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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Perguntas que não se calam

Por Nelson Motta.
O Globo
Perguntas que não se calam
Com uma imensa população que adora futebol, grandes redes de televisão, patrocinadores poderosos, excelentes estádios, fartura de jogadores, o Brasil seria o mercado ideal para investimentos muito lucrativos no futebol profissional. Até nos Estados Unidos e na China o business do futebol está bombando. Por que os clubes brasileiros estão quebrados?

O pré-sal foi anunciado como o nosso “passaporte para o futuro” e houve briga acirrada pelo butim antes mesmo de extraída a primeira gota. Com o barril de petróleo a 30 dólares e os altos custos de produção do pré-sal crescendo, logo a exploração vai custar mais caro que a venda.

Arte de MARCO AURELIO


Mesmo sendo presidente da Petrobras durante a roubalheira institucionalizada, mesmo que os seus diretores e os seus maiores fornecedores estejam presos, José Sérgio Gabrielli ainda não foi sequer indiciado na Lava-Jato. O que a razão e a lógica não explicam, talvez só o esotérico possa responder: qual é o terreiro baiano que protege tanto Gabrielli?

Por que políticos ladrões acham que roubar para o partido, a campanha, o projeto, é mais nobre do que para si mesmo, se o dinheiro da corrupção servirá para fraudar o processo eleitoral e a democracia, roubando dos outros candidatos e de toda a sociedade o direito a eleições justas? Para criminalizar de verdade o caixa dois, os roubos para fins políticos deveriam ter uma agravante de um terço da pena, pela amplitude dos danos que provocam.

Arte de NANI


Como o setor público tem tantas vantagens funcionais e aposentadorias tão generosas, não seria justo que os funcionários que usem seus cargos vitalícios e seus poderes para roubar também tenham as suas penas agravadas?

O sociólogo petista Jessé Souza, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), diz que a culpa da corrupção é do capitalismo. No socialismo e no comunismo não se rouba? Mais Estado, mais corrupção.

Arte de SPONHOLZ


Por que o governo federal e o estadual, em época de penúria da Saúde, não tem vergonha de seus orçamentos milionários de (auto)publicidade, que não sofreram cortes? Para nos dizer, com nosso dinheiro, que somos idiotas?

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Por Nelson Motta.

O poder da galhofa
Como imaginar que alguém que se expressa de forma tão confusa tenha um pensamento organizado e lógico sobre um tema complexo?

A galhofa é um traço marcante do espírito brasileiro, e se manifesta até nas grandes adversidades e em momentos dramáticos, como uma forma de desmoralizar o sofrimento, a raiva e a frustração. Sinaliza o fim do jogo, a derrota sem honra, a retirada sem dignidade. O riso e o deboche anunciam o fim de uma era e a saída de cena de seus protagonistas sob vaias da plateia.

Dilma fala sobre os Ministérios


Os bonecos de Lula presidiário e de Dilma com nariz de Pinóquio os atingem em cheio onde mais temiam. No início da crise e ameaçando entrar na guerra, Lula disse que suportaria tudo, menos ser chamado de ladrão. E Dilma, que até FH reconhece como honrada e nem a oposição mais feroz acusa de roubar, para 93% dos brasileiros é mentirosa. Não há crescimento econômico nem marketing que façam um mentiroso voltar a ser acreditado.

O que preocupa em Dilma é a conexão entre a sua forma de falar e o seu pensamento. Como imaginar que alguém que se expressa de forma tão tortuosa e confusa, mesmo nos assuntos mais simples, tenha um pensamento organizado e lógico sobre um tema mais complexo? Não é questão de oratória, talvez de neurolinguística, sintetizada na piada do “Piaui Herald”: “Dilma faz delação premiada, mas PF não compreende nada”.

Dilma fala sobre o Programa Mais Médicos


Dilma detesta privatizações e faz concessões de serviços públicos a contragosto, não gosta de nada que diminua o tamanho e poder do Estado. Será que ela nunca percebeu que um escândalo como o da Petrobras nunca aconteceria numa empresa privada do mesmo porte? Quadrilha de políticos e empreiteiros rouba Shell em bilhões de dólares! Valor de mercado cai pela metade com o escândalo Shellão... rsrs.

Claro, isso só acontece em empresas estatais; são 140 controladas pelo governo, dominadas pelo poder político e pelo aparelhamento partidário, usadas para tapar rombos e financiar campanhas. A maior inimiga da corrupção é a privatização.



Se a Petrobras tivesse sido privatizada em 2002, como Lula acusava Alckmin de tramar, não haveria petrolão. Mas nosso nacionalismo prefere ser roubado por patrícios a fazer boas parcerias internacionais ou pagar a estrangeiros por bons serviços.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Aos amigos petistas, por Nelson Motta

Por Nelson Motta.
Publicado em O GLOBO em 07AGO2015.

Charges de NEWTON SILVA

Aos amigos petistas
Petistas inteligentes sabem que o sonho acabou, ‘game over’, zé fini, pelo baixo nível e alta voracidade dos seus quadros


Nunca perdi um amigo por causa de política. Tenho vários amigos petistas que merecem meu afeto e respeito, alguns até minha admiração, e convivemos bem porque quase nunca falamos de política, talvez por termos assuntos mais interessantes a conversar. Mas agora o assunto é inevitável. E eles estão mais decepcionados do que eu.

Também tenho amigos tucanos, comunistas, conservadores, não meço a qualidade das pessoas pelo seu time, religião ou suas crenças políticas, em que sonhos, idealismo e equívocos se misturam com ambição, desonestidade e incompetência para provocar monstruosas perdas de vidas, dignidade e dinheiro ao coitado do povo que todos eles dizem amar.



O PT está caindo aos pedaços, depois de 13 anos no poder, com grandes conquistas e imensos desastres, mas a perspectiva de ser governado pelo PMDB ou pelo PSDB não é animadora. Claro que há gente decente e competente nos dois partidos, mas a maioria de seus quadros e dirigentes não é melhor do que os piores petistas, e vice-versa.

Chegamos finalmente ao “nós contra eles” que Lula tanto queria... quando era maioria... e agora se volta contra ele, perseguido como os judeus pelos nazistas e os cristãos pelos romanos... rsrs.



Se não fosse tão arrogante e autoritária, Dilma mereceria pena, porque não é desonesta, mas é mentirosa e sua incompetência nos dá mais prejuízos do que a corrupção. Suas falas tortuosas são a expressão da sua confusão mental.

E se Lula não fosse tão vaidoso e ambicioso, tão irresponsável e inescrupuloso, não teria jogado a sua história na lama por achar que está acima do bem e do mal e que nunca descobririam que ele sempre soube de tudo.



Petistas inteligentes e informados sabem que o sonho acabou, game over, zé fini, não por uma conspiração da CIA, dos coxinhas ou da imprensa golpista, mas pelos seus próprios erros, pelo baixo nível e alta voracidade dos seus quadros, pela ganância e incompetência que nos levaram ao lodaçal onde chafurdamos.

É triste, amigos petistas, o sonho virou pesadelo, mas não foi a direita que venceu, foi o partido que se perdeu. O medo está dando de 7 a 1 na esperança.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Dramas..., por Nelson Motta







Por Nelson Motta.
Publicado no Globo em 06SET.
Transcrito do blog de Augusto Nunes

Dramas, Comédias e farsas
A cena obscena de centenas de deputados, com seus cabelos pintados, seus gritos de júbilo e seus punhos cerrados, comemorando o fim do voto secreto, é uma imagem histórica do cinismo e da hipocrisia no Brasil. Só faltou cantarem o Hino Nacional. Boa parte deles havia permitido a manutenção do mandato do deputado-presidiário Natan Donadon, assim como em 2006, pressionados pela explosão do mensalão, 452 colegas já haviam aprovado o mesmo projeto, mas só em primeiro turno, na certeza de que não haveria o segundo. Agora tiveram que votar, mas sabendo que o Senado vai manter o voto aberto só para cassações de mandatos.

autoria ?


Com certeza eles superam qualquer ficção, mas a grande dúvida é: drama, comédia ou farsa? Ou tudo junto e misturado? Será que eles não sentem vergonha com a família, os amigos, os vizinhos, o dentista? A quem eles pensam que enganam? Ou seria uma manada desgovernada lutando pela sobrevivência política, mesmo ao custo de alguma humilhação pública e na esperança de um próximo escândalo para esquecerem do assunto?

Tenho respeito e sinto pena dos homens e mulheres de bem que representam honestamente seus partidos e eleitores tendo que conviver com os 300 picaretas que Luiz Inácio falou, e de lá para cá só aumentaram. É óbvio: num ambiente desses é muito mais fácil um novato honesto se corromper pelas oportunidades, facilidades e vaidades do que um corrupto se regenerar, no que seria uma espécie de cura gay política.

Amorim


Enquanto isso, na mesma Esplanada, desenvolve-se outro drama, comédia ou farsa? Todos concordam, é intolerável ter sua privacidade invadida, decisões estratégicas interceptadas, interesses do país ameaçados, mas todos sabem que desde sempre todo mundo tenta espionar todo mundo com todos os meios de que dispõe, agentes, tecnologia, dinheiro, afinal, todos estão defendendo a sua segurança e soberania. A única regra é não ser flagrado.

Paixão


O que fazem os serviços de inteligência brasileiros? O que fariam se o Brasil fosse alvo do terrorismo internacional? Na era da internet espiona quem pode, defende-se quem for capaz. Bem vindos ao século 21.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A política, segundo Tim Maia’- por Nelson Motta


PUBLICADO NO GLOBO EM 10JAN.2013
Por Nelson Motta - transcrito do blog de Augusto Nunes

A política, segundo Tim Maia’
Sempre que perguntada, a maioria da população brasileira tem se manifestado contra a liberação do aborto, da maconha e do casamento gay, e a favor da pena de morte e da maioridade penal aos 16 anos. Sem dúvida são posições conservadoras, ou “de direita”, como diz o Zé Dirceu, e, no entanto, são esses que elegem os governos e as maiorias parlamentares ditas “de esquerda” hoje no Brasil. Como harmonizar o conservadorismo na vida real com o progressismo na política?


Talvez Tim Maia tivesse razão quando dizia que, “no Brasil, não só as putas gozam, os cafetões são ciumentos e os traficantes são viciados, os pobres são de direita”. Uma ingratidão com a esquerda que lhes dá o melhor de si e luta pelo seu bem estar. Mas tanto a maioria dos velhos pobres como dos novos, da antiga classe média careta e da nova mais careta ainda, e, claro, as elites, acreditam em Deus, na família e nos valores tradicionais, e rejeitam ideias progressistas. Discutir, apenas discutir as suas crenças, é considerado suicídio eleitoral.
Quando Abraham Lincoln, em 1862, promulgou a Homestead Law, a lei da reforma agrária nos Estados Unidos, assegurando a cada cidadão o direito de requerer uma propriedade de até 4 mil metros quadrados de terra do Estado, pagando 1 dólar e 25 centavos, criou milhões de pequenos proprietários rurais ─ que deram origem às grandes maiorias conservadoras de hoje, que ganharam sua bolsa-terra e não querem mudar mais nada. Uma ação politicamente progressista gerou milhões de novos reacionários.

Um século e meio depois, no Brasil, a nossa “nova classe média”, que tem casa, carro, crédito, viaja de avião e é eleitoralmente decisiva, parece ser ainda mais conservadora do que a “velha”. A ascensão social exige segurança e instituições sólidas, quer conservar o que conquistou e reage a mudanças que ameacem suas conquistas. Como Tim Maia, querem sossego.
Então por que não param de falar em esquerda e direita como se fosse de futebol e tentam entender o que está acontecendo? Como disse o ex-comunista Ferreira Gullar, “no meu tempo ser de esquerda dava cadeia, hoje dá emprego”.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Mensalão: o outro lado da moeda!

Nelson Motta - Sobre o mensalão
Se o mensalão não tivesse existido, ou se não fosse descoberto, ou se Roberto Jefferson não o denunciasse, muito provavelmente não seria Dilma, mas Zé Dirceu o ocupante do Palácio da Alvorada, de onde certamente nunca mais sairia.


charge de Rico

Roberto Jefferson tem todos os motivos para exigir seu crédito e nossa eterna gratidão por seu feito heróico: "Eu salvei o Brasil do Zé Dirceu."

Em 2005, Dirceu dominava o governo e o PT, tinha Lula na mão, era o candidato natural à sua sucessão. E passaria como um trator sobre quem ousasse se opor à sua missão histórica. Sua companheira de armas Dilma Rousseff poderia ser, no máximo, sua Chefe da Casa Civil, ou presidente da Petrobras.

Com uma campanha milionária comandada por João Santana, bancada por montanhas de recursos não contabilizados arrecadados pelo nosso Delúbio, e Lula com 85% de popularidade animando os palanques, massacraria Serra no primeiro turno e subiria a rampa do Planalto nos braços do povo, com o grito de guerra ecoando na Esplanada: "Dirceu guerreiro/ do povo brasileiro." Ufa!





A Jefferson também devemos a criação do termo "mensalão". Ele sabia que os pagamentos não eram mensais, mas a periodicidade era irrelevante. O importante era o dinheirão. Foi o seu instinto marqueteiro que o levou a cunhar o histórico apelido que popularizou a Ação Penal 470 e gerou a aviltante condição de "mensaleiro", que perseguirá para sempre até os eventuais absolvidos.

O que poderia expressar melhor a ideia de uma conspiração para controlar o Estado com uma base parlamentar comprada com dinheiro público e sujo? Nem Nizan Guanaes, Duda Mendonça e Washington Olivetto juntos criariam uma marca mais forte e eficiente. Mas antes de qualquer motivação política, a explosão do maior escândalo do Brasil moderno é fruto de um confronto pessoal, movido pelos instintos mais primitivos, entre Jefferson e Dirceu.

Como Nina e Carminha da política, é a história de uma vingança suicida, uma metáfora da luta do mal contra o mal, num choque de titãs em que se confundem o épico e o patético, o trágico e o cômico, a coragem e a vilania. Feitos um para o outro.

O "chefe" sempre foi José Dirceu. Combativo, inteligente, universitário - não sei se completou o curso - fala vários idiomas, treinado em Cuba e na Antiga União Soviética, entre outras coisas. E com uma fé cega em implantar a Ditadura do Proletariado a "La Cuba".

Para isso usou e abusou de várias pessoas e, a mais importante - pelos resultados alcançados - era Lula. Ignorante, iletrado, desonesto, sem ideais, mas um grande manipulador de pessoas, era o joguete ideal para o inspirado José Dirceu.

Lula não tinha caráter nem ética, e até contava, entre risos, que sua família só comia carne quando seu irmão "roubava" mortadela no mercado onde trabalhava. Ou seja, o padrão ético era frágil . E ele, o Dirceu, fizera tudo direitinho, estava na hora de colher os frutos e implantar seu sonho no país.

Aí surgiu Roberto Jefferson... e deu no que deu.

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"Na vida não há prêmios nem castigos.
Somente conseqüências".

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Drogas? que droga!

Por Nelson Motta para o Estadao

O país das drogarias
Para Nelson Rodrigues, algum acontecimento só era realmente importante e polêmico quando provocava comentários "nos botecos e nas esquinas, nos velórios e nas farmácias".

A paixão nacional pelas farmácias o fascinava, mas ele ficaria besta com a sua popularidade no Brasil de hoje, quando elas disputam espaço com os botecos. No Rio de Janeiro, são poucos os quarteirões da Visconde de Pirajá, a artéria central de Ipanema, que não têm pelo menos uma drogaria. Em alguns, há duas. Em Salvador, só na Avenida Paulo VI, entre a Pituba e o Rio Vermelho, contei 12 farmácias e depois perdi a conta.

Em São Paulo, Porto Alegre ou Recife, só mudam os nomes das ruas, mas as drogarias continuam onipresentes. Além de uma comodidade, a proliferação gera uma concorrência que beneficia o consumidor, mas também pode indicar que os brasileiros estão cada vez mais doentes. Ou apenas consumindo mais drogas legais.


Em Amsterdam, para comprar um remédio contra gripe, tive que caminhar muitos quarteirões do hotel até a farmácia mais próxima. Em Paris, Roma ou Lisboa, elas são poucas e pequenas, e tem que cumprir muitas, e caras, exigências para funcionar, com um número restrito por bairro. E exigem receita até para comprar um Viagra ou uma pílula anticoncepcional.

Nos Estados Unidos, as grandes drugstores se espalham pelo país e, além de remédios liberados, como analgésicos e laxantes, vendem comida, roupas, artigos de casa, de papelaria, de limpeza, e até cigarros. Mas é impossível comprar um simples antibiótico sem prescrição médica, a fórmula tem que ser manipulada na hora pelo farmacêutico, nas dosagens da receita.

No Brasil, além de refrigerantes, chinelos e bugigangas, as farmácias vendem remédios em quantidades proporcionais à preferência nacional pela automedicação. Agora querem proibir que elas vendam chinelos e bugigangas, enquanto legiões de dependentes químicos consomem anfetaminas e sedativos tarja preta, com ou sem receita. Se o mercado não fosse tão bom, as farmácias não seriam tantas: ou os brasileiros estão sempre doentes, ou são loucos por um remedinho. O resto é perfumaria.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Brsil: recursos inesgotáveis

Por Nelson Motta, publicado hoje no Estadão
Transcrito do blog do Murilo


Os novos anões e o velho gigante
É simples, prático e eficiente: o deputado aprova uma emenda destinando uma verba ao Ministério do Turismo para uma ONG fazer um show ou um evento. A ONG de araque repassa a bolada para uma produtora, que não precisa fazer o evento, porque não há fiscalização. E o dinheiro some em contas de laranjas. Era o golpe da moda, na alta ralé e no baixo clero de Brasília não se falava de outra coisa, era o sucesso da atual legislatura, a criatividade de nossos parlamentares não tem limites. Pena que a Polícia Federal, o Tribunal de Contas e a imprensa acabaram com a festa.


Nani

É inútil gritar que é roubo e formação de quadrilha, que deveria ser proibido. Pelo seu alto potencial de desvios, as emendas para shows e eventos já são proibidas por lei votada pelos próprios parlamentares. Mas mesmo assim eles continuam fazendo o que sempre fizeram, começando pelo próprio relator do Orçamento, Gim Argello, suplente e discípulo de Joaquim Roriz, que foi pilhado com emendas para ONGs fantasmas e renunciou. Para não cair, Zero-Gim pediu pra sair.

Mas nossos problemas acabaram: o novo ministro do Turismo vai ser o deputado maranhense Pedro Novais, 80 anos de idade e seis mandatos, escolhido a dedo por Sarney por sua vasta experiência em viagens por conta da Câmara. Lobistas, traficantes de influência e atravessadores do ministério estão em polvorosa, eles sabem que onde há dedo de Sarney a decência, o mérito e a eficiência imperam. Como no Maranhão e no Senado.

Bessinha

 
Com sua argúcia e o rigor de seus critérios, Sarney é um mestre em escolher os melhores e mais capazes. Capazes de tudo, como o conterrâneo Edison Lobão, que continua energizando o Ministério de Minas e Energia com sua presença.

Como ensinou Lula a um jornalista, aos gritos: falar que Sarney é um oligarca atrasado é puro preconceito. Talvez da elite inconformada com suas indicações de auxiliares dessa qualidade para os governos de Lula e de Dilma.

Diante da disputa selvagem por cargos no novo governo, perguntar não ofende: se Dilma peitar o fisiologismo do PMDB, eles vão fazer o quê: apoiar a oposição ou sabotar o governo?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Nelson Motta e O coronel e os babalaôs

Por Nelson Motta, para o Estadão
Transcrito do Prosa & Política

O coronel e os babalaôs
Dia e noite, minuto a minuto, são postadas na internet notícias do mundo inteiro, das mais dramáticas e trágicas às mais frívolas e bizarras. Os ficcionistas estão em pânico. É cada vez mais difícil criar histórias e personagens originais que possam surpreender e emocionar os leitores.

Que tal a americana que deu o seu bebê para adoção e, 14 anos depois, rastreou o filho em sites de relacionamento, e, sem dizer que era sua mãe, seduziu-o, comeu-o e foi presa? Quem acreditaria nesse dramalhão pornô? Mas é apenas um episódio de “a vida como ela é” na internet, que deixaria Nelson Rodrigues embasbacado.


Imagem do 2ª Via


Mesmo com as licenças do realismo fantástico latino-americano, é difícil criar uma ficção que supere o coronel boçal e paranoico que toma o poder na Venezuela, se acredita um novo Bolívar, e quer libertar a América Latina do Império e torná-la uma imensa Cuba. Mas só consegue quebrar o seu país e fazer o mundo rir com suas bravatas.

No novo episódio, a pedido do companheiro Fidel, clarividentes babalaôs cubanos consultam os orixás e advertem o coronel de que a única forma de reverter a sua queda de popularidade e a perda da maioria parlamentar nas próximas eleições é fazer um descarrego nos ossos de Simon Bolívar. O coronel manda exumar o Libertador, sob a suspeita de que ele não teria morrido de tuberculose, mas envenenado. Pelo Império, por supuesto.


Grand Olé Bestiário

Mas o Império tem mais o que fazer e ignora o coronel, que fica ainda mais furioso. Nem um ficcionista delirante, ou um babalaô doidão, ousaria imaginar os Estados Unidos invadindo a Venezuela e torrando bilhões de dólares e milhares de vidas para roubar o seu petróleo, só o coronel:

 “Mas não vamos estar sozinhos na luta,
 tenho certeza de que Cuba e Nicarágua estarão conosco.”



O Império vai tremer de medo, terão que reavaliar seus planos. O coronel ruge:

Pátria, socialismo ou morte!”

Ao lado de Maradona, que, como ele, pensa com os pés, rompe relações com a Colômbia, mas são os venezuelanos que pagam a conta. E o coronel continua sua bizarra revolução, com o petróleo que vende ao seu maior inimigo.

O Império paga em dia.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Museu da Ditadura

charge de Millôr Fernandes


Texto de Nelson Motta. Publicado inicialmente no O Globo e O Estado de S. Paulo em 06.02. Transcrito do Brickmann & Associados.
"Perder ou perder"


Quem diria, a ditadura virou coisa de museu. O ministro Tarso Genro anunciou que o Rio de Janeiro (por que não Brasília?) ganhará o Museu Nacional da Ditadura. Será o nosso holocausto, a nossa casa de Anne Frank.
Vai ser divertido ver Sarney, Edison Lobão e Paulo Maluf, para citar alguns grandes aliados do governo Lula, e tantos outros colegas de ditadura aboletados na base parlamentar e na administração, convidados de Tarso na inauguração.
Ou terão réplicas de cera em tamanho natural? Ou retratos pintados a óleo? Estátuas equestres? Ou farão discursos contra o arbítrio e o autoritarismo, fechando com "ditadura, nunca mais!", seguido de vivas à liberdade? Afinal, estamos no Brasil.
A grande vítima da ditadura foi a liberdade individual do cidadão brasileiro, que apanhou dos dois lados: dos militares, que a suprimiram em nome da luta contra a corrupção e a subversão, e dos que lutavam armados contra a ditadura, não para devolver o poder aos civis e convocar eleições, mas para estabelecer uma sociedade livre como Cuba e a União Soviética, uma ditadura do proletariado. E perderam.
Mas para os que pagaram a conta, era perder ou perder. Pagavam impostos para a ditadura espionar, perseguir, prender, torturar e matar. E depois para pagar bolsas-ditadura aos perseguidos. Só no Brasil.
Na Argentina, com seus 30 mil mortos e desaparecidos, e milhões que tiveram as vidas e carreiras prejudicadas pela ditadura, as indenizações levariam o Estado à bancarrota.
Vinte e cinco anos depois, no poder, graças à democracia, muitos ex-combatentes da liberdade se tornaram representantes vivos do Museu das Ideologias, e ameaçam, em nome de velhas causas leninistas, maoístas e castristas, a liberdade dos cidadãos que lhes pagam os salários.
Tudo pelo social, dizia Sarney, tudo, eles repetem agora, como visionários do passado. Quem sabe o ministro da Justiça se anima a criar um Museu Nacional da Liberdade, em homenagem aos que resistiram a ditaduras de direita e de esquerda, militares e civis, e defenderam a liberdade e a democracia dos que querem usá-las para acabar com elas.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O Gramsci das Alagoas.

Artigo escrito por Nelson Motta, publicado no jornal Folha de SP e no blog prosa e política.


Um velho homem de esquerda, com seu passado de lutas, Renan Calheiros, absolvido pelos seus companheiros de causa, agradeceu citando Gramsci. Disse que a mídia está se transformando em partido político.

Talvez porque, diante das vilanias, bandalheiras e traições dos partidos e dos políticos aos seus eleitores e ao país, o interesse público tenha obrigado a mídia a preencher esse vazio e assumir os compromissos desmoralizados pelos políticos.

Nem mesmo um militante partidário, desde que alfabetizado, acredita que empresas comerciais concorrentes como a Folha, o "Estadão", "O Globo", o "Zero Hora", a "Veja", a TV Globo, o SBT, a CBN, a RBS e os maiores veículos de comunicação do país, que disputam ferozmente leitores, espectadores e anunciantes, juntaram suas forças em uma conspiração para destruir as reputações ilibadas dos patriotas Renan e Zé Dirceu.
Para eles, só os veículos "independentes" -que vivem de publicidade do governo e de estatais- têm isenção para noticiar e comentar o mensalão, os sanguessugas e o caso Renan. Mas o povo é ingrato e despreza tantas qualidades, poucos compram as verdades deles.
Talvez a maioria absoluta dos anunciantes e da população não saiba escolher os jornais, blogs, revistas e TVs para anunciar e para se informar. Só iluminados, como Dirceu e Renan, sabem como deve ser uma mídia democrática a serviço do país e dos cidadãos. O duro é convencer as pessoas a acreditar nela. E sobretudo neles.

Se os políticos e os partidos fizessem pelos seus eleitores uma pequena parte dos serviços prestados pela mídia independente - que não precisa deles nem do governo para sobreviver-, seríamos poupados de ouvir o Gramsci das Alagoas nos dar lições de ética e democracia.