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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

As eleições vem aí....

Por Mary Zaidan.
Charges de Newton Silva

Justa causa para o caixa 2
Inflação e desemprego crescentes, recessão estarrecedora, roubalheira sem fim. Como se não bastasse o caos econômico, político e ético, 2016 é ano eleitoral, quando, tradicionalmente, tudo se agudiza. Na política e na economia.

Época em que, costumeiramente, se gasta algum verbo e muita verba a mais, lícitas e não contabilizadas, termo imortalizado pelo gênio da arrecadação petista, o ex-tesoureiro e mensaleiro condenado Delúbio Soares.

Na campanha deste ano os problemas serão ainda maiores. Não há dinheiro nem financiadores. Empresários escaldados por mensalões e petrolões, que já ficariam ressabiados em apoiar partidos e políticos, estão impedidos de qualquer doação. Pelo menos às claras.

O dinheiro oficial para as campanhas terá de vir de três fontes: público, via fundo partidário, de promoções dos partidos e de pessoas físicas, que não têm tradição de custear campanhas. E não será agora, quando o descrédito nos políticos atinge os píncaros, que elas começarão a fazê-lo.



A fórmula é sopa no mel para os campeões de audiência, gente de mídia, comunicadores, comediantes, pastores, ases do esporte e todo tipo de celebridade que conta com exposição maciça. Até porque é difícil imaginar que alguns jantares, leilões, vendas de camisetas, shows e doações de militantes conseguirão fazer frente aos gastos milionários que as campanhas impõem.

Segundo o TSE, em 2012, últimas eleições municipais, só em São Paulo os candidatos a prefeito e a vereadores consumiram a bagatela de R$ 907 milhões, R$ 726 milhões bancados por doações empresariais. Em todo o país, os 15.100 candidatos a prefeito e os 419.900 a vereador queimaram mais de R$ 4,5 bilhões, 80% deles oriundos de CNPJs, proibidos de vez pelo Supremo e pela sanção da presidente Dilma Rousseff à minirreforma eleitoral, aprovada no Parlamento em 2015.

E de onde então virá o dinheiro? Dos impostos? Do caixa falido da presidente Dilma, que torrou tanto na campanha de sua reeleição que não tem de onde tirar nem mesmo para programas básicos de saúde e educação?



Ainda que o fim do financiamento privado seja defensável, por mais uma vez aprovou-se um dispositivo sem ter o que colocar no lugar.

Ninguém perguntou ao cidadão se ele está disposto a custear campanhas políticas com o dinheiro de seus impostos. Até porque a resposta seria um sonoro e taxativo não.

Agora, o monstro está aí. E ele ruge.

Mostrou o afio das unhas nos R$ 819 milhões fincados no Orçamento da União, quase três vezes mais do que a proposta do governo. E que Dilma sancionou, temendo agredir sua fragilíssima base e, consequentemente, fermentar o impeachment.

Sem forças para encarar um rato, quanto mais uma fera, a presidente despejou dinheiro que o país não tem nos partidos políticos. E, se necessário, derramará mais para eleger os seus.

Somados ao gasto obrigatório do TSE para realizar o pleito, algo que ultrapassa R$ 400 milhões, e ao ressarcimento da União em favor das emissoras de rádio e TV que transmitem o horário eleitoral falsamente dito gratuito – outros R$ 576 milhões -, o aporte de dinheiro público já dobrou a casa dos R$ 2 bilhões. E ainda assim será insuficiente.

Pior. Os que defenderam a mudança do financiamento, seja por razão, convicção, ideologia, credo ou oportunismo, sabem que criaram um monstrengo impossível de ser domado com o palavreado fácil de que a campanha será mais curta e mais barata, que as redes sociais serão definitivas, que o verbo será mais forte que a verba.

Criou-se a justa causa do dinheiro não contabilizado. Algo em que todos são responsáveis. Executivo, Judiciário, Legislativo. Governo e oposição.

Se a lama depositada no fim do túnel pelo PT e aliados prende a besta do lado de cá e bloqueia a entrada de qualquer feixe de luz, não há, entre os opositores, nada que resplandeça. Nem idéias, muito menos saída.

Link

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Corte sem corte

Por Mary Zaidan,  no Blog do Noblat


Corte sem corte
Quase R$ 70 bilhões. Ainda que inferior ao desejo do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o contingenciamento anunciado sexta-feira no Orçamento da União – o maior da história – impressiona. As lâminas chegaram à Educação e à Saúde, em obras do PAC, e até na menina dos olhos da presidente Dilma Rousseff, o programa Minha Casa, Minha Vida. Mas, de novo, não se viu corte algum no custeio, no tamanho da máquina que não para de inchar.

Arte de CLAYTON


Os cortes são mais do que necessários, mas correm longe de ser solução para o país, dilapidado por mais de uma década pelos governos petistas que se divertiram gastando mais do que deviam e podiam.

Antes de tudo, são bombas de efeito antecipado em um ambiente político em que só o cheiro de pólvora já faz tudo explodir.

Ninguém no governo – nem mesmo Levy – pensou em dividir a conta com o próprio governo e com setores ainda intocados: juízes, parlamentares, servidores públicos. Não se abriu mão de um simples ministério, de um único cargo de confiança. Não se mexeu em privilégios. Não se fez um mero gesto.

Arte de CLAUDIO


Na Previdência, por exemplo, um milhão de aposentados do serviço público respondem por mais R$ 60 bilhões do déficit, os outros R$ 50 bilhões de rombo são relativos aos 30 milhões de segurados do INSS. Um vespeiro do qual ninguém quer passar por perto.

Sequer uma voz sobre renegociação de contratos, mesmo depois de as investigações na Petrobras revelarem percentagens fixas de corrupção, padrão que, se acredita, repetia-se em obras de todo o país.

Nem o decreto de Dilma para redução do uso de aviões da FAB por ministros foi cumprido, como, há mais de mês, revelou a jornalista Maria Lima, em O Globo.

Arte de PELICANO


Difícil crer que algo tenha mudado.

Elogiados como ato “de coragem” pela diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, para arrepio de alguns setores do PT, os cortes são um ambicioso conjunto de intenções. Diferentemente das medidas provisórias que estão no Parlamento, não produzem efeito imediato. Mesmo sendo valores estratosféricos, apenas limitam os já baixíssimos investimentos do governo e, de quebra, têm caráter recessivo.

Sabe-se que Dilma, Lula e a maior parte do PT odeiam ter de dar o braço a torcer a políticas que até ontem eles taxavam como neoliberais. A trinca, em especial Lula, sabe ainda que qualquer possibilidade de êxito em 2018 depende do sucesso desse rearranjo na economia, seja ele ortodoxo, de direita, conservador.

Arte de SPONHOLZ


No momento, se aceita tudo, até aumento de impostos. Só reagem ao desabrigo dos companheiros aboletados no governo. Isso não. Mexer nos cargos de livre nomeação, nem pensar.

Ao que parece, não percebem a exaustão da fábula: as formigas já trabalham cinco meses por ano para encher as burras do governo. Não suportam nem mesmo o canto da cigarra.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Dilma, Lula e o diabo, a trindade do mal!

Por Mary Zaidan.


Dilma, Lula e o diabo
A presidente colocou o coisa ruim na roda. A conta dele chegou. 

Em abril de 2013, durante encontro com prefeitos na Paraíba, Dilma Rousseff surpreendeu a todos com sua sinceridade: “Podemos fazer o diabo quando é hora de eleição”. Confessou e fez, como é sabido. E o belzebu cobrou. Com juros e correção, sem carência ou parcelamento. Pior, encarnado em gente experiente nesse tipo de pacto.


Arte de SPONHOLZ


Mais do que a paralisia do país, a economia estagnada, a inflação e o desemprego em alta, os demônios que assombram Dilma estão incorporados nos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), antigo desafeto, e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), fiel aliado até poucos dias. E em seu padrinho Lula.

Cunha e Renan têm se divertido em lançar chamas, assustar e pregar peças no governo.



Arte de DUKE


Ainda que os objetivos de ambos não sejam nada republicanos, há muito não se via um Parlamento tão ativo. Até altivo. Câmara e Senado passaram a reivindicar suas prerrogativas, falar alto, questionar o governo.

Não há, no entanto, o que comemorar. O Legislativo só parou de dizer amém a partir das diabruras dos peemedebistas. E só se manterá assim enquanto for do interesse do PMDB, partido que mais do que qualquer um sabe o momento de aderir – e gozar as benesses do paraíso -, e a hora de escapar do incêndio, não raro colocando mais lenha na fogueira.

Arte de JATBAS


Mas é Lula quem melhor personifica o inferno de Dilma.

Safo como ninguém, Lula é senhor do bem e anjo do mal. Reúne-se com a afilhada, presta-lhe solidariedade, lhe acarinha o ego. Chegou a defender o ajuste fiscal proposto pela pupila, mesmo se o PT ficasse contra. E o fez na cerimônia de aniversário do partido. Registre-se: uma única, apenas uma vez.

Ao mesmo tempo, estimula a reação petista contra as medidas econômicas do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e incita o exército de Stédile a ir às ruas. Aposta na esquizofrenia de uma tropa comandada – e paga – que carrega cartazes de apoio a Dilma e grita contra o que o governo dela tem de fazer.

Arte de KACIO


E vai além. Depois de cada encontro com a presidente, o ex faz a imprensa saber que Dilma insiste em não ouvi-lo. Uma suposta briga entre os dois, ocorrida no Planalto, ilustra bem isso. Lula teria perdido a paciência, batido os punhos na mesa, gritado, disparado palavrões.

Quer porque quer que o distinto público creia que os desacertos do governo devem-se ao fato de Dilma não seguir os conselhos dele. Que ele, só ele, é a salvação.

Arte de HUMBERTO


É perverso, diabólico.

Pior para Dilma, que nada aprendeu e acha que tudo sabe. Que não tem como quitar a dívida de um pacto que não é para iniciantes, mas que ela contraiu. Que colocou o coisa ruim na roda, admitindo fazer o diabo na hora de eleição.

Esperto e experiente, Lula faz o diabo sempre. E a altíssima conta que o capeta cobra ele empilha nos ombros dos outros

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Gastam-se bilhões, cortam-se centavos

Por Mary Zaidan.

Gastam-se bilhões, cortam-se centavos

Com o PT, a folha de pessoal cresceu de R$ 59,5 bi para R$ 185,8 bilhões. 


O Planalto nega. Talvez não aconteça. Mas parece que após conseguir adiar a votação do novo indicador da dívida dos estados – a primeira vitória de Dilma Rousseff no Congresso depois de reempossada -, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, aventura-se a falar em cortes.

Arte de SINOVALDO


De custeio, de cargos e de ministérios, parte dos 39 que, na campanha, Dilma insistiu em dizer que não pesam nas contas públicas.

Ainda que mais uma vez o governo fique a reboque do PMDB, autor da ideia de reduzir para 20 o número de pastas, Levy admite uma reforma administrativa e o enxugamento na máquina, mesmo que seja apenas pelo caráter simbólico.

Símbolo para lá de necessário. Especialmente quando se pretende aprovar uma proposta de ajuste fiscal que, mesmo imprescindível, joga a conta inteira sobre os ombros dos pagadores de impostos.


Arte de SPONHOLZ

Se feita com rigor, pode ser mais do que uma simples alegoria.

Exemplos recentes nos mostram isso. Em 1995, frente a um Estado falido, o então governador Mario Covas renegociou dívidas com terceiros, extinguiu quase três mil cargos de livre nomeação e cortou um terço da execução orçamentária. Quitou dívidas e obteve R$ 2,2 bilhões de economia para os cofres paulistas em menos de seis meses.

Sob a égide do petismo, faz-se o inverso. Os gastos só aumentam ano a ano.

Nada menos de 4,5 mil cargos de livre provimento foram criados nos 12 anos de governo do PT. E, ainda que boa parte seja atribuída a funcionários concursados, engordou-se a folha. E muito.

Arte de NEWTON SILVA


De acordo com o Boletim Estatístico de Pessoal e Informações Organizacionais do Ministério do Planejamento, o número de servidores da União saltou de 485,7 mil em 2002, último ano de Fernando Henrique Cardoso, para 613,6 mil em 2014.

Nas autarquias e fundações, onde é mais fácil alocar cupinchas, a proporção é ainda mais estarrecedora. Em 2002, o custo de pessoal nas autarquias era de R$ 13 bilhões e de R$ 4,2 bilhões nas fundações. Mais do que triplicaram: foram, respectivamente, para R$ 48 bilhões e R$ 14,9 bilhões.

Arte de MARIOSAN


Traduzindo em reais, a folha Dilma (servidores civis e militares) bateu em R$ 185,8 bilhões em 2014, R$ 126,3 bilhões a mais do que os R$ 59,5 bilhões de 2002.

Mais grave: os gastos maiores e crescentes estão entre os servidores ativos e não com aposentados e pensionistas, como poderia se imaginar. Ou seja: trata-se de multiplicação exponencial da máquina sem que isso se reverta em serviços ao cidadão.

A um governo e uma presidente rejeitada por 64% dos brasileiros, não bastarão gestos tímidos como a retirada do privilégio de aviões da FAB para o ir e vir de ministros aos seus lares. Ou a fala de Levy sobre uma futura e incerta reforma administrativa.

Arte de GENILDO


O país que foi às ruas em 15 de março e que se prepara para reocupá-las no próximo domingo quer muito mais do que símbolos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Dilma Rousseff é derrotada na Câmara dos Deputados

Por Mary Zaidan


Os aloprados de Dilma
A presidente perde o primeiro embate - e perde feio, por 375 x 136. 

Como já diziam as favas contadas, Dilma Rousseff perdeu o primeiro embate na Câmara dos Deputados. E perdeu feio. O desafeto Eduardo Cunha (PMDB-RJ) venceu no primeiro turno por 267 votos, 131 a mais do que o candidato oficial, Arlindo Chinaglia (PT-SP), que teve 136. A oposição conferiu 100 a Júlio Delgado (PSB-MG) e 8 a Chico Alencar (PSOL-RJ).

Ao fim e ao cabo, Chinaglia só teve 28 votos a mais do que a oposição. Isso depois de Dilma e os gênios que a rodeiam, o ministro Aloizio Mercadante à frente, fazerem o diabo: barganhar cargos, ameaçar ministros, atrasar nomeações para o segundo e terceiro escalões, e sabe-se lá mais o quê.

arte de Thiago Lucas


Dilma ainda teve a sorte de a disputa se resolver de pronto. Tivesse segundo tempo, a derrota seria numericamente a mesma, mas deixaria ainda mais escancarado o placar acachapante de 375 x 136.

Que Dilma não gosta, despreza e não quer aprender como a política se movimenta, todo mundo está cansado de saber. Vítima da cegueira da soberba, a presidente se acha o máximo. Vai daí que só ela não viu que o time que escolheu também não tinha – e não tem – idéia de como dar trato à bola. Seus aloprados tomaram de goleada em um campeonato que não tem returno.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Em boca fechada não entra mosquito

Por Mary Zaidan.
Publicado no Blog do Noblat em 25JAN2015


Mudos
A presidente Dilma Rousseff está muda. O ex Lula, idem. Há mais de um mês nenhum deles dá um pio. Receio de cobranças sobre a adoção de medidas econômicas ortodoxas, que contrariam o que foi dito em campanha? Difícil crer. Mais provável atribuir o silêncio ao dito popular “em boca fechada não entra mosca”, inseto que prolifera em ambientes fétidos como o do escândalo bilionário na Petrobras, cada dia mais próximo da cadeira de ambos no Planalto.

Arte de LAILSON


Assistem a tudo calados. Do bombardeio de Sergio Gabrielli, ex-presidente da petroleira, indicado por Lula, que, sem cerimônia alguma, aponta a responsabilidade de Dilma no negócio absurdo da aquisição de Pasadena, às delações de presos assegurando que o dinheiro da corrupção tinha como destino o caixa do PT e a compra de aliados. De relatos do TCU sobre os desvios à inclusão do ex-ministro da Casa Civil de Lula, o mensaleiro José Dirceu, na trama.

Arte de SPONHOLZ


A mudez permite toda sorte de especulação e um amontoado de sandices. Mas, combinado ou não, o diabólico é que a maior parte das versões favorece o PT e, em especial, Lula, aquele que jamais desencarnou da Presidência, eterno candidato.

Fala-se a rodo de desavenças entre afilhada e padrinho, atribuindo a Dilma a capacidade de isolar Lula, como quis fazer crer a senadora Martha Suplicy (PT-SP) na emblemática entrevista à jornalista Eliane Cantanhêde. É preciso muita imaginação para ver em Dilma e no aloprado ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, alguma competência para enxotar Lula.



Outros insistem que Dilma estaria constrangida e teria repassado ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a tarefa de dar publicidade às necessárias más notícias de aumento de impostos e corte em benefícios trabalhistas. Como se fosse possível atribuir escrúpulos desse tipo a quem não tem qualquer pudor em mentir, que antecipara com todas as letras que faria o diabo para vencer as eleições.

Dilma ganhou, levou e não sabe o que fazer com a vitória. Tem a caneta, mas nem isso sabe usar, como mostra a confusão que arrumou na partilha do primeiro escalão. Já Lula, não só está no jogo, como é o dono da bola. É a ele que se diz amém.

Arte de AROEIRA


Ao que tudo indica, Lula e sua turma trabalham na perda zero. Preferem ser vistos como quem está ao largo, longe de Dilma e de medidas antipopulares. Querem continuar sendo os porta-vozes dos movimentos sociais e da “esquerda”, aqueles que resistem ao neoliberalismo a que Dilma se viu obrigada a ceder para consertar o país que ela estragou.

Ao mesmo tempo, ocupam a maioria dos escalões menos visíveis do governo, garantindo empregos generosos para a militância mais aguerrida.

Lula e os seus querem tudo. Ser governo, ser oposição, ocupar todos os espaços.

Arte de BENETT


O ex poderá se lançar daqui a quatro anos como líder da resistência a uma Dilma que não lhe deu ouvidos, ou, se Levy conseguir êxito na economia, como o responsável pela escolha e indicação do ministro.

A Petrobras, que financiou vitórias e deu tantas alegrias a Lula e Dilma, é a pedreira que tentam dinamitar em silêncio para desobstruir o caminho. Mais do que qualquer um, eles sabem que as consequências da roubalheira podem ir muito além da programada mudez.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Longe de Davos, perto de Evo

Por Mary Zaidan
Publicado no Blog do Noblat em 18JAN2015


Longe de Davos, perto de Evo
É a opção preferencial pela pequenez, pela mediocridade. 

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, desembarca esta semana em Davos, na Suíça, com a tarefa de convencer a elite da economia mundial que o Brasil, agora, entrará nos eixos.

Missão difícil, quase impossível. Mas é imperativo reconhecer: a presidente Dilma Rousseff fez a parte dela. Sua anunciada ausência – prefere ir à posse do companheiro tri-eleito Evo Morales – não contaminará o plenário com o faz-de-conta. E poupará o ministro do vexame de ter de explicar as mentiras ditas por Dilma no mesmo fórum, um ano atrás.

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Estreante em Davos em 2014, Dilma agradou a plateia que já percebera o tamanho da crise brasileira. Prometeu combater a inflação e abrir o país para investimentos privados. Garantiu que cumpriria a meta de superávit primário e foi veemente na defesa da responsabilidade fiscal. O tom realista, dando ideia de que a ficha tinha caído, conseguiu animar a seleta galeria. Foi até elogiada.

Durou pouco.

Ao invés de mais investimento, o Brasil e o mundo assistiram, atônitos, ao estouro do escândalo da Petrobras. Uma roubalheira bilionária, dentro e fora do país, lesando gente em todos os cantos do planeta.

Arte de SPONHOLZ


A economia, que já se mostrava frágil e cambaleante, degringolou de vez no ano eleitoral. Seu governo fez todo tipo de estripulia para maquiar contas, gastou ainda muito mais, deixou a inflação bater no teto. A presidente encerrou o ano sendo obrigada a confessar a impossibilidade de gerar superávit, tendo de aprovar às pressas um projeto de lei autorizando o descumprimento de metas e a irresponsabilidade fiscal.

Dilma tem ainda mais para não querer passar perto de Davos.

A cidade suíça faz reviver lembranças nada agradáveis, como a de ser flagrada em uma “parada técnica” clandestina em Portugal quando seguia de Zurique para Cuba. Em Lisboa, teve de explicar o hotel de luxo e um jantar estrelado, sobre o qual ela afirmou – irritada – que cada um pagou com dinheiro do próprio bolso.



Assim sendo, o programa mais confortável para Dilma na data de Davos é mesmo ver Evo assumir a Presidência da Bolívia pela terceira vez consecutiva. Uma deferência e tanto. Mas menor do que os incansáveis e submissos gestos que o Brasil de Lula e Dilma fez para Evo.

O líder boliviano tem uma linha de crédito permanente, renovada a cada choramingo. Recebeu R$ 332 milhões do BNDES para construção da rodovia conhecida como “estrada da coca”, que facilita o escoamento da sempre promissora produção cocaleira. No ano passado, ganhou mais R$ 60 milhões para conserto de equipamentos de energia.
Da Petrobras, receberá um extra de US$ 434 milhões, fruto de um acordo de compra de gás. Isso depois de ter estatizado os ativos da companhia brasileira, em 2006.

De Davos, Dilma quer distância. De Evo, proximidade. Uma escolha que já custa e continuará custando muito caro ao Brasil.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Saem os bilhões, voltam os centavos

Por Mary Zaidan
Publicado no Blog do Noblat em 11JAN2015


Saem os bilhões, voltam os centavos
As manifestações podem redirecionar o foco e beneficiar Dilma.
Começou de novo. E, um ano e meio depois das manifestações que sacudiram o país em junho de 2013, governo algum tem noção do que fazer com isso. Muito menos como coibir o vandalismo, o desrespeito com a coletividade, o quebra-quebra. Tudo do mesmo jeitinho: uns poucos provocam, incendeiam lixo, estraçalham vitrines, forçam a reação da polícia, que, como patinho, cai na provocação, arreganha o cassetete, lança gás e atira balas de borracha na turba. Prende e depois solta.

Arte de Angelo Franc


De um lado, não dá mais para o Movimento Passe Livre (MPL), que organiza os eventos contra as tarifas de transporte urbano, se eximir de responsabilidades quanto às depredações. De outro, já teria dado tempo de os governos se prepararem. No mínimo, adquirir caminhões com jatos d’água, algo usado em todas as partes do mundo.

Arte de Bruno Galvão


Os motivos dos organizadores são os mesmos: impedir os reajustes de passagens já concedidos em pelo menos 10 capitais e em outras grandes concentrações urbanas, como Campinas (SP).

Na cidade de São Paulo, a exigência é mais aguda: não se trata de anular o aumento das tarifas - congeladas desde 2011. Querem ampliar ganhos, até por que saíram absolutamente vitoriosos nas jornadas de junho, derrotando de uma só vez o prefeito Fernando Haddad (PT) e o governador Geraldo Alckmin (PSDB), agora reeleito.

Arte de Amorim


Parece absurdo, mas para vários lados o melhor é ser assim mesmo.

A quebradeira garante ao MPL cobertura televisiva e primeiras páginas na internet e nos jornais. Dá repercussão ao movimento. Ao mesmo tempo, beneficia o PT, afastando das ruas aqueles que querem ocupá-las sem baderna e por motivos que vão muito além do reajuste das tarifas. A lista vai de Fora PT ao impeachment de Dilma, do não à corrupção à imbecilidade – felizmente isoladíssima – da volta dos militares ao poder.

Ainda que possam incomodar os petistas Haddad e o recém empossado governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, o reinício da pendenga do passe livre pode ser benéfico a Dilma. Redireciona o foco.

Arte de SInovaldo


Em vez dos bilhões afanados da Petrobrás, o país começará discutir os R$ 0,50 a mais cobrados nos ônibus e trens de São Paulo ou os R$ 0,40 adicionados ao transporte público do Rio.

Black blocs e as bombas da PM substituirão as manchetes dos escândalos diários de corrupção patrocinados pelo governo. Marqueteiro algum poderia pensar coisa melhor.

Arte de Aroeira


Mas, como é difícil saber para que lado o busca-pé corre depois de aceso, a turma de Dilma terá de pensar em algo melhor do que receber patrocinadores de vândalos no Planalto ou na balela de um pacto nacional, que começaria pela reforma política por meio de um plebiscito inconstitucional.

Não colou em 2013 e não há a menor chance que emplaque agora. Dilma e o MPL terão de entender que o país já não é o mesmo. Algo dificílimo para ambos.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Dias piores virão

Por Mary Zaidan
Publicado no Blog do Noblat em 09NOV2014

Dias piores virão
Reajuste dos combustíveis e das tarifas de energia elétrica, alta de juros, suspensão de créditos subsidiados. Tudo feito de pronto. Até cortes em salvaguardas trabalhistas, que na campanha a presidente reeleita jurava de pés juntos que não faria e acusava seu adversário de querer fazer, estão por vir.

Arte de Jorge Braga


“A inflação sob controle”, ladainha repetida por ela nos debates eleitorais, foi substituída pela necessidade de fazer o “dever de casa” para impedir a fúria do dragão. Os sempre condenados cortes em benefícios sociais já não são imexíveis. Os gastos públicos recordes, agora, promete a presidente, serão administrados.

Nada disso combina com o país cor-de-rosa que o PT mostrou no horário eleitoral da TV. Mas Dilma Rousseff, que assim como o ex Lula nunca sabe de nada, sabia que tudo era de mentirinha. E boa parte ainda é.

Costumeira, a prática do logro se mantém sem qualquer constrangimento.

Arte de Alpino


Números do Ipea que apontam aumento dos miseráveis em 2013 são tratados pelo primeiro escalão do governo como “não oficiais” ou “margem de erro”. Dados oficiais do governo apontando o risco de racionamento de energia no Sudeste “não valem nada”.

Desfaçatez não falta. O Ibama chegou a dizer que não contou ao país que o desmatamento da Amazônia aumentou 122% em agosto e setembro para impedir a ação de bandidos. Posto assim, o órgão ambiental teria auxiliado continuamente a bandidagem e só deixou de fazê-lo nos meses pré-eleição. É de dar vergonha.

Se no plano econômico o governo Dilma tem tentado agir, ainda que timidamente, acenando com medidas adiadas há tempos, na política a presidente e os seus insistem no ludibrio.

Arte de Sponholz


Quanto à corrupção, a presidente se diz uma combatente implacável. Mas, finda a eleição, a indignação que mostrou dois dias antes com a revelação de que Lula e ela sabiam das negociatas na Petrobras deu lugar à mudez.

Isso sem responder a uma questão para lá de simples: sabia?

Diálogo, palavra que Dilma repete à exaustão, dificilmente ocupará o lugar do divisionismo que o PT prega há tempos. O partido da presidente confessa. Considera urgente construir a “hegemonia na sociedade”. Hegemonia, segundo o Aurélio, é a “preponderância de uma cidade ou de um povo sobre outras cidades e outros povos”. A definição fala por si.

Dilma não é lá muito afeita a conversas. Gosta do mando. E, ainda que se esforce, dificilmente conseguirá mudar, como bem disse a jornalista Eliane Cantanhêde em “Dilma adversária de Dilma”. Na economia e na política.

Dias piores virão.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O medo entre os políticos corruptos

Por Mary Zaidan.
Publicado no Blog do Noblat em 23NOV2014


Paúra no “clube” dos políticos
Estão paralisados, em compasso de espera. 

Ainda que pelo avesso, Dilma Rousseff acertou uma. Depois da prisão de alguns dos donos do dinheiro – grandes empreiteiros que pagaram propinas a operadores da Petrobras –, o Brasil definitivamente não será o mesmo.

Embora não façam cessar a corrupção, as grades têm o poder de inibi-la e de ampliar a delação. Mais ainda depois da síndrome da bailarina, referência a Kátia Rabello, do Banco Rural, que, assim como os demais empresários condenados no mensalão, continua na cadeia enquanto os políticos, exceto o delator, cumprem suas penas no aconchego do lar.

Arte de Fausto


Rompida a crença do silêncio como garantia de proteção, corruptos e corruptores perderam o constrangimento de dedurar. Falam, entregam provas, devolvem dinheiro roubado. Algo – é verdade, Dilma – nunca antes visto neste país.

A delação atemoriza, apavora. A paúra é geral.

Quanto mais a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça Federal do Paraná desvendam segredos do “clube” dos empreiteiros, mais o “clube” dos políticos arrepia. Afinal, um clube não existe sem o outro. E vice-versa.

Fala-se de 60 ou 70 políticos do PT, PMDB e PP. Nominalmente, já se aponta para o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto (SP). Mas ninguém arrisca um palpite de até onde isso vai.

Arte de Newton Silva


Teme-se, em especial, pelos VIPs. Assim como nem todos os empreiteiros participariam da elite do “clube”, entre os políticos não é diferente. Há poder de mando, hierarquia. Maiores e menores beneficiários de cada centavo desviado. Seja para o projeto político, seja para o próprio bolso.

Não por outro motivo, no PT e na base aliada, as disputas são acirradíssimas para colocar apadrinhados em postos-chaves do governo. Normalmente, naqueles que têm fatias mais generosas de recursos.

Petrobrás, fundos de previdência, Banco do Brasil e Caixa, além de ministérios obreiros, como Transportes e Cidades, são cerejas do bolo. Valem tapas, pontapés, todo tipo de golpe para assegurá-los.

Arte de Aroeira


Por ora, em vez do assanhamento que a reeleição deveria provocar, o “clube” político está em passo de espera. A paralisia é tamanha que até a presidente – talvez por temor de maior envolvimento dos seus – vem adiando o anúncio de mudanças na equipe.

Aos aliados, perturba a proximidade do ex Lula, responsável pela nomeação do delator Paulo Roberto Costa, e de Dilma, ex-presidente do Conselho de Administração da Petrobras, com o que está vindo à tona. Aflige, sobremaneira, nada ter acontecido para desmentir a revelação do doleiro Alberto Yousseff de que Lula e Dilma sabiam de tudo.

Arte de Amorim


Em pane, os políticos desse nefasto clube, acostumados a criar as regras, espreitam da várzea. Fazem de conta que não são os donos da primeira divisão. Dilma, inclusive.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Ao diabo não se diz amém

Por Mary Zaidan
Publicado na coluna do Noblat em 16NOV2014

Charges de Roque Sponholz

Ao diabo não se diz amém
Conseguirá o Congresso não se ajoelhar diante desse acinte?

Não é a primeira e por certo não será a última vez que o governo Dilma Rousseff transfere para outros a tarefa de corrigir os males provocados por um dever de casa que ela não fez. Mas nunca antes da história deste país um governo foi tão longe: quer aprovar uma lei para descumprir a lei. 

A proposta de flexibilizar a meta fiscal enviada ao Congresso Nacional é obscena sob qualquer ótica.



Dilma gastou muito mais do que arrecadou por meses a fio. Passou a campanha eleitoral inteira mentindo que a economia ia bem, tratando qualquer crítica como mau-agouro de gente que torce pelo quanto pior, melhor.

A menos de dois meses do fim do ano, a recém-reeleita se vê forçada a confessar que não tem saldo para fechar as contas. Sugere mudar as regras do jogo pertinho do apito final, exigindo que o Congresso limpe a sua lambança.

Mais: pede arrego com a marca registrada da arrogância.



Nem Dilma nem os seus admitem qualquer erro na condução da política econômica. Ao contrário. Publicamente, ela faz pouco caso do tema: “Dos 20 países do G-20, 17 estão hoje numa situação de ter déficit fiscal”, disse em Catar, antes de seguir para a Austrália para o encontro dos 20 ricos que ela afirma estarem mais debilitados do que o Brasil.

Se assim fosse, por que então inventar uma lei de última hora para pintar de azul o vermelhão das contas públicas?



Na sexta-feira, em entrevista à jornalista Míriam Leitão, o ministro da Casa Civil, Aloízio Mercadante, ultrapassou todos os limites. Arguido sobre a hipótese de rejeição da proposta, ele, sem qualquer constrangimento, transferiu a conta da irresponsabilidade governamental: “Se o Congresso não der autorização nós cumpriremos o superávit. É simples. Suspende as desonerações, corta os investimentos para as obras e para uma parte da economia. Nós vamos ter mais desemprego e ficará na responsabilidade de quem tiver essa atitude.”

Falou isso de cara limpa, como se ao invés de estagnação e PIB menor de 0,5%, o país estivesse crescendo horrores graças à indução das políticas públicas.



À obscenidade agregam-se à lei outros atributos da mesma estirpe. Se aprovada, não servirá a quem interessa, já que credores e investidores sabem que o anil do balanço é falso. Mas, de forma perversa, derrubará o instituto da responsabilidade fiscal também nos estados e municípios. Se a União pode, por que não os demais? Um desastre anunciado.

Ainda que a manobra arisca dos aliados para acelerar a votação indique a possível aprovação do projeto, o Congresso Nacional tem uma chance única de evitar a catástrofe. De mostrar que não se ajoelha para quem faz o diabo.