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quinta-feira, 10 de março de 2016

A Marilyn Monroe negra

Por Manuel S. da Fonseca
Crônica


Cheiras muito à Quinta Avenida
Oito da manhã ou oito da noite, com Dorothy Dandridge todas as horas eram sensuais.

Ainda nem meio-dia seria quando ela entrou no escritório de Otto Preminger. Actriz negra, ou mestiça, ou café au lait, como escrevia, nos anos 50, a imprensa negra americana, queria ser a Carmen da Carmen Jones que a 20th Century Fox mandara Preminger filmar. Vinha sofisticadíssima, ou seja, disfarçada. Camuflara-se num tailleur da Saks, um chapéu de rainha de Inglaterra. Atrás da sua secretária art deco, Preminger, bruto como as casas, olhou para ela e, se combinarmos o que eu penso que ele disse com o que os livros dizem que ele disse, saiu-lhe esta frase: “Ó filha, cheiras muito a Quinta Avenida. Se vens para Carmen, vieste ao engano.”



Ao engano já Dorothy levava mais de trinta anos. Trazia no corpo mil gotas de sangue em ebulição e não se ficou. Era uma cantora de sucesso em Nova Iorque, mas o que queria era Hollywood. E Hollywood, preconceituosa, para não dizer racista, escondia-a atrás de um avental de criada, de um pé descalço escravo. Em Carmen Jones, concebido como um “filme de raça”, ou seja, destinado à população negra, Dorothy via-se protagonista, ao lado do já famoso Harry Belafonte.




Saiu do escritório de Preminger e foi directa ao guarda-roupa da Fox. Atirou ao lixo a doçura dos trapinhos Quinta Avenida e vestiu uma rude blusa preta que não se atrevia a cobrir-lhe mais de metade do nobre peito e uma saia vermelha de racha lateral, que deixava faiscar um metro de perna. E, com uma daquelas formas de andar que desequilibram o mundo, trouxe de novo o longilíneo S maiúsculo que era o seu corpo até Preminger.

Escusava de dizer, mas digo: houve um sobressalto atrás da secretária art deco de Preminger. Carmen fechara a porta depois de entrar. No filme, ela viria a cantar este verso: “Um homem trata-me como se eu fosse lama e é esse o homem a quem dou tudo o que tenho.” Deu tudo a Preminger, que, casado, muito e clandestinamente a amou.

Esse filme bastou para que Hollywood a nomeasse para o Oscar e a chamasse a “Marilyn Monroe negra”. Comparação fatal: o incompleto amor de Preminger e a sexualizadíssima imagem acolchoaram um destino trágico. Sem glória, Dorothy morreu, doze anos depois, com uma overdose de antidepressivos.


  • Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.
  • Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O cinema é a arte de fazer perguntas aos olhos.

Por Manuel S. Fonseca.
Crônicas
A longa penugem no pescoço
Agora, que já nem é preciso pedir licença a Tom Cruise, comecemos o ano com a límpida e clara nudez de Nicole Kidman. Com ou sem licença de Cruise, despiu-a Stanley Kubrick em Eyes Wide Shut.

Estava o ecrã todo a negro para melhor passarem os nomes dos artistas e, mal se lia o nome do obsessivo Kubrick, a omnipotência dele punha-nos os olhos numa sala iluminadíssima. Víamos uma mulher de costas. Fosse ou não porque os violinos da valsa nº 2, da Suite para Orquestra de Shostakovich, lhe afagassem a loura penugem do pescoço, ela deixava cair o vestido preto. E noto que, atrapalhado, nem falei do diluviano decote que, vestindo, já despia o lado lunar e calipígio de Kidman.



Cai-lhe um vestido preto aos pés e Nicole Kidman não tem nada por baixo. Está ali, altíssima e nívea, as costas perfeitas, a delicada curva da cintura, a aveludada perna direita que se levanta para sair da mancha de seda negra que é agora o vestido no chão, depois a ágil perna esquerda.

E, entre a cintura e as pernas que tudo sustentam, está essa região sumptuária, criada, como tudo o que é redondo e a dobrar, só para estético enlevo da humanidade e insofismável prova da existência de Deus. É uma mulher nua, em cima de um par de sapatos de finos saltos, as pernas a suave distância uma da outra, para que entre elas passe a santa luz. Bailarina de Degas sem tutu, toda a sua palpável plenitude coroada pela alegria de um arco de violino de Shostakovich…



Filme que começa assim não é gago nem cego. Jean-Luc Godard, realizador circense, começou com igual rabo, que por acaso era diferente, o seu Le Mépris. Muito menos branca, num quarto de sombras e uma réstia de luz deliquescente, está deitada e nua Brigitte Bardot. É irresistível olhar-lhe para as tão displicentes nádegas, porque ela mesmo diz ao actor com quem contracena, mas também a toda a plateia: “E as minhas nádegas, achas que são bonitas?

A pergunta de B.B. é irrespondível por ser feita directamente aos olhos. Responde-se-lhe de “olhos desmesuradamente fechados” como o título de Kubrick nos ensinou. E termino: o cinema é a arte de fazer perguntas aos olhos, perguntas que vão à origem, à escassa essência. Não admira que a inverbalizável mulher nua seja, tantas vezes, o seu começo e o seu fim, seu génesis e seu apocalipse.

  • Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.
  • Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Quando o banho não limpa

Por Manuel S. Fonseca
Transcrito do 50 anos de Textos

O banho nem sempre é uma limpeza
O assas­sí­nio no banho é uma inven­ção de Hit­ch­cock. No século XVIII, o pin­tor David imor­ta­li­zara o revo­lu­ci­o­ná­rio Marat, mostrando-o a san­grar na banheira onde sos­se­gava a comi­chão de um eczema contra-revolucionário. Marat está no banho, bem morto e esfa­que­ado.

Duzen­tos anos depois, num filme, Psy­cho (Psicose) , a vio­lenta morte no banho vol­tou a ganhar as cores per­ver­sas da obra-prima.


O banho é uma inven­ção de Hit­ch­cock. Psy­cho adap­tava um daque­les livros medi­a­nos que ali­men­tam a doce indús­tria livreira e a doen­tia ima­gi­na­ção do cida­dão tra­ba­lha­dor. Já o livro inspirava-se em fac­tos reais. Ed Gein, um tipo soli­tá­rio, de aspecto razo­a­vel­mente repug­nante, alcoó­lico e falhado na vida, matara, esquar­te­jara e arran­cara a pele – des­co­briu a polí­cia – a duas infe­li­zes mulhe­res que tro­pe­ça­ram nele, tendo ido ao cemi­té­rio bus­car uma dezena de outras, com cujos cadá­ve­res se delei­tava, pedindo eu já des­culpa pelo mau gosto da inter­mi­ná­vel frase.



O mise­rá­vel Ed Gein não matou nenhuma das víti­mas no banho e no livro cortava-se a cabeça à mulher. Tudo solu­ções que desa­gra­da­vam a Hit­ch­cock. Não gos­tava de mui­tas mor­tes nos fil­mes – “
os cadá­ve­res não sabem repre­sen­tar” – e achava que era um des­per­dí­cio e uma san­gria desa­tada cortar-se sim­ples­mente a cabeça à vítima. 
O plá­cido cine­asta inglês tinha inveja do que os rea­li­za­do­res do mudo tinham feito às suas actri­zes e heroí­nas. Nessa altura, jurava ele, sabiam tor­tu­rar uma mulher e faziam aquilo bem feito. Ins­pi­rado em seri­a­dos popu­la­res como The Perils of Pau­line ou nas per­so­na­gens com que Grif­fith e Sjös­tröm sevi­ci­a­ram Lil­lian Gish, na cabeça de Hit­ch­cock nas­ceu a bela e cri­mi­nosa ideia de matar no banho a sua pro­ta­go­nista, aos 47 minu­tos de filme.



Matava-a Anthony Per­kins. O que, sendo ver­dade, é rema­tada men­tira. Per­kins era, no filme, Nor­man Bates, um homem, mas tem de se ves­tir de mulher, e incar­nar a mãe, para matar, doido (ou doida?) de ciú­mes, a mulher que antes, por um sin­gelo bura­qui­nho na parede, vira despir-se e entrar para o duche.
Três minu­tos de chu­veiro e umas 50 faca­das são a maté­ria desta cena, vá lá, sublime, de Hit­ch­cock. O pai de uma jovem espec­ta­dora escreveu-lhe, acusando-o de que a filha se recu­sava há meses a entrar no duche. “Mande-a à lim­peza a seco”, respondeu-lhe o ana­fado inglês.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso. 
Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.