Por André Carvalho (*)
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Aleluia, Irmão
Em nome de Jesus acabo de fazer o mais importante investimento da minha vida. Comprei por quarenta e dois reais, pagos à vista e em espécie, dois metros de veludo azul e um metro e meio de cordão dourado. Com eles mandarei costurar duas elegantes sacolas para arrecadar as doações na igreja que logo, logo, fundarei.
Toda igreja que pensa em se perpetuar começa pelo saquinho de coleta. Um próximo ao palco, que tomou o lugar do altar, e outro circulando pela plateia. Tenho a ligeira impressão que nasci para ser pastor e, dependendo do andamento do negócio, bispo. Não é muito difícil essa ascensão ao posto maior da hierarquia porque depende somente de autocrítica. Se for bem nos negócios emito um ato secreto e me entronizo no poder: Bispo!!!
Minha igreja chamar-se-á Igreja Universal da Graça Negociada e a sede ainda está sendo arranjada com um empresário aqui do bairro. Falta o reforço no telhado do galpão para ele não desabar, sobre nossas cabeças, com o brado de aleluia dos fieis. Tem um monte de telhado desabando Brasil afora, e, quando isso ocorre, o negócio vai pro espaço.
Prometo muitas novidades. Por exemplo: se a igreja crescer e for de vento em popa, contratarei o Chulé, que é muito carismático e bom de lábia. Chulé é pastor numa igreja rival, aqui perto, mas reclama sempre do percentual que lhe é repassado pelo chefe.
Igreja que se preza tem slogan e a minha não ficará para trás neste quesito. Vai ter slogan também: “Bendito é o reino do vosso fruto”. Mais adequado que esse, impossível.
Modernizarei o “esquemão”. Nada de velho e novo testamento, não, não! Esse negócio demora muito. Prefiro certidão passada em cartório, cheque pré-datado e DUT assinado com firma reconhecida. Vinicius de Morais falava, não sei a troco de quê, em “certidão passada em cartório do céu e assinada embaixo Deus, e com firma reconhecida”.
Pois é, penso em diversificar o negócio abrindo um cartório do céu no fundo do templo. Em nome de Jesus, com assinatura majestosa e caligrafia rebuscada, como gostam as beatas, que, espero, sejam muitas, farei inveja aos “macedos”. Macedos não, mancebos.
Aviso logo que a concorrência será pesada. Só uma dica: sabe a tal da Fogueira Santa de Israel, onde o fiel coloca uma grana e um pedido dentro do envelope e o bispo, depois de depositar a grana no banco, leva o pedido para Israel, para deixar mais próximo de Jesus? Pois é, na Universal da Graça Negociada será diferente.. Teremos a “Queimada Santa do Monte”. Sabe por quê? Jesus está lá em cima, no céu, e pelo que anda acontecendo aqui na terra, creio que jamais voltará, nem para dar uma voltinha em Israel.
Portanto é bobagem levar pedido para lá. Levarei a fé dos meus crentes para o alto, em três níveis. Quem doar mais, terá seu pedido depositado no Monte Everest, no Himalaia, a mais de oito mil metros, bem pertinho de Jesus.
Dádivas intermediárias corresponderão a pedidos derramados no Aconcágua a mais ou menos sete mil metros de altitude, e para os mais descrentes o Pico da Neblina, aqui mesmo, no Estado do Amazonas.
Revolucionário e justo! Como recibo da fé, uma caixinha de ar puro coletado no pico correspondente. Depois de algum tempo no mercado fecharei convênios com outras igrejas e criarei um fundo de participação, já pensando na implantação de outro sindicato de classe.
Penso inclusive num acordo de exclusividade com a Rede Globo. Quero ser presidente do sindicato, e esse será meu primeiro passo para a presidência da república. Aleluia, irmão!!!
(*) André Carvalho não é jornalista, é "apenas" um cidadão que observa as coisas do dia-a-dia. Um free lancer. Ou segundo sua própria definição: um escrevinhador. Seus sempre saborosos textos circulam pela web via e-mails.
