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domingo, 30 de agosto de 2015

Odebrecht, seus princípios e seus valores

BRASIL NO EXTERIOR

Artigo Publicado no THE ECONOMIST em 22AGO2015. 
Transcrito na íntegra do ESTADÃO

Princípios e valores
Os dois lados da brasileira Odebrecht, uma gigante da construção civil atingida por acusações de corrupção

Marcelo Odebrecht é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro. A Odebrecht é, em muitos sentidos, um exemplo de empresa moderna, bem administrada e inovadora. O maior conglomerado do setor de construção civil da América Latina tem uma cultura interna extremamente sólida, que enfatiza o aperfeiçoamento constante dos funcionários, a meritocracia e a tomada de decisões descentralizada. A companhia foi pioneira no processo de internacionalização das empresas brasileiras e atualmente obtém metade de seu faturamento no exterior. Suas realizações já mereceram o aplauso de instituições globais. Em 2010, a escola de administração de empresas IMD, com sede em Lausanne, na Suíça, concedeu à Odebrecht o título de melhor empresa familiar do mundo. E no ano passado, a consultoria McKinsey publicou entrevista altamente elogiosa com o presidente de seu conselho de administração, Emílio Odebrecht. O título era: “Princípios e valores ajudaram este conglomerado familiar brasileiro a prosperar”.



A rasgação de seda — em particular o pedaço sobre “princípios e valores” — certamente é motivo de arrependimento, agora que a empresa se vê no olho do furacão do escândalo da Petrobrás. No domingo passado, pela terceira vez este ano, as ruas das principais cidades brasileiras foram tomadas por manifestantes: 800 mil pessoas protestaram contra a corrupção e exigiram a saída da presidente Dilma Rousseff. Os procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato alegam que, em troca de contratos superfaturados com a Petrobrás, uma “gangue”, formada pelas maiores empreiteiras do País, canalizou recursos para o PT e outros partidos da coalizão de sustentação do governo Dilma.

O esquema custou R$ 6 bilhões (US$ 1,7 bilhão) à Petrobrás, segundo cálculos dos auditores da estatal. Mas o impacto mais imediato recaiu sobre as empreiteiras. Duas delas já entraram na Justiça com pedidos de falência; e alguns de seus executivos estão presos, aguardando julgamento, incluindo Marcelo Odebrecht, filho de Emílio. O CEO da Odebrecht é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro.

Marcelo Odebrecht, o PresiMente Lulla e Alexandrino Alencar


E a pancadaria continua. No mês passado, a Procuradoria do Distrito Federal abriu outro inquérito, com o intuito de investigar se, depois de deixar a Presidência, em 2010, o antecessor de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva, teria feito lobby ilegal para ajudar a Odebrecht a abocanhar contratos suculentos no exterior. Em 14 de agosto, a polícia realizou buscas na sede da empreiteira em Recife, agora no âmbito de um inquérito que tenta apurar indícios de superfaturamento no contrato de construção da Arena Pernambuco, um dos estádios utilizados na Copa do Mundo de 2014. Em todos esses casos, Marcelo Odebrecht, sua empresa e os políticos envolvidos alegam inocência.

Mesmo havendo razões para que o conglomerado seja visto como exemplo de modernidade, não é de hoje que a Odebrecht é acusada de recorrer a expedientes antiquados e nem um pouco admiráveis com o intuito de vencer licitações públicas. 

Em 1994, a companhia foi incluída no grupo de empreiteiras indiciadas pela CPI dos Anões do Orçamento (na ocasião, a empresa também negou qualquer envolvimento em práticas criminosas). Dois anos antes, a Odebrecht já se envolvera em outro escândalo célebre. A empreiteira tinha sido uma das responsáveis por doações feitas a uma consultoria política centralmente envolvida no esquema de tráfico de influência que resultou no impeachment do então presidente Fernando Collor. Até hoje, nenhuma das acusações de corrupção contra a empresa foi provada na Justiça. De qualquer forma, as dificuldades atuais configuram o maior desafio da empreiteira em seus 71 anos de história.




Os Odebrecht constroem no Brasil desde 1856, ano em que um jovem engenheiro chamado Emil chegou a Blumenau, em Santa Catarina, integrando uma das levas de imigrantes alemães que vieram para o País no século 19. A empreiteira foi fundada na década de 40 pelo avô de Marcelo, Norberto Odebrecht. Desde o início, sua filosofia gerencial combinou a ética protestante de trabalho — incutida em Norberto por um pastor luterano que foi seu preceptor na infância — com as ideias de um dos gurus da administração de empresas, o americano Peter Drucker.

Mais recentemente, a Odebrecht se expandiu e passou a atuar em setores variados, da petroquímica ao reflorestamento. Tendo sobrevivido à crise cambial de 1999, a empresa se beneficiou da enxurrada de investimentos em infraestrutura realizados durante o governo Lula. A companhia também abocanhou muitos contratos em outros países ricos em recursos naturais — onde já desenvolvia atividades —, de Angola à Venezuela. 



Atualmente o grupo emprega 181 mil pessoas em 21 países. A Braskem, sua inovadora unidade de petroquímica (constituída em sociedade com a Petrobrás), tem ações na bolsa de valores de Nova York e ostenta orgulhosamente uma nota de crédito com grau de investimento, o mesmo rating que, a despeito do envolvimento no escândalo da Petrobrás, as agências de classificação de risco continuam atribuindo ao braço de construção civil do conglomerado, por conta de seu baixo nível de endividamento e de uma dívida líquida negativa de R$ 1,5 bilhão.

O sucesso da Odebrecht se deve, em parte, a uma sólida cultura interna. Os funcionários da companhia, que recebem internamente o nome de “integrantes”, devem estudar os cinco livros escritos por Norberto e são sabatinados quanto a seus ensinamentos. Nos cinco primeiros anos de um “integrante” na empresa, seu desempenho é avaliado sobretudo com base na assimilação da cultura corporativa. As metas, que constituem o outro elemento de avaliação, são estabelecidas conjuntamente por superiores e subordinados, que em seguida recebem grande liberdade para cumpri-las — e que, quando o fazem, são recompensados com generosas participações nos lucros. O resultado é um senso de lealdade quase religioso. Um grupo fechado no Facebook, chamado Odebrecht Unidos, conta com mais de 17 mil participantes, em sua maioria funcionários. A veneração à companhia não conhece limites: “Somos todos uma família, somos todos Odebrecht!”, postou um discípulo.



Essa devoção toda será suficiente para que a empresa supere seu momento mais difícil? Em países como Colômbia e Canadá, as autoridades resolveram passar um pente fino nos contratos da Odebrecht. Em meio à sucessão de escândalos, os bancos receiam conceder novos empréstimos. Em 12 de agosto, junto com Queiroz Galvão e Camargo Corrêa, a Odebrecht se retirou o consórcio Angramon, responsável pela construção da usina nuclear de Angra 3. O presidente licenciado da Eletronuclear, o almirante Othon Luiz Pereira, é acusado de receber propinas das empreiteiras do consórcio e está preso.

No entanto, preocupado em evitar a perda de postos de trabalho, o governo brasileiro garante que as empreiteiras envolvidas no escândalo da Petrobrás não serão impedidas de celebrar novos contratos com o setor público. No mês passado, mesmo sendo alvo de investigações, a subsidiária da Odebrecht que atua na prestação de serviços à exploração de petróleo, conseguiu obter um empréstimo de US$ 800 milhões junto a um consórcio de bancos internacionais.




Um ponto de interrogação paira sobre o que acontecerá com o comando da empresa. Marcelo Odebrecht, que tem 46 anos e é descrito por um antigo conhecido como um sujeito “excepcionalmente inteligente, movido por um pragmatismo quase robótico”, foi preparado desde a infância para exercer essa função. Se ele for condenado, será difícil substituí-lo. Além de seu pai, que já tem 70 anos, somente quatro outros membros familiares trabalham na companhia, nenhum deles em condição de assumir as rédeas do conglomerado.

Portanto, caso seja necessário escolher um novo CEO, o cargo pode ir parar nas mãos de alguém de fora da família, como o diretor sênior de assuntos fiduciários e governança, Newton de Souza, que já vem desempenhando interinamente as funções de Marcelo e está na empresa desde 1988. Tendo em vista a coesão em torno da qual se estrutura a companhia, a mudança talvez não faça tanta diferença assim.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Explicando a prisão de Odebrecht

Fonte Informativo Migalhas


O complexo caso da prisão de Marcelo Odebrecht
Um dos personagens centrais da operação Lava Jato, não há dúvida, é o bilionário empreiteiro Marcelo Bahia Odebrecht, preso desde o dia 19 de junho.

Recentemente, a 8ª turma do TRF da 4ª região considerou prejudicado o julgamento do mérito do habeas corpus, porque teria havido nova prisão. De fato, o desembargador Federal João Pedro Gebran Neto, relator dos processos da Lava Jato no âmbito daquela Corte, considerou que diante da nova ordem de prisão preventiva, baseada em fatos novos, caberia à defesa impetrar outro remédio heroico.

O caso não é simples, juridicamente falando. Vamos tentar esquadrinhá-lo.



Houve a prisão, e o respetivo HC. Este foi negado liminarmente no TRF. Houve recurso para o STJ. No mesmo dia em que o presidente do STJ, no recesso, iria decidir sobre a liminar, o juiz Sérgio Moro decreta nova prisão, segundo ele com “fatos novos”. O presidente do STJ, então, adia a decisão, e pede informações ao magistrado (coisa comum nesses casos).

Na pendência do julgamento da liminar no STJ (que no fim do recesso será agora apreciada pela 5ª turma do STJ), o TRF aprecia o mérito do HC e não conhece do pedido, porque, segundo o relator, não havia no remédio heroico argumentos que contestassem a nova prisão. Ou seja, os desembargadores Federais entendem que a defesa deve entrar com novo pedido, contestando a segunda prisão, a qual substituiu – nas próprias palavras de Moro – integralmente a primeira.

Falta agora o STJ decidir se concede a liminar a um HC que no mérito não foi nem sequer apreciado pelo TRF, ou se usa o mesmo argumento do TRF da 4ª região, e aguarda novo pedido.

Quem viver, verá.

Acompanhe a série de eventos:
Cronologia – Prisões de Marcelo Odebrecht
15/6
Sérgio Moro decreta prisão preventiva
19/6
Marcelo é preso na 14ª fase da Lava Jato
27/6
TRF da 4ª região nega liminar em HC (5023725-56.2015.4.04.0000)
20/7
Relatório da PF
21/7
Moro solicita à defesa de Marcelo que se manifeste sobre mensagens interceptadas pela PF
21/7
Defesa solicita prazo maior para manifestação
22/7
Defesa impetra HC (330.657) no STJ
23/7
Moro estende prazo para defesa até 27/7
24/7
Moro decreta nova prisão preventiva com base em novos argumentos
24/7
STJ solicita informações ao juiz Moro (HC 330.657)
24/7
MPF oferece denúncia contra Marcelo
27/7
Defesa responde dizendo que Moro faz “ouvidos de mercador”
28/7
Moro recebe denúncia do MPF
4/8
Moro presta informações ao STJ (HC 330.657)
5/8
8ª turma do TRF julga prejudicado mérito do HC (5023725-56.2015.4.04.0000)

  •  
    Processo: Ação penal na JF/PR - 5036528-23.2015.4.04.7000

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A saída para a Odebrecht é a delação

Por Helio Gurovitz

Charges de DÀLCIO


A saída para a Odebrecht é a delação
Quando a Operação Lava Jato começou, os investigadores logo descobriram que o doleiro Alberto Yousseff não fora usado pela empreiteira Odebrecht para distribuir recursos. O presidente da Odebrecht proclamava sua inocência. Graças a uma investigação em colaboração com o Ministério Público da Confederação suíça, a versão dele veio por terra. O relatório suíço a respeito das contas mantidas por empresas ligadas à empreiteira Odebrecht não deixa muita dúvida sobre o caminho do dinheiro delas até os acusados da Lava Jato.



De acordo com o relatório, dez empresas offshore alimentadas pela Odebrecht foram usadas para levar os recursos até empresas offshore dos ex-diretores da Petrobras Paulo Roberto Costa (Sagar Holding, Quinus e Sygnus), Renato Duque (Milzart Overseas), Jorge Zelada (Tudor Advisors) e Nestor Cerveró (Forbal) e do ex-gerente Pedro Barusco (Pexo e BlueSky). 

Em alguns casos, o dinheiro passava antes por uma outra empresa offshore, também ligada à Odebrecht, em Antígua e Barbuda, Áustria ou Panamá. Essas offshores, alimentadas pela Odebrecht ou por suas subsidiárias em Angola, Venezuela, República Dominicana ou na própria Suíça, se chamavam Smith & Nash, Havinsur, Golac Projects and Construction Corp, Sherkson International, Rodira Holdings (todas na Suíça), Klienfeld Services e Innovation (Antígua), Constructora Internacional del Sur (Panamá), e Arcadex (Áustria) e Arcadex Corp (Suíça). O sigilo bancário de todas as operações com essas empresas foi quebrado pelo juiz Sérgio Moro, a pedido do Ministério Público Federal.



Os valores e a trajetória dos recursos recebidos, segundo o relatório, estão detalhados em cada caso:

1) Paulo Roberto Costa
US$ 3,46 milhões (diretamente na Sagar)
US$ 890 mil (via Constructora del Sur)
US$ 550 mil (via Klienfeld)
US$ 4 milhões (via Innovation)
1,93 milhão de francos suíços (na Sagar)

2) Renato Duque 
US$ 565 mil (diretamente na Milzart)
US$ 800 mil (via Constructora del Sur)

3) Jorge Zelada
US$ 2,1 milhões (via Arcadex)
US$ 571 mil (via Klienfeld)
63,7 mil euros (via Arcadex)

4) Nestor Cerveró
US$ 194 mil (via Klienfeld)

5) Pedro Barusco
US$ 2,3 milhões (via Constructora del Sur)
US$ 1,57 milhão (via Klienfeld)
US$ 286 mil (via Innovation)



Os responsáveis por montar o esquema foram, ainda segundo o relatório, o diretor da Odebrecht Humberto Mascarenhas e o americano Barry Herman. As autoridades suíças afirmam que ainda não terminaram de investigar todas as contas ligadas à Odebrecht, e ainda pode haver novidades. Os delitos agora serão objeto de investigação não apenas no Brasil, mas também na Suíça, onde o menor prazo de prescrição para eles é o ano de 2022. As investigações serão realizadas em cooperação com as autoridades brasileiras.



A Odebrecht tem negado com veemência todas as acusações. Nesta semana, a versão da empresa é posta em xeque pela segunda vez – a primeira, pela revelação do conteúdo do iPhone de Marcelo Odebrecht. Mesmo que decida colaborar com as autoridades e fazer um acordo de delação premiada, ele ainda terá de enfrentar processos nos Estados Unidos e na Suíça.

Diante das novas revelações, seus advogados mantiveram a postura de contestar os métodos e motivações da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça. "A justiça que administra esse procedimento tem sido unilateral, tem sido parcial e dado à acusação mais força e mais possibilidades de agir", diz o advogado da Odebrecht Técio Lins e Silva. "Existem no MP materiais gravíssimos que só revelam que esse trabalho é fruto de suposição", afirmou outro advogado da Odebrecht, Guilherme Carnelôs, sobre as investigações. Para Marcos Veríssimo, também advogado de defesa da Odebrecht, "não há elementos suficientes para fazer uma denúncia estrutural" contra a companhia.



Por enquanto, eles ainda não se manifestaram concretamente sobre os elementos da investigação suíça. Dobro minha aposta de que mais uma delação vem aí. A mais importante de todas.

Propina paga pelo BNDES?

Arte de AROEIRA


Mais duas notas importantes de Diego Escosteguy:

- "As contas secretas da Odebrecht na Suíça eram abastecidas por três filiais da empresa: Venezuela, Angola, República Dominicana"

- "O que essas três filiais têm em comum? Dinheiro do BNDES para obras no exterior"

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Quando vão pegar Lula?

Por Reinaldo Azevedo, em sua página

... "Quando vão pegar a Odebrecht"?...
O nome das operações e fases de operação da Polícia Federal hão de merecer, algum dia, uma tese de doutorado em linguística. A que atinge agora a Odebrecht e a Andrade Gutierrez chama-se de “erga omnes” — literalmente, “para todos”.  Assim, a PF estaria mandado um recado e embutindo já um juízo de valor: “É para todos, também para as grandes”. Como expressão jurídica, é uma impropriedade. Os atos “erga omnes” têm outro caráter e se referem a decisões tomadas pela Justiça que têm alcance geral; não se referem ao fundamento de que ninguém deve estar acima da lei. Mas sigamos.
A pergunta que não queria calar, com ou sem fundamento, era esta: “Quando vão (o sujeito sempre indeterminado) pegar a Odebrecht?”. Pronto! Pegaram. 


Arte de SPONHOLZ

A Andrade Gutierrez, também uma gigante do setor, provocava menos clamor. E, nesse caso, há um dado meio silencioso que acompanhava a torcida: dá-se de barato que a Odebrecht é, de todas as empresas, aquela que está mais próxima de Lula. Em muitas cabeças, a pergunta “Quando vão pegar a Odebrecht?” quer dizer literalmente: “Quando vão pegar Lula?”.
Quando a PF chama a nova fase da operação de “erga omnes”, parece estar respondendo a esse clamor: “Bem, vocês nos perguntavam quando pegaríamos a gigante, certo? Pronto! Pegamos!”.
Li o que está disponível sobre as razões da prisão. Vamos ver. Há um e-mail de um executivo que fala em “sobrepreço”, que seguiu com cópia para Marcelo Odebrecht. A PF e a Justiça o exibem como evidência material do que é uma convicção. Afirma, por exemplo, o delegado Igor Romário de Paula:
“A forma de contratação criminosa era disseminada dentro da Odebrecht e parece impossível se cogitar que não era de conhecimento deles (do presidente e executivos presos). Há prova material de que tinham conhecimento de prática de sobrepreço nas contratações com a Petrobras e que também haveria a participação deles direta nas divisões de contratos a serem contratos dentro do cartel”.

Arte de OLIVEIRA

A “disseminação”, como se percebe, é uma convicção; o domínio que o presidente da Odebrecht teria é outra, daí o “parece impossível se cogitar” e o “haveria (atenção para o tempo do verbo) a participação direta”. Quando o caso chegar a uma instância decisória da Justiça, será preciso mais do que isso. Faço o alerta porque, depois, as coisas não acontecem de acordo com a expectativa do clamor, e aí se grita: “Impunidade!”.
Percebam que o tom do juiz Sergio Moro é o mesmo, até com o emprego da mesma expressão: “parece impossível”:
“Considerando a duração do esquema criminoso, pelo menos desde 2004, a dimensão bilionária dos contratos obtidos com os crimes junto à Petrobras e o valor milionário das propinas pagas aos dirigentes da Petrobras, parece inviável que ele fosse desconhecido dos Presidentes das duas empreiteiras, Marcelo Bahia Odebrecht e Otávio Marques de Azevedo”.
Ninguém será condenado com “parece impossível” nem com “parece possível”. Em direito, essas expressões querem dizer a mesma coisa.
Na sequência, o juiz faz uma afirmação temerária:
Mesmo ganhando a investigação notoriedade, com divulgação de notícias do possível envolvimento da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, bem como a instauração de inquéritos, não há registro de que os dirigentes das duas empreiteiras, incluindo os Presidentes, tenham tomado qualquer providência para apurar, em seu âmbito interno, o ocorrido, punindo eventuais subordinados que tivessem, sem conhecimento da presidência, se desviado. A falta de qualquer providência da espécie é indicativo do envolvimento da cúpula diretiva e que os desvios não decorreram de ação individual, mas da política da empresa.”
Bem, o fato de “não haver notícia” não quer dizer que não tenha acontecido. Mais: o que vai acima é um juízo moral, não indício de um crime a sustentar uma decretação de prisão preventiva.


Obrigação
A obrigação é dizer tudo, não fazer torcida. Se Marcelo Odebrecht e os demais empreiteiros cometeram os crimes de que são acusados, que paguem. Só estou apontando aqui algumas evidências de fragilidade e deixando claro que não basta o “só pode ser” para condenar alguém. Cada um leia como quiser. Meu papel é fazer análise, não me comportar como líder de facção. A advertência é importante porque, depois, a coisa morre no meio do caminho, e logo começam as teorias conspiratórias.
Sim, numa democracia, a lei é para todos. Mas cabe a quem acusa apresentar as provas, não suas convicções e juízos de valor. Isso, sim, vale “para todos”, mesmo para as pessoas cuja culpa consideramos certa.
Bem, vamos ver o andamento das coisas. A primeira pergunta já tem resposta: “Quando vão pegar a Odebrecht?”. Pegaram. No dia 19 de junho de 2015. A outra pergunta segue sem resposta: “Quando vão pegar Lula?”.

WhatsApp do dia!

Marcelo........   Odebrecht!!

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A agonia de um segredo

Por Fernando Gabeira, para o ESTADÃO.

agonia de um segredo
Quando surgiu, achei grave e um pouco subestimado o veto de Dilma ao projeto de transparência nos negócios do BNDES. Ela entrou em conflito com o Congresso. Dias depois, o próprio Supremo autorizou o Tribunal de Contas a ter acesso aos empréstimos à Friboi, empresa que financia generosamente as campanhas do PT.

Em qualquer país onde o governo entre em choque com o Congresso e o Supremo o tema é visto como uma crise institucional. Como se não bastasse, Dilma entrou numa terceira contradição, desta vez consigo mesma: partiu dela a lei que libera o acesso aos dados públicos.

Arte de JLIMA



O ministro Luiz Fux (STF) sintetizou seu voto numa entrevista: num banco que move dinheiro público, o segredo não é a arma do negócio.

O PT tem razão para temer a transparência. Súbitos jatos de luz, como a denúncia do mensalão e, agora, do petrolão, abalaram seus alicerces. No caso do BNDES, não se trata da possibilidade de escândalos. É uma oportunidade para conhecer melhor a história recente.

Arte de CAPISTRANO GOMES


Empresas amigas como a Friboi e a Odebrecht, governos amigos como os de Cuba e Venezuela, foram contemplados. Em ambos, a transparência vai revelar o viés ideológico dessa orientação. Um porto em Cuba, um metrô em Caracas são apenas duas escolhas entre mil possibilidades de usar o dinheiro. Para discutir melhor é preciso conhecer os detalhes. Na campanha Dilma mentiu sobre eles, ocultando o papel de fiador do Brasil.

O que sabemos da Friboi? Os dados indicam que destinou R$ 250 milhões a campanhas do PT. Teremos direito de perguntar sobre os detalhes do empréstimo do BNDES e até desconfiar de seus elos com campanhas eleitorais.



A análise da política do governo deverá estender-se à sua fracassada tentativa de criar empresas campeãs. Quem foram e quem são os parceiros, que tipo de transação? Como dizia Cazuza, mostre sua cara, qual é o seu negócio, o nome do seu sócio.

No momento do veto prevaleceu uma certa Dilma. Mas a outra Dilma, a que mandou a lei de acesso, é que estava no rumo certo da História. Não só porque a transparência é um desejo da sociedade, mas porque a tecnologia estreita o espaço do segredo.

Os debates nos EUA concentram-se hoje numa restrição à vigilância de indivíduos, sem licença judicial. Mas chegam a essa discussão graças a Edward Snowden, que revelou os próprios segredos do governo.

Arte de SPONHOLZ


Ironicamente, Dilma foi espionada pelos EUA e decreta o sigilo nos dados de um banco que movimenta recursos públicos. Sou solidário com ela no primeiro episódio. Evidente que seria atropelada no segundo. Esta semana começou a ensaiar a retirada, via Ministério do Comércio, que vai disponibilizar dados das transações internacionais e algumas nacionais.

O PT deveria meditar sobre o segredo. Ele foi detonado pela quebra do segredo entre quatro paredes, no mensalão. Agora, no caso da Petrobrás, entraram em cena novos mecanismos de investigação, melhor tratamento dos dados.

Arte de SINFRONIO


Nos primeiros meses de governo, já tinha uma visão do PT. Nem todos a compartilhavam, pois o partido venceu três eleições depois de 2002. Aos poucos, os momentos de transparência sobre os escândalos foram criando uma percepção nacional sobre o tipo de governo que se implantou no Brasil.

Não há dúvidas de que os segredos do BNDES serão revelados. Sociedade, Congresso e Supremo caminham numa mesma direção. E o próprio governo começa a abri-los.

É um elo para a compreensão do papel do PT. Embora ainda não tenha os dados completos, já posso afirmar que o BNDES financiou pobres e ricos. Mas ambos, os pobres de socialismo, como os ricos aqui, do Brasil, são escolhidos entre os amigos do governo. De um modo geral, o processo foi de financiar amigos ricos para que construam para os amigos pobres.

Arte de AROEIRA


Tanto a Friboi como a Odebrecht fazem parte dessa constelação política econômica que dominou o fluxo dos investimentos do BNDES. Isso teve repercussão nas campanhas eleitorais. De um lado, o Bolsa Família assegurava a simpatia dos eleitores: de outro, a bolsa dos ricos contribuía para as campanhas do tipo vivemos num paraíso. Contribuía, porque hoje sabemos que outras fontes menos sutis, como o assalto à Petrobrás, injetavam fortunas no esquema.

Falou-se muito no petrolão como o maior escândalo da História, mobilizando pelo menos R$ 6 bilhões. Quando todos os segredos, inclusive os do fundo de pensão, forem revelados, não importa a cifra astronômica que surgir daí: o grupo brasileiro no poder é o mais voraz em atuação no planeta. Não posso imaginar salvação depois da conquista desse título.

Arte de SPONHOLZ


O PT e aliados podem continuar negando, na esperança de que o tempo amenize tudo. É uma tática de avestruz. Será que não se dão conta de que apenas um décimo da população os aprova hoje? O que será do amanhã, quando quase todos saberão quase tudo sobre o que fizeram com o País?

Nesta paisagem de terra arrasada, a economia é apenas uma das variáveis. O processo político degradou-se, os valores foram embrulhados por uma linguagem cínica, a credibilidade desapareceu já há tempo. O Brasil pode até conviver com esse governo, que tem mandato de quatro anos. Mas não creio que mude de opinião sobre ele, alternando momentos de um desprezo silencioso com as manifestações de hostilidade.


Arte de MARCO AURELIO


Um governo nasce morto e a lei nos determina um velório de quatro anos. Muito longos, até os velórios costumam ser animados. E algo que anima este velório é a revelação dos últimos segredos, como o sigilo do BNDES e tantas outras linhas de suspeita que foram indicadas nas investigações da Petrobrás. E daqui por diante nem o futebol será uma distração completa. A cúpula da Fifa transitou de um hotel cinco-estrelas para uma cela de prisão. Imprevisíveis roteiros individuais rondam os donos do poder. E essa história ainda será escrita com todas as letras.