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quarta-feira, 2 de março de 2016

PT aniversaria sob insultos

Por Vinicius Torres.
Folha 26FEV


PT ameaça se divorciar de Dilma
O PT faz mais e mais questão de mostrar que não tolera Dilma 2. A divergência tornou-se mais explícita no reinício do ano político e ora descamba para insultos. Nesta semana, o partido enfureceu-se com a mudança na lei do pré-sal e hoje lança um programa econômico de oposição (sic).


Arte de GENILDO


Ainda que não dê em divórcio, a querela foi longe o bastante para resultar ou em desmoralização do PT, caso o partido engula as críticas cada vez mais fortes que faz, ou em derrotas cruciais do governo no Congresso, pois sem o PT dificilmente passarão mesmo as parcas reformas que talvez Dilma Rousseff venha a propor.

Alguém pode sugerir que o PT não tem alternativa a não ser permanecer no (seu!) governo e fazer um jogo de esquerda "para a galera". Poderia ser, caso o partido não precisasse tomar uma atitude prática diante das reformas "neoliberais" que o governo Dilma cozinha.

Se aceitá-las, o PT se desmoraliza diante do espelho, das "bases" e dos movimentos sociais. Se disser não, derrota o governo.


Arte de SPONHOLZ


Um motivo recente de discórdia feia foi a reforma menor da lei do pré-sal, no Senado, mudança que dá fim à exigência de que a Petrobras invista nos campos do pré-sal.

Lideranças petistas dizem nas internas que o governo "traiu" o partido. Alguns falam em "jogo duplo": em público, o governo se opunha à mudança "entreguista"; nas internas, negociava com a oposição.

O PT do Rio, onde ocorre hoje e amanhã uma reunião do partido, praticamente declarou Dilma Rousseff "persona non grata"; a presidente tampouco quer ver a turma.


Arte de LUSCAR


O presidente do PT, Rui Falcão, soltou nota em que qualifica a mudança no pré-sal de "retrocesso", e mais: "O PT marchará ao lado das demais forças progressistas, dos movimentos populares e sindicais contra este ataque à soberania nacional e ao nosso desenvolvimento independente."

Não diz palavra sobre o governo mas, dado o contexto de fúria no PT e nos movimentos sociais, a nota coloca o partido na terceira margem do rio: se não está na oposição, não está também no governo.

O motivo maior da pendenga é a ainda vaporosa promessa de reforma da política econômica, que inclui uma vaga reforma da Previdência e um teto para o gasto público, medida que pode redundar em contenção do reajuste do salário mínimo e das aposentadorias.



Arte de SPONHOLZ


Ainda que se trate de vaga intenção, essa reforma será detonada hoje por um plano alternativo do PT, de fato um programa econômico de oposição ao governo da presidente petista: "O futuro está na retomada das mudanças".

Nesse rascunho, que será discutido no encontro do partido, criticam-se reformas e propõem-se coisas como:

  1. Redução da taxa básica de juros quase pela metade;
  2. Uso das reservas internacionais para investimentos em moradia, saneamento e transporte; 
  3. Mais impostos sobre os mais ricos, sobre lucros e dividendos e sobre grandes fortunas, redução de impostos para a classe média; 
  4. Aumento de 20% do Bolsa Família.
Arte de SPONHOLZ


Em suma, trata-se de retomar e aprofundar o caminho dos anos Lula, que, segundo o documento, era o do desenvolvimento acelerado pela redistribuição de renda e a "construção de grande mercado de massas".

Trata-se, sim, de tirar o resto de apoio que tem Dilma Rousseff.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Quem é o dono da lama?

Por  Vinicius Torres Freire
FOLHA SP


Quem é o dono da  lama?
A Vale declarou ao mundo que é "mera acionista" da Samarco, dona das barragens que ruíram. A ruína largou uma torrente de lama suja que matou provavelmente 27 pessoas, destruiu vilas e desgraça vidas e comunidades no caminho de Minas ao mar.



Não se sabe a causa da ruína. Mas ficou evidente que, na prática, ninguém ligava para os horrores que escorreriam com a lama mortífera. Não havia plano de avisar do desastre, de atenuá-lo. A destruição prossegue, sem limite.

A Vale partilha a Samarco com a BHP. Chamou-se de "mera acionista" para o "Wall Street Journal". Não diferiu muito da BHP. Mas se esmerou. "A Vale é apenas uma mera acionista da Samarco, sem nenhuma interferência operacional na administração dessa companhia, de modo direto ou indireto, próximo ou distante", afirmou a empresa.

Arte de AROEIRA


Sim, BHP e Vale têm "responsabilidade limitada" por lambanças ou até crimes da Samarco. Quão limitada, na letra da lei, é controverso.

Fora da lei, a Vale pode acreditar nessa burrice burocrática que disse ao jornal americano. Mas, a se comportar assim, pelo menos sua reputação e a conversa de "responsabilidade social e ambiental" estarão na lama suja.

Arte de ALPINO


O que pensam os "meros acionistas" da Vale? A Vale é controlada pela Valepar, empresa criada para a compra da então Vale do Rio Doce, na privatização. A Valepar é controlada por fundos de pensão, pelo Bradesco e por acionistas do banco, pela megatransnacional japonesa Mitsui, pelo BNDES e sócios menores (isso quanto a ação com direito de voto. Dois terços do capital total são de acionistas em tese dispersos).

Os fundos são os de BB, CEF e Petrobras; a Previ, do BB, lidera. Seu comando é definido por acordão entre governo, sindicalistas e funcionários. Quem manda na Valepar, enfim, é um combinado de Bradesco e fundos-governo.

Arte de PELICANO


Diretores de fundos ou banco devem ser responsáveis pela desgraça de Mariana? Não. Os da Vale ou da BHP? Não faz sentido. E as empresas Vale e BHP? Hum. Enfim, quem responde pela nomeação do comando da Samarco?

Suponha-se que a Samarco seja culpada. Que, em vez de multa ambiental boazinha, a empresa deva indenizar vidas, cidades etc. Caso não tenha fundos, Vale e BHP dirão o quê? Que estavam apenas de visita na Samarco, onde eventualmente pegam uns trocados?

Arte de ZOP


Em geral, seria em certos casos injusto e muita vez inviável, jurídica e economicamente, que responsabilidades legais e financeiras diretas não fossem limitadas a uma empresa de um grupo e ao capital investido na companhia (na "responsabilidade limitada" original, as perdas de um empreendedor em uma empresa limitam-se ao capital investido).

Em geral, ressalte-se.

Há responsabilidades que não são diretas; mesmo as leis sobre limites de responsabilização são reinterpretadas a depender de contextos e tamanho do estrago.

Arte de SPONHOLZ


A "responsabilidade limitada" é um privilégio conveniente (para a criação de novos negócios), mas embute um incentivo perverso, se considerada em sentido amplo. O "mero acionista" pode se esconder sob uma estrutura societária enrolada, sem rosto ou ônus. Para todos os fins que não sejam os bônus, pode dizer que o negócio do qual é dono é "independente". É um incentivo ao dane-se.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Dia D, de derrota

Por Vinicius Torres Freire.

Ilustrações via whatsapp

Dia D, de derrota
Foi um dia de derrota para Dilma Rousseff, como se sabe a respeito da quarta-feira desastrosa. Mais interessante será descobrir o que será feito desse momento especial de mixórdia de incompetências do governo.

A derrota no Tribunal de Contas da União seria um revés esperado em uma situação de normalidade na anormalidade que é o segundo mandato de Dilma Rousseff. Mas o governo se empenhou em perder de modo humilhante e com repercussões daninhas adicionais. Como se já não bastasse ser acusado de crime no uso de dinheiro público.



Recorde-se o passado remoto, nesses dias de Dilma Rousseff: a sexta-feira passada.

Em tese, parecia então que o governo conseguira adquirir tempo, sobrevida, dada a abdicação parcial de Dilma Rousseff, sob regência provisória de Lula e seu arranjo com o Congresso.

O governo contava até com a contribuição impremeditada da finança global. Desde a semana passada, dúzias de relatórios de economistas de bancões diziam que se abrira uma janela temporária de especulação.



Em resumo, no que interessa aqui, os porta-vozes dos donos do dinheiro grosso diziam que surgira oportunidade de compra de ativos de países emergentes, na xepa, na liquidação. Pode durar até novembro ou até o início do ano que vem, a depender do "analista". Pode estar tudo errado também. O que interessa é que sobreveio certa calmaria, que ajudava a baixar a febre financeira que ameaçava nos levar à breca em breve.

Pois bem, seguindo o padrão de tocar fogo no seu circo mambembe quando a situação parece mais tranquila, o governo convocou três ministros para ir à guerra contra o TCU, na tarde de domingo. Foi quando se divulgou a operação de embananar juridicamente a condenação das contas do governo Dilma 2014.



O governo atraiu a fúria do TCU e até de parte do PMDB. Levou a disputa ao Supremo, onde perdeu de modo vexatório. Viu sua ofensiva desconsiderada com comentários humilhantes no plenário do TCU.

Além do mais, ainda parece errado o cálculo político da reforma ministerial. Mesmo com o novo plano de aquisição de apoio parlamentar, foi derrotado outra vez no Congresso. Não tem bancada. Não conseguiu outra vez juntar parlamentares para apoiar os vetos de Dilma a gastos lunáticos aprovados no Congresso.



Aparentemente, o governo perde porque há rebeliões do baixo clero fora do PMDB, que quer cargos e rejeita a nova liderança governista do partido na Câmara. Porque há disputa entre Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Porque Cunha espirra no governo o lodo em que se debate.

Dadas as derrotas do governo de ontem, demonstrações de fraquezas e de renovada incompetência até na autopreservação, políticos especulavam ontem o que mais o governo vai ter de entregar a fim de não levarem sua cabeça.



De resto, más notícias sobre o Brasil se espalham, ou são reiteradas, pelo mundo, vide os comentários do FMI sobre a crise brasileira, Petrobras inclusive. Até o primeiro leilão de exploração de petróleo em dois anos foi um fiasco horroroso.

Quase todas as moedas emergentes se recuperam por estes dias. É maré alta. Vazou no Brasil. A baderna política é grande o bastante até para atropelar a alegria especulativa dos donos do dinheiro grosso do mundo.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O Brasil tateia na areia movediça

Por Vinícius Melo Torres.


Charges de AROEIRA

Nem Impeachment, nem CPMF

A votação das contas de Dilma Rousseff pelo Congresso deve se arrastar num pantanal de protelações, manobras e contestações jurídicas. Tampouco vai andar a votação da emenda da CPMF.

Era o que diziam na sexta-feira gentes relevantes do PMDB.

A rejeição das contas de 2014 da presidente seria um caminho para seu impedimento. Mas Renan Calheiros (PMDB), presidente do Senado, tende a segurar essa votação.



A rejeição do plano fiscal do governo seria motivo de mais tumulto financeiro. Mas o PMDB, não importa a facção, vai deixar a tramitação da CPMF para 2016. Tipo, nunca.

É possível, pois, que Dilma não seja levada ao cadafalso do impeachment até pelo menos o fim do recesso parlamentar, em fevereiro. É possível que a situação financeira do país apodreça na masmorra arruinada das contas do governo.

Assim parecia na sexta-feira. Mas a política é como nuvem radioativa: a gente olha, está de um jeito, intoxicando o governo; olha de novo, envenenou a oposição.



Nem mesmo a convulsão financeira aguda estaria garantida no caso de o Congresso negar ao governo o dinheiro necessário para tapar as vergonhas das contas de 2016.

Depois da reforma ministerial, dois gestores graúdos do dinheiro grosso diziam que:

1) Consideravam a hipótese de Dilma perdurar até o primeiro trimestre de 2016, refém do PMDB;

2) A piora de economia e finanças está "garantida" com ou sem CPMF, com inflação acima da meta em 2016, deficit fiscal grande e dólar ainda mais caro, com novo rebaixamento do crédito do país. Curiosamente, sem dar detalhes, não acreditam em explosão (caos financeiro, queda de ministro, choque, reviravolta da política econômica).



Bons financistas não dão esses detalhes importantes. Vendem.

Na semana que vem, a presidente deve ser acusada de ter cometido crime fiscal pelo Tribunal de Contas da União. Cabe aos parlamentares aceitar ou rejeitar isso que é apenas um parecer do TCU. A condenação parlamentar das contas de Dilma Rousseff é a esperança da oposição de fundamentar a abertura de um processo de impeachment.

No entanto, tucanos de cabeça-preta (deputados mais jovens) querem levar o caso adiante mesmo que contem só com o parecer condenatório do TCU, o que parece mambembe e incerto, portanto politicamente e juridicamente precário.



Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara, danado pela acusação das contas suíças, vê seu círculo diminuir, mas ainda pretendia seguir o calendário do impeachment, articulado com aecistas da cabeça preta: condenar as contas antes do fim de outubro, testar o impeachment em novembro.

Em tese, segundo a decisão "indicativa" de Luís Barroso, ministro do Supremo, o Congresso (Senado e Câmara em conjunto) aprecia as contas da presidente. Assim, a pauta seria decidida por Calheiros, que embolaria o meio de campo. De resto, mesmo essa decisão de Barroso suscita dúvidas.



No Planalto, o plano ainda é de, em última instância, barrar no STF quaisquer ofensivas da oposição, o que parece louco (Dilma ficaria presidente graças a mera liminar?), mas não é culpa do jornalista.

Enquanto isso, a Lava Jato prossegue e o povo segue esfolado pela recessão. 


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Bifes, conta de luz e lixão

Por Vinícius Torres Freire, na Folha em  09AGO2015




Bifes, conta de luz e lixão

É chover no enlameado dizer que nada prestável será feito da economia enquanto não sobrevier "alguma solução política", embora "alguma" solução política não seja garantia alguma de que algo que preste venha a ser feito na economia.

Isto posto, convém prestar atenção ao fato de que a vida real segue, além das especulações sobre qual arranjo mesquinho vingará na política ou sobre "ajuste estrutural" ou "neoestagnacionismo" na economia.

Arte de PAIXÃO


A vida real segue rápida para o brejo. Fazer política ou política econômica no atoleiro implicará remexer-se no lodo torvo. É lento e sujo.

Para quem ainda não se deu conta da urgência, considerem-se fatos simples:

Inflação. A inflação anual ainda será de 9,3% ao ano em dezembro, a julgar pelas previsões medianas mensais do "mercado". Em junho de 2016, estaria ainda em 6%, média da inflação de Dilma 1, a que levou o povo a chiar antes mesmo do Junho de 2013. 

Arte de CAZO


O preço médio de comida e bebida subiu 10,5% nos últimos 12 meses. O preço do bife aumentou 20%. O da luz, 58%. As pessoas vivem nesse mundo de bifes e contas de luz. Há ira, haverá mais.

Salário. Nas grandes metrópoles, o salário médio de junho de 2015 era menor que em 2012. Por falar nisso: mesmo com reajuste anual de salário pela inflação cheia, uma alta de preços no presente ritmo acaba comendo, ao longo do ano, uns 3,5% do rendimento.


Arte de SAMUCA

Sim, "ajuste econômico" significa, essencialmente, redução do valor real dos salários (não é que cause isso: é isso). Mas trata-se aqui de política: o povo fraudado, bestificado pelo estelionato eleitoral, e pagando o "couvert artístico" do show da bandalha corrupta, ainda por cima está sendo esfolado. Esse insulto múltiplo não pode durar muito.

Juro no lixo. O Brasil já está pagando taxas de juros de país da terceira divisão do crédito, "junk", de país do lixão. As taxas de juros de longo prazo começam a bater as asinhas naquele estilo das nossas velhas crises.

Arte de GENILDO


Fuga em dó maior. Desde maio, sai dinheiro aos montes pelo "canal financeiro" (uma das duas partes da conta de entradas e saídas de dólar do país. A outra é o canal de transações devidas ao comércio exterior). Foram US$ 5,5 bilhões em maio, US$ 7,6 bilhões em junho, US$ 8,4 bilhões em julho. Como os exportadores estão trazendo dólar, dado o preço bom, não estamos no vermelho. Mas a coisa cheira a queimado.

Juro real. O Banco Central insinua que deve deixar a taxa "básica" de juros em 14,25% até um pouco antes de meados de 2016. Isso significa que a taxa de juro real deve continuar a subir pois, em tese, a inflação esperada deve cair. Quer dizer, o arrocho monetário vai prosseguir até bem entrado 2016, a não ser que os rapazes do mercado comecem a derrubar antecipadamente as taxas na praça. Só que não.


Arte de PELICANO



Enquanto isso, no Congresso, mas não apenas, o oportunismo desce à mesquinharia mais sórdida, um motivo da degradação aguda e adicional das finanças nacionais, obra original de Dilma 1, a Ruinosa. As hordas parlamentares depredam o país, sob o comando de Eduardo Cunha, coadjuvadas pelo tucano-cunhismo – alguém deveria avisar a Aécio Neves que o filme dele queima rapidamente até na elite.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Malhando Dilma de Aleluia

Por Vinícius Torres Freire.
FOLHA SP em 25MAR2015

A malhação de Dilma
"QUE FASE." Quando o governo acerta uma no cravo, martela duas na ferradura e leva três na canela. Na segunda-feira, teve a satisfação triste e diminuta de saber que não levou ponto negativo em sua nota de crédito, dada por uma dessas agências de avaliação de risco de calote. Alegrias pobres duram pouco.

Ontem, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), disse a líderes empresariais da indústria que Dilma Rousseff vai comer o pão que ela própria amassou antes de ver o pacote de corte de gastos do governo aprovado no Congresso. Foi aplaudido.

Arte de NEWTON SILVA


Calheiros e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB) têm dito em público e a algumas lideranças empresariais maiores que não vão colocar fogo no circo, não vão derrubar o corte de gastos, o "ajuste fiscal". Mas a cada dois ou três dias demonstram também que vão triturar politicamente o governo. Ameaçaram, mas enfim recuaram, deixar correr projeto de lei que reajusta todos os benefícios do INSS pelo valor do salário mínimo. Querem fazer valer logo, regulamentar, a lei que reduz a dívida de Estados e municípios com a União, mais um talho nas receitas federais.

Ontem, Calheiros cantou alto a ária preferida de empresários e aliás de quase todo o mundo. Isto é, o governo tem de cortar "seus gastos", não aumentar impostos, como pretende fazer no caso da contribuição patronal para o INSS, medida que deixou o empresariado em geral fulo. Mas o governo vai cortar onde?

Arte de HEITOR


Reduzir o número de ministérios rende apenas um troco. Melhorar as contas do governo ora implica reduzir benefícios sociais, investimento "em obras" ou fechar partes do governo (isso: fechar).

No entanto, centrais sindicais e movimentos sociais malham e querem queimar o PT como Judas, para nem falar dos parlamentares que ameaçam debandar, todos por causa de cortes sociais. Para piorar, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, foi ontem a público negar que o governo vá maneirar no talho social a fim de agradar a Lula, ao PT, a agregados e a simpatizantes.

Arte de SPONHOLZ


Logo, vai sobrar ainda mais para os investimentos. A recessão deve, assim, piorar. Obras vão parar ou ficar sem pagamento, como já acontece, o que vai causar mais raiva entre empresas e trabalhadores. Em um ano, a construção civil já demitiu uns 8% de sua força de trabalho, quase 280 mil pessoas na rua.

Suponha-se que Calheiros e Cunha não queiram tocar fogo no circo econômico (sabem que reduzir o ministério não rende nada em termos fiscais). Pode ser então que estejam emparedando o governo, ganhando mais território, talvez até reduzir Dilma Rousseff a presidente do Vaticano ou de San Marino. Tendo ficado com mais poder ou, quem sabe, tendo empurrado a presidente no precipício, farão o que da massa falida, talvez caótica?

Arte de LUSCAR


Até cortar gasto a machadadas está difícil, pois há muita despesa protegida por lei, crescente, e a receita do governo não cresce. O decerto lunático Orçamento federal prevê um AUMENTO real de uns 9% na receita, mas no primeiro bimestre do ano a receita CAIU 3% em termos reais.

Enfim, esta é a malhação de Dilma com pauladas econômicas. Há CPIs, polícia, procuradores, Justiça. Ninguém ainda se arrisca a dar sentido a esta crise.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Os caminhões começam a parar o Brasil

Por Vinícius Torres Freire.
Publicado na FOLHA em 24FEV2015


Caminhões de crise
Caminhoneiros bloqueiam estradas pelo país desde sábado, quando eram poucos. Ontem, atrapalhavam o tráfego em pelo menos sete Estados. A situação era pior no Sul, no Paraná e em Santa Catarina. Algumas fábricas de alimentos pararam a produção. A BRF até soltou nota, em que dizia haver paralisações em 11 Estados. Em outros tempos, os caminhoneiros já quase pararam o país, que ora anda congestionado por muitos maus humores.

Arte de JEAN


Algum efeito grave do movimento caminhoneiro? Não. Mas convém prestar atenção. Há brotos de várias crises; a presidente espalha cascas de banana e pisa nelas com gosto ou distraída.

Há manifestações pelo "impeachment" de Dilma Rousseff marcadas para o domingo, 15 de março. No começo do ano, isso era coisa de birutas marginais. Agora, há mais birutas, mas não só, que além do mais contam com apoios do centro da política, senadores, tucanos, por exemplo. De resto, o mau humor em relação à presidente explodiu em diversas direções, sendo cada vez mais suprapartidário.

Arte de SON SALVADOR


Em breve, haverá mais notícias explosivas. A Procuradoria Geral da República vai divulgar o listão de políticos que passaram no vestibular do Petrolão. Ainda no que parece ser o distante final de março, a gente vai saber se os governos vão decretar racionamentos de eletricidade e água. Nesse ínterim, haverá mais gente a receber contas carésimas de luz, a ver o salário acabando mais cedo, mais desempregados.

Pode não dar em nada. Mas o ambiente está tenso. Considere-se a revolta dos servidores públicos do Paraná contra Beto Richa (PSDB), que, reeleito, começou a baixar um pacotaço de arrocho a fim de enfrentar a ruína do Estado, herança maldita que o tucano deixou para si mesmo. Há pequenas manifestações dispersas das dezenas de milhares de desempregados e trabalhadores sem pagamento das obras arruinadas pela crise da Petrobras. No dia 10, uns 200 deles, do Comperj, pararam a ponte Rio-Niterói.

Arte de NANI


Ontem, os protestos dos caminhoneiros não eram coisa grande. No ano tumultuado de 1999, de desvalorização caótica do real, arrocho e marchas contra FHC, as várias associações e sindicatos de caminhoneiros quase pararam o país entre julho e agosto. Era uma desordem, pois os caminhoneiros não têm liderança nacional, são muito divididos (note-se: muitos dos mais organizados apoiaram o tucano Aécio Neves na eleição do ano passado).

Em agosto de 1999 horrível de FHC, houve protestos de ruralistas, pois os fazendeiros queriam renegociações de dívidas, comuns pré-boom de commodities. No final daquele mês, houve a marcha dos 100 mil pelo "fora, FHC", liderada pelo PT e que contava com apoio de parte do PMDB. Em setembro, 56% dos brasileiros achavam que o governo de FHC eram ruim/péssimo (no caso de Dilma, são 44%).

Arte de JARBAS


Os caminhoneiros de agora querem frete maior, diesel e pedágios mais baratos, mudanças nas leis da jornada de trabalho, entre outras reivindicações picadas e diversas, pois não há direção central no movimento.

Muitos dos autônomos parecem desesperados. Empresas menores e autônomos também falam em devolver os montes de caminhões comprados com dinheiro do BNDES. Mesmo com juros baixos, não conseguem pagar as prestações.

Arte de GENILDO

sábado, 7 de março de 2009

Citi no McDonalds ...

charge de andrade


"A piada de ontem na blogosfera financeira americana dizia que o McDonald's vai colocar a ação do Citigroup em seu cardápio de US$ 1. A ação do banco chegou a cair ontem (05.03) abaixo de US$ 1. Em 2006, chegou a US$ 57.
Os papéis do Citi e até de bancos como o JPMorgan e o Wells Fargo foram para o ralo, aparentemente porque a notória Moody's relatou que também os bancões saudáveis terão mais perdas. A esperança é que, como a Moody's e suas irmãs classificadoras de risco não acertam uma, o sistema financeiro americano comece a melhorar agora. Sim, era só uma piada.
Piada nacional? Foi Lula dizer ontem que os trabalhadores não podem ser "punidos" com desemprego "nesta crise".
Os Ignorantinhos de são João de Deus devem ter orado pelo presidente. Se não houvesse desemprego, não haveria crise, certo? Crise significa desemprego. O que mais poderia ser chamado de crise?
Talvez a eleição de Fernando Collor, cortesia de Renan Calheiros, para cuidar da comissão do Senado que trata de infraestrutura e do PAC, a menina-dos-olhos-novos de Dilma Rousseff e de Lula.
Mas, não, está tudo bem. José Múcio, ministro de Lula, assegura-nos que Collor vai levar sua "experiência" à comissão. O escárnio desce de nível a cada dia, rolando com as Bolsas."


Assinante da Folha pode ler o texto na íntegra, aqui.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Tucanos e tucanos




Quebra-quebra da inteligência: viúvas tucanas
Há comentários mais cretinos do que de hábito sobre os planos de oferta de crédito do governo Lula. Viúvas do tucanato, em especial do tucanato financista, e bajuladores da opinião "de praxe" e de "bom tom" reagem de forma estereotipada a qualquer iniciativa que procure ao menos remendar o buraco de crédito na economia.
Sim, dado o histórico do Estado brasileiro, convém sempre desconfiar, mesmo confiando. Mas a reação estereotipada de comentaristas midiáticos está caindo além do seu baixo nível de tolice e macaquice conservadora. Nem ao menos estão tomando conhecimento das medidas: dizem que BNDES e Banco Central podem fazer "empréstimos ruins" e "conta pode cair no colo do contribuinte".
Bem, antes de mais nada, a conta JÁ ESTÁ caindo na conta do contribuinte, mas o que importa aqui é que OS BANCOS PRIVADOS é que serão os agentes de repasse do crédito posto à disposição por BNDES e BC. Vão fazer empréstimos ruins? Mas o setor privado não é o mais indicado para alocar a grana de modo eficiente e prudente?
Quanto aos bancos estatais comerciais, BB e CEF, sim, é bom ficar de olho: historicamente, o governo costuma fazer besteira e entupir tais bancos de créditos ruins. Mas fica uma dúvida: o Banco Central não está olhando para a qualidade dos créditos de BB e CEF?
O Banco Central, tão técnico e louvado pelos comentaristas de obviedades e clichês, não sabe supervisionar bancos? São técnicos para lidar com juros e chutam o balde a respeito de qualidade de crédito?

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Os cadáveres no jardim do tucanato


Por Vinícius Torres, em seu blog
"É ensurdecedor o silêncio do tucanato diante do processo de cassação do mandato do governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima", observou Elio Gaspari na sua coluna de domingo na Folha. Nem o defenderam nem comentaram a decisão da Justiça mesmo quando Cunha Lima anarquizou as finanças do Estado, escreveu Gaspari.
O silêncio tucano sobre seus passivos cresce. Talvez a dívida venha a ser cobrada na eleição de 2010. O tucanato continua a enterrar seus escândalos no jardim ("Aquele cadáver que você plantou no seu jardim, no ano passado, já começou a brotar? Vai dar flores este ano?", para enfiar T. S. Eliot no lamaçal. "Mantenha longe esse amigo do homem, o Cão, ou de novo ele vai desenterrar o corpo com suas unhas", escreveu o poeta anglo-americano).
O senador Eduardo Azeredo, tucano de Minas, entrou no círculo do inferno de Marcos Valério, um dos autores intelectuais do mensalão, roteiro adaptado e ampliado do caixa dois em Minas.
Teotônio Vilela governa as caóticas Alagoas, caos que vem de muito tempo, mas "Teo" é amigão do notório Renan Calheiros, que tem parte na muvuca.
Agora, tem as contas de Cunha Lima para justificar no cartório. E nada.
Para piorar, faz chacrinha contra o aumento de gastos do governo Lula mas aprova na maciota a despesa, no Congresso, muita vez em votos de líderes.
E ainda não sabemos de seu programa para 2010 (sim, programa não deve ser aquele papelório genérico que costuma aparecer dois meses antes da eleição, sendo por vezes desmentido entre a publicação e a votação, como o fizeram Geraldo Alckmin em 2006 e Lula em 2002).