Por André Carvalho (*)
Em 10 de dezembro de 2010
Os tres porquinhos
“Eu sou o lobo mau, lobo mau, lobo mau e pego as criancinhas pra fazer mingau”... De uns tempos para cá, canções folclóricas ou infantis vêm sendo consideradas politicamente incorretas e proibidas nas escolas e creches porque, dizem, estimulam a violência. Mais uma tese esdrúxula que acomete o Brasil de agora.
A singela canção “atirei o pau no gato” parece ser responsável, no entendimento de alguns, por milhares dos boletins de ocorrência – os indefectíveis BO – que abarrotam as delegacias.
Caminhamos para o primeiro mundo censurando dados e fatos inscritos em nossa história e em nossa cultura, criando uma nova verdade, como fez a Rússia a partir de outubro de 1917, após sua revolução comunista. Aqui, tanto quanto lá, o maniqueísmo se sobrepôs à inteligência, à análise e ao bom senso. A “coisa” é tão absurda que Monteiro Lobato passou a ser “persona non grata” na releitura bruta que se faz do passado.
Especialistas diversos e defensores dos inúmeros direitos – individuais, coletivos, humanos, animais, vegetais, difusos, farsantes, etc. – discutem sobre a pertinência de se manter liberada a musiqueta do cravo que brigou com a rosa, saindo ferido, enquanto a rosa, despedaçada. Enxergam aí, uma violência capaz de disparar, em avalanche, a aplicação da Lei Maria da Penha. Certamente tiraram do contexto a segunda estrofe onde o cravo e a rosa se reencontram e, emocionados, choram e desmaiam, numa comovente história de amor. Sentido figurado ou cartesianismo? Que pensam os especialistas? Professores e alunos perderam a capacidade de interpretar?
Mas, o patrulhamento ridículo não se estende a todos. Na abertura da reunião do diretório nacional do seu partido, dia vinte de novembro de 2010, a presidente eleita agradeceu a participação dos “três porquinhos” em sua campanha. Nominou-os: Antônio, o Palocci, Eduardo que é Dutra e o outro, que se diz Cardozo. Arrancou sorrisos e aplausos da plateia...
Esquecem os especialistas que a história aludida por Dona Dilma – a dos “três porquinhos” – por tudo que descreve e sugere deveria, por equidade, estar censurada para qualquer citação, mesmo que traduzindo bem a conduta de companheiros e correligionários. Recordando: dois dos três suínos são irresponsáveis e pensam apenas em si. Lá pelas tantas, surge um lobo mau disposto a comê-los, estabelecendo-se, de pronto, um estado de beligerância.
O terceiro porquinho, até então o único responsável, acolhe em sua fortificada casa os assustados irmãos forçando o lobo a subir no telhado, na calada da noite, para adentrar o recinto, via chaminé. O felino acaba caindo numa panela de água fervente, ali colocada, de propósito, pelos três irmãos. Chamuscado, o lobo foge e deixa os petistas, digo, os porquinhos, na santa paz do senhor, para usar uma expressão suave, agora que todos são cristãos e frequentam a Basílica da Padroeira do Brasil.
Dos quatro personagens da história dois são irresponsáveis, um é mau e o último um porquinho razoável que, mesmo assim, queimou o maldito carnívoro tornando-se réu por tentativa de homicídio e formação de quadrilha.
Os suínos estão identificados e, dois deles, ministerialmente estabelecidos no planalto central do país. Falta identificar o lobo mau! Para ser mais preciso, identificar qual deles, tantos são os lobos que por aí transitam. O certo é que, levada ao pé da letra, a história que nomina os camaradas petistas não serve como exemplo para algo dignificante.
Contudo, achamos graça quando as musiquinhas, as piadas e as historietas são cantadas ou contadas por membros da tropa petista. Lembram-se de Lula, falando com um assessor sobre a opção sexual dos pelotenses? Pois é, eles podem... Talvez estejamos diante de um “rebolation” socio–político–cultural. Queria saber a opinião da mulher melancia, do Tiririca e de Chico Buarque de Hollanda a respeito de tudo isso.
(*) André Carvalho não é jornalista, é "apenas" um cidadão que observa as coisas do dia-a-dia. Um free lancer. Ou segundo sua própria definição: um escrevinhador. Seus sempre saborosos textos circulam pela web via e-mails.

