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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Lula isolado e sem discurso

Por Ricardo Kotscho.
Transcrito do Diário do Poder

Garimpado por Sebastião Cunha.

Charges de DUKE

Lula isolado e sem discurso
Fiquei triste ao ver e ouvir o discurso de Lula neste 1º de Maio da CUT, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo.

Basta rever as imagens na internet. Em toda a sua longa trajetória, do sindicato ao Palácio do Planalto, Lula nunca ficou tão isolado num palanque, sem estar cercado por importantes lideranças políticas, populares e sindicais.



A presidente Dilma já tinha avisado que não viria, mas desta vez nem o prefeito Fernando Haddad apareceu. Só havia gente desconhecida a seu lado e, ainda por cima, um deles segurava o cartaz em que se lia "Abaixo Plano Levy - Ação Petista", mostrando o descompasso entre a CUT, o partido e o governo.

Também não me lembro de ter visto Lula falando para tão pouca gente, e tão desanimada, num Dia do Trabalhador. Não havia ali sinais de alegria e esperança em quem o ouvia, como me acostumei a acompanhar desde o final dos anos 70 do século passado, nas lutas dos metalúrgicos no ABC.



Lamento muito dizer, mas o discurso de Lula também não tem mais novidades, não aponta para o futuro. Tem sido muito repetitivo, raivoso, retroativo, sempre com os mesmos ataques à mídia e às elites, sem dar argumentos para seus amigos e eleitores poderem defendê-lo dos ataques.

Não que Lula deixe de ter caminhões de razões para se queixar da imprensa, desde que o chamado quarto poder resolveu assumir oficialmente a liderança da oposição e fechar o cerco contra os governos petistas. Só não podemos esquecer, porém, que foi com esta mesma mídia, com os mesmos donos, com as mesmas elites conservadoras, que nunca se conformaram com a mudança de mãos do poder, que o PT ganhou sucessivamente as últimas quatro eleições presidenciais.




... "Nos últimos tempos, porém, com o profundo desgaste sofrido pelo PT após os casos do mensalão e do petrolão, que abalaram o partido da estrela, Lula parece ter perdido os dons do mito que construiu ao longo das últimas três décadas. Política também é feita de símbolos e tornou-se simplesmente impossível descolar um do outro: para o bem ou para o mal, Lula é o PT e o PT é Lula..."



Ao vê-lo e ouvi-lo agora, tive a sensação de estar assistindo ao ocaso de um ciclo mágico, que levou o líder operário ao poder e promoveu profundas transformações sociais em nosso país. Fica difícil até acreditar que, há apenas pouco mais de quatro anos, Lula deixava seu segundo governo com 80% de aprovação popular, aplaudido e reconhecido em todo o mundo como um líder vencedor.

Àquela altura, Lula não precisava fazer nem provar mais nada. Já tinha passado para a história, em lugar nobre, e precisava apenas cuidar da saúde e da própria biografia. Prova do seu prestígio, elegeu e ajudou a reeleger sua sucessora.



Apesar do crônico conflito do PT com a mídia, que se transformou em confronto aberto e agora caminha para uma guerra de extermínio, até seis meses atrás, Lula ainda era apontado em todas as pesquisas, com larga vantagem sobre os demais, como o mais popular presidente da nossa história, em todos os tempos.

Até seus adversários admitiam que o "Volta, Lula" seria só uma questão de tempo. Por isso mesmo, ele entrou agora na mira da aliança midiática-política-jurídica formada para impedir que isso aconteça. Logo descobriram que de nada adiantava jogar todas as fichas das oposições para derrubar Dilma se, em caso de novas eleições, o ex-presidente puder ser candidato.



Nas mais recentes, Lula já não lidera as pesquisas para 2018, em várias regiões do país. Claro que a situação pode mudar até lá, mas a volta de Lula tornou-se bem mais difícil. Pode até chegar à vitória, nunca se sabe, mas um passeio, como se previa, não será mais.

O que aconteceu?

Como seu velho amigo e parceiro de tantas campanhas políticas, percorrendo várias vezes este nosso imenso país de ponta a ponta, também estou em busca de uma resposta. Talvez ele próprio não a tenha. A última vez que nos falamos, por telefone, foi às vésperas da eleição do ano passado. Parecia confiante na vitória do PT, como sempre.



De lá para cá, tanta água passou por debaixo da ponte, em tão pouco tempo, que, em algum lugar da estrada, perderam-se a velha confiança e a capacidade de dar a volta por cima, sem que Lula consiga encontrar um novo discurso capaz de mobilizar os jovens eleitores e os velhos companheiros que ficaram pelo caminho.

Vida que segue.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Ronaldo, e a ressurreição.

imagem do terra
Por Ricardo Kotscho, em seu balaio



Aos 32, Ronalducho ressuscita de novo
O homem é mesmo duro na queda. Três vezes dado como acabado para o futebol, ao sofrer contusões gravíssimas, o Ronaldinho menino prodígio, que virou Ronaldo Fenômeno, o melhor do mundo, e agora o Ronalducho, ele ressuscitou pela terceira vez neste domingo.
Em seu segundo jogo pelo Corintians, bastaram alguns minutos no segundo tempo para este raro talento de 32 anos dar novamente a volta por cima ao empatar com um gol de cabeça, na prorrogação, o jogo que seu time estava perdendo por um a zero para o Palmeiras, em Presidente Prudente.
Uma bola na trave, um drible como nos velhos tempos, um passe sob medida na cabeça de André Santos, e o gol no sufoco - tudo a ver com a trajetória do menino pobre do subúrbio carioca, que conquistou o mundo e depois não soube mais o que fazer com a sua fortuna, e o time que lhe deu a camisa para voltar a ser feliz.
Mais do que o próprio gol, esta terceira ressurreição foi marcada pelo pique de moleque que ele deu, pulando alucinado as placas de propaganda, agarrando com força o alambrado, em direção à torcida do Corinthians, para comemorar junto com ela a sua volta ao futebol, sua alegria e razão de viver.
Ainda anteontem, conversando com amigos num bar, um deles me perguntou o que levava Ronaldo, que não precisa mais disso, e já garantiu a sobrevivência até a terceira geração dos seus descendentes, a se sacrificar tanto para voltar a jogar bola, ralando nos treinos e tomando porrada de tudo quanto é lado pela vida que leva fora dos gramados.
Ao ver no final do jogo a sua cara feliz de quem voltou a fazer o que mais lhe dá prazer, a única que sabe fazer na vida e o diferencia do resto dos mortais, que é marcar gols, encontrei a resposta que meu amigo procurava.
Não é questão de vaidade nem dinheiro. O cidadão Ronaldo Nazário não precisa mais correr atrás de fama e fortuna, mas não consegue viver longe deste mundo do futebol, o único lugar onde ele é reconhecido e aplaudido sem ter que dar satisfações a ninguém.
Basta ouvir o estádio gritando seu nome para ele voltar a ser o fenômeno menino, que encanta a torcida e se irmana com ela, ainda mais sendo esta torcida a do Corinthians.
Se alguém, como eu, ainda tinha alguma dúvida de que este cara nasceu para brilhar e voltaria a jogar bola, contrariando toda a lógica, este domingo foi o dia dele dar a resposta.
Ronaldo ressuscitou de novo e não importa quanto tempo dure o seu amor eterno com a torcida desta vez. No gramado, seu palco, mesmo para um são-paulino, foi bonito vê-lo novamente fazendo o que mais gosta e sabe, como se fosse a sua estréia no futebol.
O futebol brasileiro estava precisando viver um momento de superação como este para voltar a acreditar nele mesmo, como aconteceu com Ronaldo Nazário. Pelo menos, ele ajudou a melhorar a auto-estima dos gordos…