Por Lúcia Rodrigues e Tatiana Merlinopara a revista caros amigosUma missa para o torturador
Uma coroa de flores com o formato e as cores da bandeira nacional enfeita o altar da igreja Nossa Senhora de Fátima, no bairro do Sumaré, capital paulista. Penduradas nela, pequenas faixas com os dizeres, "
ordem e progresso" e "
herói nacional". Ao centro, a foto do delegado Sérgio
Paranhos Fleury, um dos maiores torturadores da ditadura civil-militar (1964-1985), morto há 30 anos.
Cerca de 70 pessoas, entre parentes, amigos, delegados aposentados e representantes da
TFP (
Tradição,
Família e
Propriedade) celebraram na última quarta feira, o aniversário de três décadas de falecimento de Fleury. Entre eles, estava o delegado aposentado Carlos
Alberto Augusto, conhecido como Carlinhos Metralha.
Augusto, torturador temido nos porões do regime, integrou a equipe de Fleury e convocou a missa pela internet: "f
amiliares, amigos, ex-policiais do DOPS e informantes contam com sua presença à missa". Ciro Moura, ex-candidato a prefeito, nas últimas eleições, pelo PTC (Partido Trabalhista Cristão), que herdou o número da legenda de Collor, foi o único político a comparecer à cerimônia.
A missa foi celebrada por
Frei Yves Terral, que, durante a homília, afirmou que "Fleury
teve, há 30 anos, uma feliz ressurreição" e que "esta
mos reunidos hoje para lembrar sua memória, e não deixar a história morrer".
Durante a cerimônia, que teve início às 19 horas e durou 28 minutos e 45 segundos, o religioso disse frases como: "
nós amamos Fleury", "
Deus ama Fleury" e "
Estamos reunidos para lembrar o ideal do jovem Fleury, lembrar que ele tinha um ideal". Na hora do Pai Nosso, Frei Yves pediu aos presentes que orassem "
em nome de Jesus e Fleury".
Devido 'a extensão original da matéria ser longa sou obrigado a postar apenas alguns trechos. Abaixo parte da entrevista das jornalistas acima com o frei Yves Terral.
Tatiana Merlino - O senhor conheceu o delegado Fleury?
Frei Ives Terral - Não, não. Eu estava na faixa de fronteira. Não conheci nem pelos jornais. Os jornais nem chegavam lá. Quando chegavam, era com atraso e era sinal de que não tinha notícia importante no Brasil. Porque quando tinha notícia importante não sobrava para nós. Agora eu acho bonito que celebrem a memória. Herói é uma palavra carregada de poder.
Lúcia Rodrigues - O senhor acha que ele é uma figura polêmica?
Frei Yves - Está na história. Está na história. Só que é uma história que não é contada, por enquanto. O outro lado foi muito bem contado. Porque estão no poder. São sempre os vencedores que contam a história.
LR - Quem são os vencedores?
Frei Yves - Os vencedores que estão no governo atualmente. No PT. Essa história daquele lado está sendo contada. O outro não está e Deus queira que não seja contada tão cedo.
TM - Deus queira que não seja contada, por quê?
Frei Yves - Porque não está na hora de recomeçar o que foi feito, me parece. Porque estamos numa democracia. Que tem que ser corrigida. Vocês da imprensa sabem muito bem. Vocês embaralham até o Lula.
TM - O senhor sabia que o delegado Fleury era um torturador?
Frei Yves - Eu sabia que era um homem político, que contestava. Que teve uma história não apenas de um simples delegado, mas de uma dimensão política mais forte.
TM - Que era um torturador?
Frei Yves - Sei lá se era torturador.
LR - O senhor não sabia que ele era um torturador?
Frei Yves - Escuta aqui. No Araguaia, por exemplo. O soldado que foi mandado para lá, para restabelecer a ordem. Se matou alguém, ele era um torturador?
LR - O delegado Fleury é um torturador. Existem pessoas que foram torturadas por ele e outras que viram companheiros sendo assassinados no pau-de-arara, inclusive.
Frei Yves - Então precisa de mais reza ainda. Precisa mais de reza do que outros.
LR- Mas o senhor sabia que ele era um torturador?
Frei Yves - Eu sabia o que todo mundo sabe. Agora se vocês falam que ele era um torturador... Eu não sei. Eu não lembro, eu estava no Mato Grosso.
LR - A morte dele saiu na TV.
Frei Yves - Mas você pensa que em Mato Grosso tinha TV?
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