quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Coisas lá do meu sertão

Peguei lá no Besta Fubana.

Fui rever o lugar que fui nascido
Senti tanta saudade que chorei.

[Carlos Ayres]

Foto - Antonio Ferreira


Em um dia qualquer me deu vontade
De rever o meu velho Pé-de-Serra
O meu lar, o meu berço, a minha terra,
Por quem guardo carinho e amizade,
Hoje vivo morando na cidade,
Bem distante de onde eu me criei
Em nostálgico momento ali voltei
Só pra ver o que tinha acontecido
Fui rever o lugar que fui nascido
Senti tanta saudade que chorei.

Não existe mais o curral do gado
Com o tempo foi tudo destruído
Pois só resta um cocho envelhecido
Demonstrando o que era no passado,
Quase em prantos fiquei ali sentado,
A lembrar-me das vacas que ordenhei, 
Dos momentos felizes que passei
Recordei e fiquei estarrecido,
Fui rever o lugar que fui nascido
Senti tanta saudade que chorei.

Ainda existe o velho umbuzeiro
O da horta, assim era chamado,
A umburana ficava do seu lado
Bem pertinho entre ele e o barreiro
E na sombra daquele juazeiro,
Do sol quente ainda me abriguei
Langoroso e tristonho meditei
Relembrando o bom tempo ali vivido,
Fui rever o lugar que fui nascido
Senti tanta saudade que chorei.

Não tem mais o poleiro das galinhas
O chiqueiro dos porcos foi extinto,
O banheiro não está mais no recinto,
Deram fim a porteira da cozinha
Não consigo lembrar tudo que tinha
Tantas coisas da mente eu apaguei,
Ante as cenas que ali presenciei
Se eu soubesse por lá nem tinha ido,
Fui rever o lugar que fui nascido
Senti tanta saudade que chorei.

Lembro as cargas de palma que eu cortava
E as tiradas de espinhos de “cardeiro”,
Derrubadas de galhos de facheiro
E as coivaras aonde eu os tostava,
E depois para o gado espalhava,
Tantas vezes eu quase me queimei;
E o capim que na várzea eu apanhei,
Para o gado faminto e emagrecido,
Fui rever o lugar que fui nascido
Senti tanta saudade que chorei.

Mesmo a casa de alpendre em q’eu morava
Quase nem dá pra ver aonde era
No lugar só existe uma tapera
Nada mais do que tinha ali restava
Velhas árvores sombrias q’eu brincava
Derrubaram não mais as encontrei,
O barreiro que tanto eu zelei,
Hoje está desprezado e entupido
Fui rever o lugar que fui nascido
Senti tanta saudade que chorei.

Não ouvi mais o canto da cigarra
Nem o grito feliz da seriema,
Nem os ninhos nos galhos de jurema
Que os “ferreiros” faziam sua farra,
Era grande demais a algazarra,
Tantas vezes com eles me irritei
Até pedra em seus ninhos atirei,
Mas confesso que estou arrependido,
Fui rever o lugar que fui nascido
Senti tanta saudade que chorei.

Não tem mais a porteira da estrada
E o caminho que ia pra Riacho.
Nem o outro que ia lá pra Baixo
Acabou, no presente não tem nada,
A casinha que eu fiz tá desprezada
Nem parece que ali eu habitei,
E os cuidados que a ela eu dispensei
No outrora,relembro combalido,
Fui rever o lugar que fui nascido
Senti tanta saudade que chorei.

Não tem mais a pedrinha de amolar
Nem o trilho que se batia enxada,
A braúna já velha e desfolhada
Ainda marca presença no lugar,
O angico, também pude abraçar,
A quixaba, não mais a encontrei,
O roçado que antes cultivei,
Pelo tempo também foi consumido,
Fui rever o lugar que fui nascido
Senti tanta saudade que chorei.

E assim terminei minha viagem
Dessa volta que dei ao passado.
No papel deixei tudo registrado
A história em forma de mensagem,
Só me resta guardar a paisagem
Na memória, e eu nunca esquecerei;
E o cenário que ali presenciei,
Me deixou cabisbaixo e deprimido,
Fui rever o lugar que fui nascido
Senti tanta saudade que chorei.