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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A burocracia por princípio

Por Roberto DaMatta, no Opiniao e noticia

Cartórios, decretos e diplomas
Em 1968, bastou um humilde requerimento para a Universidade de Harvard me enviar pelo correio o diploma de Master of Arts em Antropologia. Dois anos depois — após escrever uma tese — recebi, com a mesma ausência de pompa, o título de doutor em Filosofia (o tal Ph.D), que nos anos 70 causava um furor invejoso no Brasil — este país das papeladas e dos papelões.

Rico

Das carteiras de identidade, alvarás, cartas de motorista, diplomas, certificados, títulos, atestados e certidões que, num sentido preciso e ibero-kafkiano, revelam que a papeladaa carteira e o diplomaconta mais que nós.

Essa é a lógica dos decretos que aumentam absurdamente o salário dos parlamentares. Eles revelam que a lei não tem nada a ver com a economia moral da democracia. A que condiz com uma concepção do serviço público como expressão de uma aliança positiva entre Estado e sociedade. Pois, no Brasil, é a sociedade que sustenta um Estado absurdamente autorreferido e perdulário. Esse é, sem dúvida, o traço distintivo de um presidente que sai registrando a obra em cartório!

Quando recebi o canudo, falei sobre essa informalidade com colegas americanos. A resposta foi dura para os meus ouvidos de brasileirinho socializado para ser um aficionado de títulos: o que vale não é o diploma, mas a obra.



Uma outra experiência notável foi ter que reconhecer a firma do presidente da Universidade de Harvard no consulado brasileiro. Sem tal aval, que meus colegas harvardianos achavam absurdo, o diploma não poderia ser levado em conta na universidade que me havia licenciado para a especialização na Harvard. Eis o nosso paradoxo ou ardil 22. Sem um papel você não pode ter o papel que precisa e sem esse papel, você não existe. A vida começa com um papel e você não nasce de uma trepada, mas de uma ida a um cartório.

Pior que isso, só a diplomação de Dilma Rousseff, eleita pelo povo a primeira mulher a ocupar a Presidência no Brasil. Pela mesma lógica o voto te fez presidente, mas sem um alvará você não pode exercer o poder que lhe foi dado pelo povo. Essa é uma das provas mais cabais do nosso perverso amor às papeladas que engendram papelões.

O povo elege, mas, sem o alvará do Supremo, o eleito não é nada. Vejam o absurdo: depois de uma eleição nacional, alguém tem que ungir os eleitos com os santos óleos da burocracia, tal como os papas faziam com os imperadores na antiguidade. E depois dizem que eu idealizo e invento um detestável “Brasil tradicional” na minha modesta e ignorada obra antropoliterária.

Faço questão de notar, porém, que pouco adianta denunciar esse gosto pela papelada se o drama nacional continua sendo gerenciado por esse importante e pouco discutido teatro de burocracias e formalidades. Pois, entre nós, o documento vale mais do que vida e a história. O alvará que confirma, também libera os candidatos corruptos, condenados pela Lei Ficha Limpa na base de detalhes processuais. A gramática, como sempre, elimina a verdade do discurso. Por isso gostamos tanto dos diplomas que dizem que somos o que não somos.

Entrementes, porém, já sucede um entretanto: Lula — que vai saindo como nunca nenhum presidente deixou o cargo neste paísmanda registrar em cartório os seus feitos como presidente, exagerando aqui e ali nos eventos e deixando de lado o mais importante: o fato de ter sido o primeiro mandatário de esquerda eleito no Brasil; o fato de ter sido o primeiro presidente de um partido ideológico mas que governou como um coronel político tradicional, aliando-se sem pejo ou dúvida aos outros coronéis do nosso sistema de poder.

Que o seu partido, dito o mais moderno do Brasil, fez um mensalão e ama os cartórios lusobrasileiros onde tudo cheira a mofo e não há movimento, mas somente papelada. O salvador dos pobres consolida o capitalismo financeiro; o autêntico operário — aquele que seria a voz do povo destituído — foi o mais mendaz mandatário da história do nosso país.

O registro em cartório prova como somos mais moldura do que quadro; como gostamos mais do vestido do que da dama; como preferimos a forma ao conteúdo. E como pensamos que a verdade é mesmo feita de papeladas e registros com firma reconhecida.

Nota do Pilórdia: mendaz - segundo o dicionário priberam:
adj. 2 gén.adj. 2 gén. = Mentiroso (por hábito); falso.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Entre fraldas e fraudes

Por Roberto da Matta para o Estadão
Transcrito do CliqueMT


Entre fraldas e fraudes
Quando virei avô, um papel social para o qual eu contribui apenas indiretamente, pois como sabe o óbvio mais ululante quem faz os netos são os nossos filhos, entendi a força daquilo que chamamos de "graça". A graça de ter uma filhinha e dois filhos que repetiam o lado mais humildemente humano do meu trajeto, correndo o risco de gerar filhos e, mais que isso, de honrá-los neste mundo; a graça de viver o papel de "pai com açúcar" ou de ser "pai duas vezes" porque os elos entre os avós e os netos têm aquela mesma obliquidade ou distância da dos tios: eles passam por uma outra pessoal, são sempre indiretos. Por isso, permitem o resgate de uma igualdade insuspeita, marcada por uma liberdade graciosa e, às vezes, repleta de humor, que permite falar com os netos sobre coisas impossíveis de serem tocadas com os filhos.



Outro dia, perguntei ao meu neto mais velho, Samuel, se ele estava amando muito. Ouvi um bom e sonoro sim como resposta e, em seguida, a pergunta inesperada que só ocorre entre iguais: e você vovô, como vai de vida amorosa?


Bill Cosby, um genial comediante americano negro, contava como, aos 10 anos, foi visitar o avô que, engravatado, lhe ofereceu uma cerveja, deu-lhe um charuto, sentou-o numa confortável cadeira de balanço e, em seguida, perguntou-lhe sobre o que ele achava da política do Partido Democrata. Cosby discutia política nacional dando gostosas baforadas com o pai do seu pai, quando o genitor chegou e liquidou a farra de uma igualdade que só pode existir entre as gerações alternadas, como sabiam os antropólogos da minha tribo.



 Os laços entre pais e filhos contêm uma rígida autoridade que se alterna e compensa pelo tratamento chistoso e livre entre avós (ou tios) e netos (e sobrinhos), esses papéis que eram semelhantes em Roma e em muitos outros sistemas de família e parentesco.



Podemos ser fraudes como genitores, mas é impossível fraudar o papel de avô. Num caso, exige-se muito; noutro, a fraude é substituída pelas fraldas.

Ora, fraudar é mais do que mentir: é criar ilusões, é inventar competências, é encobrir malfeitos com imagens e propaganda enganosa. Fraldar, porém, diz respeito a fazer exatamente o oposto. Trata-se de vestir o infante, dando-lhe aquela primeira tintura de um traço que temos como básico na nossa sociedade: a diferença essencial entre o sujo e o limpo.

Se as regras forem realmente honradas, as fraudes devem ser punidas; fraldas, entretanto, são jogadas fora. Mas tanto a fralda quanto a fraude implicam alguma "sujeira", no sentido popular do termo. Fraudes remetem a falcatruas e hipocrisias (por exemplo: eu falo que vou fazer isso ou aquilo só para ter votos); fraldas têm tudo a ver com mamadas e banhos que fazem crescer.

 Ademais, elas limpam e separam o sujo do limpo. Entende-se, portanto, o ato falho auditivo da candidata Dilma quando, ao ser indagada sobre "fraldas", entendeu que era questionada sobre "fraudes".


Estas mal traçadas sobre o que significa ser avó ou avô, esses papéis nos quais - dizem - o sexo e a sexualidade não têm mais importância, talvez ajudem a compreender a falha da audição de uma candidata tão preocupada em pretender ser o que obviamente não é; que a fralda da avó se confunde com a fraude tão comum na política do partido que ela representa.

Um dia eu escrevi um texto teorizando sobre o "voto amigo", no qual justificava por que não ia votar motivado ideologicamente, mas por simpatia pessoal. A nota, que foi recebida furiosamente por uma esquerda que sempre espuma de ódio com os outros, mas vive debaixo de uma ética de condescendência consigo mesma, foi escrita com o intuito de politizar os elos pessoais. Os laços de amizade e reciprocidade que até hoje nos obrigam a escolher mais pessoas amigas do que representantes de posicionamentos políticos ou movimentos sociais como motivos para o voto.



Se tudo - inclusive e, sobretudo, o sexo - é política, como me ensinava um professor ativista nos idos de 1960, então por que os amigos não são também "politizáveis" e, assim assumidos, transformados em figuras capazes de trazer à nossa consciência, que se quer transformadora, as eventuais desarmonias entre partidos e ideologias; entre as incoerências dos hábitos praticados sem pensar e das instituições desenhadas para transformar o mundo?

Afinal de contas, eis o que eu dizia: se exigimos uma politização do mundo, como deixar de fora os amigos, a casa, os parentes e os compadres? Se a coerência é impossível, não seria o caso de discuti-la e, assim, politizá-la no sentido mais produtivo dessa palavra?


Fiquei muito feliz descobrindo que muitos brasileiros geniais, ilustres e sábios, como Caetano Veloso e Oscar Niemeyer, vão votar em amigos. O arquiteto vai votar em Marco Maciel, um neoliberal que, para muitos, deveria queimar no inferno, porque, diz Niemeyer, "eu o conheço há muito tempo e ele é inteligente, discreto, honesto, honestíssimo".



Haveria algum problema entre o desejo de mudar, permanecendo leal àqueles que "eu conheço"? A amizade suspende todos os juízos, leis e normas? Afinal, pelos amigos podemos fazer tudo. E se Judas, Stalin, Fidel, Chávez ou Hitler fossem meus amigos?

Eu acho que é preciso distinguir fraudes e fraldas. E essa distinção é o projeto mais básico no nosso momento político-eleitoral.