Do ensaio ao bloco na rua
Os primeiros dez dias do novo governo, empanados pela briga meramente fisiológica entre o PMDB por nacos de verbas, foi marcada por uma (estudada ?) diferença de estilo entre a presidente e seu antecessor - saiu a exuberância marqueteira e "palanqueira" de Lula e subiu a discrição tecnocrática de Dilma.
charge de Claúdio / de Sara, por e-mail
Os porta-vozes da presidente, os oficiais, os oficiosos e os simplesmente oferecidos, fazem questão de marcar esta diferença espalhando a tese de que voou do Palácio a intuição lulista e pousou a racionalidade dilmista. Acentua-se também que Dilma é de decidir rápido em contrastes com os modos protelatórios de Lula.
Mesmo assim, a primeira semana marcou uma rendição do novo ao velho modelo : o anúncio, com pompa, de um programa de erradicação da miséria absoluta no país, sem metas, sem verbas alocadas e até sem a definição do universo dos futuros beneficiados. Em princípio, um perfeito factóide.
A reunião ministerial de sexta-feira, quando o ministro da Fazenda, Guido Mantega, fará uma exposição sobre a situação econômica, e poderá anunciar o tamanho da dieta que seus colegas deverão cumprir, servirá para marcar a entrada do bloco de Dilma efetivamente na rua. Até agora foi apenas concentração e ensaio.
Os três desafios de Dilma
Para começar a pôr sua marca no governo e acertar o passo, a presidente terá ainda que enfrentar três provações, ou, como se diz em linguagem rebuscada e imprópria : equacionar três desafios :
charge de Amancio
1 - A sua relação com Lula - embora recolhido a um silêncio respeitoso no Guarujá, o ex-presidente, até telepaticamente na voz do amigo e ministro Gilberto Carvalho, emite sinais claros de que não sairá de cena nem pretende ser um protagonista de terceira categoria, desses que entram mudos e saem calados do set de filmagem, na política brasileira. Carvalho (ou Gilbertinho como os íntimos o chamam) já avisou que "temos o Pelé no banco".
2 - A relação com a base política governista - montada na base do fisiologismo, do qual ninguém escapa, ela terá se ser alimentada constantemente, sob pena de virar a dor de cabeça para Dilma que a oposição promete não ser.
charge de Miguel
3 - Fazer o ajuste fiscal - o corte de gastos terá de ser volumoso, para não assanhar as forças econômicas. Bons observadores do mercado já perceberam que há mais nervosismo agora, com o governo instalado, do que nas fases mais agudas da campanha eleitoral. Na outra ponta, é preciso não provocar com a poda de despesas clientelas como os sindicalistas, os funcionários públicos, os parlamentares.
O governo Dilma começará de fato depois que essas contas tiverem sido acertadas. Senão, ela perderá um bom tempo administrando crises artificiais.
Por falar em corte de despesas, veja-se a frase da então candidata à presidência da República no dia 30 de agosto, quando da campanha eleitoral : "Eu não vou fazer ajuste fiscal em hipótese alguma por um motivo : o Brasil não precisa mais de ajuste fiscal". Nada como um dia depois das urnas.
charge de Duke
O homem e o mito
É discretíssimo, porém não imperceptível, o processo em andamento em corredores de Brasília para desidratar a imagem de Lula. Simplesmente opor o mito ao homem.
É discretíssimo, porém não imperceptível, o processo em andamento em corredores de Brasília para desidratar a imagem de Lula. Simplesmente opor o mito ao homem.
Deitou na cama ? Pague e não chore !
O PMDB escarrapachou-se na cama, agora assuma a fama, pois ele bem a merece. Mas não sozinho. Quando o PMDB pede um cargo é fisiologismo - e no mais das vezes é mesmo. Quando o PT avança sobre os cargos dos outros, é uma opção técnica, para melhorar a gestão pública.
Caso - sem risos, por favor - do petroleiro sindical de Campinas, Wagner Pinheiro, que de repente ganhou foros de especialista em coisas postais e surrupiou os cobiçados e encalacrados Correios das garras peemedebistas. Quando o PT e o PSB fazem acordo para barrar os avanços do PMDB no nordeste e dividir entre eles o melhor butim oficial na região trata-se de espírito desinteressado de colaboração. Já o PMDB é um faminto guloso. Se o PMDB fosse possuído de algum senso de humor, uma gota sequer, poderia dizer para o PT e adjacências da base aliada : "Eu sou vocês amanhã."
charge de Samuca
Primeiro Guido Mantega, depois Dilma. Abriram as porteiras para um reajuste do salário mínimo, "os imexíveis" R$ 540 decretados por Lula. O ministro da Fazenda, quando disse que o governo vetará qualquer valor diferente, deu aval para qualquer parlamentar dar um voto para agradar a plateia, pois o governo avisa que zelará pelos cofres públicos.
E a presidente quando repreendeu Mantega por ter anunciado o veto, no fundo disse aos congressistas que podem ousar mais que o governo garante.
charge de Novaes
Sumiço
Encerramos o ano 2010 sem ter o que falar da oposição, em recesso desde a derrota eleitoral. Começamos 2011 também sem ter o que dizer dela, pois, ao que parece, continua em férias. Desses, Dilma não precisará se defender. O inimigo mora ao lado - PMDB, PT, PDT...






