quinta-feira, 16 de julho de 2015

Lula tem críticas, mas nenhuma autocrítica

Por Amilton Aquino, para a Revista Amálgama


Lula tem críticas, mas nenhuma autocrítica
O ex-presidente Lula surpreendeu muita gente ao reconhecer publicamente que o PT envelheceu, que os petistas agora só pensam em cargos e que o partido perdeu “um pouco” da sua utopia.

No entanto, o súbito ataque de sinceridade de Lula não é nenhuma novidade. Por trás de tais críticas ao partido esconde-se sempre o objetivo de autopreservação de Lula. Como sempre, ele está acima de tudo, inclusive do PT. Foi assim no mensalão, quando veio a público dizer-se traído por alguns companheiros; foi assim na tentativa frustrada de forjar um dossiê para incriminar José Serra, quando minimizou o caso, jogando toda a culpa em alguns “aloprados” do partido; foi assim nos protestos de junho de 2013, quando veio a público posar de “defensor da política”, como se este ente abstrato fosse o grande alvo dos protestos; e tem sido assim desde que o partido mergulhou de vez na pior crise de sua história com as revelações do escândalo do petrolão.

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As críticas de Lula valem para todos, menos para ele próprio, o principal responsável por tal situação. Quando chama a atenção, por exemplo, para a necessidade de “renovação do partido” (notando inclusive o fato de não existirem jovens na plateia), o ex-presidente moribundo e decadente em todos os sentidos (principalmente moralmente) contradiz o próprio discurso ao se apresentar como candidato à disputa de 2018. Como assim, Lula? Mas não é o PT que precisa de renovação, de novas lideranças, de mais jovens?

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Ou seja, não há um pingo de sinceridade em nada do que Lula fala. Se estivesse mesmo interessado em restaurar alguma pureza de princípios do partido (se é que já teve algum dia), o PT não teria “feito o diabo” para se manter no poder. Será que só agora ele percebeu que a companheirada só está interessada em cargos e poder? E ele próprio, não está? Se ele mesmo fez este diagnóstico, por que então fez e continua fazendo o diabo para manter o PT no poder e, consequentemente, premiar tais interesseiros?

Claro que nenhum partido quer entregar o poder de mão beijada, mas se o PT não tivesse de fato um projeto de perpetuação no poder, não teria feito aquela campanha mentirosa da última eleição, como, aliás, o próprio Lula recentemente também admitiu. Sem a desconstrução de Marina Silva, por exemplo, certamente ela, uma adversária mais identificada com o PT, estaria hoje governando o Brasil. Claro que isso não seria suficiente para recuperar a imagem do partido, mas certamente a repercussão do escândalo do petrolão teria sido menor, o PT não estaria tendo que fazer tudo que disse que não faria durante a campanha, sua bancada estaria sendo cortejada para apoiar o novo governo (ao invés de estar acuada como está hoje) e certamente boa parte dos pelegos que hoje Lula culpa pela crise do partido teria recebido o castigo mínimo que merece: a perda de seus cargos.

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O lado ruim da oposição vencer a última eleição teria sido o desgaste político intrínseco às medidas “neoliberais” que teriam que tomar. Teríamos então um mandato menos pedagógico no sentido do desmascaramento do PT, um partido ainda mais bravateiro na oposição e um risco ainda maior de Lula voltar forte no próximo pleito. Portanto, do ponto de vista do amadurecimento político da nossa população, o repasse da herança maldita do PT para outro partido poderia ser ainda mais maléfico, mas certamente do ponto de vista dos petistas interessados em recuperar a tal “pureza ideológica” do partido, teria sido muito melhor ser hoje oposição.

De qualquer ponto de vista, no entanto, é consenso que o poder tende a corromper, e, portanto, quanto mais tempo no poder, mais enraizada e disseminada fica a corrupção. Por mais puro e ideológico que seja um partido, sempre vai haver gente disposta a mergulhar no pântano da corrupção para tirar alguma vantagem financeira. Seja de direita ou de esquerda.

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Mas no caso da esquerda a tendência à corrupção tem dois grandes agravantes. O primeiro é o costume da esquerda de aumentar o tamanho do Estado — afinal, quanto maiores as esferas públicas, maiores as oportunidades de corrupção. O segundo é o efeito Robin Hood. Por se acharem os redentores da humanidade, os esquerdistas tendem a relevar a corrupção, desde que esta seja “para o bem do partido” ou para “distribuir para os pobres”. Ou seja, além da inevitável corrupção individual, a esquerda tende a introduzir e justificar a corrupção coletiva em prol do seu equivocado projeto político.

Tal forma de pensar encontra base teórica entre os maiores pensadores da esquerda. Um dos mais conhecidos é, sem dúvida, Gramsci, segundo o qual tudo deve ser feito em prol do “moderno príncipe”, o partido, que almeja a hegemonia da opinião pública para se manter no poder eternamente. 



Além de se aproveitarem da democracia para corroê-la gradativamente (como acontece hoje na Venezuela — com a total concordância do PT, vale lembrar), tal pensamento remete a uma adaptação do famoso “os fins justificam os meios” de Maquiavel. Se for para o bem do partido, vale tudo, inclusive matar e roubar. Se for contra o partido, o combate deve ser ininterrupto, até mesmo a preceitos intrínsecos às democracias republicanas como, por exemplo, a alternância de poder, essencial para a depuração dos partidos e, principalmente, para desbaratar esquemas de corrupção partidários como os que vemos agora.

Mas Gramsci não foi o único guru da esquerda a defender tal “ética” elástica. Leon Trostsky foi outro que justificou a ética “diferenciada” da esquerda, a qual não deveria ser medida pelos critérios morais da direita. Não foi à toa que Gilberto Carvalho defendeu recentemente que o PT siga sua própria ética, a qual certamente não pode ser enquadrada nas leis vigentes. Também não é por acaso que os corruptos do PT são saudados como “heróis do povo brasileiro”. Eles acreditam realmente que estão numa guerra mundial para “redistribuir a riqueza”.


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Apesar de todos os equívocos, existe sim espaço para uma esquerda madura, socialdemocrata, que ajude a amadurecer os reais debates que devem ser travados com liberais e conservadores, como, por exemplo, o tamanho ideal do Estado e os limites ecológicos do crescimento. Mas enquanto esquerdistas mais atrasados não renunciarem à sua crença messiânica de que são os redentores da humanidade e tratarem quem pensa diferente como inimigos a serem exterminados, infelizmente sua incrível coletânea de erros vai continuar sendo repetida em qualquer lugar que cheguem ao poder, seja pela via democrática ou via golpe de Estado.

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Não, Lula. Seu partido não precisa recuperar “um pouco” da velha utopia socialista embolorada e desmoralizada pela realidade. Precisa, sim, e urgentemente, ajustar-se à realidade, renunciando ao relativismo moral que sustenta esta “ética” elástica que corrompe tudo. Absolutamente.