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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O tríplex e a biografia do Lulla

Por Sérgio Malbergier.

Só volta ao poder limpa biografia de Lula
O cerco da Justiça está se fechando As armas serão sacadas. O lulismo, o petismo e o governismo mobilizam as tropas que restam, seus advogados, seus movimentos sociais, seus sindicatos e seus escassos simpatizantes para a guerra final.

As investigações da Lava Jato e do Ministério Público paulista sobre o triplex no Guarujá que, tudo indica, um dia seria de Lula são a maior ameaça ao ex-presidente que um dia teve mais de 80% de aprovação popular e hoje dificilmente anda pelas ruas sem a devida proteção.

Arte de SPONHOLZ


Ao contrário dos outros escândalos de corrupção que marcam o currículo de Lula, desta vez as acusações envolvem sua pessoa e família diretamente, um triplex no litoral do qual seria usufrutuário e o acabamento de luxo provido por uma empresa enterrada até a cabeça no maior escândalo de corrupção do país.

Antes mesmo da Lava Jato focar a operação de ontem no célebre edifício Solaris, a força tarefa já havia encontrado uma teia de relações perigosas e obscuras em torno do prédio no Guarujá que envolve a construtora OAS, líderes petistas, uma cooperativa sindical ligada ao partido e um emaranhado de empresas offshores panamenhas.



As investigações do Ministério Público de São Paulo estão ainda mais avançadas. Testemunhas disseram que a reforma do triplex custou mais de R$ 700 mil, foi paga pela OAS e incluía itens luxuosos e exclusivos, como elevador privativo. A obra foi supervisionada por dona Marisa Letícia, esposa de Lula, o filho do casal Fabio e o próprio presidente da OAS. O zelador disse que Lula também esteve por lá olhando o apartamento. Vizinhos até reclamaram de retenção dos elevadores durante as vistas da família real petista.

Arte de THIAGO LUCAS


Em entrevista ao "Jornal Nacional", o advogado de Lula negou que o ex-presidente ou parentes sejam donos do triplex. Perguntando então por que o apartamento teria sido reformado pela OAS e por que a reforma teria sido supervisionada pela ex-primeira-dama, ele respondeu: "Eu não tenho a menor ideia porque houve uma reforma e quem fez esta reforma." Diante dos fatos, é uma resposta inaceitável para a opinião pública, que mina o ex-presidente e sua defesa.

Arte de BENETT


Na verdade, faz tempo que Lula, o PT e o governo Dilma não têm respostas. Por isso estão sendo abandonados por quem leva os fatos em consideração.

Interlocutores ligados a Dilma ouvidos pela Folha já admitem a hipótese de que as investigações acabem liquidando Lula politicamente _o que para Dilma poderia até ser um alento.

Arte de SPONHOLZ


Cada vez mais emparedado, Lula só pensa na volta ao poder nos braços do povo na eleição de 2018. É o único caminho para sua redenção. Sua definitiva absolvição. E vê no governo da sua pupila os meios para seus fins.

Ele vai colocar seu bloco na rua, mesmo gerando mais instabilidade política e turbulência econômica, agravando as crises gêmeas. Já está pressionando Dilma a gastar dinheiro que o país não tem para "reanimar" a economia neste ano eleitoral pois sabe que uma derrota bruta do PT nas eleições municipais será o início do fim eleitoral da era petista.

Arte de MIGUEL


A luta pela sobrevivência política de Lula será dura e cara. Adivinhe quem vai pagar essa conta.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

E ainda ... é proibido proibir?


Por Ruth de Aquino
Publicado na Revista Época
Transcrito de seu blog

É proibido proibir
"Eu digo não ao não. Eu digo. É proibido proibir. É proibido proibir. É proibido proibir. É proibido proibir.” As repetições não são minhas. São de Caetano Veloso, em música-hino contra a censura e a ditadura, em 1968. Franzino e rebelde, ele reagia às vaias no festival gritando: “Os jovens não entendem nada. Querem matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem”. 
Caetano hoje é a favor – com Chico Buarque, Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Milton Nascimento, Djavan e Roberto Carlos – de proibir biografias sem autorização prévia dos biografados ou de seus herdeiros. Essa aliança entre a Tropicália e a Jovem Guarda quer liberar só as biografias chapa-branca. Nossa “intelligentsia” musical é formada por mitos enrugados e calejados por seus atos e desatinos. São músicos brilhantes, mas péssimos legisladores. 

 arte de BERTONI
Claro que Caetano tem o direito de mudar de campo e querer proibir. A idade mudou e, com ela, a cor dos cabelos. Aumentou o tamanho da sunga e a conta no banco. Anda com lenço e documento. Pode mudar o pensamento. Por que não? Não seria o primeiro. Quem não se lembra da admiração tardia de Gláuber Rocha por Golbery do Couto e Silva? Depois do exílio, em 1974, antes de voltar ao Brasil, Gláuber disse achar Golbery “um gênio”. Pagou por isso. 
Caetano só precisa sair do armário. Abraçado a Renan Calheiros e aos podres poderes do reacionarismo – hoje travestidos, na América Latina, de defensores do povo. Na Venezuela, na Argentina, no Equador, na Bolívia, o movimento é o mesmo de nossos compositores no Olimpo. A liberdade de expressão é relativa e tem de ser monitorada e pré-censurada.

Arauto da vanguarda, Caetano tem o direito de reescrever sua história. Em vez de matar o amanhã, o chefão da máfia do dendê quer matar o passado, quando for clandestino e incômodo. Ele agora diz sim ao não. As lembranças privadas, quando tornadas públicas, podem incomodar a sesta depois do vatapá.
autoria?

O grupo de músicos contra biografias não autorizadas foi intitulado “Procure saber”. Deve ser uma licença poética da MPB, porque significa o oposto: “Procure esconder”. Ou, quem sabe: “Procure aparecer”. Querem acossar nossa Constituição, favorável à liberdade de expressão, com um artigo pernicioso do Código Civil. O Artigo 20 estabelece que textos, palavras e livros poderão ser proibidos por qualquer pessoa, “a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”.

Os termos são tão subjetivos que poderiam ser usados para cortar e censurar colunas e composições de nossos músicos combativos. Muita gente já sentiu sua honra ferida pela verve da MPB e pelas polêmicas de Caetano na imprensa. Incomoda, portanto, a contradição do libertário provocador. Só ele pode dizer o que pensa sem pedir permissão?

Há outro detalhe que explica a patrulha contra Caetano. Um detalhe moreno de 1,73 metro de altura, coxas fortes e cabelos compridos. É sua ex, Paula Lavigne, que aos 13 anos começou a namorá-lo. Hoje produtora e empresária, Paula ocupa o cargo pomposo de “presidente da diretoria do grupo Procure Saber”, que ela chama de “uma plataforma profissional de atuação política em defesa dos interesses da classe”...

É a mesma que arremessou um BMW blindado contra a garagem do flat onde se hospedava Caetano logo após a separação. Barrada pelos seguranças, derrubou o portão de 270 quilos. Gaba-se de ter multiplicado a fortuna de Caetano. Passou depois a produzir filmes, discos e shows. Presenteou os fãs com uma foto, em rede social, de Caetano pelado. Nu frontal.

Paula tenta ler reportagens antes da publicação, porque acha que pode. Age como imperatriz louca da Tropicália. Sua resposta, no Twitter, a uma colunista da Folha de S.Paulo, dizendo que “mulher encalhada é f...”, não faz jus a seu cargo. “Tw ñ paga minhas contas”, tuitou Paula, isso é “muita baixaria” (!). Ter um porta-voz como ela é suicídio para qualquer causa. Feliz é Chico que se casou com Marieta Severo, atriz com luz própria, discrição, inteligência. Quem acredita no discurso de Paula, de que a preocupação dos músicos é com os lucros do biógrafo e com o sensacionalismo? No Brasil, biógrafo nenhum fica rico com os livros.
arte de ALAN SOUTO MAYOR


O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou que vetar a publicação de biografias que não tenham autorização prévia é “censura” e, por isso, “inadmissível” no estado de direito. Disse que qualquer eventual calúnia ou difamação deve ser reparada pelo Judiciário. O músico Alceu Valença concorda: “Arrisco em dizer que cercear autores seria uma equivocada tentativa de tapar, calar, esconder e camuflar a história no nosso tempo e espaço”.

Em seus artigos, Caetano costuma perguntar se nós, brasileiros, perdemos nossa capacidade de indignação. Ele diz que detesta demagogia. Nós também. Detestamos demagogia, caretice e obscurantismo. Apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia.