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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Advogado, adivogado ou adevogado?

Por Camila Vaz
Crônica

Você sabe realmente por que a pronúncia ADEVOGADO é ridicularizada?
Muito se critica a pronúncia da palavra ‘advogado’ com o som da letra E logo após o D na primeira sílaba (aDEvogado). As piadas são inúmeras, geralmente associando essa pronúncia a pessoas sem instrução ou até mesmo ‘burras’. Num rótulo mais generalizado, quem fala assim “não sabe português”, “assassina o português”, “assassina a língua”...

Isso é muito curioso por algumas razões. A primeira, essa pronúncia não está necessariamente associada a pessoas sem instrução. Acho que entre paulistanos essa pronúncia é bastante comum entre todas as classes sociais, embora não tenha base científica para afirmar categoricamente. Em segundo lugar, essa inserção do som da letra E é uma variação da inserção mais comum – e usada generalizadamente em qualquer classe social – do som da letra I.

Em resumo, a maioria das pessoas pronuncia a palavra com um som de I após o D na primeira sílaba: ADIVOGADO! A outra parte da população insere o som da letra E: ADEVOGADO!



Então, por que há tanto preconceito com a pronúncia ADEVOGADO se, de uma forma ou de outra, há sempre a inserção de um som de uma vogal?

Bem, os puristas vão dizer que a pronúncia correta é ADVOGADO (com D ‘mudo’). É até possível que num passado (bem) distante, as classes mais privilegiadas[1]até pronunciassem dessa forma, o que justificaria a grafia da palavra. Hoje em dia isso não mais acontece. Eu duvido, mas duvido mesmo, que alguém, numa fala normal, corrente, seja em ambiente formal ou informal, pronuncie essa palavra caprichando para que o som do D apareça sem a vogal I. Observem vocês, leitores, e façam as análises de vocês. Pessoalmente eu não conheço ninguém.

Os falantes brasileiros têm uma grande dificuldade de pronunciar sons consonantais sem vogais, porque eles não são comuns na nossa língua. Quando estudamos línguas estrangeiras que têm sons consonantais puros, um dos sotaques que mais identificam os brasileiros é justamente essa inserção de sons vocálicos. Por exemplo, quando um brasileiro pronuncia as palavras italianas STRADA ou STELLA, invariavelmente vai colocar um som de I antes: ISTRADA e ISTELLA. Nossa língua pede esse som. O mesmo acontece com o inglês STAR. Isso fica muito patente quando essas palavra seguem uma outra que tenha um som vocálico: LA (I) STRADA, LA (I) STELLA, THE (I) STAR. A bem da verdade, esses exemplos não são exatamente iguais aos do caso de ADVOGADO/ADEVOGADO, mas servem para ilustrar uma tendência.

Entretanto, situações bem similares à de AD (I) VOGADO se encontram em AB (I) SOLUTO, AD (I) MISSÃO, AD (I) VERTIR, OB (I) SOLETO... Também, em DIG (UI) NIDADE, IMPREG (UI) NAR, CONSIG (UI) NAR, casos em que, para representar graficamente o som realmente produzido devemos inserir duas letras. Aliás, 'impregnar' e 'consignar', costumam causar problemas de conjugação pela obviedade da inserção do som vocálico após o G; quem nunca ouviu alguém dizer "esse cheiro IMPREGUINA o ambiente" ou "a agência compra vende e CONSIGUINA..."?

Vejamos agora um caso muito semelhante ao do ADVOGADO, mas simplesmente aceito pelas pessoas, sem qualquer traço de preconceito: a palavra FUTEBOL.

Brasileiros em geral pronunciam essa palavra com o som do I em vez do E: FUTIBOL. Outros pronunciam-na FUTEBOL, especialmente em São Paulo. Tanto uma pronúncia como a outra são aceitas, sem discriminação, sem menosprezo, sem considerar a ‘outra’ forma como ‘errada’.

Parêntesis: estou considerando o som DI e TI como falado pela maioria dos brasileiros (e não pela totalidade), que é alguma coisa como ‘DGI’ e ‘TCHI’, diferentemente do padrão que deveria ser seguido se a língua não mudasse nunca.

Por que isso acontece? Acontece porque nós temos uma mania de tentar basear a língua falada pela sua forma escrita, o que é um equívoco. Afinal, quem repete todos os sons expressos na grafia das palavras? Se a palavra é ADVOGADO, por que falamos ADVOGADU (com um som de U quase apagado)? Por que falamos ISPERIÊNCIA e não EXPERIÊNCIA? (nesse caso, vejam que a grafia do X representa um som de S). No fundo, o que fazemos é buscar meios para discriminar quem fala diferente das pessoas que nos servem de modelo, que geralmente são as pessoas que compõem as classes sociais mais altas. Algumas pronúncias acabam por desaparecer, quando a pressão é muito forte. Outras permanecem e vão entranhando na sociedade, atingem as classes mais altas e passam a ser aceitas. Alguns exemplos práticos: o som do L em final de sílaba era lateral e hoje em dia é um som totalmente vocálico (U). Pessoas mais idosas ainda têm marcas dessa pronúncia, mas é bem rara. Outro exemplo, dessa vez de um caso de pronúncia que até pouco tempo era ridicularizada: o R vibrante em final de sílaba, aquela de PORRRTA, característico da variedade caipira. Hoje em dia, com a ascensão econômica dos falantes dessa variedade, sobretudo do interior de São Paulo, sul de Minas Gerais, Goiás, essa variedade não é mais discriminada, no máximo é comentada. Pessoas que têm essa pronúncia não mais se monitoram e a evitam, não há mais essa preocupação. Na TV temos diversos exemplos dessa pronúncia em programas variados, coisa que poucos anos atrás só era vista em programas de humor, como caricaturas de gente do interior.

Em resumo, a língua tem tudo a ver com poder econômico. Não podemos nos basear em grafia de palavras para determinar como deve ser sua pronúncia. É exatamente o contrário: a grafia das palavras é que é determinada de acordo com a fala. Claro, a língua muda constantemente e não é possível alterar a grafia a todo instante, mas isso não significa que a grafia é o ‘certo’ e a pronúncia divergente é ‘errada’. Ortografia é mera memorização!

Por fim, lembrem-se: a escrita é a representação da fala e não o contrário.

[1] Cito ‘as classes mais prestigiadas’ para explicar que toda a gramática, incluindo a ortografia, sempre foi criada com base na variedade dos falantes que detêm o poder. No nosso caso, nobreza e clero.



quinta-feira, 12 de maio de 2016

Joões e Joãos

Por Pasquali Cipro Neto.
Crônica



Joões e Joãos
Coincidência ou não, em alguns dos últimos textos analisei questões cujo mote foi a propaganda. A coluna de hoje vai pelo mesmo caminho, sugerido, desta vez, pela (bela) publicidade "junina" de um banco brasileiro. "Joãos, Antônios e Pedros", dizia-se na abertura da peça publicitária, gravada em Campina Grande (PB), talvez a capital das tradicionais festas juninas realizadas em todo o querido Nordeste.

Pensei em escrever sobre essa propaganda para comentar o emprego da forma "Joãos", mas, como havia outros assuntos na "fila", deixei o caso para depois. O pessoal que fez o filme foi mais rápido: nas últimas edições do comercial, a forma "Joãos" foi substituída por "Joões" ("Joões, Antônios e Pedros").

Pois é justamente a troca de "Joãos" por "Joões" o mote desta coluna. Nomes próprios têm plural? Se têm, o de "João" é mesmo "Joões"? E por quê?

Nomes próprios podem ser postos no plural, sim. Por que será que o título de uma das obras de mestre Eça de Queirós é "Os Maias"? Pois bem, o plural de "João" é um caso delicado, já que essa palavra termina em "ão". Há padrão para o plural dessas palavras? Não há. Os únicos vocábulos terminados em "ão" que têm plural uniforme são os paroxítonos: todos fazem o plural com o simples acréscimo de "s" ("bênçãos", "sótãos", "órfãos", "órgãos" etc.).

Das oxítonas terminadas em "ão", a maior parte faz o plural em "ões" ("corações", "portões", "balões" etc.), mas há as que fazem o plural em "ãos" ("mãos", "irmãos"), em "ães" ("alemães", "cães", "tabeliães") e as que admitem mais de uma forma de plural ("guardiães" e "guardiões"; "anciãos", "anciães" e "anciões"). O senhor absoluto dessa questão é o uso.

Pois foi o uso que consagrou a forma "joões" como plural de "joão", palavra presente em inúmeros compostos de nossa língua ("joão-teimoso", "joão-de-barro", "joão-ninguém", "joão-bobo", que, no plural, fazem, respectivamente, "joões-teimosos", "joões-de-barro", "joões-ninguém", "joões-bobos").

Quem não se lembra dos inúmeros joões do genial Mané Garrincha (que, por sinal, se jogasse hoje, seria massacrado pelos pobres defensores da tosca tese - corroborada por alguns "jornalistas" - de que os dribles humilham o adversário)? O termo "joão" foi tão usado e difundido que virou verbete de dicionário. No "Aurélio", por exemplo, encontra-se isto: "Denominação dada por Garrincha (Manuel Francisco dos Santos) aos seus marcadores". Em seguida, o dicionário informa que, por extensão de sentido, "joão" significa "jogador que é driblado facilmente".

Não resisto à tentação de citar um trecho de "Paulicéia Desvairada", de Mário de Andrade: 

"Eu insulto as aristocracias cautelosas! / Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros! / que vivem dentro de muros sem pulos; / e gemem sangues de alguns mil-réis fracos / para dizerem que as filhas da senhora falam o francês / e tocam os "Printemps" com as unhas!". 

Como se vê, não falta registro de "joões". Aos "Joões", portanto, o que é deles, ou seja, o plural consagrado! É isso.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O impeachment venceu o Impitimam

Do Hasthag

As 10 formas de escrever impeachment mais buscadas no Google
Vamos admitir, impeachment não é uma palavra simples de escrever. Mas o brasileiro se superou nas tentativas que fez no Google ao longo do último domingo.

Segundo o site de buscas, estes são os 10 jeitos de escrever impeachment que foram mais usadas:

1. Impeachment
2. Impitimam
3. Impitiman
4. Impeachement
5. Impitima
6. Inpithiman
7. Impechment
8. Impeachmant
9. Impeatchment
10. Impitman

Admito que senti certo alívio em saber que o mais buscado é o correto.



RECORDE

O impeachment de Dilma bateu recordes no Google. O volume de buscas com o termo no site em abril é o mais alto desde que a empresa começou a compilar os dados, em 2005.

O Google não disponibiliza números brutos de buscas, mas calcula a participação do termo no total de buscas e dá valor 100 ao ponto mais alto. A partir daí o gráfico é montado baseado na comparação com este ponto mais alto.

O mês de abril está com esse valor 100, que é muito superior ao de outros momentos críticos da gestão Dilma, como os protestos de junho de 2013 (9) e de março de 2015 (24) e do acolhimento do pedido de impeachment na Câmara, em dezembro do ano passado (31).

Como o auge do processo ocorreu agora, a tendência é que a proporção caia um pouco até o final do mês, a não ser que o Senado faça a votação do acolhimento da denúncia nos próximos dias.

Epicentro da crise, o Distrito Federal é o local em que as buscas por impeachment são mais relevantes. Outra curiosidade é o grande número de buscas pelo impeachment de Fernando Collor, ocorrido em 1992.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Ler e falar

Por Ferreira Gullar.
Folha SP - 28FEV

Ler e falar
o Enem, é cada vez menor as referências à literatura brasileira –o mesmo ocorrendo nos exames de vestibulares– causou preocupação nos membros da Academia Brasileira de Letras que, em face disso, decidiu manifestar-se sobre o assunto.

Essa questão foi trazida à ABL, no final do ano passado, por Arnaldo Niskier, que havia representado a instituição numa reunião promovida na Comissão de Educação da Câmara Federal pela deputada Maria do Rosário, do PT do Rio Grande do Sul. Ela realizou uma audiência pública para debater a situação da leitura e do ensino da literatura particularmente no ensino médio. A constatação lamentável é que, se não se estimula a leitura da literatura e seu ensino, não há razão para que a matéria faça parte dos exames e das provas.

A iniciativa da deputada em trazer à discussão esse fato merece o apoio da intelectualidade e dos cidadãos conscientes da importância da literatura para a vida nacional. Não obstante, nem todos têm essa compreensão e há mesmo, em certos setores, a tendência a ver o ensino da literatura como um resto do elitismo que deve ser eliminado da formação dos jovens.

Se minha observação for procedente, a ausência da literatura na formação da nossa juventude seria parte de um fenômeno mais amplo, que afeta outros setores da sociedade brasileira e que tem raízes mais profundas do que parece à primeira vista. Para nos atermos ao âmbito literário e do ensino, lembro da tendência entre filólogos e gramáticos de considerar que não há erros no uso da língua, mas apenas modos diversos de usá-la conforme a classe social de quem a usa. Ou seja, há a língua culta, falada pelos que têm cultura, e a língua do povo inculto, que não tem acesso à educação.

A constatação, até certo ponto, é correta, mas deduzir dela a conclusão de que tanto faz dizer "nós vamos" quanto "nós vai" é um equívoco que contraria a natureza da linguagem. Falar corretamente não é uma manifestação elitista e, sim, o resultado da necessidade humana de se expressar com coerência e clareza. Não sou linguista nem muito menos sei (alguém sabe?) como se formaram os idiomas, mas tenho certeza de que não se trata da invenção de um sujeito erudito e presunçoso que decidiu inventar as concordâncias entre sujeito e verbo, adjetivo e substantivo. Na verdade, fico fascinado ao constatar, já nas primeiras manifestações literárias, a concordância e a coerência entre os elementos da linguagem.

Como tampouco creio que os idiomas foram criados por Deus, contento-me em admitir que eles expressam, tanto quanto possível, a lógica que descobrimos no mundo e que nos ajuda a reinventá-lo. Pode ser até que a lógica da linguagem não seja a mesma do mundo –cuja complexidade excede à nossa compreensão–, mas, como nos ensina o exemplo da Torre de Babel, um idioma sem normas torna inviável o entendimento e, consequentemente, o convívio humano.

Claro que, por felicidade, estamos longe disso. O que importa aqui é afirmar que falar e escrever corretamente não são esnobismos, mas necessidades da linguagem humana.

Certamente, há que distinguir a linguagem falada da escrita. A fala coloquial, pelas circunstâncias em que se exerce, com frequência viola a correção da linguagem escrita. Tampouco teríamos que exigir, mesmo desta, um rigor sem concessões. Errar é humano e, modéstia à parte, citando a mim mesmo, cabe lembrar que "a crase não foi feita para humilhar ninguém".

Em suma, ninguém deve ser punido por errar na concordância vocabular. Tampouco é correto subestimar o homem do povo que desconhece as regras gramaticais e, por isso mesmo, fala errado.

O que, porém, não se pode aceitar é que linguistas e gramáticos afirmem que não se deve exigir que se fale e escreva corretamente, quando eles mesmos falam e escrevem conforme as regras gramaticais.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

No frigir dos ovos

Crônicas


Autoria desconhecida

No frigir dos ovos
Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem idéias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa.




E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas. 

Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo. 

Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos. 

Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão. 

Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese... etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou. 

O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco... 

A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho. 

Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

TCU decide enquadrar a fala de Dilma



TCU dá novo prazo para Dilma concatenar uma frase que faça sentido
Atônito com a indiscriminada estratégia presidencial de recorrer às pedaladas sintáticas, o TCU, sem paciência, deu um novo prazo para Dilma Rousseff organizar seu discurso. "Assim não dá! Quem não se comunica, se trumbica! Perdi cinco dias para entender dois parágrafos da linha de defesa do governo. Ou a Dilma concatena uma frase que faça sentido ou a gente recomenda à PF que prenda o João Santana", argumentou o relator do processo, ministro Augusto Nardes, enxugando o suor na testa com um lencinho. A nova data ficará em aberto e, quando chegar a data, o prazo será dobrado.

Arte de JEAN GALVÃO



O relator atendeu a um pedido feito pela Comissão de Linguistas Independentes e Democratas da Fundação Tancredo Neves para que o TCU avalie "novos fatos" ocorridos em 2015. "Desde que foi reeleita, Dilma saudou a mandioca, evocou a mulher sapiens e quis dobrar uma meta que não havia sido estipulada", lamentou a professora Eneida Alcântara Braguinha Neves. "Não podemos ignorar esses novos paradoxos hermenêuticos produzidos pela mandatária, que podem abrir um processo de impeachment dentro do impeachment, caso sejam plenamente compreendidos", completou.

Solícito, Renan Calheiros enviou ao governo uma proposta para que Dilma Rousseff passe a ser dublada por Fernanda Montenegro.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Nomes por esses Nordeste adentro

Por Hildeberto Barbosa Filho
Transcrito do Blogstraquis

Crônicas

Essas razões sociais
O mundo é mágico. A literatura é apenas real. Não, não vou defender uma daquelas teses estupendas e gloriosas. Quero apenas soletrar, no à vontade dessa letra lúdica, algumas nomenclaturas que refletem, em seu paradigma modelar e abstruso, o assombro e a fantasia de que as coisas são feitas. Sobretudo, quando nomeadas.



Borracharia J. Pinto Penteado, Pneus a Toda Prova.
O “J” deve de ser de Jair, de João, de Jaime, de Jeremias, de Janúncio, de Jesus ou de um José qualquer, pois “Virge, como tem Zé lá na Paraíba”, conforme lembra a voz
ritmada de Jakson do Pandeiro. 

Vizinho, e dentro do mesmo ramo profissional, deparo-me com a Oficina de Mané Pineco, o Mágico da Mecânica, o Rei do Carburador e Milagreiro da Eletricidade. Tudo, em letras garrafais e coloridas, para chamar a atenção dos possíveis
clientes, numa espécie de marketing bronco e bizarro.

Observemos outros exemplares desses registros extravagantes.

  • Mercadinho Branca de Neve e os Sete Anões: estoque variado e tudo de miudeza a gosto do freguês; 
  • Casa Mortuária Salve-se Quem Puder: preços confortáveis e diversas formas de pagamento, inclusive em prestações pós-mortem; 
  • Farmácia de Anaximandro Aristarco de Alencar: em cada remédio, uma dor aniquilada; 
  • Padaria Alvorada: além do pão francês, o doce, o crioulo, o papinha, o fresquinho, o dormido e o acordado; 
  • Armazém de Secos e Molhados: charque, feijão, farinha e fiado, e muito, muito mais. 
  • Ótica Tudo Vê; 
  • Papelaria Traça Não Entra;
  • Magazine Florbela Espanca;
  • Salão de Beleza Roberta Close;
  • Casa de Ferragem Irmãos Ferrugem & Companhia; 
  • Empório das Elegantes Desesperadas; 
  • Bodega do Cacique Invertebrado;
  • Casa Espírita Mensageiro do Além;
  • Igreja Universal Caim e Abel;
  • Terreiro de Madame Satã; 
  • Posto às Margem do Ipiranga; 
  • Academia de Letras dos Inéditos e Inexistentes;
  • Banda Municipal Soluços do Silêncio; 
  • Derrotados Futebol Clube; 
  • Centro Cultural Terra Inculta; 
  • Praça Chega de Saudade;
  • Cabaré de Mãe Santinha
  • Bar do Tetéu: o que não fecha nunca, e cuja marca primordial é servir uma sopa espessa, depois de meia noite, feita com o mesmo osso, requentado desde sua fundação, logo após a guerra de 1945.


Oxente, esse é em Minas, 
mas achei o nome fabuloso, uai!


Pasme o leitor, se algum leitor me lê essas domingueiras estripulias verbais: nenhuma dessas razões sociais me é fruto da imaginação desmedida, mas realidades vistas e por mim constatadas in loco, no calor do tato, do odor e do paladar, experimentados na geografia de muitas cidadezinhas perdidas nesse mundão de Deus. 



Quem quiser checar, faça uma visitinha a Cajazeiras, Pombal, Itaporanga, Santa Luzia, Taperoá, Cabaceiras, Boqueirão, Aroeiras, Itatuba, Soledade, Puxinanã, Galante, Cuité, Bananeiras, Esperança, Lagoa Seca e Campina Grande, em cuja origem estala do reino malvado...

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Um cronista de segunda...

Por Joaquim Ferreira dos Santos.

Crônicas

Nós num pega os peixe
Um cronista de segunda não é a pessoa mais indicada para fazer coro aos cultos e juntar sua pena na crítica ao livro do MEC que autoriza a garotada a chutar a gramática de bico, de chapa, do jeito que a bola rolada por Camões se lhe ajustar melhor no pé, quer dizer, na língua.

Um cronista é um sujeito que toma certas intimidades com as camareiras que cuidam do vernáculo e depois, cotovelo no balcão, vive repetindo Mário Quintana, dizendo aos amigos que outro dia uma palavra tirou a roupa e ficou nuinha pra ele. O cronista frita um ovo com as vírgulas, que vai cortando como se fossem cebolas pelo caminho das orações. Quando algum revisor aparece pedindo mais respeito, menos anacoluto, ele aproveita o livro do MEC para escrever um bilhete se dizendo “ma-gu-a-do”. Diz que foi por aí, levando um violão, e chuta com estardalhaço o balde de aço com as normas de redação. 


Arte de
 Crhistoph Niemann Zupi


Um cronista quer mais que o texto corra solto como um papo de botequim, como um olho vadio que se prega no rebolado de alguma dona e vai seguindo solto, pelo meio da rua, sem agregar valor ao panteão literário e muito menos tecer louvação de mérito semântico aos paralelepípedos sobrepostos pelos polissílabos proparoxítonos advindos do charivari das mesóclises.

Um cronista gosta de fingir que não tem compromissos com o certo e o errado que movem a seriedade dos artigos nas outras páginas. Anda de bermudas pelo pátio dos verbos, zoando das concordâncias de cartola que o espreitam pelas frestas das janelas, todas muito branquelas e invejosas da liberdade que ele tem em se locupletar ao sol pagão com as carnes suculentas do verbo popular.

Um cronista é um gato vadio espapaçado à sombra da varanda da Academia Brasileira de Letras. Seu compromisso é com o prazer. Ele está para o corpo do jornal como os meninos jogando as bolinhas na frente dos carros, apenas um momento de mágica enquanto o sinal não abre, e a vida séria das notícias volta a escorrer pelos vidros. De vez em quando o cronista deixa cair uma bolinha, tropeça numa crase. Não se abate. Ele deseja que todas as normas consideradas adequadas e peremptórias no uso da língua tenham uma boa afta e se explodam — mas ele não repetiria tal na frente das crianças em idade escolar.

No início era o verbo, diz a Bíblia, e ele vinha sendo conjugado com a concordância certa até que chegou essa tentativa do MEC de reescrever o apocalipse.

O bom professor sabe que primeiro você fica de pé e aprende a andar. Um pé é esticado para a frente e em seguida serve de apoio para o que ficou atrás faça o mesmo movimento de avançar. Alguém ensinou isso ao bebê Neymar, que depois cresceu, se aborreceu de caminhar sempre do mesmo jeito que o resto da Humanidade e resolveu fazer ao seu jeito. Em cima do repertório de passos gramaticalmente corretos que lhe ensinaram, inventou passadas, pedaladas, dribles e calcanhares impossíveis de serem perseguidos pelos outros — e reinventou a linguagem do futebol.

Manuel Bandeira fez as poesias mais românticas do parnasianismo para em seguida, maduro, mandar às favas os rigores das rimas e dizer que estava farto do lirismo-funcionário público. Cansado das métricas, dos sentimentos sob controle, Bandeira vestiu a camiseta do Bloco dos Modernistas e passou a pedir a liberdade de uma prise de lança-perfume no céu da boca. Pintou-se de 22. Queria a farra estupefaciente de todos os barbarismos universais.

Eu não diria isso numa sala de aula para menores de 18 anos, como estão fazendo os professores que usam o livro “Por uma vida melhor”, arauto patrocinado pelo MEC para a perversão de que não há mais certo ou errado no uso da língua, mas adequado ou inadequado. Eu calaria a ofensa. Seria abuso de menores.

A escola deve fazer a parte dela, colocar o pensamento do aluno em pé, e a melhor maneira de fazer isso é ensinar a norma, o rigor da linguagem padrão sobre o qual se constrói um país. Os bons mestres podem até sugerir como contraponto a audição do caipira italianado de Adoniram Barbosa, o sambista genial do “nós num se importa, Ernesto, mas você devia ter ponhado um recado na porta” — desde, é claro, que sublinhem o caráter humorístico dos versos e os liberem apenas aos que queiram soltar a voz na pândega de uma roda de samba.

Um cronista de segunda, apenas um gato de pelo curto brincando com as sobras do prato de semântica ensopada que lhe atiram os cultos, não é a melhor pessoa para pedir aos professores que tenham mais pudor na frente das crianças. Que acertem a língua com as necessidades nacionais de se colocarem os verbos em ordem, com a concordância certa, na cabeça de seus alunos. Ensinar compulsoriamente “nós pega o peixe”, como admite a nova cartilha lida na frente do quadro-negro, é mais pornográfico que os catecismos de Carlos Zéfiro que o cronista folheava, por livre e espontânea falta do que pensar, nos fundos da classe. Eu pediria mais pudor aos novos mestres.

Fernando Pessoa foi despedido de uma agência de publicidade ao fazer para a Coca-Cola o slogan “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Pode soar mal para um refrigerante, que precisa ser agradável desde o início, mas serve para o aprendizado da língua. Primeiro estranha-se, com a inevitável dificuldade que requer o rigor de uma boa educação. Depois entranha-se pela vida afora o imenso prazer de, sabendo as regras do jogo, brincar com o texto.

Um cronista de segunda, gato vira-lata da vida literária, mete a língua onde não é chamado e passa o dia lambendo as palavras, as cultas e as das calçadas, na frente de todo mundo. Nem aí ao que vão pensar. Gato sem dono, o cronista mostra os dentes quando querem lhe colocar a coleira da ordem vernacular. Ele quer ter a liberdade de fazer ao seu jeito. Coçar um adjetivo, morder as partes de um verbo composto, bocejar diante de um advérbio e balançar o rabo para uma expressão oral, gostosa, que não via há muito tempo na sua rua — mas ele não diria isso para crianças numa sala de aula. Mexer com a língua de um lado para o outro, principalmente para o errado, é diversão adulta.

Fonte: Jornal O Globo

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Semelhanças & Diferenças

Por Gaudêncio Torquato.

A arte de depor
Neste ciclo de depoimentos na operação Lava Jato, convém pinçar os ensinamentos de Nicolau Eymerich, frade dominicano espanhol. Ele escreveu, em 1376, o "Manual dos Inquisidores", onde apontava os truques dos hereges para responder sem confessar. 

Eis alguns : responder às perguntas de maneira ambígua ; responder acrescentando uma condição ; inverter a pergunta ; fingir-se de surpreso ; mudar as palavras da pergunta ; deturpar as palavras ; auto justificar-se ; fingir debilidade física ; simular demência ou idiotice e se dar ares de santidade.



A arte de responder
Certos políticos se enquadram no catálogo. Alguns exercem a arte de responder o que não foi perguntado e não dizer o que todos querem ouvir. 

Jânio Quadros era perito na arte de se fazer surpreso. Perguntado por Leon Eliachar, o humorista, qual era seu slogan : 50 anos em 5 ou 5 anos em 60 ? Jânio responde : "50 anos em 5, mais o pagamento dos atrasados". 

O truque de mudar as palavras é comum. Ao político se pergunta : "o senhor vai dizer tudo o que sabe aos procuradores ?" Resposta : "quem diz a verdade, tem tudo a seu favor. Quem não deve, não teme". O truque de deturpar as palavras é usual. "O sr. acredita que o relatório da Petrobras vai absolvê-lo ?" Possível resposta : "o relatório pode ser uma peça de condenação ou de inocência. Quem me condena é a imprensa, não a petrolífera".

terça-feira, 12 de maio de 2015

Jogo de palavras

Por Emílio de Menezes.

Contribuição de Otoniel Costa Neto




"Numa exposição agrícola um amigo tenta fazer graça com Emílio de Menezes enquanto este examinava uma bela espiga: 

- É milho? 
- Estás com a veia hoje! 

(nisso o amigo tentou fugir da réplica). 
- Não se evada

(e segurando-o pelos ombros e colocando-o numa cadeira) 
- Pronto, sentei-o. A ti não intrigo, só humilho." 


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Neutralidade de gênero

Por Helio Schwartsman.
Publicado na FOLHA SP em 29MAR2015

Neutralidade de gênero
"Uma língua é um dialeto com exército e marinha." O chiste do autor iídiche Max Weinreich escancara as relações entre idioma e poder. Elas são inegáveis, mas qual a sua extensão? É possível para um grupo poderoso impor distinções linguísticas que não estejam antes na cabeça das pessoas? O que vem antes, o conceito ou a palavra?




Depois de mais de uma década de árdua batalha linguística, que opôs feministas e a turma do LGBT aos puristas do idioma, a próxima edição do dicionário da Academia Sueca, a ser publicada no dia 15, vai trazer, além dos  pronomes pessoais "han" (ele) e "hon" (ela), a forma neutra "hen". A ideia é utilizá-la quando o sexo da pessoa é desconhecido, quando o indivíduo ao qual se refere é transgênero ou quando o falante considera que não é o caso de especificar.

O pronome "hen" fora proposto nos anos 60, mas foi só a partir de 2000 que a ideia caiu nas graças de ativistas e se tornou uma causa. A Academia Sueca não tinha alternativa que não registrar a forma, já ela vinha sendo utilizada de modo crescente em meios de comunicação, documentos e até sentenças judiciais.


Arte de DALCIO



Vejo o pronome com simpatia. Ele permite uma cortesia pública para com um grupo marginalizado e dá mais liberdade a autores na hora de falar ou escrever, mas sou cético em relação ao efeito que a novidade possa ter na redução da discriminação.

Embora especificidades da língua possam exercer um efeito limitado e modesto em nossas atitudes, é praticamente impossível fazer com que as pessoas deem peso a ideias que já não estejam antes em suas mentes. Sempre que se tenta esterilizar o idioma com a adoção de um eufemismo –"alcoólatra" no lugar de "bêbado", por exemplo–, é questão de tempo até que ele seja contaminado pelas mesmas conotações negativas e precise ser substituído –"etilista", "dependente". Infelizmente, policiar a língua não basta para resolver injustiças ou quebrar preconceitos.

terça-feira, 31 de março de 2015

É assim que a gente fala

Há diferenciação
Porque cada região
Tem seu jeito de falar
O Nordeste é excelente
Tem um jeito diferente
Que a outro não se iguala
Alguém chato é Abusado
Se quebrou, Tá Enguiçado
É assim que a gente fala
Uma ferida é Pereba
Homem alto é Galalau
Ou então é Varapau
Coisa inferior é Peba
Cisco no olho é Argueiro
O sovina é Pirangueiro
Enguiçar é Dar o Prego
Fofoca aqui é Fuxico
Desistir, Pedir Penico
Lugar longe é Caixa Prego
Ladainha é Lengalenga
E um estouro é Pipoco
Botão de rádio é Pitoco
E confusão é Arenga
Fantasma é Alma Penada
Uma conversa fiada
Por aqui é Leriado
Palavrão é Nome Feio
Agonia é Aperreio
E metido é Amostrado
O nosso palavreado
Não se pode ignorar
Pois ele é peculiar
É bonito, é Arretado
E é nosso dialeto
Sendo assim, está correto
Dizer que esperma é Gala
É feio pra muita gente
Mas não é incoerente
É assim que a gente fala
Você pode estranhar
Mas ele não tem defeito
Aqui bombom é Confeito
Rir de alguém é Mangar
Mexer em algo é Bulir
Paquerar é Se Enxerir
E correr é Dar Carreira
Qualquer coisa torta é Troncha
Marca de pancada é Roncha
E a caxumba é Papeira
Longe é o Fim do Mundo
E garganta aqui é Goela
Veja que a língua é bela
E nessa língua eu vou fundo
Tentar muito é Pelejar
Apertar é Acochar
Homem rico é Estribado
Se for muito parecido
Diz-se Cagado e Cuspido
E uma fofoca é Babado
Desconfiado é Cabreiro
Travessura é Presepada
Uma cuspida é Goipada
Frente da casa é Terreiro
Dar volta é Arrudiar
Confessar, Desembuchar
Quem trai alguém, Apunhala
Distraído é Aluado
Quem está mal, Tá Lascado
É assim que a gente fala
Aqui, valer é Vogar
E quem não paga é Xexeiro
Quem dá furo é Fuleiro
E parir é Descansar
Um rastro é Pisunhada
A buchuda é Amojada
O pão-duro é Amarrado
Verme no bucho é Lombriga
Com raiva Tá Com a Bixiga
E com medo é Acuado
Tocar de leve é Triscar
O último é Derradeiro
E para trocar dinheiro
Nós falamos Destrocar
Tudo que é bom é Massa
O Policial é Praça
Pessoa esperta é Danada

Vitamina dá Sustança
A barriga aqui é Pança
E porrada é Cipoada
Alguém sortudo é Cagado
Capotagem é Cangapé
O mendigo é Esmolé
Quem tem pressa é Avexado
Sandália é Alpercata
A correia, Arriata
Sem ter filho é Gala Rala
O cascudo é Cocorote
E o folgado é Folote
É assim que a gente fala
Perdeu a cor é Bufento
Se alguém dá liberdade
Pra entrar na intimidade
Dizemos Dar Cabimento
Varrer aqui é Barrer
Se a calcinha aparecer
Mostra a Polpa da Bunda
Mulher feia é Canhão
Neco é pra negação
Nas costas, é na Cacunda
Palhaçada é Marmota
Tá doido é Tá Variando
Mas a gente conversando
Fala assim e nem nota
Cabra chato é Cabuloso
Insistente é Pegajoso
Remédio aqui é Meisinha
Chateado é Emburrado
E quando tá Invocado
Dizemos Tá Com a Murrinha
Não concordo, é Pois Sim
Estou às ordens, Pois Não
Beco do lado é Oitão
A corrente é Trancilim
Ou Volta, sem o pingente
Uma surpresa é, Oxente!
Quem abre o olho Arregala
Vou Chegando, é pra sair
Torcer o pé, Desmintir
É assim que a gente fala
A cachaça é Meropéia
Tá triste é Acabrunhado
O bobo é Apombalhado
Sem qualidade é Borréia
A árvore é Pé de Pau
Caprichar é Dar o Grau
Mercado é Venda ou Bodega
Quem olha tá Espiando
Ou então, Tá Curiando
E quem namora Chumbrega
Coceira na pele é Xanha
E molho de carne é Graxa
Uma pelada é Baba ou Racha
Onde se perde ou se ganha
Defecar se chama Obrar
Ou simplesmente Cagar
Sem juízo é Abilolado
Ou tem o Miolo Mole
Sanfona também é Fole
E com raiva é Infezado
Estilingue é Balieira
Prostituta se diz Quenga
Cabra medroso é Molenga
O baba-ovo é Chaleira
Opinar é Dar Pitaco
Axila é Suvaco
Se o cabra for mau, é Mala
Atrás da nuca é Cangote
Adolescente é Frangote
É assim que a gente fala
Lugar longe aqui é Brenha
Conversa besta, Arisia
Venha, ande, é Avia
Fofoca é também Resenha
O dado aqui é Bozó
Um grande amor é Xodó
Demorar muito é Custar
De pernas tortas é Zambeta
Morre, Bate a Caçuleta
Ficar cheirando é Fungar
A clavícula aqui é Pá
Um mal-estar é Gastura
Um vento bom é Frescura
Ali, se diz, Acolá
Um sujeito inteligente
Muito feio ou valente
É o Cão Chupando Manga
Um companheiro é Pareia
Depende é Aí Vareia
Tic nervoso é Munganga
Colar prova é  Pescar 
Brigar é Sair no Braço
Lombo se diz Espinhaço
Matar aula é Gazear
Quem fala alto ou grita
Pra gente aqui é Gasguita
Quem faz pacote, Embala
Enrugado é Ingilhado
Com dor no corpo, Engembrado
É assim que a gente fala
O afago é Alisado
Um monte de gente é Ruma
Quer saber como, diz Cuma
E bicho gordo é Cevado
A calça curta é Coronha
Sujeito leso é pamonha
Manha aqui é Pantim
Coisa velha é Cacareco
O copo aqui é Caneco
E coisa pouca é Tiquim
Mulher desqualificada
Chamamos de Lambisgóia
Tudo que sobra é de Bóia
E muita gente é Cambada
O nariz aqui é Venta
A polenta é Quarenta
Mandar correr é Acunha
Azar se chama Quizila
A bola de gude é Bila
Sofrer de amor, Roer Unha
Aprendi desde pivete
Que homem franzino é Xôxo
O cara medroso é Frouxo
E comprimido é Cachete
Olho sujo tem Remela
Quem não tem dente é Banguela
Quem fala muito e não cala
Aqui se chama Matraca
Cheiro de suor, Inhaca
É assim que a gente fala
Pra dizer ponto final
A gente só diz: E Priu
Pra chamar é Dando Siu
Sem falar, Fica de Mal
Separar é Apartá
Desviar é Ataiá
E pra desmentir é Nego
Se estiver desnorteado
Aqui se diz Ariado
E complicado é Nó Cego
Coisa fácil é Fichinha
Dose de cana é Lapada
Empurrar é Dar Peitada
E o banheiro é Casinha
Tudo pequeno é Cotoco
Vigi! Quer dizer, por pouco
Desde o tempo da senzala
Nessa terra nordestina
Seu menino, essa menina,
É assim que a gente fala."