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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Eles não conhecem uma jega

Sugestão do grande OLD CUNHA
Por Marcelo Torres.



Crônicas


Eles não conhecem uma jega
Meus leitores, gozadores e esculhambadores: estava eu aqui buscando um assunto para uma crônica, quando recebi um e-mail que relatava uma notícia triste e trágica: “Homem leva coice e morre ao tentar namorar jumenta”.

O fato aconteceu nos fundos da igreja de Patos-PB, onde um homem tentou abusar sexualmente de uma jega. Apesar de ter o nome de Mimosa, a jumenta, em legítima defesa, deu um coice no cidadão; este não resistiu, e morreu.



Depois de ler essa notícia, sabem onde eu fui amarrar minha jega? Nos dicionários. Perdi horas e horas em busca da palavrinha 'jega'. Mas, para minha surpresa e decepção, o pai dos burros não reconhece a jega. 

Você vai ao Aurélio e vê que o mais famoso pai dos burros não registra a jega. O Houaiss é outro a ignorá-la. O Aulete? Esse nem se fala! O dicionário da Academia Brasileira de Letras? Não, jega não entra lá; pode entrar burro, coelho, marimbondo, tudo - menos jega.

Uma frustração, sem dúvida. Eu esperava ler um verbete mais ou menos assim: 

“Jega. Substantivo feminino. 1. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, sinônimo de jumenta; o feminino de jumento; fêmea do jegue. 2. Na gíria policial, a cama dos presidiários. 3. [Fig.] No interior do Nordeste, mulherão. 4. [Bras. NE,BA] O exemplar avantajado de uma fruta".

Quem foi menino no interior do Nordeste sabe bem o que é uma jega. Ela foi a iniciação sexual de sete em cada dez moleques criados em cidades pequenas. Meu irmão do meio vivia chamando as jumentas de 'Donas Jeguelinas', e dava a elas o singelo epíteto de “as meninas de quatro tamancos”.



Ora, minha gente, a jega já foi cantada por Luiz Gonzaga, o pernambucano de Exu. Quem também cantou a jega foi Tom Zé, um baiano retado de Irará; até Gilberto Gil, que nasceu e se criou em Salvador, já fez versos para ela. Mas o baiano que mais explora a jega é, sem dúvida, João Ubaldo Ribeiro.

No conto Já Podeis da Pátria Filho, Ubaldo escreveu: “Um japonês adentra a grande área, gritando como uma jega deflorada...” Em Sargento Getúlio: “Amaro, todo suado, parece uma jega enxertada”. Em Viva o Povo Brasileiro, está lá: “Entram na barriga de uma cabra ou jega ou ovo de galinha...”

No despudorado relato de A Casa dos Budas Ditosos, há um trecho que diz assim: “Só uma pessoa de sangue de barata não fica excitada quando vê o jegue subir com aquele vergalho imenso em riste, montar na jega, morder a nuca dela...”

Gilberto Gil, na música Fé na festa, compôs: “Se esporo mais nossa jega/ A bichinha escorrega”. Já o jornalista José Simão, colunista da Folha de S. Paulo e autointitulado “o esculhambador-geral da república”, escreveu o seguinte: “Quem nunca transou com uma jega que atire a primeira pedra”.

No romance O cachorro e o lobo, de Antônio Torres, um trecho é narrado assim pelo personagem Totonhim: “Ah, as jegas! As que não usavam saias nem calcinhas e nem precisavam abrir as pernas. Era só encostar. E ver e ouvir estrelas”.

Para o nordestino, jega é uma coisa sagrada e profana, mundana e doméstica. Enquanto o resto do Brasil fala lavar a égua ou lavar a burra, no Nordeste nós falamos lavar a jega. E eles, os dicionários e dicionaristas, não reconhecem a jega. É, eles não sabem o que é uma jega.

Marcelo Torres (marcelocronista@gmail.com)

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O coisa ruim existe?

Por Antonio de Oliveira

O demônio existe? Pelo sim pelo não, apelativos não lhe faltam: anhangá, anhanguera, anjo mal, anticristo, arrenegado, azucrim, beiçudo, bicho preto, bode preto, bruto, bruxo do inferno, bute, cafuçu, cafute, caneco, canheta, canhim, canhoto, cão miúdo, capa verde, capeta, capete, capirocho, capiroto, careca, carocho, cifé, coisa, coisa à toa, coisa má, coisa ruim, coxo, cramulhão, cujo, debo, decho, demo, diá, diabo, diabro, diacho, diale, dialho, diangas, dianho, 


dragão, dubá, espírito imundo, espírito maligno, excomungado, exu, feio, fute, futrico, gato preto, gênio da mentira, gênio das trevas, gênio do mal, grão-tinhoso, manfarrico, maldito, mal-encarado, malvado, mofento, mofino, moleque, moleque do surrão, morcegão, nem-sei-que-diga, pé cascudo, pé de cabra, pé de gancho, pé de pato, pé de peia, pemba, pé preto, pero botelho, príncipe das trevas, príncipe deste mundo, príncipe dos demônios, que-diga, rabão, rabudo, rapaz, romãozinho, sapucaio, sarnento, satã, satanás, serpente maligna, sujo, temba, tendeiro, tentação, tentador, tição, tinhoso, tisnado, tristonho, tunes. 

Sim, mas para o jagunço Riobaldo: “O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano – travessia”.

Rei do QE, Quociente de Esperteza, sim, e patrono de tantos políticos. Para os antigos hebreus: Asmodeu, Azazel, Belial, Mastema, Semihazad. Diabo, aquele que separa. Que introduz a discórdia entre o homem e Deus. Em grego: dia-ballein; ao invés de syn-ballein, que une. Para os muçulmanos, Elbis. Na Escócia, “Old Man”. David Jones, para os antigos caçadores de baleia de língua inglesa. Macaco de Deus, na Idade Média, por imitar Deus que nem um macaco e enganar os incautos.



Baal Zebub, um deus filisteu de Acaron, virou Belzebu, senhor das esterqueiras, senhor das moscas. Mefistófeles, personagem do Fausto, de Goethe. Mefisto, Lúcifer. Credo, credo em cruz, cruz-credo, cruzes! Sai pra lá, pé de pato, mangalô três veis.

Fonte: duniverso



O professor Antônio de Oliveira, é Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. Licenciado em Letras e em Estudos Sociais pela Universidade de Itaúna; em Pedagogia e em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del Rei. Estágio Pedagógico na França. Contato: antonioliveira2011@live.com