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sábado, 17 de setembro de 2016

Respondendo a Lulla

Pelo juiz Eduardo Perez Oliveira, do Tribunal de Justiça de Goiás

Recebido pelo whatsapp

Servidores públicos não são ladrões
Para meu espanto, hoje me deparei com uma frase supostamente dita pelo Sr. Luis Inácio Lula da Silva, a saber:

“O político, por mais ladrão que seja, todo ano tem que enfrentar o povo, sair na rua e pedir voto. O funcionário público não. Ele faz concurso e fica lá, com o cargo garantido, tranquilo”




Eu fiquei em dúvida se era verdade, já que tem tanta mentira por aí sendo espalhada. Chegaram a inventar, vejam só, que os procuradores tinham dito não possuir provas contra o Sr. Luis Inácio, somente convicção, o que é uma tremenda inverdade. Não se pode mesmo acreditar em tudo na internet.

Verdade ou mentira, fiquei aqui pensando se essa frase faz sentido.

Eu estou Juiz de Direito, aprovado em concurso público, também em outros cargos antes de lograr esta graça. Como a memória da gente é falha, eu me esforcei para lembrar como foi o processo.



Conferi, cuidadosamente, se eu não tinha sido financiado por alguma empreiteira. Também verifiquei se eu não tinha obtido meu cargo desviando dinheiro de alguma empresa pública, fazendo aí um caixa 2 para me apoiar. Pode ser a idade, mas não me veio à memória disso ter acontecido.

O que me recordo é do esforço dos meus avós, dos meus pais e dos meus familiares, mas muito esforço mesmo, para garantir educação, sem luxos. Também não me é familiar ter participado de esquemas ou ajustes partidários. Não dava tempo, saindo de casa para trabalhar às sete da manhã e voltando às nove, dez horas da noite, só com o horário do almoço para abrir os livros e enfrentar o escárnio.



Eu lembro de ter estudado muito, da frustração em razão do pouco tempo, das dúvidas se algum dia eu chegaria lá. Eu me recordo bem do dia da minha prova oral, num estado onde não conhecia ninguém, tremendo diante dos examinadores de uma banca absolutamente imparcial presidida pelo Desembargador Leandro Crispim.

Quem sabe estaria mais calmo se eu tivesse feito coligação, se uma mão lavasse a outra, se algum ajuste, talvez aquele esquema... Mas não daria certo. Veja você que eu estava prestando um concurso público e até a fase oral eu não tinha rosto, e a banca (que injustiça!) também era formada quase que absolutamente por gente concursada, magistrados aprovados em um concurso semelhante.

Arte de AMARILDO


Não iria adiantar caixa 2, apoio parlamentar, conversa de bastidor. Eu estava ali para ser examinado imparcialmente pelos meus conhecimentos. Era só Deus e eu.

Vai ver, pensei, que meu caso é um daqueles fora da curva, uma das tais histórias malucas. Quem sabe a regra não fosse a interferência política e econômica nos concursos?

Conversei com vários colegas juízes e, fato estranho, todos confirmaram que não fizeram caixa dois, nem coligação, nem tiveram conversas de bastidores. Estudaram, com muito esforço, alguns com privação, e foram aprovados em um concurso impessoal e imparcial.






Para não dizer que é coisa de juiz, essa tal elite, falei com meus amigos procuradores, promotores, escreventes, oficiais de justiça, policiais civis e militares, delegados, professores, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e tantos outros aprovados em concurso público de provas e títulos.

Todos deram a mesma resposta: lograram êxito após muito estudo, de forma limpa e transparente.

"Mas nenhuma empreiterazinha?", insisti. "Quem sabe alguma verba de emporesa pública?". Não. Foi estudo mesmo.

O mais curioso é que todos tiveram que apresentar certidão de antecedentes criminais, logo, nenhum podia ser ladrão. Nem ladrão, nem outra coisa. Algumas carreiras fazem sindicância de vida pregressa. Ai do candidato que não possui um passado ético, com certeza não entraria pela estreita porta do concurso público.

Arte de JORGE BRAGA


Aproveitei e, ainda meditando sobre a frase, me peguei pensando se todo ano, ou melhor, a cada quatro anos (alguns, oito), eu precisava enfrentar o povo.

Realmente, se o Sr. Luis Inácio disse isso, ele está certo. Eu não enfrento o povo anualmente. Aliás, eu não enfrento o povo. Não tenho medo da minha gente, nem litígio com ela. Eu sou povo também. Pode parecer surpresa, mas concursado faz parte da nação.

Eu não enfrento, eu atendo. Eu recebo preso. Eu recebo mãe de preso, pai, vó, filhos, esposa de preso. Recebo conselheiro tutelar. Recebo advogado. Recebo as partes também. Ouço a vítima do crime, ou, em situações mais tristes, os que sobreviveram a ela. Eu vejo o agrícola que vai pedir para aposentar. Vejo o cidadão que não tem medicamento, da mãe que busca escola pro filho, o neto que busca uma vaga de UTI pro avô.

Arte de SPONHOLZ


Eu cansei de ver o piso do fórum gasto de passar tanto calçado, de chinelo usado a sapato caro, de gente que vê no Judiciário seu único porto seguro. Gente que não conseguiu vaga em escola, em creche. Que não conseguiu remédio. Que se acidentou na estrada esburacada. Que trabalhou nesse calor inclemente do Centro-Oeste por quarenta anos ou mais, com a pele curtida de sol, e quando foi pedir aposentadoria disseram a ele que não tinha prova. Não sou quiromante, mas eu aprendi a ler a mão e o rosto desse povo. Aprendi a falar a língua deles, não porque eles vão votar em mim, mas porque é minha obrigação para aplicar a lei.

Essa mesma gente que os políticos enfrentam (enfrentam, vejam vocês!), segundo a tal frase, eu atendo todo dia. É meu dever, e com que prazer eu realizo esse dever!

Eu atendo essa gente que vem acreditando há décadas nesses políticos que, como um fenômeno natural, aparecem apenas de forma episódica e em determinadas épocas. Um povo que acreditou que teria saúde, educação, segurança, lazer, trabalho, aposentadoria, dignidade e tantos direitos básicos só por ser gente, mas não tem.


Arte de MIGUEL

Esse mesmo povo que vota, que deposita na urna sua esperança, a recolhe depois despedaçada, cola o que dá e procura o promotor ou o defensor público, servidores concursados, quando não um nobre advogado dativo ou pro bono, para pedir ao juiz esse direito sonegado. São os concursados que garantem esse direito.

São os juízes que aplicam a lei criada pelos políticos eleitos para o Legislativo, e nessas horas em que a lei é dura e talvez não tão justa, quando devemos fazer valer o seu império, só nos resta ouvir e consolar.

Juízes, é preciso dizer, não são máquinas, porque nessas engrenagens desprovidas de coração que formam o sistema, é a nossa alma que colocamos entre os dentes do engenho para aplacar seu cruel atrito.



E quando estamos sozinhos, nós sofremos, nós choramos, porque lidamos também com a desgraça do povo, do nosso povo, do povo do qual fazemos parte e que não enfrentamos, mas atendemos.

Perguntei aos meus amigos promotores, defensores, escreventes, analistas, oficiais de justiça, professores, policiais, guardas civis metropolitanos, agentes carcerários, bombeiros, militares, médicos, agentes de saúde, enfermeiros e tantos outros, se eles por acaso enfrentavam o povo, mas me disseram que esse povo eles faziam era atender.

É também a alma deles que lubrifica essa máquina atroz que é o sistema.

É à custa da alma do concursado que o Estado se humaniza. Que o digam nossas famílias, nossos amigos... que digamos nós, quando abrimos mão de tanta coisa para cumprir nossa missão, quando para socorrer um estranho muitas vezes alguém próximo a nós precisa esperar.

Aumentem o som


Forçoso que se concorde, nós não enfrentamos o povo a cada dois, quatro anos. Nós o atendemos dia e noite, nós olhamos seu rosto, tentamos aplacar sua angústia em um país em que tudo falta, quando um médico e sua equipe não tem nem gaze no hospital público.

E fazemos isso porque amamos nossa profissão, seja ela qual for, não porque precisamos de votos. Nós chegamos onde chegamos com dedicação, não com esquemas, e sem lesar o patrimônio público ou a fé da nação.

São servidores públicos concursados que estão descobrindo as fraudes que corroem nosso Brasil, do menor município à capital do país, e serão servidores públicos concursados a julgar tais abusos. São servidores públicos concursados que patrulham nossas ruas, que atendem em nossos hospitais, que ensinam nossas crianças.



Nós não precisamos prometer nada para o povo, nós agimos.

Realmente, é preciso temer pessoas que possuem um compromisso com a ética, não com valores espúrios.

#servidorespublicosnaosaoladroes

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Zapzapeando

Por Tatiane Alcântara.
Crônica

O verbo zapzapear
Hoje tive a dimensão do fenômeno que é o WhatsApp. Antes que alguém pergunte, eu continuo sem ter, talvez um dia quem sabe. Ainda não senti vontade de aderir a essa nova tecnologia. 

Fiquei uma hora e meia no engarrafamento, e meus ouvidos já não aguentavam mais ouvir tantos assobios, não, eu não estava sendo paquerada, infelizmente. Eram os passageiros conectados em seus WhatsApps. Todos pareciam usar cabresto, ou tapa, não sei exatamente como se chama, mas é aquele instrumento colocado nos cavalos para limitar sua visão. Enfim, cada um no seu mundinho zapzapeando. 

Passei então a admirar o tempo, totalmente fechado com nuvens carregadas, o céu estava cinza, me senti por um momento como se estive morando em São Paulo novamente, por um instante, senti saudades do tempo frio e cinzento. Foi quando observei os carros parados no engarrafamento e tive a audácia de contar: 12 motoristas dirigindo com uma mão só, a outra estava segurando o Smartphone. De repente ouço uma buzina bem forte e um som de freio, quase uma batida. O motorista de trás dispara: - tá maluco cara? O da frente não dá à mínima e faz um gesto com a mão para fora do carro. Ganha um doce quem adivinhar o que o motorista da frente estava fazendo: estava com a mão e os olhos vidrados no Smartphone.



Cheguei ao meu destino, como sempre eu ando muito rápido, mesmo estando em um Shopping Center, vou direto ao que me interessa, não tenho paciência para vitrines. Entrei numa loja para pedir informação sobre um produto, perguntei, recebi a resposta e até agora não sei como era a cara da pessoa que me atendeu, pois ela sequer olhou para mim, afinal, estava ocupada com seu Smartphone. Levei 3 trombadas, sendo que a última quase resultou em uma queda. Ganha outro doce quem adivinhar o motivo das trombadas: as outras pessoas estavam andando com os olhos grudados nos seus smartphones. Passei então a andar por mim e pelos outros, pois não estava mais disposta passar vexame. Senti-me um piloto de fórmula um, pois eu desviava de praticamente todas as pessoas. Foi então que me dei conta de que elas estavam zapzapeando. Isso ficou martelando em minha cabeça: como seria a conjugação do novo verbo da língua portuguesa zapezapear? Eis a minha sugestão. 


Eu zapozapo
Tu zapazapas
Ele zapazapa
Nós Zapezapeamos
Vós Zapezapeais
Eles zapezapam


quinta-feira, 28 de abril de 2016

Tostão e a nova tecnologia de comunicação

Por Tostão.
Crônica
Saudade e saudosismo
Nesta semana, me disseram que existe na internet algo parecido com “você pergunta, Tostão responde”. Quem me conhece tem certeza de que não sou eu. Espero que as respostas sejam mais interessantes que as que eu daria.

Escrevo apenas para jornais impressos. Não tenho blog, Twitter, Facebook, Instagram, Whatsapp. Nem sequer tenho smartphone.



Uso celular apenas para fazer e receber ligações. Ainda uso caneta, agenda de papel, leio livros com prazer, falo ao telefone ao invés de enviar mensagens escritas, vou à banca para comprar jornais, converso pessoalmente ou por telefone com a gerente para resolver minhas necessidades bancárias e muitas outras coisas que, progressivamente, se tornam obsoletas. Estou perdido no tempo.

Não pense que acho charmoso e que tenho orgulho disso. Com frequência, recebo mensagens para trocar meu celular. Qualquer dia, vão dizer para jogá-lo no lixo e que, se eu não jogar, serei expulso do mundo. A pressão é cada dia maior.

Não associe essa minha resistência ao saudosismo. Sou fascinado pela ciência e pelo conhecimento. Mantenho uma distância, mas admiro esse novo mundo. A internet é um dos fatos mais marcantes e revolucionários da história da civilização humana.

Atualizo-me sobre tudo o que acontece, no futebol, no país e no mundo, pelos noticiários da TV, que filtram todas as informações úteis e inúteis que surgem na internet. Além disso, vejo, diariamente, partidas de futebol, na íntegra, do Brasil e de todo o mundo. Tiro minhas conclusões. Conhecimento não é apenas informação. É também observação.

Não sou saudosista, modernista nem futurista. Não há solução sem conhecimento, mas não me iludo que a ciência explique tudo e que tudo o que acontece em um jogo de futebol é decorrente de estratégias. A vida e o futebol se passam também nas entrelinhas, nos acasos, no não dito e no imponderável.

Os saudosistas falam que o futebol brasileiro precisa voltar à sua essência, como nos anos 1960. O futebol e o mundo mudaram. Temos de aprender com o passado, porém, sem repeti-lo. É preciso separar a nostalgia, a saudade, um delicioso sentimento sem o qual não sobrevivemos, do saudosismo de achar que, “no meu tempo”, tudo era melhor. O tempo passa ou somos nós que passamos?

Por outro lado, existem os modernistas, que não são, necessariamente, pessoas jovens, que se referem ao passado com o enorme distanciamento, às vezes, desprezo, do tipo: “isso é coisa de outra época”, como se houvesse uma completa ruptura e um Fla x Flu entre os saudosistas e os modernistas.

Não há nenhum momento em que aconteça essa divisão. O presente é continuação do passado.

Por causa da globalização, do grande número de jogadores de países diferentes espalhados pelo mundo, há pouca variação de estilo, de estratégia, a não ser as particularidades de cada clube, de cada país e de cada continente.

A técnica, individual e coletiva, a lucidez para tomar decisões, o planejamento, a estratégia e as condições físicas e emocionais passaram a ser mais decisivas que a habilidade e a improvisação, características do futebol brasileiro dos anos 1960. É preciso recuperar a fantasia, a imaginação e o talento individual, porém, com disciplina e organização tática.