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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Um carnaval sem música

Por Joaquim Ferreira dos Santos.

Crônicas

Falta a música
Há uma cidade inteira querendo brincar de novo o carnaval, disposta a inventar as fantasias mais malucas, passar o constrangimento de fazer xixi no meio da rua e, como praticavam seus antepassados, voltar a soltar a franga. Esqueceram da trilha sonora.

Se antes havia compositores da pesada ajudando a festa com canções geniais, agora ninguém pensa mais no assunto. Carnaval não é só uma latinha de cerveja na mão, banheiro químico entupido e choque de ordem careta. Falta o texto cantado que dê a liga, a música que diga nessa onda que eu vou e faça todo mundo pular porque uma nega maluca, que vinha jogando sinuca, espalhou o pó de mico no salão.

Falta ao tríduo momesco, nosso mais lindo clichê festivo e agora redivivo, a música que ponha o folião em marcha para a apoteose da grande alegria. Urge um novo Braguinha, e que de preferência ele não tenha nada a ver com o velho João de Barro, mas faça o básico. Ponha a multidão para gritar a felicidade moderna de brincar novamente o carnaval de sempre. Festa sem música não existe.

Os mijões são lamentáveis, sem dúvida, as autoridades não tomam jeito, como sempre, e só no Brasil mesmo uma festa basicamente de jovens é patrocinada por uma cervejaria. Leva tempo, mas dá-se um jeito nessa canalha. O problema do novo carnaval do Rio é não ter uma música que fale dos costumes, sacaneie os políticos e dê um refrão que ajude a paquera com o papo de hoje. Deve haver, passado tanto tempo, uma terceira opção para lugar quente além da cama e do Bola Preta. São quas 500 blocos oficializados, será que nenhum deles tem um compositor que exalte as suas glórias, admire o umbigo de suas fantasiadas, e espalhe a novidade pela cidade?

Deve haver um lugar mais moderno para se passar os muitos dias da festa do que o deserto do Saara onde há quase um século o sol está tão quente que sempre queima a nossa cara. Ninguém reclama mais disso. Depois do bloqueador solar só queima a cara quem quer.

Falta música. Pode ser muito divertido cantar a mulata bossa nova que caiu no hully gully, mas essa senhora está morta faz tempo e esse hully gully ninguém sabe mais dançar. É preciso um novo compositor, uma nova maluquice cantada que bote os olhos em cima dessas garotas coxudas das academias, nessas outras siliconizadas das clínicas, e exalte a delícia de todas com a dicção dos tempos.

A alegria do carnaval não é a lata de cerveja. É a música.

Pode-se pedir alguma coisa do funk, dos gritos das torcidas ou seguir na carona dos refrãos das marchinhas que formataram a espécie carnavalesca. Só não pode é uma multidão, louca para ser feliz, andar em silêncio pelas ruas, como se estivesse numa passeata, mas sem causa para gritar, achando que carnaval é atravessar a Vieira Souto enchendo a cara e não tendo onde se aliviar depois.

Falta uma palavra de ordem musical, uma voz que se levante coletiva e, como num show de rock, como no entorno dos coretos de antigamente, faça todos comungarem da mesma vibração. Os baianos inventaram o trio elétrico, uma máquina de música que acabou se encaixando em suas tradições e virou um espetacular lançador de sucessos para todo o país. A música é discutível, mas o que se quer nessa hora é gandaia, o império do bonde sem freio, e o melhor mesmo pode ser um “rebolation” qualquer que tire o sujeito do sério.

O Rio, talvez intimidado pela lembrança dos seus Kellys e Lamartines geniais, parou de produzir música para o carnaval, e o resultado é esta multidão fantasiada que tenta ir em frente sem muita convicção, embalada pelas marchinhas antigas. Nada contra elas, ótimas em blocos que começaram com a recuperação milagrosa de um carnaval que tinha acabado. A retomada da festa passou dessa fase. Foi bom para todo mundo. A cidade deixou de colocar o carro na estrada e ficou aqui mesmo, brincando feliz. Como lhe é de espírito e tradição, se refez mais uma vez.

O Rio é fogo na roupa, e fazer festa é conosco mesmo — mas se no futebol tem música, se na Sapucaí, nos pagodes, nas igrejas e nas casas noturnas também, o carnaval está sendo feito sem ela. Os outros ingredientes estão prontos. O cenário é lindo, o incentivo ao álcool é oficial e a liberdade comportamental das novas gerações, irresistível. Falta aquele compositor popular, numa terra que foi quase toda erigida partir do talento deles, para traduzir em melodia o que está acontecendo. Ele precisa pegar o touro a unha e, caramba, caracole, fazer o libreto para que a nova ópera pagã cruze a avenida botando os bofes para fora.

Qual é a versão atual do pierrô chorando pelo amor da colombina no meio da multidão?

Os mais cínicos vão dizer que a música era só um artifício para o sujeito sem imaginação levantar os braços, chegar no broto e, cantando, dizer “Vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval”. Não se precisaria mais de texto para beijar ninguém, e os mais moralista poderiam neste momento falar da cena triste do rapaz que vai pela avenida, esbarra na garota, beija-a por alguns minutos, e depois cada um segue para um lado sem uma palavra. Será que, contra ou a favor, essas histórias não dão um samba para cair, entre um gole e outro da latinha, na boca do folião?

O carnaval se reinventou, num daqueles movimentos que fazem a glória do Rio, e por mais que as cartas dos leitores reclamem dos mijões, das ruas fechadas, isso é assunto para outra editoria. A festa é inevitável e esta cidade sem grandes filósofos, sem grandes fábricas, foi construída em cima desta verdade. Festeja-se a vida, a felicidade de estar aqui e a capacidade de renovação. A próxima tarefa é reinventar a música de carnaval e dar a liga elétrica para que a passeata dos blocos vibre o Rio com uma nova tradução para o grito, que já devia estar na bandeira da cidade, de “quanto riso, ó, quanta alegria”.

Fonte Jornal O Globo

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Um cronista de segunda...

Por Joaquim Ferreira dos Santos.

Crônicas

Nós num pega os peixe
Um cronista de segunda não é a pessoa mais indicada para fazer coro aos cultos e juntar sua pena na crítica ao livro do MEC que autoriza a garotada a chutar a gramática de bico, de chapa, do jeito que a bola rolada por Camões se lhe ajustar melhor no pé, quer dizer, na língua.

Um cronista é um sujeito que toma certas intimidades com as camareiras que cuidam do vernáculo e depois, cotovelo no balcão, vive repetindo Mário Quintana, dizendo aos amigos que outro dia uma palavra tirou a roupa e ficou nuinha pra ele. O cronista frita um ovo com as vírgulas, que vai cortando como se fossem cebolas pelo caminho das orações. Quando algum revisor aparece pedindo mais respeito, menos anacoluto, ele aproveita o livro do MEC para escrever um bilhete se dizendo “ma-gu-a-do”. Diz que foi por aí, levando um violão, e chuta com estardalhaço o balde de aço com as normas de redação. 


Arte de
 Crhistoph Niemann Zupi


Um cronista quer mais que o texto corra solto como um papo de botequim, como um olho vadio que se prega no rebolado de alguma dona e vai seguindo solto, pelo meio da rua, sem agregar valor ao panteão literário e muito menos tecer louvação de mérito semântico aos paralelepípedos sobrepostos pelos polissílabos proparoxítonos advindos do charivari das mesóclises.

Um cronista gosta de fingir que não tem compromissos com o certo e o errado que movem a seriedade dos artigos nas outras páginas. Anda de bermudas pelo pátio dos verbos, zoando das concordâncias de cartola que o espreitam pelas frestas das janelas, todas muito branquelas e invejosas da liberdade que ele tem em se locupletar ao sol pagão com as carnes suculentas do verbo popular.

Um cronista é um gato vadio espapaçado à sombra da varanda da Academia Brasileira de Letras. Seu compromisso é com o prazer. Ele está para o corpo do jornal como os meninos jogando as bolinhas na frente dos carros, apenas um momento de mágica enquanto o sinal não abre, e a vida séria das notícias volta a escorrer pelos vidros. De vez em quando o cronista deixa cair uma bolinha, tropeça numa crase. Não se abate. Ele deseja que todas as normas consideradas adequadas e peremptórias no uso da língua tenham uma boa afta e se explodam — mas ele não repetiria tal na frente das crianças em idade escolar.

No início era o verbo, diz a Bíblia, e ele vinha sendo conjugado com a concordância certa até que chegou essa tentativa do MEC de reescrever o apocalipse.

O bom professor sabe que primeiro você fica de pé e aprende a andar. Um pé é esticado para a frente e em seguida serve de apoio para o que ficou atrás faça o mesmo movimento de avançar. Alguém ensinou isso ao bebê Neymar, que depois cresceu, se aborreceu de caminhar sempre do mesmo jeito que o resto da Humanidade e resolveu fazer ao seu jeito. Em cima do repertório de passos gramaticalmente corretos que lhe ensinaram, inventou passadas, pedaladas, dribles e calcanhares impossíveis de serem perseguidos pelos outros — e reinventou a linguagem do futebol.

Manuel Bandeira fez as poesias mais românticas do parnasianismo para em seguida, maduro, mandar às favas os rigores das rimas e dizer que estava farto do lirismo-funcionário público. Cansado das métricas, dos sentimentos sob controle, Bandeira vestiu a camiseta do Bloco dos Modernistas e passou a pedir a liberdade de uma prise de lança-perfume no céu da boca. Pintou-se de 22. Queria a farra estupefaciente de todos os barbarismos universais.

Eu não diria isso numa sala de aula para menores de 18 anos, como estão fazendo os professores que usam o livro “Por uma vida melhor”, arauto patrocinado pelo MEC para a perversão de que não há mais certo ou errado no uso da língua, mas adequado ou inadequado. Eu calaria a ofensa. Seria abuso de menores.

A escola deve fazer a parte dela, colocar o pensamento do aluno em pé, e a melhor maneira de fazer isso é ensinar a norma, o rigor da linguagem padrão sobre o qual se constrói um país. Os bons mestres podem até sugerir como contraponto a audição do caipira italianado de Adoniram Barbosa, o sambista genial do “nós num se importa, Ernesto, mas você devia ter ponhado um recado na porta” — desde, é claro, que sublinhem o caráter humorístico dos versos e os liberem apenas aos que queiram soltar a voz na pândega de uma roda de samba.

Um cronista de segunda, apenas um gato de pelo curto brincando com as sobras do prato de semântica ensopada que lhe atiram os cultos, não é a melhor pessoa para pedir aos professores que tenham mais pudor na frente das crianças. Que acertem a língua com as necessidades nacionais de se colocarem os verbos em ordem, com a concordância certa, na cabeça de seus alunos. Ensinar compulsoriamente “nós pega o peixe”, como admite a nova cartilha lida na frente do quadro-negro, é mais pornográfico que os catecismos de Carlos Zéfiro que o cronista folheava, por livre e espontânea falta do que pensar, nos fundos da classe. Eu pediria mais pudor aos novos mestres.

Fernando Pessoa foi despedido de uma agência de publicidade ao fazer para a Coca-Cola o slogan “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Pode soar mal para um refrigerante, que precisa ser agradável desde o início, mas serve para o aprendizado da língua. Primeiro estranha-se, com a inevitável dificuldade que requer o rigor de uma boa educação. Depois entranha-se pela vida afora o imenso prazer de, sabendo as regras do jogo, brincar com o texto.

Um cronista de segunda, gato vira-lata da vida literária, mete a língua onde não é chamado e passa o dia lambendo as palavras, as cultas e as das calçadas, na frente de todo mundo. Nem aí ao que vão pensar. Gato sem dono, o cronista mostra os dentes quando querem lhe colocar a coleira da ordem vernacular. Ele quer ter a liberdade de fazer ao seu jeito. Coçar um adjetivo, morder as partes de um verbo composto, bocejar diante de um advérbio e balançar o rabo para uma expressão oral, gostosa, que não via há muito tempo na sua rua — mas ele não diria isso para crianças numa sala de aula. Mexer com a língua de um lado para o outro, principalmente para o errado, é diversão adulta.

Fonte: Jornal O Globo

quarta-feira, 25 de março de 2015

São uns energúmenos!

Por Joaquim Ferreira dos Santos.

A palavra certa para o descalabro
É uma pena que, assim como os cofres públicos, a língua nacional também tenha sido roubada de expressões tão ferozes e necessárias.

Foi-se o verão sem que ninguém ouvisse durante seus três meses uma única cigarra gritando o fim do dia. Da mesma maneira estão passando esses investigados do Petrolão, sem que ninguém lhes grite nos ouvidos as palavras certas, também desaparecidas junto com a voz das cigarras.

São uns energúmenos!

Arte de GILX


Chegou a hora, diante do despautério generalizado que envergonha a nação, de deixar de lado o bom gosto literário. As novas normas dos manuais de redação estabelecem limites para o palavrório jornalístico. Fazem muito bem. Mas quem leu o noticiário recente percebeu. É impossível manter a elegância vernacular numa hora dessas. Urge rever o uso das palavras gordas de outrora, aqueles vitupérios que nos vêm de imediato, na fluidez incontrolável do inconsciente coletivo, e, infelizmente, ninguém mais pronuncia.

Sem essa de corrupção e malfeitos! Isso que estamos vendo é um descalabro!

Não é um clube de empreiteiros! Trata-se de um valhacouto de bandidos!

Arte de SPONHOLZ


Uma das ordens que envolvem o fazer da escrita é a necessidade de, antes de ela sair de casa, antes de se publicar a coisa, passar um pente fino. Pentear a cabeleira do vocabulário, da gramática, da ordem geral das concordâncias, para que tudo brilhe glostoramente arrumado e não assuste o leitor. Compreende-se o pente Flamengo no estilo. É da índole humana querer posar na moda, up to date, o topete cheio de metáforas e brylcreem sintático. Todos sorriem, abraçados às borboletas nos parágrafos, para a glória do selfie literário.

Há uma obsessão generalizada de parecer moderno e, assim como se faz com o corpo, desidratar as palavras, obrigá-las a uma dieta a que só sobreviverão as magricelas, as anoréxicas de no máximo três sílabas. São as palavras-manequins. Ficam bem na foto, secas, joãocabralinas, mas na vida real ninguém quer comê-las, perdão, ninguém quer pronunciá-las, pois não dão prazer, digo, não expressam a verdade sobre o mundo que ora se nos apresenta. O Brasil está cercado de estróinas por todos os lados.

Arte de NICOLIELO


Eu compreendo Danton Jobim, Prudente de Moraes Neto e Pompeu de Souza, os bravos jornalistas que no final dos anos 1940 promoveram, diretamente da redação do “Diário Carioca”, um enxugamento disciplinatório das expressões que naquele momento pareciam patuscas. Eles precisavam dar padrão comum ao texto, torná-lo menos adjetivoso, literoso e cabeludo. Ordenavam ao copidesque, e na bancada do jornal estava Graciliano Ramos, que ceifasse coisas como “ladrão contumaz!”. Fizeram-no muito bem.

Olhando em volta, porém, a sensação hoje é que o dicionário em voga não verbaliza mais o pasmo civil diante do despundonor vigente. É preciso encher a boca de novo e trazer de volta aquelas palavras-desabafos, as mais gordurosas e descabeladas, inclusive, como pedia o poeta, as entupidas de todos os barbarismos universais. Dar-se-ia preferência às polissílabas proparoxítonas. Elas têm o volume sonoro de um paralelepípedo. Pesam, machucam. Servem mais ao que se quer diante do quadro político nacional: atirá-las com raiva no quengo de quem merece.

Arte de NEWTON SILVA


Os acusados de desviar milhões de reais não são apenas formadores de quadrilha, como quer a acusação fria da justiça. Trata-se de uma súcia de ladravazes contumazes! — e é assim, botando-se os bofes dos vocábulos para fora, que a choldra pútrida de patifes merece ser nomeada.

Esses desabafos antigos tinham uma sonoridade aviltante. Ninguém precisava conhecer o seu significado exato para sentir que pocilga cheirava mal e que nela todos seus frequentadores, os porcos que agora se locupletam das riquezas nacionais, deviam chafurdar na lama de suas vilanias. O vernáculo doía-lhes no lombo e na sua eloquência não deixava qualquer dúvida. Um covil de canalhas.

Arte de GENILDO


Essas palavras vinham ainda com um ponto de exclamação embutido, um sinal prenhe de indignação e urgência contra o escárnio — mas lá se foi também a interjeição, coitada!, uma bengala que reforçava a repulsa da sociedade a essa ignomínia atroz.

É uma pena, um verdadeiro acinte, que, assim como os cofres públicos, a língua nacional também tenha sido roubada de expressões tão ferozes e necessárias. Além dos rigores da lei, deveriam ser impostas palavras definitivas, como salafrário e sicário, a todos esses desavergonhados do momento — e a sede nacional por justiça teria ainda o gosto dessas pesadas condenações do vocabulário.

Isso é um achincalhe! Bando de sacripantas!

Fonte: Jornal O Globo