Por Silvia Zaclis
Transcrito do Pletz
Haja Eno!
De certa forma, o Engov substituiu o sal de frutas (Eno ou Alka Seltzer para os antigos). Vai ter que falar com o chefe? Toma um Engov antes, um depois. Vai voltar da praia no domingo pela Rio-Santos? E dá-lhe Engov. Pensando nessa mudança de sentido – de literal para metafórico – resolvi começar uma lista daqueles momentos em que só um Eno – similar ou genérico-resolve…
Hoje de manhã, no supermercado, uma mulher mal humorada pegou uma alface. Olhou, não gostou do que viu (até careta fez); jogou a coitada sobre suas colegas alfaces. Pegou outra; não gostou; jogou de lado. Até que a luz divina lhe informou que sim, aquela era a sua alface! Colocou no carrinho e saiu satisfeita, deixando as alfaces enjeitadas em tal estado, que eu acabei levando rúcula.
A tal mulher fez com que eu me lembrasse de algo que aconteceu com uma amiga em meados do século passado, em um armazém em Israel. Em uma cesta, pães com kummel exalavam um perfume maravilhoso. Entrando na loja, minha amiga viu quando uma senhora começou a apalpar os pães um a um. Não se conteve: “Com licença, será que poderia me informar se tem algum pão que a senhora ainda não apertou para eu levar?”
De novo no supermercado – baixou a dona de casa, agora vou até o fim. Dessa vez foi no estacionamento. Quero sair com meu carro; vejo que um carrinho vazio está no meu caminho. Minha vizinha de vaga bate a tampa do porta-malas. Perguntei, educada (sempre sou educada, é irritante…). Esse carrinho é seu? E ela: “Não, já usei”. E saiu para fazer mais sei lá o que (quem sabe comprar óleo de peroba para usar como cosmético) deixando o carrinho no mesmo lugar. O manobrista, que observava a cena, olhou para mim, espantado. Trocamos olhares cúmplices. Só aí já seriam necessárias duas colheres, das pequenas, de antiácido.
Na TV, notícia de um grave acidente entre dois trens no Rio. Centenas de feridos; um trem estava parado para consertos; outro veio em velocidade em sua direção e o abalroou (é sempre abalroou, nunca bateu). Algumas das vítimas foram entrevistadas enquanto faziam um boletim de ocorrência na delegacia local. Qual a queixa? Roubo! Pois teve gente que aproveitou o desastre para levar bolsas e mochilas alheias!
Mais três colheres de Eno. Outra coisa difícil de entender é quando o âncora diz “um grave acidente matou vinte pessoas hoje na estrada etc…” Ora, para que dizer que o acidente foi grave? Alguém tem dúvida de que algo que mata tanta gente é grave?
Mas chega de más notícias. Vamos aos esportes. Está sendo disputada a Copinha que reúne times de juniores (meu time é bicampeão, só para lembrar). E os locutores, coitados, têm que pronunciar “juniôres”. Pergunto: já que se fala “júnior”, que é Latim e não Português, por que aplicar o rigor das nossas regras quando se usa o plural?
E as Olimpíadas de 2016? Aí está o Rio mais uma vez no foco do mundo. Imagine as regatas, as velas ao vento na bela baía de Guanabara. Afinal, o esporte da Vela é talvez o que tenha trazido mais prestígio – e muitas medalhas olímpicas – para o país. As provas podem ser memoráveis. Principalmente se os estrelados iatistas conseguirem desviar de sofás, animais mortos, restos de redes, pneus… Falta um ano para os jogos!
Mas calma, não quero falar de governos ou instituições– caso contrário, teria que tomar Eno em doses industriais só de pensar no novo ministério.
O assunto é a língua portuguesa. Como sofre! Existe uma espécie de conspiração que atinge especialmente o “há” e a crase. Não é questão de ser chata (ou já estou sendo?), mas acho que todos deveriam tentar escrever corretamente a língua de seu país. “Falei com você a tempos sobre…” Não, não falou. Você pode ter falado comigo, sim, mas há tempos. E não devo aceitar entregas à domicílio, compras à prazo nem liquidações à partir de hoje. Seria um desrespeito à crase. Não é grave, eu sei, é coisa que uma colherzinha resolve. Mas acontece todos os dias. Haja Eno!
Perdi a contas das vezes em que resolvi “não me chatear mais com tantas coisas”. Levar tudo mais na maciota. Mas essa resolução acaba sendo que nem promessa de fim-de-ano… nunca funciona.
E você? Que tipo de coisa faz com que você deseje ter um vidro de Eno, Alka Seltzer ou Engov à mão?




