quinta-feira, 16 de julho de 2015

Ação e reação

Fonte: Editorial da Folha SP em 16JUL


Ação e reação
A retórica parlamentar é capaz de grandes proezas, como se sabe –e a ninguém, muito menos a um senador, cabe negar o direito à livre manifestação e à crítica flamejante.

É difícil persuadir-se, contudo, das razões do senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) ao condenar as buscas e apreensões em imóveis de sua propriedade, a começar por sua residência em Brasília.

Arte de PAIXÃO


Ultrapassaram-se, disse o ex-presidente, todos os limites da legalidade. Suas invectivas na tribuna foram precedidas pelas de um antigo aliado, também reiteradamente exposto a suspeitas de corrupção.

Para o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), os métodos da Polícia Federal tinham fins de intimidação, constituindo violência à democracia.

Em tese, tais críticas não devem ser descartadas de pronto. Existem muitos exemplos de ações arbitrárias por parte de procuradores, investigadores e juízes, todos à cata de notoriedade fácil ou da satisfação de convicções jacobinas.

Cenas cinematográficas com figurões algemados, previamente acertadas com emissoras de televisão, tampouco são estranhas ao recente estágio de operosidade alcançado pela Polícia Federal.

Arte de NANI


Neste caso, todavia, o senador Fernando Collor e tantos outros políticos visados na Operação Lava Jato dispõem de foro privilegiado.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, teve o cuidado de pedir o aval do Supremo Tribunal Federal, onde não somente o ministro Teori Zavascki mas também Ricardo Lewandowski e Celso de Mello autorizaram as buscas.

Diga-se, aliás, que nenhum dos três está associado à veia persecutória que outros membros da corte já foram acusados de possuir.

Resta, em favor dos argumentos de Collor e Renan, a consideração de que caberia à PF reportar-se à Polícia Legislativa em ações desse tipo; pode-se julgar, ademais, que há espetacularização em recolher uma Ferrari, um Lamborghini e um Porsche da célebre Casa da Dinda, cujos jardins passaram à história na crise do impeachment.

Arte de SINOVALDO


A obrigação de comunicar a Polícia Legislativa é estabelecida, entretanto, por resolução interna do Senado, de ordem mais formal do que substantiva, e certamente inferior às determinações do Supremo. Quanto aos carros de Collor, não é desprezível o interesse indenizatório de que se revestem, na hipótese de condenação judicial.

O evento não merece comemorações ferozes e aplausos vindicativos. Mas, guardadas as desconfianças que frequentes exageros policiais despertam, pode-se celebrar o princípio de que ninguém, numa república, está acima da lei.

As instituições democráticas não são atingidas, mas se fortalecem, quando em ambiente de plenas garantias processuais a corrupção se investiga. Nada mais do que isso aconteceu na terça-feira (14).

Lula tem críticas, mas nenhuma autocrítica

Por Amilton Aquino, para a Revista Amálgama


Lula tem críticas, mas nenhuma autocrítica
O ex-presidente Lula surpreendeu muita gente ao reconhecer publicamente que o PT envelheceu, que os petistas agora só pensam em cargos e que o partido perdeu “um pouco” da sua utopia.

No entanto, o súbito ataque de sinceridade de Lula não é nenhuma novidade. Por trás de tais críticas ao partido esconde-se sempre o objetivo de autopreservação de Lula. Como sempre, ele está acima de tudo, inclusive do PT. Foi assim no mensalão, quando veio a público dizer-se traído por alguns companheiros; foi assim na tentativa frustrada de forjar um dossiê para incriminar José Serra, quando minimizou o caso, jogando toda a culpa em alguns “aloprados” do partido; foi assim nos protestos de junho de 2013, quando veio a público posar de “defensor da política”, como se este ente abstrato fosse o grande alvo dos protestos; e tem sido assim desde que o partido mergulhou de vez na pior crise de sua história com as revelações do escândalo do petrolão.



As críticas de Lula valem para todos, menos para ele próprio, o principal responsável por tal situação. Quando chama a atenção, por exemplo, para a necessidade de “renovação do partido” (notando inclusive o fato de não existirem jovens na plateia), o ex-presidente moribundo e decadente em todos os sentidos (principalmente moralmente) contradiz o próprio discurso ao se apresentar como candidato à disputa de 2018. Como assim, Lula? Mas não é o PT que precisa de renovação, de novas lideranças, de mais jovens?



Ou seja, não há um pingo de sinceridade em nada do que Lula fala. Se estivesse mesmo interessado em restaurar alguma pureza de princípios do partido (se é que já teve algum dia), o PT não teria “feito o diabo” para se manter no poder. Será que só agora ele percebeu que a companheirada só está interessada em cargos e poder? E ele próprio, não está? Se ele mesmo fez este diagnóstico, por que então fez e continua fazendo o diabo para manter o PT no poder e, consequentemente, premiar tais interesseiros?

Claro que nenhum partido quer entregar o poder de mão beijada, mas se o PT não tivesse de fato um projeto de perpetuação no poder, não teria feito aquela campanha mentirosa da última eleição, como, aliás, o próprio Lula recentemente também admitiu. Sem a desconstrução de Marina Silva, por exemplo, certamente ela, uma adversária mais identificada com o PT, estaria hoje governando o Brasil. Claro que isso não seria suficiente para recuperar a imagem do partido, mas certamente a repercussão do escândalo do petrolão teria sido menor, o PT não estaria tendo que fazer tudo que disse que não faria durante a campanha, sua bancada estaria sendo cortejada para apoiar o novo governo (ao invés de estar acuada como está hoje) e certamente boa parte dos pelegos que hoje Lula culpa pela crise do partido teria recebido o castigo mínimo que merece: a perda de seus cargos.



O lado ruim da oposição vencer a última eleição teria sido o desgaste político intrínseco às medidas “neoliberais” que teriam que tomar. Teríamos então um mandato menos pedagógico no sentido do desmascaramento do PT, um partido ainda mais bravateiro na oposição e um risco ainda maior de Lula voltar forte no próximo pleito. Portanto, do ponto de vista do amadurecimento político da nossa população, o repasse da herança maldita do PT para outro partido poderia ser ainda mais maléfico, mas certamente do ponto de vista dos petistas interessados em recuperar a tal “pureza ideológica” do partido, teria sido muito melhor ser hoje oposição.

De qualquer ponto de vista, no entanto, é consenso que o poder tende a corromper, e, portanto, quanto mais tempo no poder, mais enraizada e disseminada fica a corrupção. Por mais puro e ideológico que seja um partido, sempre vai haver gente disposta a mergulhar no pântano da corrupção para tirar alguma vantagem financeira. Seja de direita ou de esquerda.



Mas no caso da esquerda a tendência à corrupção tem dois grandes agravantes. O primeiro é o costume da esquerda de aumentar o tamanho do Estado — afinal, quanto maiores as esferas públicas, maiores as oportunidades de corrupção. O segundo é o efeito Robin Hood. Por se acharem os redentores da humanidade, os esquerdistas tendem a relevar a corrupção, desde que esta seja “para o bem do partido” ou para “distribuir para os pobres”. Ou seja, além da inevitável corrupção individual, a esquerda tende a introduzir e justificar a corrupção coletiva em prol do seu equivocado projeto político.

Tal forma de pensar encontra base teórica entre os maiores pensadores da esquerda. Um dos mais conhecidos é, sem dúvida, Gramsci, segundo o qual tudo deve ser feito em prol do “moderno príncipe”, o partido, que almeja a hegemonia da opinião pública para se manter no poder eternamente. 



Além de se aproveitarem da democracia para corroê-la gradativamente (como acontece hoje na Venezuela — com a total concordância do PT, vale lembrar), tal pensamento remete a uma adaptação do famoso “os fins justificam os meios” de Maquiavel. Se for para o bem do partido, vale tudo, inclusive matar e roubar. Se for contra o partido, o combate deve ser ininterrupto, até mesmo a preceitos intrínsecos às democracias republicanas como, por exemplo, a alternância de poder, essencial para a depuração dos partidos e, principalmente, para desbaratar esquemas de corrupção partidários como os que vemos agora.

Mas Gramsci não foi o único guru da esquerda a defender tal “ética” elástica. Leon Trostsky foi outro que justificou a ética “diferenciada” da esquerda, a qual não deveria ser medida pelos critérios morais da direita. Não foi à toa que Gilberto Carvalho defendeu recentemente que o PT siga sua própria ética, a qual certamente não pode ser enquadrada nas leis vigentes. Também não é por acaso que os corruptos do PT são saudados como “heróis do povo brasileiro”. Eles acreditam realmente que estão numa guerra mundial para “redistribuir a riqueza”.





Apesar de todos os equívocos, existe sim espaço para uma esquerda madura, socialdemocrata, que ajude a amadurecer os reais debates que devem ser travados com liberais e conservadores, como, por exemplo, o tamanho ideal do Estado e os limites ecológicos do crescimento. Mas enquanto esquerdistas mais atrasados não renunciarem à sua crença messiânica de que são os redentores da humanidade e tratarem quem pensa diferente como inimigos a serem exterminados, infelizmente sua incrível coletânea de erros vai continuar sendo repetida em qualquer lugar que cheguem ao poder, seja pela via democrática ou via golpe de Estado.



Não, Lula. Seu partido não precisa recuperar “um pouco” da velha utopia socialista embolorada e desmoralizada pela realidade. Precisa, sim, e urgentemente, ajustar-se à realidade, renunciando ao relativismo moral que sustenta esta “ética” elástica que corrompe tudo. Absolutamente.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Mais um hit do PT...

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O Brasil hoje e amanhã, se ...

Por Gaudêncio Torquato em seu Porandubas Políticas

Lava Jato, fase política
Ainda não esgotada a fase empresarial, a operação Lava Jato abre a fase política, com a busca e apreensão de documentos nas casas de parlamentares, a começar pelos senadores Fernando Collor e Ciro Nogueira. A entrada na área parlamentar tem o placet dos ministros do STF, Teori Zavascki e Ricardo Lewandowski. Significado : ao bater no Congresso, a operação agita os ânimos políticos, fazendo subir a temperatura em Brasília. A crise chegará às alturas na segunda quinzena de agosto/primeira semana de setembro.

Arte de MIGUEL


O juiz Sérgio Moro, de um lado, e os procuradores do MP, de outro, se imbuem de uma "missão divina". Essa é uma das explicações para as fases que estão se desenvolvendo na operação Lava Jato. Como "missionários", entendem que nada os afastará do caminho apontado por Deus. Nada de pressões, nenhuma interferência de poderosos. Irão até o fim, na crença de que terão de passar o Brasil a limpo, doa a quem doer. Imaginam que serão capazes de varrer a sujeira, tirando, até, os vestígios que se escondem por baixo do tapete. O DNA brasileiro será refeito ? Há dúvidas.

Arte de SPONHOLZ


Haverá condição de se fazer o impeachment da presidente ? Eis uma recorrente questão que se coloca a este consultor. Respondo sempre : a questão será política, mas para se viabilizar, precisa do empuxo de dois motores : o da locomotiva da economia e o do rolo compressor das ruas. Explicando : se a economia arrebentar o bolso dos contribuintes, o povão revoltado, sob a alavanca das classes médias também atingidas, empurrará o Congresso para a beira do impeachment. Criam-se, nesse caso, as condições para se tomar uma decisão de magnitude. E, dessa forma, o vulcão pode dar sinais de erupção já em agosto.

Arte de NANI


Esses sinais deverão ser visualizados já agora nessa segunda quinzena de julho, quando os parlamentares estarão tomando o pulso de suas bases. O recesso parlamentar que começa em 17, sexta-feira, propiciará um banho de massas. Deputados e senadores vão sentir de perto o que significa inflação das ruas passando da casa dos 10%, o desemprego chegando aos 9%. Só na área da construção civil, há um milhão de desempregados. E a tendência é de acirramento das carências e carestia nos próximos meses.

Arte de SPONHOLZ


Os grupos - I
É possível aferir a seguintes abordagens e posicionamentos políticos : 

Arte de AROEIRA
  • 1) O grupo que deseja mudanças imediatas com a saída de Dilma-Temer ; trata-se da ala aecista do PSDB. Como o senador mineiro, sob o recall da campanha do ano passado, ganharia facilmente de Lula, hoje, defende a saída dos dois ;
  •  2) O grupo lulista do PT, que gostaria de ver Dilma fora do Palácio do Planalto, com Michel Temer assumindo a presidência. Com esse afastamento, seria possível a Lula correr o país, adoçar o gogó, armar palanques por todos os lados e se apresentar, em 2018, como oposicionista contra o marasmo geral.

Os grupos - II

Arte de LUSCAR

  • 3) O grupo tucano ligado a Alckmin, que gostaria de empurrar a presidente ao abismo, porém conservando Temer no comando. Este faria um governo de harmonia nacional e presidiria as eleições de 2018. Alckmin, em 2018, terá melhores condições para disputar a presidência que Aécio Neves ; 
  • 4) O grupo tucano ligado ao senador José Serra, que tem interesse em deixar a situação como está até 2018. Serra se aproximaria do PMDB, podendo, até, viabilizar sua candidatura por este partido.

As teses
Há teses para todos os gostos : 
  • a) a primeira defende a responsabilidade de Dilma no caso das "pedaladas fiscais", o que daria ao Congresso a base para o impeachment presidencial ; 
  • b) a segunda tese argumenta com o fato de que houve "pedaladas fiscais" em governos anteriores, tanto no ciclo FHC quanto nos mandatos de Lula. Dizer que hoje a situação é mais crítica pelos volumes de recursos transferidos como empréstimo e pelos prazos mais dilatados pode não se sustentar. Dr. Ulysses dizia: uma pessoa 99% honesta é 100% desonesta, porque não existe desonestidade relativa.
  • C) Há o argumento de que recursos de propina para a campanha da Dilma ocorreram no mandato anterior. Mas há o contra-argumento de que eventos ocorridos do mandato anterior não passam para o mandato seguinte. E, por último, há a crença e provas de que recursos desviados de contratos da Petrobras irrigaram campanhas da situação e da oposição.
Arte de SPONHOLZ


Na linha de 0 a 100 km, a operação Lava Jato teria caminhado, até hoje, cerca de 30 km. Ou seja, há 70 km pela frente. Haja estrada. Como a frente política passa por muitas curvas no território do STF, há quem vislumbre os horizontes políticos da operação lá pelas beiradas de 2018.

O procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, parece ter um foco : Eduardo Cunha. Mas tem um olho também em outros políticos. Ocorre que deve entrar na lista dos nomes de procuradores que serão submetidos à presidente Dilma no segundo semestre. Se entrar em primeiro lugar, a presidente não terá outra alternativa que a de encaminhar seu nome para aprovação pelo Senado. Donde emerge a pergunta : passará pelo crivo dos senadores ? Este consultor acredita que passará.

Arte de JARBAS


As oposições devem se precaver. O pau que bate em Francisco bate também em Chico. Não serão apenas figuras da situação a entrarem no loop do MP e do juiz Sérgio Moro. Há figuras de destaque na oposição que entrarão no ranking.

O que Louis Armstrong quis dizer


terça-feira, 14 de julho de 2015

Sentando-se confortavelmente...

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Ode à Mandioca

Colaboração de Sebastião Cunha

Charges de SPONHOLZ

Evocação à mandioca
[Alamir Longo]

Pois a nossa presidente
Resolveu sair da toca
Foi numa festa de índio
Discursar dentro da oca
Num ritual quase sagrado
Fez saudação à mandioca.
.
Mulheres e homens sapiens
Foi dizendo a presidente
Pois saibam todos vocês
Que estou muito contente
De vir saudar a mandioca
Que já salvou tanta gente.


.
Confesso que sua fala
Mexeu com minhas emoções
Ela disse que a mandioca
Salvou civilizações
E garantiu a existência
De mil e uma nações.
. 
Eu sempre soube que Dilma
Entende de economia
Mas confesso pra vocês
Francamente eu não sabia
Que essa nossa presidente
Manja de antropologia.


.
Mas ao rigor da verdade
Sem querer fazer fofoca
Esse povo brasileiro
Anda igualzinho tapioca
Sapecado em chapa quente
E só levando mandioca.
.
Mandioca temos de sobra
Pra atormentar a nação
Tem a mandioca dos juros
Cozida com inflação
E a da dívida interna
Ralada com recessão.


. 
Tem a da incompetência
Com a falta de gestão
E a mandioca do pibinho
Que já matou o pibão.
E o maior pé de mandioca
Que é a tal de corrupção.
.
Mandioca temos de sobra
Por toda a federação
Plantada por um governo
Sem plano, nem direção
E no fim quem fica é o povo
Só de mandioca na mão.
.
(*) Alamir Longo

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Declare-se impedida, Luciana Lóssio!

Fonte O Antagonista


Declare-se impedida, Luciana Lóssio
Entre os ministros do TSE que julgarão as contas de campanha de Dilma Rousseff, está uma advogada chamada Luciana Lóssio.



Luciana Lóssio tem um currículo e tanto. Além de ter defendido o ex-governador do DF José Roberto Arruda e a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney, ela foi advogada de Dilma Rousseff na campanha de 2010. Sim, você leu certo.

O Antagonista pergunta: pode alguém que trabalhou como defensora de Dilma Rousseff na primeira campanha julgar a segunda campanha de Dilma Rousseff, ambas igualmente eivadas de irregularidades, como agora se sabe?

Declare-se impedida, Luciana Lóssio, é o mínimo que se espera de alguém com aquela coisa meio antiga, mas ainda em uso, chamada honestidade.

Pilordianos, enviem um e-mail  ( gabll@tse.jus.br ) pedindo à ministra que se declare suspeita ou impedida no processo que julga as pedaladas de Dilma.

Ah, o silêncio!

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Porta Aberta ao Juízo - LXXV



O relógio, indiferente, na sua ronda insistente, roda dia e noite, mansamente, a registrar os minutos fatigados da vida da  gente. Surdo, insensivelmente, numa contabilidade dolente, engolindo o tempo que corre, da vida que foge da gente.

[Gilberto Quadros]
{extraído do livro Porta Aberta ao Juízo}

Com Dilma o país desce a ladeira

Por Carlos Alberto Sardenberg para o GLOBO

O triunfo de Dilma deu tudo errado
Na noite de 23 de janeiro de 2013, Dilma surgiu triunfante em rede nacional de televisão para a anunciar uma redução de 18% na conta de luz de todos os brasileiros, acentuando: “Primeira vez que acontece no país”.

Embora já fosse bastante, a presidente não ficou nisso. Explicou, “com números”, conforme ressaltou, que o “Brasil vai ter energia cada vez melhor e mais barata”.




Foi além. Desafiadora, atacou os pessimistas e zombou das “previsões erradas” daqueles que “diziam que não iríamos conseguir baixar os juros e nem o custo da energia”.

De fato, naquele momento, a taxa básica de juros era de 7,25% ao ano, a mais baixa na era do Real e a conta de luz caiu no dia seguinte.

Animada com isso, Dilma informou que os investimentos estavam em alta, empregos idem, salários subindo, de modo que o Brasil vivia “dos melhores momentos da história”.


Arte de NEO CORREIA


Hoje, todo mundo sabe, os juros estão nas alturas — a taxa vai passar dos 14% — e a conta de luz não para de subir. Desde 2013, ano em que Dilma anunciou a redução, já ficou 60% mais cara, na média nacional.

E ainda há vários reajustes previstos para este e o próximo ano. O desemprego sobe — 500 mil vagas formais fechadas este ano —, o PIB empacou, o salário perde poder de compra para a inflação e os investimentos públicos e privados desabaram.

Os pessimistas estavam certos, a presidente, errada, muito errada. Como Dilma pode ter se equivocado tanto?


Arte de SON SALVADOR


Começa que ela não ouve ou não entende as críticas. Ninguém dizia que o governo não conseguiria ou não podia reduzir juros e tarifas de energia. Os críticos diziam, sim, que essas medidas eram insustentáveis mesmo no curto prazo.

Para resumir o ponto de vista dito pessimista: a redução da conta da luz se fizera por um artificialismo que desorganizava o setor elétrico; naquele momento, a tendência do custo da energia, sem truques, era de alta. Quanto à inflação, já estava alta e, mesmo assim, contida artificialmente pelo controle de preços administrados, como o da gasolina.

Era o ponto de vista correto. Dirá o pessoal da presidente: agora, em retrospectiva, é fácil falar. Negativo. Como bem apontava Dilma, os críticos e pessimistas diziam, fazia tempo, que o modelo econômico dela iria explodir em inflação, baixo crescimento, juros altos, contas públicas em déficit e desorganização de diversos setores, como o elétrico, hoje atolado em dívidas, prejuízos para a Petrobras.




Também diziam que o aumento do crédito e do consumo era insustentável; que não havia ambiente para investimento privado; e que o governo não conseguiria dar conta das promessas de investimentos dos PACs. Lembram-se do trem bala?

Pois é — e não foi a primeira vez que a presidente exibiu um triunfalismo infundado. No início de seu governo, em março de 2011, deu uma entrevista para o jornal “Valor Econômico”, garantindo que em seu mandato a economia cresceria na faixa de 5% ao ano, com inflação de 4,5%, na meta.

Também atacou os pessimistas e disse que era adivinhação daqueles que sustentavam não haver condições para uma expansão sustentada.

A coisa saiu ainda pior do que imaginavam os pessimistas. A média de crescimento anual do PIB (2011/14) ficou em 2,2%, só melhor que o período Collor. E a inflação foi de 6,16%.




Discursos e entrevistas da presidente Dilma podem ser encontrados no site do Planalto. Essa exposição não seria um motivo suficiente para a presidente vir a público e dizer “desculpaí, foi mal”?

Mas não. A presidente e seus próximos dizem que passamos por um probleminha passageiro, consequência da crise mundial, e que logo, logo… os pessimistas serão derrotados.

De novo, como pode se equivocar tão completamente?

domingo, 12 de julho de 2015

História de um amor

História de um amor
French Latino


Conversa difícil

Por Vera Guimarães Martins
Ombusdman da FOLHA em 12JUL2015


Conversa difícil
A grande notícia da semana foi a entrevista que a presidente Dilma Rousseff concedeu à Folha na edição de terça-feira (7). Evento raro, a conversa exclusiva foi parte da estratégia do Planalto para fazer frente ao recrudescimento da discussão pública sobre o impeachment.

Arte de SPONHOLZ


A petista já vinha acuada pelo acirramento da crise econômica e pelo risco de rejeição das contas do governo no Tribunal de Contas da União, mas o cenário piorou após a revelação de que o empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC, disse em depoimento ter distribuído propina e doações eleitorais em troca de vantagens na Petrobras.

No contra-ataque ao avanço da maré, a presidente escolheu a Folha para falar ao país. Ponto para o jornal, que obteve conteúdo exclusivo e acabou pautando todo o noticiário político. Ponto também pelo espaço generoso tanto na "Primeira Página" como nas páginas internas, condizentes com a figura política e a gravidade da situação.

Arte de MIGUEL


Dito isso, é preciso registrar que o jornal deixou de aproveitar a rara oportunidade para dar voz a algumas questões cruciais, frequentes nas conversas de rua, mensagens de leitores, textos de colunistas, analistas e editoriais.

Faltaram perguntas mais incisivas e pipocaram aqui e ali afirmações vagas e indeterminadas, do tipo "Parece que está todo mundo querendo derrubar a senhora".

Arte de DUKE


A reportagem pegou leve ao não inquirir a presidente sobre o fosso entre suas promessas eleitorais e as medidas que ora põe em prática ou sobre a semelhança entre o que ela acusou a oposição de pretender fazer e o que seu governo está fazendo. Dilma falou muito, mas escapou de perguntas e respostas consistentes sobre fatores que fizeram sua reprovação saltar para 68%, segundo a última pesquisa Datafolha.

A petista voltou a criticar a delação premiada, que disse considerar uma instituição ruim, sem que lhe fosse perguntado por que, então, sancionou a lei em 2013 e dela se vangloriou na campanha eleitoral.

Arte de LUSCAR


Uma certa brandura ao entrevistar personalidades é comum no jornalismo nacional. No cara a cara, evitam-se perguntas que possam soar inconvenientes, agressivas ou desrespeitosas. No caso da mais alta autoridade da República, o comportamento é também caudatário do caráter imperial do presidencialismo no Brasil. Aqui, os mandatários não se sentem obrigados a conceder entrevistas para prestar contas de seus atos ou só o fazem ao sabor das próprias necessidades.

Em qualquer situação, a escolha do entrevistador é encarada como uma honraria, à qual o escolhido deve fazer jus, não impondo ao entrevistado comportamento que possa ser considerado acintoso. É o que os franceses chamam de "noblesse oblige", a obrigação de corresponder à nobreza que lhe foi conferida.

Arte de THIAGO


Não se pode negar o mérito de Dilma, que optou por conceder entrevista a um grande jornal, fora do círculo bajulatório que reza pela cartilha do governo. Bem diferente do ex-presidente Lula que, no mensalão, preferiu falar a uma jornalista desconhecida, sem vínculo com nenhum veículo brasileiro - e em Paris.

Não quero desmerecer a conquista da reportagem da Folha, mas é bom lembrar que a obrigação de ouvir o contraditório e garantir espaço para o outro lado não implica abrir mão de fazer perguntas espinhosas nem libera o personagem para falar o que quiser sem contradita.

Larry Griswold, o louco do mergulho

Post sugerido por Sebastião Cunha


Griswold foi um ginasta e cômico americano cujo ponto forte eram números de acrobacias e palhaçadas nos quais fingia ser um bêbado que, descoordenado, tentava mergulhar de um trampolim.
Larry foi um dos principais desenvolvedores de trampolim para saltos acrobáticos pois antes estes eram realizados a partir de um trapézio, vejam o vídeo abaixo com Larry Griswold em 1938:


O interesse de Griswold no trampolim não parou com o desenvolvimento de sua carreira no showbusiness. Em 1941, ele escreveu Trampolim Tumbling , o primeiro livro direcionado para o esporte do trampolim.

Mas foi como um artista  cômico que ficou conhecido pelo mundo. Abaixo  vejam uma aparição de Larry Griswold (1905-1996), o “Louco do mergulho”, no programa Frank Sinatra Show, em 1951 na rede norte-americana CBS.

O show é cômico e, ao mesmo tempo, chega a dar um friozinho na barriga. E notem Sinatra, um palito de magro, com o topete da época:

Larry Griswold, um bêbado no trampolim, 
num show que Sinatra apresentava nos anos 50

Em 1973, Griswold teve uma queda durante uma apresentação em Chicago e sofreu uma lesão que provocou o fim de sua carreira. Seu show continuou com artistas substitutos treinados por ele que já visava sua aposentadoria.

Um negro sobrevivente do nazismo.

Curiosidades em Guerra


XXVI - Um alemão negro em pleno nazismo


"Mamãe, eu não sou ariano?" - perguntou o pequeno Hans, um pretinho de oito anos, a sua mãe Berta depois que foi proibido de brincar com as outras crianças na escola


Hans Jürgen Massaquoi nasceu em 19 de janeiro de 1926 em Hamburgo, filho de mãe alemã e pai liberiano. Tinha seis anos quando Hitler chegou ao poder. O pai de Hans era filho do cônsul da Libéria na Alemanha. Sua mãe, Berta, era uma enfermeira alemã de classe média baixa. O rico filho do diplomata africano encaprichou-se pela bela jovem ao vê-la em uma festa, e dessa relação nasceu o pequeno Hans.


Hans Massaquoi com a insígnia nazista

Seu pai nunca se preocupou muito por ele e nunca lhe deu muita atenção, já que nessa época era um estudante universitário em Dublin. Mas seu refinado avô, o primeiro diplomata africano na Europa, o acolheu em seu palacete de Hamburgo junto a seus tios e primos africanos. O patriarca se orgulhava de ter um neto alemão que falava o idioma local com perfeição.

"Eu associava a pele negra com superioridade, porque nossos serventes eram brancos" - dizia Hanz.
 
Seu avô paterno quando era Momulu IV rei dos Vai,
uma etnia liberiana
 
Seu destino mudou drasticamente quando o Führer assumiu o poder e expulsou os diplomatas africanos da Alemanha. Todo o clã Massaquoi regressou a seu país, Libéria, mas Berta, a mãe de Hans decidiu ficar em sua pátria, porque o menino era doente e temia que viajando à África poderia morrer já que naquela época - e até hoje em dia- era um continente assolado pela malária. Praticamente sozinha, retomou seu trabalho de enfermeira e mudou-se com seu filho a uma zona operária de Hamburgo.

"Eu, que tinha aprendido a ver vantagens em meus traços raciais, de repente me vi obrigado a considerá-los um inconveniente".

No início, nem ele nem sua mãe consideraram como uma ameaça à ascensão do nazismo. Era algo que não os preocupava, afinal eles eram alemães.

"Assim como toda criança, eu estava fascinado pela parafernália nazista. Os uniformes, as bandeiras e os desfiles me deixavam encantado. Para mim, para meus colegas, Hitler estava envolvido nessa auréola divina que lhe protegia de qualquer crítica".
 
 
As coisas foram mudando pouco a pouco. Primeiro foram os letreiros nos balanços que proibiam as crianças não-arianas de brincar. Depois, um misterioso e contínuo desaparecimento de seus professores que eram judeus. Depois sua mãe foi despedida de seu trabalho "por ter concebido o filho de um africano".

"Uma vez que as absurdas leis raciais entraram em vigor, ficou claro que minha vida ia se tornar muito difícil. Mas o amor e a proteção de minha mãe me deram a sustentação necessária".

Em seu livro autobiográfico, Hans conta com detalhes as tentativas que fez para ser considerado um alemão a mais. A cada vez que era recusado reagia negando o evidente, e esta situação lhe levaria ao absurdo de querer fazer parte das Hitlerjugend, a Juventude Hitletista, uma mistura de "boy scouts" e organização paramilitar.
 
junto com sua mãe
 
No dia que descobriu que lhe negaram a entrada exclusivamente por sua cor de pele, Hans abriu os olhos e começou a entender do que se tratava o nazismo.


A partir daquele momento eliminou a necessidade de ser aceito pelos nazistas e libertou-se da dependência de Hitler como onipotente figura paternal dos jovens.


Ao começar a guerra, apesar de ser "indigno de usar o uniforme alemão", esteve a ponto de se alistar no exército. Só não foi para a frente de batalha por sua falta de importância, o que aumentou seus problemas emocionais, já que sendo um homem jovem e sadio se envergonhava por não estar combatendo junto a seus compatriotas.

Massaquoi tinha uma teoria para explicar por que ele evitou a deportação para campos de concentração. 

" Ao contrário dos judeus, os negros eram tao poucos em números que eles foram relegados ao status de baixa prioridade para serem exterminados".

Enquanto trabalhava em uma fábrica de munição, Hans observou como a maquinaria de guerra alemã começou a vir abaixo. Em 1943, os aliados, com a Operação Gomorra, bombardearam intensamente Hamburgo durante dez dias, até deixar a cidade em escombros, onde morreram mais de 40 mil pessoas.
 
Hamburgo destruída após a Operação Gomorra
 em julho de 1943
 
Hans estava tão deprimido que não fazia diferença morrer nas mãos da Gestapo ou do bombardeio aliado. De toda forma, a presença da Gestapo incomodou-o por muito tempo ainda e teve que conviver sob a constante ameaça de sua presença e interrogatórios.
 
Desprezado por todos, era considerado um cidadão de segunda classe, a tal ponto que em um dia uma multidão quis linchá-lo achando que era um piloto aliado.

O fim da guerra com a tomada de Hamburgo pelos britânicos significou também uma nova vida para Hans. Pela primeira vez em sua vida não sentia medo. O medo de ser humilhado, ridiculizado, degradado, a ver-se privado de sua dignidade.
 
Hans servindo na Guerra da Coréia para os EUA
 
Após o colapso da Alemanha no final da guerra, ele tocou saxofone em clubes que atendiam à Marinha Mercante americana e trabalhou como tradutor para as forças de ocupação britânicas.

Posteriormente, ele deixou a Alemanha, primeiro para a Libéria, terra de seu pai, antes de se mudar para Chicago com um visto de estudante para freqüentar uma escola de mecânicos de aviação. Ele foi convocado para o Exército dos EUA em 1951 e serviu por dois anos aos EUA durante a Guerra da Coréia. 

 
 

Depois disso, ele se tornou um cidadão americano, e graças aos benefícios dos veteranos de guerra ingressou na Universidade de Illinois, onde estudou jornalismo iniciando uma carreira à qual dedicou mais de quatro décadas vindo a se aposentar quando era diretor da famosa revista Ebony, destinada a leitores afro-americanos.

 
Hanz ao lado da atriz Veronica Ferres
que faz o papel de sua mãe  no filme para a TV
 Neger, Neger, Schornsteinfeger (2006)
 baseado em sua biografia.
 
Ao final e apesar de tudo há de se considerar que o destino resultou bastante benevolente com Hans Massaquoi. Olhando para o passado e recordando o horror também sofrido por outras inocentes etnias, ele pelo menos sobreviveu para contar a sua história.

Hans Massaquoi veio a falecer em 19 de janeiro de 2013 quando completou 87 anos.

Fonte  Metamorfose Digital / Los Angeles Times

*Postado primeiramente em 15/11/2009 [509]