O ministro Jaques Wagner se oferece para carregar a pasta de seu amado chefe, e Lindbergh Farias chegou a dizer:

– Nós adoramos o senhor!

Ao lado do arfante Lindbergh estava Jandira Feghali, aquela deputada com cara de cartomante que protagonizou uma das cenas mais hilárias de toda essa história — depois de Lula ter sido levado a depor, ela foi fazer um vídeo bajulando-o e começou:

– O presidente está calmo, está sereno...




E, atrás, Lula esbravejava ao telefone, dizendo para Dilma que queria que a Justiça enfiasse o processo contra ele por entre um dos nove orifícios do corpo humano.

Que momento da República.

Mas o que interessa, por ora, é que qualquer político sempre contará com defensores ardorosos, gente que acredita mesmo nele ou quer ou precisa acreditar. Logo, esta etapa das investigações é muitíssimo mais sensível.

Arte de PELICANO


Nesta terça-feira, 200 nomes de políticos de 18 partidos explodiram em público, na divulgação da lista de contribuições da Odebrecht. Sabe-se que vários receberam do caixa 2, mas outros tantos não. Por esses, pelos honestos, é preciso ter cuidado. Saber do comportamento público dos homens públicos é importante, é direito do cidadão. Mas saber o que fazer com essa informação é mais importante ainda.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A divisão do Brasil e as eleições

Por David Coimbra

Crônicas



A divisão do Brasil e as eleições
Uma eleição para a presidência da República não deveria despertar tantas paixões. Desperta porque o Brasil está torto administrativa e filosoficamente.

O resultado da eleição demonstra isso. A divisão do Brasil em dois demonstra isso. Essa divisão não é ruim. Nem boa. É natural. É impossível que um país desse tamanho não tenha profundas diferenças entre suas regiões.

Um seringueiro do Acre tem necessidades e pleitos diferentes de um pequeno agricultor da Serra gaúcha. O sertão de Minas é diferente do litoral catarinense.

Isso não quer dizer que um seja melhor do que outro. Nem quer dizer que o país deveria ser dividido em vários países. Quer dizer, apenas, que as diferenças precisam ser respeitadas. O Brasil não respeita as diferenças das suas diversas populações. Donde, a justa revolta de quem se vê suplantado no voto por uma pequena maioria.

As manifestações preconceituosas contra os nordestinos, os xingamentos, os insultos, tudo aquilo é bobagem. É irrelevante. Eu, aqui, quando escrevo algo com que você concorda, você me chama de gênio. Quando escrevo algo do que você discorda, você me chama de imbecil. Não posso me enfatuar quando sou chamado de gênio, nem me deprimir quando sou chamado de imbecil. Tenho de compreender que as pessoa se aferram às suas opiniões e que as defendem de todas as formas, mesmo formas que, volta e meia, não são as mais sensatas. Tenho de compreender que, neste mundo de redes sociais, todos estão expostos à sua própria tolice. Antes, só os jornalistas escancaravam sua própria tolice. Agora, ser tolo está ao alcance de todos.

Um Brasil que realmente fosse uma federação atenuaria muitos desses conflitos. O país deveria dar autonomia e liberdade para estados e municípios resolverem seus próprios problemas.

Vou dar argumentos técnicos, não políticos: os municípios arrecadam impostos, mandam dinheiro para o governo central, que devolve parte para os municípios, sobretudo em forma de programas, que é a maneira como se administra o Brasil. Não tem lógica. É burocrático, ineficiente e facilita a corrupção. Nesse caminho de ida a Brasília e retorno para o município, muito dinheiro se esvai.

Você sabe quantos programas para municípios existem no governo federal? 229. Duzentos e vinte e nove.

Entre esses, programas como o “Arca de Letras”, “Cultura Afro-Brasileira”, “Artesanato Brasileiro”, “Feira do Peixe”, “Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil”, “Brasil Quilombola” e até um com designação muitíssimo apropriada, “Olho Vivo no Dinheiro”.

Olho vivo no dinheiro, de fato. Todos esses programas necessitam de quem os administre, mais seus assessores, secretárias, sedes, carros, material de escritório etc. São estruturas dispendiosas e muito suscetíveis à corrupção.

Então, o Brasil funciona assim: um prefeito identifica que, na sua cidade, é preciso asfaltar determinada rua. Ele vai a Brasília, ou manda um deputado aliado ir a Brasília para pedir recursos. Esses recursos, se aprovados, são enviados através de um desses programas. Só que, não raro, para que os recursos sejam liberados, o deputado se compromete a apoiar determinada demanda do governo no Congresso.

Está criada a espiral da corrupção.

Agora vou contar como funciona num país em que a federação existe de fato, em que cada estado e município tem autonomia e independência, sem que se descaracterize a união: os Estados Unidos, país tão grande e complexo quanto o Brasil.

Vamos pegar duas áreas fundamentais para o cidadão: educação e segurança pública.

Nos Estados Unidos, a educação e a segurança são municipais. A polícia de cada cidade conhece os bairros, os moradores e os seus problemas. Os moradores da cidade também conhecem os policiais, e sabem como trabalham.

Na educação, os, digamos, primeiro e segundo graus são públicos e gratuitos. As escolas públicas são ótimas, até melhores do que as privadas. Já as universidades são todas pagas, inclusive as públicas. Mas os pais não pagam as faculdades dos filhos: os filhos pagam depois de formados e só depois de já estarem empregados, com uma espécie de crédito educativo que se estende por boa parte da vida, como uma prestação de casa própria. Só que todos, ricos ou pobres, chegam às universidades com condições iguais, porque a educação básica e fundamental é excelente.

A escola do meu filho é totalmente gratuita, inclusive o material, os cadernos, lápis de cor, canetas. Pela refeição, pagamos 3 dólares por dia. Se não tivéssemos condições de pagar isso, mandaríamos uma carta para a escola e a alimentação seria gratuita. Os alunos também têm direito a assistência médica gratuita, até os 18 anos.

Outro dia, nos chamaram para falar da reforma da escola. Era uma reunião com todos os pais. Foi apresentado o orçamento já aprovado para a reforma: 98 milhões de dólares, cerca de 250 milhões de reais, bancados pelo imposto municipal.

Esse dinheiro não foi para Washington para voltar como um programa. Foi arrecadado pelo município, investido no município e será fiscalizado pela sociedade civil, pelo cidadão, pelos pais que viram para onde vai o dinheiro, como será gasto e quando.

Os programas do governo federal brasileiro parecem lindos e bem intencionados, mas são apenas instrumentos de poder do reizinho de Brasília, são mecanismos burocráticos, que aumentam os gastos públicos e facilitam a corrupção, para não dizer que a estimulam.

 O programa tem de ser eventual, para resolver problemas de escassez ou pobreza que, aí sim, requerem intervenção federal e distribuição de imposto. A União não tem de deixar de arrecadas: tem de arrecadar menos.

Todo esse sistema é terrível para o país, mas é muito caro ao governo central, porque dá poder, dá instrumentos de barganha política, de distribuição de cargos e favores. Isso é fruto do paternalismo criado lá na ditadura Vargas, que se estende filosoficamente (e administrativamente, e materialmente) até hoje no Brasil.

O Brasil não precisa de salvadores da pátria, os pobres não precisam de heróis ou de defensores, nem de um governo benevolente. Não, não, quando alguém disser que é defensor dos pobres, fuja dele. É um demagogo que só fará mal ao país. O cidadão brasileiro precisa, sim, de um Estado que proteja os mais fracos e permita que todos tenham as mesmas chances. Precisa que a independência, a iniciativa pessoal e a criatividade sejam incentivadas. Precisa de bom senso.

Extraído do livro A Graça de falar do PT & Outras histórias

Getúlio, o pior. Itamar, o melhor.

 Por David Coimbra.


Getúlio, o pior. Itamar, o melhor.
Itamar Franco foi o melhor presidente da história do Brasil. Getúlio Vargas foi o pior presidente da história do Brasil.

O governo de Itamar durou dois anos e três meses, foi sempre democrático e não apresentou mácula de corrupção. Nesse curto período, sua administração domou uma inflação que beirava os mil por cento ao ano, o que até então parecia impossível, e cimentou o caminho para a estabilidade econômica do país. Todas as obras dos presidentes que se seguiram só puderam ser realizadas porque a inflação foi controlada.

Getúlio mandou no Brasil por 19 anos, 15 desses como ditador. Só isso, só o fato de ter sido ditador, seria o suficiente para inscrevê-lo no rol dos canalhas da História. Toda ditadura é, por conceito e por princípio, um mal; assim como a democracia, por conceito e por princípio, é um bem. Getúlio interrompeu um legítimo processo democrático para se encastelar no poder. Suas realizações, como as Leis Trabalhistas e o voto feminino, eram demandas da sociedade, avanços internacionais que seriam alcançados mais cedo ou mais tarde. Não se precisava de ditadura para obtê-los. Não se precisa de ditadura para obter coisa alguma.

Com a ditadura, Getúlio extinguiu a federação de fato, centralizando o poder e diminuindo a autonomia dos estados, ação consagrada na famosa cerimônia da queima das bandeiras



Também instaurou a lógica paternalista do defensor dos pobres no Brasil e, depois, quando finalmente se elegeu com legitimidade, criou à sua volta uma estrutura de apoio composta, sobretudo, pelo peleguismo sindical. Estavam formados os dois grupos que iam se enfrentar pelas décadas seguintes: os populistas paternalistas e os conservadores.

Os populistas paternalistas têm a seu favor o charme da esquerda e a presuntiva boa intenção de ajudar os pobres. Na verdade, só o que eles querem é o poder. Os conservadores têm a seu favor uma aura de modernidade capitalista. Na verdade, só o que eles querem é o poder. Donde, golpes e contragolpes que não levam a lugar algum.

O golpe de 64 foi a derradeira vitória dos conservadores. Brizola até ressurgiu como herdeiro do populismo, mas o PT soube ocupar o seu lugar, ridicularizando-o como um político obsoleto e algo folclórico. Lembro-me dos discursos dos intelectuais petistas nos anos 80, criticando o populismo como causa do atraso do país. Era bonito. E era alvissareiro. O PT anunciava-se diferente desses dois grupos, mas, para chegar ao poder, teve de ceder, exatamente, ao populismo paternalista que criticava em Brizola. O PT apoiou-se em sindicatos, em organizações da sociedade civil e, finalmente, em quaisquer aliados políticos que lhe dessem sustentação parlamentar, inclusive os velhos ícones da ditadura, como Maluf. Agora, o PT arroga-se como defensor dos pobres, tanto quanto Getúlio. O PT é filho caçula de Getúlio. Filho caçula da ditadura getulista, que, como toda ditadura, entortou a nação.

Mas o paternalismo do PT não é errado quando investe no Bolsa Família. O Bolsa família é um bom programa corretivo de desigualdades. É errado quando o governo se apresenta como paladino do povo oprimido. Numa nação madura, os pobres não precisam de ninguém que os defenda. Não precisam de pais ou heróis. Os pobres, os ricos e os remediados não têm de depender de governo algum. Têm de contar com um Estado que tenha sistemas de proteção aos mais fracos e de garantia de oportunidades iguais a todos. Os governos são apenas administradores desse sistema.

Um grupo governante que estivesse realmente disposto a fazer o Brasil amadurecer teria de começar descentralizando a arrecadação e refundando a federação. Você sabe quantos programas de ajuda aos municípios são mantidos pelo governo federal? Mais de 200. Contei 229. Programas para fazer tudo, de esgoto a feiras do peixe. Então, funciona assim: o imposto é arrecadado na cidade, vai para Brasília e volta muito tempo depois através de um desses programas. Nesse longo caminho, o dinheiro, o seu dinheiro vai sendo desbastado pela burocracia e pela corrupção. Por que os recursos não ficam no município? Por que têm de passar pelas mãos do Grande Pai provedor? Se ficassem no município, a comunidade se encarregaria de fiscalizar a forma como são aplicados. Seria um verdadeiro incentivo à participação popular na vida pública, não esses mal-intencionados conselhos de sabotagem da democracia representativa.

Bastaria isso para que a corrupção fosse atorada pela metade, no mínimo. Mas, para que isso fosse feito, o grupo governante teria de renunciar a parte do poder. E quem nesse país é capaz de renunciar a qualquer pedaço de poder? De jeito nenhum. Melhor deixar o país sob tutela eterna. Melhor apresentar-se como o benevolente protetor do pobre indefeso.

Extraído do livro A Graça de falar do PT & Outras histórias

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa

Por David Coimbra
Crônicas
Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa
Sempre fico tenso com aquela vinheta de fim de ano da Globo, “Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa”.

Sei que aquilo é feito para me animar, para lançar meu espírito rumo ao firmamento e fazer-me sonhar docemente com as alvíssaras do novo dia de um novo tempo.

Mas não consigo.

Olho para as cenas de todos aqueles artistas tão felizes e penso justamente no que não vejo. O Bonner está lá, bem faceiro, que ele é um tipo faceiro. O Jô Soares também, embora seu sorriso ande meio torto. A Carolina Dieckmann, dourada e lânguida, é o próprio verão carioca.

Mas e os que não apareceram?

Imagino aquele ator de, digamos, Malhação. Ele vibrou, quando foi convocado por e-mail para a gravação. Contou para a mãe, para a namorada, para os amigos:

_ Vou aparecer na vinheta de fim de ano da Globo!

Todos aplaudiram, excitados. Urru! E ele passou os dias decorando a letra e a coreografia. Batia com as mãos no peito, estalava os dedos e cantava, contente, acreditando na letra da canção:

_ Todos nossos sonhos serão verdade! O futuro já começou!

No dia aprazado, lá se foi ele, vestido de branco da cabeça aos pés. Antes de sair, a mãe mandou que tirasse a camisa e passou-a a ferro com critério. Não ia deixar o filho aparecer para o Brasil inteiro vestindo aquela camisa que parecia que ele tinha guardado dentro da garrafa.

Foi um longo dia de gravações, da manhã à noite, horas e horas intercaladas por sanduíches vulgares e sucos mornos. Quando ele voltou para casa, a família o cercou, dardejando-o com perguntas:

_ Como foi? Como foi?

_ Muito legal. Conheci o Faustão!

Na noite em que a vinheta seria lançada, ele se reuniram em frente à TV. Estavam todos, entre sorridentes e ansiosos: a família orgulhosa, os amigos dando-lhe tapinhas nas costas, a namorada fazendo olhares de promessas, veio até aquele primo-irmão que morava em Bento Gonçalves.

No intervalo do Jornal Nacional, a musiquinha explodiu:

Hoje é o novo dia...

Mas cadê o nosso herói?

_ Cadê você? _ Perguntavam. _ Cadê? Cadê?

Maldição! Bem que disseram que ele tinha de ir naquele bolo para abraçar a Regina Duarte. Aqueles é que eram espertos. Cadê? Cadê? De repente, ele apontou para a tela:

_ Ali! Ali!
_ Onde?
_ Ali!
_ Com o Galvão Bueno?
_ Não! Do lado do Francisco Cuoco!
_ Aquele é você?

Era. Mas o Jornal Nacional já recomeçou...

Então, o ator de Malhação deve ter rilhado os dentes e, pensando em todas as vezes em que deram close no Tony Ramos balançando os braços cebeludos, jurou:

_ Ainda vou dar o troco, Tony! Ainda vou!

Lembre-se disso, quando você vir a vinheta da Globo. E entenda como se sente o Michel Temer.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Viva o Brasil!!!!

Por David Coimbra
Zero Hora

Crônica

Viva o Brasil!!!
A prisão de Delcídio representa solidez da democracia

Seis da manhã. Os raios fúlgidos do sol da liberdade ainda não haviam brilhado no céu da Nova Inglaterra. A sensação térmica era de quatro graus negativos. E eu estava na sacada de casa, dando um brado retumbante:

– Brasil! Brasiiiilll!

Arte de PAIXÃO


Em seguida, levei a mão ao peito e, em posição de sentido, entoei aquele clássico de Joaquim Osório Duque Estrada, o Hino Nacional Brasileiro, despertando os vizinhos e deixando perplexos os esquilos.

É que acabara de ser informado acerca da prisão do senador Delcídio do Amaral, do PT.

Agora uma ressalva: não sou homem de comemorar o infortúnio alheio. Nunca fiz isso. Não sou daqueles que ficam felizes quando se dá mal alguém com mais dinheiro, mais poder, mais fama ou mais beleza do que eu, até porque nessas categorias está inscrita a maioria da humanidade.Se tem algo que considero primário é o pensamento dos supostos cavaleiros da igualdade. Porque é muito fácil e muito simpático ficar ao lado de qualquer causa que defenda pobres, homossexuais e negros, sem nem examinar se a causa é justa ou não. Pega bem. Você parece contestador e corajoso, um herói de boina batendo-se contra os poderosos.

Essa demagogia rasteira é uma das causas da falta de compromisso dos brasileiros com a sociedade e até com seu próprio destino.

Digo tudo isso para ressaltar que não fiquei contente porque um senador foi preso. Nem porque ele é líder do governo, ainda que se trate de péssimo governo.

Não. Fiquei contente e orgulhoso pelo que representa essa prisão.

Pelos seguintes motivos.

Nos últimos tempos, alguns dos mais importantes empresários brasileiros já haviam sido alcançados pela Justiça. Logo, está provado que a grana pode até ter força para erguer e destruir coisas belas, mas não para fraturar as instituições brasileiras.

O poder político, no entanto, é ainda mais forte do que o poder da grana. Porque a grana depende da política. Existe um inter-relacionamento entre elas. Quanto maior o Estado, maior o poder do dinheiro.

O Estado só funciona como fator de equilíbrio quando não atua como protagonista, quando atua apenas como árbitro e fiscalizador.

O Estado brasileiro é protagonista, e muito, e Delcídio é um dos políticos mais poderosos do Brasil. É tido como negociador habilidoso, cheio de influências e boas amizades. E é um senador da República. Nunca, desde que Deodoro montou num cavalo manso e derrubou a monarquia, numa madrugada de 15 de novembro do século 19, nunca um senador havia sido preso.

Nos Estados Unidos, os americanos costumam dizer: "Aqui também tem corrupção. Só que, se os corruptos são descobertos, são presos".

Já ouvi isso bem uma dúzia de vezes, ou mais. E eles estão corretos. Ilícitos são cometidos a todo momento nos Estados Unidos. Mas, se os culpados são encontrados, a punição é certa.

Por quê?

Porque é tácito que, estando em território americano, você terá de cumprir o acordo social, que é expresso pela lei.

A lei, eis a diferença. A lei tem de estar acima de todos. A lei tem de estar acima inclusive da justiça. Nenhuma boa causa pode estar acima da lei.

Os governos do PT, populistas que são, tentam se justificar por suas supostas boas causas. Na presuntiva luta pela igualdade, até a lei poderia ser derrotada.

Não mais. Agora, estamos vendo que não mais.

Viva o Brasil!

Ó, pátria amada! Idolatrada! Salve! Salve!

terça-feira, 17 de novembro de 2015

O aborto, uma maneira de pensar

Por David Coimbra.

Quem perde na briga entre esquerda e direita
Entrevistei o Brizola umas 10 vezes. Em quase todas, ele disse, acerca da discussão sobre a reforma agrária no Brasil: “A questão da reforma agrária precisa ser desideologizada”.

Escandia as sílabas ao pronunciar essa palavra pedregosa, de-si-de-o-lo-gi-za-da.
Ficava pensando: o Brizola do socialismo moreno criticando as ideologias… É que ele era mais prático do que idealista. Sabia que, quando alguém tenta solucionar um problema através da ideologia, torna a solução quase impossível. Porque a questão vira causa e a causa vira luta e não há como lutar se não houver inimigo. Você precisa lutar CONTRA alguém.



A reforma agrária não foi desideologizada no Brasil. Ao contrário. Não é por acaso que o MST é chamado de “exército” pelo ex-presidente Lula. Hoje, se você der terra a todos os sem-terra, você acha que acabaria o MST? Claro que não. O MST faria o que já faz: recrutaria nas periferias das cidades os seus novos “soldados”, porque a ideologia, além de dar sentido à vida, também pode ser um bom negócio.

Quanto mais ideologizada é uma discussão, mais inócua ela se torna. Para cada Maria do Rosário haverá um Jair Bolsonaro, para cada Marco Feliciano haverá um Jean Wyllys, e nada jamais irá a lugar algum.

Você decerto vê isso no seu dia a dia. Você não resolve nenhuma pendência brigando, resolve ponderando. Cada lado cede um pouco, e todos convivem em paz com suas diferenças. Esse o ideal.

No Brasil, questões humanitárias tornaram-se questões amargamente ideológicas. Não existem, por acaso, homossexuais de direita, que querem ter seus direitos respeitados? É óbvio que sim. Tornar a defesa dos direitos dos homossexuais uma causa exclusiva da esquerda reduz a importância da causa. E atrai opositores encarniçados.

Escrevo isso a propósito do Projeto de Lei 5069, que Eduardo Cunha conseguiu fazer ser aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Esse projeto limita as possibilidades do chamado “aborto legal”. Atinge, diretamente, as mulheres da faixa de renda mais baixa do país. Elas são as maiores vítimas de violência sexual e elas não têm recursos para pagar caríssimas clínicas clandestinas de aborto. O que elas farão, no caso de carregarem o indesejado fruto de um estupro? Tentarão retirá-lo por conta própria.

O aborto legal, em caso de violência sexual, é caso de saúde pública, não é caso de ideologia. Eduardo Cunha e outros deputados conservadores, porém, estão tratando esse tema, e outros tantos, como cavalo de batalha contra seus inimigos da esquerda. Quem vai sair perdendo, nessa disputa? As mulheres pobres e indefesas das periferias do Brasil.

Os direitos dos homossexuais, a regulação do uso das drogas, o porte de armas, a violência contra a mulher, a violência em geral, a reforma agrária, a educação, a saúde, o aborto e várias outras questões importantes do Brasil precisam de debates feitos com inteligência, não com emoção. Não são bandeiras da esquerda nem da direita. São problemas a serem resolvidos com bom senso.

Pessoalmente, nessa questão específica do aborto, penso que a grávida deveria ter o direito de decidir se quer ou não fazê-lo, até porque ninguém, a priori, sente vontade de se submeter a essa operação. É algo que se faz por necessidade. Mas essa é uma discussão longa, cheia de vírgulas éticas e morais. Agora, se você prefere ser como o Brizola, se você quer ignorar a parte ideológica para entrar na prática, peço-lhe para abrir um mapa-múndi na sua frente e marcar os países onde o aborto é permitido com uma cor e aqueles em que não é permitido com outra cor. Você verá a diferença entre uns e outros. O que, talvez, sirva para alguma reflexão.



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O sucesso ao alcance de todos

Por David Coimbra
ZERO HORA

Crônicas

O sucesso ao alcance de todos
Temos de observar os sinais dos tempos a fim de aproveitar oportunidades. Os economistas dizem isso, e eu acredito nos economistas. Sendo assim, nesta nossa época de opiniões despudoradamente expostas, estou preparando um curso que me tapará de verdes dólares. O nome será mais ou menos este: "Como fazer sucesso intelectual sem fazer força".

Aos candidatos em potencial, dou as primeiras dicas. Para começar, seria importante encontrar um preconceito para combater. Lutar contra um preconceito é muito simpático, dá a você um ar contestador, rebelde, até feroz, de quem é contra o status quo. É bacana ser contra o status quo. Melhora o seu status. Além do mais, uma causa justifica o homem e atenua seus erros. Veja o caso do governo. O governo faz tudo o que faz, e alega que é pelos pobres. Fica até bonito ser incompetente, se é pelos pobres.



Mas, infelizmente, quase todos os preconceitos estão loteados. O Facebook pulsa e freme de textos indignados, depoimentos chocantes e desabafos comoventes de combatentes de preconceitos. Eles gritam sua revolta, ganham centenas de curtidas, e é lindo.

O jeito é apelar para uma reunião de velhos preconceitos, que, combinados, também geram resultado. Então, seja incisivo, ainda que inócuo. Use frases como "O racismo no Brasil é muito pior, porque é dissimulado". Ou: "Isso é um produto da nossa cultura machista".

Quando acontecer alguma coisa ruim com um rico ou um famoso, e as outras pessoas lamentarem, critique-as com acidez e sarcasmo, dizendo que coisas ruins aconteceram com pobres e desconhecidos, e essas mesmas pessoas não se importaram. A folhas tantas, ressalte que temos "uma dívida histórica a pagar". Finalize com uma boa: "É a hipocrisia da nossa elite".

Lembre-se de atacar a imprensa. "Quarto poder" está meio batido. Empregue a palavra "mídia", que tem uma deliciosa conotação de conspiração maligna. Diga coisas como "Isso não sai na mídia". Se você for jornalista, melhor. Perfeito, eu diria. Porque, ainda que você ganhe dinheiro com a mídia, você posará de insubmisso e parecerá que sabe de solércias e segredos que ninguém mais sabe. Afinal, você está "no ventre da besta", trabalhando contra ela, solitário, heroico, abnegado soldado da verdade. As pessoas vão ficar imaginando como você briga com os patrões malvados e vão suspirar de encantamento.

Se você quiser ser mais específico, cite "os jornalões". Associe-os à ditadura e à burguesia, e comente como a nossa imprensa decaiu.

Ah: a burguesia. Abuse dessa palavra. Ninguém gosta da burguesia, principalmente os burgueses. É claro que você é burguês, ou não teria essas pretensões. Mas isso realmente não importa. Lembre-se do Cazuza, que cantava que "a burguesia fede" e em seguida, para insinuar que era cheirosinho, eximia-se: "Eu sou burguês, mas eu sou poeta". Essa é a lógica. Você é burguês, mas combate os preconceitos. O famoso "bom burguês".

Finalmente, se você tiver paciência, tempo e vontade, pode escrever um livro de ataque ao capitalismo. Mas não diga que você é comunista, que aí já fica ridículo. Diga que você acredita num mundo novo, em que o consumo não paute a vida das pessoas.

É barbada escrever um livro que pareça científico. Basta tomar quaisquer números, comparar com outros números, demonstrar alguma desigualdade e concluir afirmando que o modelo capitalista é injusto, perverso e que está falido.

Aí está! Corra para receber os cumprimentos, a admiração do próximo e, talvez, até algum dinheirinho.

Que tal? Está pronto para ser um su-ces-so? Inscreva-se agora no meu curso!

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Xixi nas ruas

Por David Coimbra
Crônicas
Xixi nas ruas
Vi a notícia de que alunas da Universidade de Pelotas ficaram nuas durante uma manifestação feminista, dias atrás. Não é novidade, mulheres têm tirado a roupa por ideologia, calor ou diletantismo. Mas houve algo de inédito nesse protesto, algo que me fez trocar o tema da crônica. Ia escrever sobre aquele terrível projeto do Cunha, o PL 5069, contra o qual espero que as meninas tenham protestado e a respeito do qual escreverei amanhã. Por ora, atenho-me a um gesto das peladas de Pelotas: elas urinaram em baldes, a fim de reclamar contra os homens que urinam na rua. Isso realmente me intrigou. É uma reivindicação muito justa essa, de que os homens parem de fazer xixi na rua. É um troço nojento. Será hábito dos pelotenses?



Acho que não. Isso acontece em todo o Brasil. No Rio, o xixi na rua se tornou caso de polícia. No Carnaval do ano passado, mais de mil pessoas foram multadas em até R$ 500 cada uma, lembro bem desse número. Cento e tantas foram presas. Só que mais de 10% dos infratores eram mulheres.

Agora: é claro que os homens fazem muito mais xixi na rua do que as mulheres, devido à facilidade da operação. O homem permanece de pé, é tudo muito rápido e dissimulado.

Obviamente, sou contra esse comportamento incivilizado, mas, por amor à verdade, tenho de confessar que já o cometi.



Foi assim: eu trabalhava no Centro e, no fim do expediente, saí com colegas para tomar uns chopes. Tomamos vários. Na hora de ir embora, senti uma vontadezinha de ir ao banheiro, mas cometi o erro de pensar: estou com pressa, faço xixi em casa.

Eis um ensinamento precioso que aprendi neste mundo, mundo, vasto mundo, caro leitor. Se há um conselho que posso dar, certamente é este. Preste atenção, imprima a frase seguinte em letras douradas e pendure-a, devidamente emoldurada, em um lugar em que ela esteja sempre à vista. É a seguinte:

“Se você sentir vontade de ir ao banheiro, vá”.

Sim, vá, porque, se não for, todo o seu ser logo estará a serviço daquela imperiosa necessidade, e nada mais será relevante na vida, nem o amor, nem a glória, nem o dinheiro, nem a fome mundial, nem a cura da ressaca, nada.



Pois, naquele dia, não fui ao banheiro. Tomei o lotação rumo à Zona Norte e, nem bem o carro arrancou, percebi que precisava, PRECISAVA!, esvaziar a bexiga. O lotação seguia devagar pelas ruas da cidade, parava nas esquinas à espera de passageiros que não vinham, e eu, angustiado como poucas vezes na existência, só pensava em chegar em casa.

Seguíamos lentamente, o motorista olhava para um lado e outro da rua e avançava a 10 ou 20 km/h, uma aflição. A cada semáforo, eu gemia. A cada solavanco, meus órgãos internos doíam e latejavam. Todo o meu corpo reclamava por se ver livre daquele excesso líquido.

O lotação foi rodando, moroso, trepidante, como num pesadelo. Até que, à altura da Carlos Gomes, não aguentei mais. Pedi ao motorista que me deixasse numa esquina, desci correndo, esquivei-me para um canto escuro da rua e, ahhhhhhhh! Aaaaaaaaah!, fiz o xixi mais espetacular da minha vida. O prazer que senti naquele momento foi maior do que toda a vergonha, todo o receio de ser flagrado, todo o apelo milenar da civilização. Sorri, ao cabo daquele xixi. Vibrei. Cantei. Era um novo ser humano que fechava a bragueta, um homem mais leve. Mais feliz.

Errei. Sei que errei. Mas, devido às circunstâncias, espero que as meninas de Pelotas me perdoem.