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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O recesso e o impeachment

Por Ricardo Noblat

Se interessar ao governo, à oposição não interessará
A essa altura, está mais para “barata morta” a ideia de suspensão do tradicional recesso do Congresso que se estende de final de dezembro a início de fevereiro.

A ideia foi da oposição. Logo adotada pelo governo. Quanto mais rapidamente acabar o processo de impeachment, melhor para ele. Desde que ganhe, é claro.

A oposição recuou. Primeiro porque depende de multidões nas ruas para reunir no Congresso o necessário número de votos sem o qual não haverá impeachment – e isso exige tempo.

Segundo porque tudo que possa interessar ao governo não interessa a ela.

Arte de CLAUDIO


De resto, só haveria recesso se os presidentes da Câmara e do Senado estivessem de acordo. Não estão.

A suspensão do recesso apressaria o julgamento de Eduardo pelo Conselho de Ética da Câmara. Ele corre o risco de perder ali o mandato por quebra de decoro.

Eduardo quer empurrar seu julgamento com a barriga.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O sociólogo e o operário

Por Ricardo Noblat


O sociólogo e o operário
Nada deve doer tanto em Lula ultimamente do que as críticas que lhe faz o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Os dois foram parceiros políticos no passado. Separou-os a fundação do PT. FHC preferiu ficar em um partido para chamar de seu – o PSDB.



Embora o candidato do seu governo fosse José Serra, nada deixou FHC mais feliz do que passar a presidência da República para Lula. Por vaidade, imaginava-se citado no futuro em livros de História como o sociólogo que foi sucedido pelo operário.

De resto, se Lula fracassasse, o sociólogo estava pronto para substitui-lo. O operário se reelegeu e elegeu Dilma. Deixou o cargo com 80% de aprovação.

Por razões que ainda não estão claras, Lula aproveitou seus oito anos de governo, e os quatro primeiros de Dilma, para bater em FHC sem piedade. Chamou de “maldita” a herança que recebera dele. Debochou dos conhecimentos de FHC e exaltou sua própria ignorância.

Pois bem: a hora do troco chegou. FHC retribui a pancadaria sem perder a classe. Vale-se da cultura que acumulou e dos seus reconhecidos bons modos. 

Nem por isso o que ele diz deve doer menos em Lula. Talvez doa mais. Porque FHC trata Lula não como um adversário, mas como um objeto a ser analisado. Tal postura é de alguém que se julga superior, que olha o entorno do alto do seu trono. Lula tem ouvido FHC sem responder por que sua situação é muito ruim. E tende a piorar, tamanho é o cerco que lhe movem a Polícia Federal e o Ministério Público. Não sem razão.

Que líder político entre nós ainda conservaria parte da popularidade sendo alvo de todas as suspeitas que alcançam Lula? 

É suspeito, por exemplo, de ter beneficiado empreiteiras que o têm beneficiado desde que ele saiu do governo.



É suspeito de ter bancado a “sofisticada organização criminosa” que se apoderou de parte do aparelho do Estado durante o mensalão.

E foi ele que nomeou os diretores que saquearam a Petrobras em proveito próprio, do PT e de outros partidos e políticos.

Enquanto Lula tenta escapar de um fim de vida trágico, FHC antecipa a publicação dos seus livros de memória à espera do aplauso da posteridade.

Enquanto Lula tenta justificar o enriquecimento dos seus filhos, FHC confraterniza com o filho que adotou, e que leva uma vida simples.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O preço do Fundo Partidário

Por Ricardo Noblat, em seu blog.

Garimpagem de Haroldo Quadros


A indigesta mistura do Fundo Partidário com o Caixa 2 de campanha
Chocado com a notícia de que triplicaram os recursos do Orçamento da União destinados ao fundo que financia os partidos políticos? Ou simplesmente indiferente como se nada tivesse a ver com isso?



Pois se não sabe, saiba: o dinheiro que sustenta os partidos sai do seu bolso. Do meu. Do bolso de todos os brasileiros que pagam impostos. Logo...

Logo quando triplica o volume de recursos a serem embolsados pelos partidos, a notícia deveria nos interessar, sim. A não ser que estejamos nadando em dinheiro...

A não ser também que sejamos políticos. De preferência donos de partidos. Porque eles existem. É um ótimo negócio. Ganham roubando dinheiro do fundo e negociando apoio a outros partidos.

Arte de DUKE


As repórteres Gabriela Valente, Júnia Gama e Luiza Damé, de O Globo, fizeram as contas e conferiram que as verbas para os partidos cresceram 490% em 20 anos. Eu disse: 490%.

Em valores atualizados, alcançaram a espetacular cifra de R$ 4 bilhões, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Para este ano estão previstos R$ 867,6 milhões. São 171,1% a mais do que os recursos de 2014.

Arte de BRUM


É a maior dotação desde a Assembleia Constituinte de 1988 — e feita no momento em que o PT incentiva a discussão sobre financiamento público de campanha por conta dos escândalos de corrupção.

O Fundo Partidário tinha obtido outro aumento significativo na virada do governo Lula para o primeiro governo Dilma. Algo como 55%.

Se o reajuste das verbas do fundo garantisse, pelo menos, que o Caixa 2 de campanha deixaria de existir.. Ou que seria mais eficiente e dura a legislação que pune crimes de corrupção... Mas, não.

Arte de CLAYTON


O mensalão, escândalo de pagamento de propinas a políticos e partidos, coexistiu, por exemplo, com os sucessivos aumentos no valor do Fundo Partidário.

O sempre lúcido deputado Miro Teixeira (PROS-RJ) observa sem dó nem piedade:

- O dinheiro do Fundo Partidário estragou os partidos políticos e criou uma volúpia de criação de novos partidos. Dessa maneira, sempre vai ter que aumentar o fundo, o que é absolutamente insano. Sem falar que esses recursos são negociados em troca de secretarias, para fazer coligações entre contrários, para repartir o governo e em seguida lotear o poder.

Arte de LUIZ F. VERÍSSIMO


Miro vai adiante:

- O país precisa de muito dinheiro para Segurança, Habitação, Saúde e Educação. Não vejo como explicar ao povo que ele vai pagar milhões a campanhas para que os eleitos ganhem altos salários e possam nomear muitos assessores. Esse fundo não deveria nem existir. Os partidos têm que representar a população, e a população tem que estar engajada.




Perfeito!

segunda-feira, 2 de março de 2015

Lulla ameaça a democracia

Por Ricardo Noblat.
Publicado em O GLOBO em 02MAR2015



Da esperança à ameaça
O que leva Dilma, aos 67 anos de idade, a ser tão rude com seus subordinados? A pedido de quem me contou, não revelarei a fonte da história que segue. No ano passado, ao ouvir do presidente de uma entidade financeira estatal algo que a contrariou, Dilma elevou o tom da voz e disse: 

"Cale a boca. Cale a boca agora. Você tem 50 milhões de votos? Eu tenho. Quando você tiver poderá ocupar o meu lugar".

Arte de ANGELI


Dilma goza da fama de mal-educada. Lula, da fama de amoroso. Não é bem assim. Lula é tão grosseiro quanto ela. Tão arrogante quanto. Eleito presidente pela primeira vez, reunido em um hotel de São Paulo com os futuros ministros José Dirceu, Gilberto Carvalho e Luís Gushiken, entre outros, Lula os advertiu: 

"Só quem teve voto aqui fui eu e José Alencar,
 meu vice.
 Não se esqueçam disso".

Em meados de junho de 2011, quando Dilma sequer completara seis meses como presidente da República, ouvi de Eduardo Campos, então governador de Pernambuco, um diagnóstico que se revelou certeiro. "Dilma tem ideias, cultura política. Mas seu temperamento é seu principal problema", disse ele. "Outro problema: a falta de experiência. E mais um: tem horror à pequena política. Horror".

Na época, Eduardo era aliado de Dilma. Nem por isso deixava de enxergar seus defeitos. "Dilma montou um governo onde a maioria dos ministros é fraca", observou. "Todos morrem de medo dela. No governo de Lula, não.ministro era ministro. Agora, é serviçal obediente e temeroso. Lula não pode fingir que nada tem a ver com isso. Foi ele que inventou Dilma".



Lula não perdoa Dilma por ela não ter lhe cedido a vez como candidato no ano passado. Mas não é por isso que opera para enfraquecê-la sempre que pode. Procede assim por defeito de caráter. Com Dilma e com qualquer um que possa causar-lhe embaraço. Se precisar, Lula deixa os amigos pelo meio do caminho. Como deixou José Dirceu, por exemplo. E Antonio Palocci.

Pois foi com o discurso belicoso de sempre que Lula participou de um ato no Rio em favor da Petrobras. Pediu que seus colegas de partido defendessem a empresa e se defendessem da acusação de que a saquearam. E, por fim, acenou com a possibilidade de chamar "o exército" de João Pedro Stédile, líder do MST, para sair às ruas e enfrentar os desafetos do PT e do governo.



Washington Quaquá, presidente do PT do Rio, atendeu de imediato ao apelo de Lula. Escreveu em sua página no Facebook: 

"Contra o fascismo, a porrada. Não podemos engolir esses fascistas burgue-sinhos de merda. Está na hora de responder a esses filhos da puta que roubam e querem achincalhar o partido que melhorou a vida de milhões de brasileiros. Agrediu, damos porrada".

Para o bem ou para o mal, este país carregará a marca de um ex-retirante miserável, agora um milionário lobista de empreiteiras, que disputou cinco eleições presidenciais, ganhou duas vezes e duas vezes elegeu uma pessoa sem voto e sem preparo para governar. Lula já foi uma estrela que brilhava. Foi também a esperança que venceu o medo. Está se tornando uma ameaça à democracia.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Beija Flor, campeã com sangue nas mãos

Por Ricardo Noblat.
Publicado em seu BLOG em 20FEV2015

Quem se importa com o dinheiro manchado de sangue que deu à Beija-Flor o título de campeã?
Um Estado permissivo e uma sociedade tolerante por natureza ajudam a entender por que foi possível a uma das ditaduras mais sangrentas do mundo, a da Guiné Equatorial, se associar à escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, 13 vezes campeã do carnaval do Rio de Janeiro, a que mais coleciona títulos na Era do Sambódromo.

Arte de THIAGO LUCAS


Uma vez perguntaram ao prefeito Eduardo Paes o que ele achava das ligações entre as escolas de samba e os chefes do jogo do bicho, proibido por lei. Cito de memória a resposta dele:

- É chato, não é? Mas o que posso fazer? Acabar com o carnaval do Rio?

Os antecessores de Paes devem ter pensado assim, bem como ex-chefes de polícia, ex-governadores, juízes, desembargadores, empresários, socialites, artistas, e parte do distinto público acostumado a fazer sua fezinha no bicho. Se nem o Estado nem a iniciativa privada bancavam as escolas por que não os bicheiros?

Arte de BONIFACIO


Quantas vezes eles não desfilaram a frente de suas escolas, festejados por notáveis que os admiravam e tiravam vantagens de sua amizade?

Quantas vezes não foram ovacionados pelos que lotavam camarotes, frisas e arquibancadas do Sambódromo?

Quantos favores não prestaram? E a quantos não beneficiaram?

Depois que os mais importantes bicheiros foram presos em janeiro de 1993 por ordem da juíza Denise Frossard, presos novamente em 2007, dessa vez pela Polícia Federal, e condenados em 2012 pela juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, poucos entre eles se arriscaram a ser vistos novamente na Sapucaí. A morte tirou vários de circulação.

Arte de DUKE


Mas na última segunda-feira, no desfile do Grupo Especial, uma das cabeças da máfia do jogo do bicho passeou sem constrangimento no Sambódromo pilotando um carro elétrico – o contraventor Anísio Abrahão, presidente de honra da Beija-Flor. A televisão mostrou.

Foi dele a última palavra que fechou a parceria da ditadura da Guiné Equatorial com a escola.

Mariana Sanches, em reportagem publicada, hoje, pelo O Globo, registrou a reação ao episódio de o principal defensor dos direitos humanos da Guiné Equatorial, Tutu Alicante, que vive exilado nos Estados Unidos:

- O carnaval da Beija-Flor é um insulto para o povo da Guiné Equatorial.

Alicante explicou a razão. Cerca de 75% da população de 1,6 milhão de pessoas do seu país vivem com apenas dois dólares por dia e não têm acesso à água limpa ou à saúde.

Arte de AROEIRA


“Nada disso foi para a avenida na madrugada de terça-feira, quando a escola desfilou as “belezas” da Guiné Equatorial”, acusa.

Mônica perguntou se as pessoas por lá já sabem o que aconteceu. Resposta de Alicante:

- Não há jornais lá. Não existe imprensa livre na Guiné. As pessoas não sabem o que está acontecendo nem oficial nem extraoficialmente. Não existe nenhuma rádio ou emissora de televisão livres. O Facebook é bloqueado, assim como a maior parte dos sites de informação.

E um cidadão médio do país? Como vive? Alicante:

- Obiang [ditador há 35 anos] tem pelo menos 17 palácios. 75% da população não têm onde morar, não estuda, não têm água limpa. Se ficar doente, morre. Medicamentos básicos são inacessíveis. Há uma única universidade no país, sem alunos. Nos últimos dois ou três anos, pelo menos 60 mil pessoas foram sequestradas, executadas ou torturadas na Guiné.

Arte de KACIO


Quem por aqui se importa verdadeiramente com isso? 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O escudo de Dilma

Por Ricardo Noblat
Publicado em seu blog em 15DEZ2014

O escudo de Dilma
O que o PT tem a dizer sobre a roubalheira na Petrobras? Afinal, ele sempre disse que a Petrobras seria privatizada se o PSDB, um dia, conseguisse voltar ao poder.

Pois a empresa foi corrompida pelo PT, desmoralizada pelo PT e empurrada buraco a baixo pelo PT.
Arte de ANGELI

Hoje, o PT é uma camiseta puída com cheiro de suor, uma estrela guardada no fundo de uma gaveta, uma bandeira vermelha coberta de vergonha.

Na Petrobras, é fato, o roubo existe desde meados do governo José Sarney nos anos 80 do século passado. Atravessou os governos Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Mas foi no governo Luiz Inácio Lula da Silva que alcançou uma escala gigantesca, segundo investigação da Polícia Federal.

Surpreso com a herança maldita, caberia ao governo Dilma livrar-se dela. Certo? Errado.

Arte de SPONHOLZ

Você é ingênuo o bastante a ponto de acreditar que Dilma ignorava o que se passava com a Petrobras? Dilma foi ministra das Minas e Energia. A Petrobras era subordinada a ela. Foi chefe da Casa Civil da presidência da República, o segundo posto mais importante do governo. Acumulou o cargo com a presidência do Conselho de Administração da Petrobras. 

Nada se fez ou se faz na Petrobras sem a aprovação do Conselho. Da compra de uma refinaria, como a de Pasadena, por exemplo, a aditivos a contratos bilionários.

A Petrobras é a empresa campeã no Brasil em contratos firmados sem licitação. 



Comprada a um grupo belga, Pasadena representou um prejuízo enorme para a Petrobras. Para os belgas foi o “negócio do século”. Encheram as burras de dinheiro.

Uma vez eleita para suceder Lula, Dilma nomeou para o Ministério das Minas e Energia um nome indicado por Sarney – o do senador Edison Lobão. E para a presidência da Petrobras uma de suas amigas de fé, irmãs, camaradas, Graça Foster.

Lobão foi ministro de faz de conta – quem mandava no ministério era Dilma. Quanto a Graça... Mandou na Petrobras consultando Dilma para tudo.



Em depoimento à CPI da Petrobras em junho último, Graça afirmou que jamais ouvira falar antes de corrupção na empresa. “Só com a suspeita, nós ficamos muito envergonhados”, disse, e em seguida choramingou. Comovente! Mas pura lorota como se sabe hoje. Graça ouvira falar de corrupção, sim. E, no mínimo, três vezes. Vamos a elas.

Pouco antes de comparecer à CPI, Graça fora informada pelo Ministério Público Holandês sobre propinas pagas pela empresa holandesa SBM na venda à Petrobras de um navio-plataforma. A SBM ainda recebeu US$ 25 milhões extras pela antecipação da entrega do navio. Lula queria inaugurá-lo às vésperas da possível eleição de Dilma para presidente em 2010. E assim foi.

No final de 2009, em e-mail enviado a Graça, Venina Fonseca, então gerente da Petrobras, alertou-a sobre o aumento de gastos com a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. De US$ 4 bilhões, o negócio passara a custar US$ 18 bilhões. Em outro e-mail de 2011, Venina confessou a Graça que o “imenso orgulho” que tinha de trabalhar na Petrobras dera lugar à “vergonha”. Ofereceu-se para lhe contar o que sabia. Não obteve resposta.



Demitir ou não demitir Graça? Eis a questão que tira o sono de Dilma desde que o Procurador Geral da República cobrou a demissão da diretoria da Petrobras.

A empresa perdeu 80% do seu valor entre dezembro de 2004 e dezembro deste ano.

Graça serve à Dilma de escudo contra o mar de lama que se acumula ao pé da rampa do Palácio do Planalto. Se ele sair do meio, Dilma ficará face a face com a lama.

Lula entregou a cabeça de José Dirceu e salvou a sua, ameaçada em 2005 pelo escândalo do mensalão. Deu certo.

Dilma acabará entregando a cabeça de Graça. Resta ver se dará certo.
 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Noblat: Lulla e Dilma, a Censura e a Prepotência

Por Ricardo Noblat
Publicado em O GLOBO em 04AGO2014

Retratos do autoritarismo
O que tem a ver o caso da analista do banco Santander demitida na semana passada por exercer direito o seu ofício com o caso do correspondente do "The New York Times" ameaçado de expulsão do Brasil em maio de 2004? Os dois aconteceram no começo e no que poderá ser o fim do período de 12 anos de governos do PT. Foram protagonizados por Lula. E são casos exemplares da prepotência dele e de sua turma.

NANI



DE VOLTA AO FUTURO... Na época, pensei: o cara pirou. Só pode ser. Ou está de porre. Compreensível que tenha se sentido ofendido pela reportagem do "The New York Times" sobre seu gosto por bebidas alcoólicas. Mas daí a determinar a expulsão do país de Larry Rother, correspondente do jornal mais importante do mundo? Sinto muito, era um flagrante exagero. Uma escandalosa arbitrariedade.

FOI ISSO O que Lula ouviu dos poucos assessores com coragem para confrontá-lo. Um deles, durante reunião no Palácio do Planalto, sacara de um exemplar da Constituição e apontara o artigo que garantia ao jornalista o direito de permanecer no Brasil. Então Lula cometeu a frase que postei em meu blog às 15h16m do dia 12 de maio de 2004, poucas horas depois de ela ter sido pronunciada.


ANGELI


ELE DISSE: "Fod.... a Constituição". Foi mais ou menos isso que você leu. Um ministro que ouvira a frase reproduziu- a para um assessor. E o assessor, que trabalhara comigo durante vários anos, me telefonou contando. Esperei durante o resto do dia o desmentido que não veio. Ainda espero. Prevaleceu a opinião sensata de Márcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça, que desaconselhou a expulsão por ser ilegal.

IMPEDIDO DE consumar sua vontade, Lula tentou tirar proveito político do episódio se comportando como vítima. A Presidência da República fora atacada por um irresponsável jornalista estrangeiro. Mas, generoso e obediente à lei, o presidente desculpara o malfeitor, depois que ele divulgou uma nota dizendo que não tivera a intenção de ofendê-lo. Quanto ao jornal... Recusou-se a desmentir o que publicara.




A CORAGEM QUE sobrou à direção do jornal faltou à direção do Santander. Em discurso para sindicalistas em São Paulo, Lula cobrou do banco a demissão imediata da analista, autora do boletim enviado para clientes de alta renda relacionando a queda de Dilma nas pesquisas de intenção de voto com a eventual melhoria do câmbio e valorização de ações de grandes companhias. E a cabeça da analista foi oferecida a Lula.

UM ATO DE subserviência. Que nem de longe parece ter envergonhado Emílio Botín, presidente mundial do Santander, amigo de Lula e admirador declarado de Dilma. "O que aconteceu é proibido, pois não se pode fazer manifestações que interfiram na decisão de voto", cobrou Rui Falcão, presidente do PT. Botín aquiesceu: "O boletim não representa a posição do banco". E se o boletim tivesse afirmado o contrário? 

NANI


SE TIVESSE dito que a Bolsa de Valores subiria com o crescimento de Dilma nas pesquisas? Lula pediria a demissão do seu autor? Falcão recriminaria o banco por favorecer o voto em Dilma? Lula e o PT aproveitaram a ocasião para fazer Dilma de coitadinha! De maltratada pelos poderosos. Perseguida como o fora durante a Copa do Mundo por uma elite preconceituosa que não respeita nem mesmo uma mulher.

ANGELI


ESSE TIPO DE jogada falsamente esperta, que aposta na ignorância coletiva, se repetirá à exaustão até que o país conheça em outubro seu futuro presidente. Fiquem atentos para desmoralizá-la de saída.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Noblat: Um desastre chamado Dilma

Por Ricardo Noblat, em seu blog

Um desastre chamado Dilma
William Bonner empurrou a presidente Dilma Rousseff para o canto do ringue. E ficou batendo nela até cansar. Até resolver lhe dar algum refresco, quando ofereceu um minuto e meio além dos 15 previstos para que ela fizesse suas considerações finais.

Bonner, Patrícia Poeta e Dilma. Reprodução da TV Globo 


Como Dilma, atarantada, não conseguiu respeitar o tempo que lhe coube, Bonner e Patrícia Poeta decretaram o fim da terceira entrevista do Jornal Nacional com candidatos a presidente. As duas primeiras foram com Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB).

De longe, a entrevista com Dilma foi um desastre. Para ela. Não chamou Bonner e Patrícia de “meus queridos”, como costuma fazer quando se irrita com jornalistas que a acossam com perguntas incômodas. Mas chegou perto.

Passou arrogância. Exibiu uma de suas características marcantes – a de não juntar coisa com coisa, deixando raciocínios pelo meio. Foi interrompida mais de uma vez porque não conseguia parar de falar, e fugia de respostas diretas a perguntas.

Perguntaram-lhe sobre corrupção. Dilma respondeu o de sempre: nenhum governo combateu mais a corrupção do que o dela. Bonner perguntou o que ela achava de o PT tratar como heróis os condenados pelo mensalão. Foi o pior momento de Dilma (terá sido mesmo o pior?).

Dilma escondeu-se na resposta de que como presidente da República não poderia comentar decisões da Justiça. Ora, a resposta nada teve a ver com a pergunta. E Bonner insistiu com a pergunta. E Dilma, nervosa, valeu-se outra vez da mesma resposta. Pegou mal. Muito mal.

Quando foi provocada a examinar o estado geral da economia, perdeu-se falando de “índices antecedentes”. Provocada a dizer algo sobre o estado geral da saúde, limitou-se a defender o programa “Mais Médicos”.

Seguramente, nem em público, muito menos em particular, Dilma se viu confrontada de modo tão direto, seco e sem cerimônia como foi por Bonner e Patrícia. Jamais. Quem ousaria? Surpreendida, por pouco não se descontrolou.

Para assistir a entrevista na íntegra, clique aqui

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Popular, sim. Grande, não!

Por Ricardo Noblat, em seu Blog

Obrigado Mauríção, pela dica

Popular, sim. Grande, não!
Bolinha de papel, rolo de fita crepe, pano de bandeira, chumaço de algodão - nada pode ser usado de forma hostil para atingir alguém sob pena de tal ato configurar uma agressão.

O que militantes do PT foram fazer no calçadão de Campo Grande, no Rio de Janeiro, quando o candidato José Serra (PSDB) esteve por lá na tarde da última quarta-feira em busca de votos?



Não foram saudá-lo democraticamente. A tal ponto de civilidade não chegaremos tão cedo.

Aos berros, munidos de bandeiras e dispostos a tudo, tentaram impedir que o candidato e seus correligionários exercessem o direito de ir e de vir, e também o de se manifestar, ambos assegurados pela Constituição.

O PT tem uma longa e suja folha corrida marcada por esse tipo de comportamento violento, autoritário e reprovável, que deita sólidas raízes em suas origens sindicais. A força bruta foi empregada muitas vezes para garantir a ocupação ou o esvaziamento de fábricas. E também para se contrapor à força bruta aplicada pelo regime militar na época em que o PT era apenas uma generosa idéia.

Para chegar ao poder, o PT sentiu-se obrigado a ficar parecido com os demais partidos – para o bem ou para o mal. Mas parte de sua militância e dos seus líderes não abdicou até hoje de métodos e de práticas que forjaram sua personalidade. É uma pena. E um sinal de atraso.

Uma vez no poder, vale tudo para permanecer ali.

Vale o presidente da República escolher sozinho a candidata do seu partido.

Vale ignorar a Constituição e deflagrar a campanha antes da data prevista.

Vale debochar da Justiça.

Vale socorrer-se sem pudor da máquina pública para fins que contrariam as leis.

Vale intimidar a Polícia Federal para que retarde investigações que possam lhe causar embaraços. E vale orientá-la para que vaze informações manipuladas capazes de provocar danos pesados a adversários.

No ocaso do primeiro turno, pouco antes de Dilma se enrolar na bandeira nacional e posar para a capa de uma revista como presidente eleita, a soberba de Lula extrapolou todos os limites.

Ele foi a Juiz de Fora e advertiu os mineiros: seria melhor para eles elegerem um governador do mesmo grupo político de Dilma.

Foi a Santa Catarina e pregou irado a pura e simples extirpação do DEM.

Foi a São Paulo, investiu contra a imprensa e proclamou com os olhos injetados: "A opinião pública somos nós".

O mais sabujo dos auxiliares de Lula reconhece sob o anonimato que o ataque de fúria do seu chefe contribuiu para forçar a realização do segundo turno.

Não haverá terceiro turno.

Se desta vez as pesquisas estiverem menos erradas, Dilma deverá se eleger no próximo domingo – e até com uma certa folga. Mas a eleição ainda não acabou, meus senhores. A história está repleta de casos onde um passo em falso, um gesto impensado ou uma surpresa põe tudo a perder.

O que disse Lula a respeito do episódio do Rio protagonizado por Serra e por militantes do PT só confirma uma vez mais o quanto ele é menor - muito menor - do que a cadeira que ocupa há quase oito anos.

Lula foi sarcástico quando deveria ter sido solidário com Serra, de resto seu amigo de longa data.

Foi tolerante e cúmplice da desordem quando deveria tê-la condenado com veemência.

Foi cabo eleitoral de Dilma quando deveria ter sido presidente da República no exercício pleno da função.

Sua popularidade poderá seguir batendo novos recordes -e daí? Não é disso que se trata.

Popularidade é uma coisa passageira. Grandeza, não. É algo perene. Que sobrevive à morte de quem a ostentou.

Tiririca é popular. Nem por isso deve passar à História como um político de grandeza. No seu tempo, Fernando Collor e José Sarney, aliados de Lula, desfrutaram de curtos períodos de intensa popularidade.. Tancredo Neves foi grande, popular, não.

Grandeza tem a ver com caráter, nobreza de ânimo, sentimento, generosidade. Tudo o que falta a Lula desde que decidiu eleger Dilma a qualquer preço.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

E agora, presiMente?

A propósito da notícia sem-citar-nome-lula-critica-jarbas-vasconcelos, O blog do Noblat recebeu da assessoria do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) a seguinte resposta dele:


“O presidente Lula está se transformando num mentiroso contumaz. Como governador do Estado, nunca deixei de participar das programações feitas pelo Planalto, mesmo quando eram transformadas em eventos eleitoreiros por parte dos aliados do presidente.


Quem tremeu diante de vaias foi Lula, quando foi vaiado fortemente em pleno Maracanã.



charges de Sponholz

É vergonhoso e acintoso ver o presidente da República em campanha eleitoral escancarada e antecipada sob a passividade da Justiça Eleitoral e do Ministério Público sem nenhuma conseqüência. A verdade é que Lula usa e abusa do dinheiro público para empinar a sua candidata”.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Artigo de Ricardo Noblat: A coleção de ...

Por Ricardo Noblat




A coleção de êxitos de Lula é notável.
A economia cresceu com distribuição de renda e atravessou veloz a crise financeira mundial. O governo balançou com o escândalo do mensalão, mas não caiu e hoje é sustentado por 14 partidos.O país nunca teve presidente tão popular. A Copa do Mundo de 2014 é nossa e os Jogos Olímpicos de 2016 também.

O que falta para Lula proclamar do alto de sua reconhecida modéstia que realizou a obra perfeita? Eleger seu sucessor.

Jamais na história democrática do país um presidente da República passou a faixa para quem escolheu. Itamar Franco passou para Fernando Henrique, seu ex-ministro das Relações Exteriores e da Fazenda. Mas quem elegeu Fernando Henrique não foi Itamar – foi o Plano Real que acabou com a inflação.

Em visita ao Maranhão, o ex-ministro José Dirceu, articulador “ad hoc” da candidatura da ministra Dilma Rousseff a presidente, soprou para colegas a fórmula que imagina capaz de garantir a eleição dela.

Primeiro há que se comparar à exaustão as realizações do atual governo com as do seu antecessor. Segundo há que se massificar a informação de que Dilma é a candidata de Lula. Cerca de 40% dos brasileiros ainda ignoram isso.

E o mais importante: a certa altura da campanha, Lula haverá de se afastar das tarefas prosaicas da administração para se dedicar com exclusividade a percorrer o país carregando Dilma debaixo do braço.

Dilma não tem e dificilmente terá votos próprios. Com a entrada em cena da senadora Marina Silva (PV-AC), perdeu a condição de ser a única mulher candidata a presidente. Vencerá se o eleitor se convencer de que ela é Lula de saias.

Tanto melhor se o eleitor acreditar que Dilma na verdade é candidata a um mandato tampão. Uma vez que se eleja, cederá o lugar depois de quatro anos a quem não pôde concorrer ao terceiro mandato consecutivo.

Lula costuma dizer que será mais fácil tentar voltar em 2014 no caso de derrota de Dilma em 2010. Bobagem! Na prática, o mandato de presidente, governador e prefeito é de oito anos – com uma confirmação pelo meio.

Enfraquecido ao final do seu governo, Fernando Henrique sabia que seu candidato estava condenado à derrota. De sua parte, José Serra sabia que chegara a hora de Lula. Nem Fernando Henrique suou a camisa para eleger Serra, nem Serra quis que ele suasse. Preferiu manter distância. Jogou na mesa uma carta implausível, a única que tinha: apresentar-se como o candidato da mudança, talvez mais confiável do que Lula. Não deu certo.

A ninguém Fernando Henrique confessou que apostava no insucesso de Lula para subir outra vez a rampa do Palácio do Planalto. Mas não é de todo um disparate especular que ele apostava, sim.

Lula poderia ter cedido à tentação de mexer com a política econômica. Havia conselheiros de sobra ao seu redor sugerindo que mexesse. Era desprovido de experiência para governar - Dilma não é. E foi atropelado por mensaleiros e aloprados.

Fernando Henrique é um retrato na parede. Lula recusa tal destino. Desistiu de brigar pelo terceiro mandato consecutivo porque a idéia pegou mal no seu círculo íntimo de assessores e aliados.

Contudo, a candidatura de Dilma foi concebida por ele para ocupar espaço à espera da ocasião ideal do lançamento de algo parecido com o movimento “queremista” que devolveu Getúlio Vargas ao poder em 1950. Mas aí veio a crise dos bancos.

A crise despachou o “queremismo” para o freezer. Enquanto espera que Dilma volte a subir nas pesquisas de intenção de voto, Lula deixa Ciro Gomes (PSB-CE) brincar de candidato a presidente.

Ciro só será candidato para valer se abrir uma razoável vantagem sobre Dilma. Então Lula poderá até trocar Dilma por ele. Do contrário, acabará forçado a abandonar o páreo e a disputar o governo de São Paulo se quiser.

Falta cacife político e financeiro a Ciro para enfrentar Dilma contra a vontade de Lula e do seu próprio partido.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Noblat e "O trapalhão"


Por Ricardo Noblat, para O Globo
O trapalhão

“O Lula é o Forrest Gump brasileiro”

(Hugo Leal, deputado do PSC-RJ,
sobre a imagem de político de sorte do presidente)


Lula e Dilma têm muitas coisas em comum, mas falta uma capaz de fazer toda a diferença: nada pega em Lula. Tudo pega em Dilma.
Mensalão? Lula jura que não sabia. Compra de dossiê contra adversários nas eleições de 2006? Ignorava. A ex-secretária da Receita Federal diz, mas não prova, que se reuniu com Dilma. Pois as pessoas acreditam nela.
Dilma angariou justa fama de autoritária. Lula é um autoritário sem fama. Dilma trata mal até ministros de Estado. Lula está cansado de fazer o mesmo, mas ninguém em torno dele sai espalhando. Dilma detesta ser contrariada. Lula é capaz de pular no pescoço de quem o contrarie.
De cara feia, Lula assusta os que o cercam tanto quanto Dilma assusta os seus. Mas a antipática é ela. Lula é um doce. Imagine só se coubesse a Dilma decidir se os projetos do pré-sal deveriam ou não ser votados em regime de urgência no Congresso. E que ela decidisse que deveriam, sim. E depois recuasse. E em seguida mantivesse a urgência. Para finalmente revoga-la.
Do que a chamariam? De política hábil, conciliadora, esperta, realista? Ou de fraca, confusa, indecisa e permeável a todo tipo de pressão?
E se Dilma, na Presidência, tivesse tomado algumas doses a mais de caipirinha e, ao lado do presidente da França, anunciasse o desfecho de uma concorrência bilionária que ainda não esgotou seus trâmites? O mundo desabaria na cabeça dela. A Aeronáutica entraria de prontidão (claro que exagero). E o ministro da Defesa teria a desculpa que procura para deixar o governo e apoiar a candidatura de José Serra.
Lula é um trapalhão. Por despreparo, presunção ou falta de cuidado, fabrica trapalhadas desnecessárias. É dele a decisão final sobre a compra de aviões militares. Lula não está obrigado a levar em conta apenas aspectos técnicos das propostas. De fato, são relevantes razões de ordem estratégica. Mas precisava se precipitar?
Por pouco não enfrentou uma crise com a demissão do comandante da Aeronáutica.
Em 2007, quando os controladores de vôo entraram em greve, Lula mandou o ministro do Planejamento negociar com eles — e o comandante da Aeronáutica ameaçou ir embora. Três anos antes, afrontado pelo comandante do Exército, o ministro da Defesa, José Viegas, quis demiti-lo, mas Lula não deixou. Viegas foi embora.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As Eleições e o Pré-Sal



charge de lute

Por Ricardo Noblat

Pré-Sal - sociedade à margem
A natureza da política é a coerção e a impostura, segundo o escritor inglês George Orwell em um dos textos reunidos no livro "Dentro da Baleia e outros ensaios" (Companhia de Letras). Um bom exemplo do que ele diz está em curso com o envio para o Congresso dos projetos do Pré-sal.
O governo levou 14 meses para prepará-los. E agora pressiona o Congresso para aprová-los em 90 dias. Aqui a coerção.

Aqui a impostura: o governo quer evitar uma longa discussão no Congresso para que ela não se estenda ao ano eleitoral de 2010 e não seja contaminada por ele. Na verdade, o governo quer o Pré-sal como um dos trunfos da campanha eleitoral de sua candidata a presidente, Dilma Rousseff.
Não basta que Dilma represente a continuidade do governo bem avaliado de Lula. Ela precisa despertar esperanças, jogar para frente. Tem algo mais para frente - e põe para frente nisso - do que o Pré-sal - a extração de petróleo e gás a grande distância da costa brasileira, a profundidades abissais e a longuíssimo prazo?
O governo pretende que o Congresso aprove às pressas o que ele teve tempo suficiente para amadurecer. A sociedade ficará à margem da discussão.