sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O brasileiro é um "serviable"

Por Carolina Nogueira. Transcrito do Blog do Noblat

Les serviables
É importante na França (e em outros países, suspeito) o tamanho da comunidade de pessoas que gosta do Brasil. Uma turma que coleciona música brasileira, já visitou o país algumas vezes, assistiu Cidade de Deus e suspira quando ouve falar em férias no Brasil. A gente está meio que na moda.

Toda vez que esbarro num espécime dessa curiosa fauna, lanço a pergunta óbvia – por que eles gostam do Brasil, e do que mais eles gostam. A resposta não muda muito: as praias, a música e o povo.

E por que “o povo”? O que é que os franceses gostam no brasileiro?, eu pergunto.

Millor

Eu juro que esperava ouvir falar da nossa alegria nas festas e, sei lá, aquela breguice de falar da beleza das nossas mulheres (desde quando existe um critério universal para beleza?, mas enfim, isso é outro papo).

E, sim, uns até citam uma coisa e outra. Mas todos, sem exceção, falam de uma qualidade que, até começar a interrogar os franceses sobre nossos pontos fortes, eu não conhecia: eles dizem que nós somos serviables.

Eu quase bufei de raiva na primeira vez que ouvi o adjetivo. A raiz latina das nossas línguas irmãs me faz imediatamente querer adivinhar que serviable significa algo perto demais de servil e subserviente para que eu possa encarar a definição como um elogio.

Andrade

Precisei externar meu desconforto algumas vezes e ouvir alguns esclarecimentos para acalmar minhas desconfianças.

Segundo meus amigos franceses, o serviable é livre de qualquer conotação pejorativa – é, definitivamente, uma qualidade almejada por qualquer um. “Pronto a ajudar”, diz o dicionário francês, o que me faz pensar numa tradução como “generoso” ou “prestativo”. Os dicionaristas da Michaelis concordaram com o meu “prestativo”, mas compartilharam também da minha desconfiança – e incluem “serviçal” como sinônimo.

Como já falei há algumas semanas, essa carta de Paris está na verdade meio deslocada geograficamente. Estou neste momento bem longe dos muitos centímetros de neve que atrapalham a véspera de Natal na França. Daqui do quentinho do litoral pernambucano, a observação dos meus amigos franceses nunca fez tanto sentido.

Quinho

Dos milhares de estranhamentos que todo observador atento percebe quando volta para casa depois de um tempo fora, a prestatividade do brasileiro realmente me salta aos olhos.

Há muito tempo não via tanta gente desconhecida tão pronta a me ajudar. Qualquer pedido de informação banal se torna automaticamente no compartilhamento de um problema – é como se os atendentes do hotel, o farmacêutico ou o jornaleiro de repente precisassem tanto quanto eu encontrar uma rua desconhecida. O desolé definitivamente não faz parte do vocabulário brasileiro.

Realmente, não é à toa que nossa “serviabilidade” chama a atenção dos meus amigos franceses. Trata-se mesmo de um artigo que anda em falta do lado de lá – e é tão farto por aqui que muitas vezes nem nos damos conta.

Feliz Natal para todo mundo do blog do Noblat!