quinta-feira, 13 de maio de 2010

Filigramas eleitorais

Por Gaudêncio Torquato, em seu Porandubas Políticas

Mais um périplo
Luiz Inácio fará mais um périplo pelo mundo, a começar pela Rússia. Brasileiros poderão entrar naquele país sem a exigência do visto e vice-versa. Russos poderão aportar por aqui sem muita burocracia. Mas a viagem de Lula já não terá tanto impacto quanto antes. Após o apoio incondicional do Brasil ao Irã, o espaço de Lula na cabeça das lideranças mundiais diminuiu muito. Luiz Inácio perdeu prestígio.

A confiança de Lula
Lula deu entrevista a El País, o principal jornal espanhol, exibindo plena confiança na vitória de sua candidata Dilma. Mas abriu uma fresta, ao dizer que não haverá perigo de retrocesso, "ganhe quem ganhar".

Aliás, para ele, sob o aspecto maquiavélico, uma vitória de Serra não seria de todo perniciosa para propósitos de um retorno em 2014. O país passará por um ciclo de contenção. Terá de fechar rombos abertos pela gastança do atual governo. Serra é especialista em ajustar contas. E manter cofres cheios. Seria um governante duro. Mas a área social se queixaria muito. E Lula teria condições de brandir seu slogan : Lula de novo nos braços do povo.



E se Dilma ganhar ?
Se Dilma ganhar, a continuidade do projeto petista estaria garantida. Não haveria desmonte da máquina. Portanto, não haveria tanta motivação para um retorno de Lula ao Palácio do Planalto. Dilma poderia, então, se candidatar à reeleição. Mas, agora, teria de enfrentar um perfil mais jovial e até com certo poder carismático. Aécio Neves, por exemplo. São filigranas que já começam a surgir nos horizontes do amanhã.

Serra e o BC

Serra ataca "os juros mais altos do mundo" e o câmbio baixo. Dilma, no início do primeiro mandato de Lula, era contra a política do Banco Central. Hoje, é defensora de Meirelles. Até vai prestigiar, dia 21, em Nova Iorque, uma comenda que ele ganhou. A política monetária de Serra difere bem da atual. Os empresários gostam da visão de Serra, mas temem a dureza dele noutras áreas. Por isso, olham para ele com o olho direito, mas fixam o olho esquerdo em Dilma. Confiam que esta não mudaria muita coisa.




FHC e o dedaço
Fernando Henrique, o maior intelectual do PSDB, foi direto ao ponto. Disse que Lula escolheu Dilma com um "dedaço". E até imitou o gesto. Linguagem chula, que não combina na estrutura linguística de um ex-presidente da República. Um ícone do pensamento e das letras.

Ficha limpa
O projeto Ficha Limpa será um marco na história eleitoral. Mas não deverá vingar para o pleito deste ano. O sentimento é de que a vitória foi pela metade. Deveria vingar, já. Passará ainda pelo Senado e, na sequencia, deverá ser sancionado.




O veto aos velhinhos
Pois é, os 7,7% de aumento aos aposentados e o fim do fator previdenciário deverão ser vetados pelo presidente Lula, caso passem pelo crivo do Senado. A questão é : o veto deixará indignados os velhinhos ? Na análise deste consultor, sim. Lula terá essa coragem ? Sim, garante. Vamos ver se ele tomará essa decisão. Há dúvidas.

Lula e o PTFico a imaginar a razão do sucesso de Luiz Inácio em seus dois mandatos. A razão mais forte : impôs sua visão ao PT. Deixou de se inspirar no ideário petista. Criou seu próprio modelo. Um modelo que diz ser "multi-ideológico". Ou seja, a capacidade de fazer alianças com Deus e o Diabo, gregos e troianos. Lula passou sobre o PT com um gigantesco rolo compressor. E assim conseguiu governar. Por que não foi aporrinhado ? Porque abriu espaços para todos os grupos. Que se encastelaram nos arredores e no centro do poder.




PT e PV no governo Serra ?
José Serra disse alto e em bom som : se eu ganhar, convidarei o PT e o PV para fazerem parte do governo. Verdade ? Em termos. Chamaria, claro, um Eduardo Jorge, que é do PV. E que é considerado, por sua postura, um perfil suprapartidário. Difícil é imaginar José Serra convidando um perfil histórico e engajado do PT. O discurso de Serra, porém, é inteligente. Desarmado, em favor da união, do esforço de todos pela Grandeza da Pátria.




Longe de mim este cálice
Serra quer dizer, na verdade, o seguinte : Longe de mim o epíteto de anti-Lula. Ele não quer aparecer como o adversário de Lula numa campanha. Nesse caso, seria vencido.