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terça-feira, 3 de maio de 2016

Por quem Lula chorou?

Por Valdo Cruz.


Por quem Lula chorou?
Lula foi às lágrimas no dia da derrota da batalha do impeachment. Ao lado de Dilma, ele chorou três vezes quando a Câmara aprovou a abertura do processo de impedimento contra sua criatura.

O ato de chorar implica profundo sofrimento e demanda respeito – a não ser quando são vertidas lágrimas de crocodilo, o que não era o caso. Mas por quem Lula chorou?



Por Dilma? Certamente, ao ver a seu lado, no Palácio da Alvorada, alguém que, pela história política, não merecia tal destino. Só que Lula também sabe que ela, durante seu governo, fez por onde ser derrotada.

O ex-presidente deve ter se lembrado dos inúmeros conselhos dados à petista nos últimos anos, mas que não foram acatados. Ali, em seu silêncio e olhando pelas vidraças do Alvorada, deve ter se perguntado: por que ela não me ouviu? E chorou.

Pelo PT? Também, ao notar que naquele momento ficava mais complicada sua tarefa de recuperar o projeto original de seu partido, perdido nas negociatas do petrolão ao virar farinha do mesmo saco e aderir ao velho esquema da propina.



Por ele mesmo? Com certeza, ao sentir que o legado de seu governo corre sério risco de ser aniquilado pelo fracasso da administração de sua sucessora. Naquele instante, Lula deve ter refletido: por que a escolhi candidata? E chorou.

Pelo Brasil? Talvez, mas deveria, porque não tivesse hoje o país mais de 10 milhões de desempregados e mergulhado na pior recessão da história o destino não reservaria tal desfecho para ele e Dilma Rousseff.

Em suas reflexões, o ex-presidente deve estar, principalmente, matutando com os amigos: por que sua criatura nunca fez, de fato, uma autocrítica e assumiu seus erros.



Enfim, interlocutores e amigos de Lula têm a avaliação de que Dilma se aproxima da hora de se afastar do governo numa atitude de autonegação –e quando não se enxerga os próprios erros não se evita os precipícios. Deu no que deu. E em choro.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Dilma ensaia um mea culpa

Por Valdo Cruz.
Publicado na Folha em 04AGO2014


Ato de contrição
A promessa foi feita em conversas, diríamos, prospectivas para convencer alguns donos do PIB a bancar a conta da eleição. Nada diferente do tradicional. Só que, até agora, nenhum sinal, nem de fumaça, foi visto saindo do Planalto.



Em busca da confiança perdida, interlocutores muito próximos da presidente Dilma prometeram por aí que ela faria uma autocrítica. Admitiria erros e sinalizaria mudanças num eventual segundo mandato.

Diante da falta de gestos presidenciais, duas leituras são possíveis. Os interlocutores da petista podem ter vendido terreno na lua ou ela ainda reflete se e quando faria tal ato de contrição público.

Tiago Recchia


O fato é que a turma que prometeu segue defendendo que tal sinalização seja feita ainda na campanha. E jura ter tratado do tema com a própria. Admite, contudo, não ter havido definição final sobre o assunto.

A resistência presidencial em reconhecer erros tem, porém, defensores dentro do governo. Esse grupo tacha de "loucura" e "obra de inimigos" falar de autocrítica em época de campanha eleitoral --a dúvida é se somente em tempos de eleição.

Duke


Enquanto isso, a presidente prefere culpar a crise internacional e o pessimismo reinante pelo fraco crescimento econômico. É o mesmo que tirar o corpo fora da dividida e dizer que a cara amarrada dos empresários travou o país.

Até parece que, para Dilma, dá para pôr fim no pessimismo por decreto. É como se o empresário acordasse de mau humor, lesse os jornais de manhã e chegasse ao escritório decidido a parar investimentos --nada a ver com intervenções e equívocos do governo. 



Socorro.

Só que, a contragosto, o mundo real pode forçar uma autocrítica da petista. Aqui, a economia esfria cada vez mais perto do período eleitoral. Já lá fora ela começa a aquecer.

Tudo isso, porém, não vai interferir na generosidade de doadores de campanha. Ninguém quer desagradar uma possível futura presidente.