quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

André Carvalho: "Galhos de ,,, "


                      
Por André Carvalho (*)
btreina@yahoo.com.br




Galhos de Arruda
Cá pelo nordeste temos crenças e costumes desconsiderados em terras mais sofisticadas. Quais terras? Ah, são muitas: Paris, Las Vegas, Tóquio, Milão e, para encurtar a distância, Brasília. Eta coisinha metida a besta aquela cidade!

Vou provar o que digo: sabe de uma crença nordestina que em Brasília não se dá o menor valor? Pois é, os poderes mágicos da arruda, aquela plantinha da família das rutáceas. Veja quanta diferença, a começar pelo cheiro: no nordeste, ela cheira bem e na capital do país, arruda cheira mal.

A arruda, quando colocada junto a rosas, faz com que estas durem mais, além de limpar o ambiente, trazendo clareza e proteção. A sabedoria popular acredita também em sua capacidade abortiva. Brasília precisa abortar e limpar muitas coisas. O plantio maciço de arrudas e rosas, em lugar do capim, no eixo monumental, talvez melhorasse um pouco o ar que se respira. Acontece que plantaram arruda em outro lugar. Deu no que deu...

Tem mais: o chá de suas folhas é tido e havido como um excelente calmante, que o caipira bebe quando as coisas ficam agitadas, complicadas. No planalto central funciona de maneira exatamente contrária: quanto mais arruda, mais complicação aparece. Aliás, tem cada “galho” de arruda que benza Deus!

Perambulei anos pela nova capital e jamais encontrei qualquer ser vivente carregando um galhinho milagroso. Para o nordestino, um galho de arruda pendurado detrás da orelha ou plantado no ambiente, espanta mau olhado, feitiço e alucinação. Nem sei se o presidente da república, filho de Pernambuco, usa dos galhos mágicos para fechar o corpo, cada vez mais vulnerável, com os “cezinhas” de plantão! Por vezes, alucinações e más notícias vêm em cadeia.

A força da arruda é tão grande, que chega a ser comum a turma plantá-la ao lado do placar do campo de futebol para dar sorte ao escrete da cidade. Claro que são placares simplórios, bem diferentes dos brasilienses, principalmente do quase inviolável “painel” do Senado Federal. Como não se deve confiar em juizes, não custa uma fezinha na arruda, para espantar o azar, manter o time da casa vencedor e o “bicho” democraticamente ao alcance dos bolsos, meias, maletas e cuecas...

Consta na internet que galhos de arruda, em infusão, matam até piolho. Não garanto, pois não comprovei a teoria e quero fazê-lo numa cabeleira vasta, pois matar piolho em careca é tarefa fácil, dependendo apenas de uns bons cascudos, ou como dizem na sofisticada Brasília, umas castanhas. Aliás, na capital federal tem muito careca merecendo cascudo.

“Padim” Padre Cícero, em tempos imemoráveis, usava de raminhos de arruda para espargir água-benta nos fiéis, trazendo-lhes as bênçãos divinas. Não sei como se pode fazer para abençoar Brasília. Penso que nos dias de hoje o procedimento tornou-se inexequível. Para o caso brasiliense, benção não resolve e reza braba ainda é pouco.

Por lá, satanás anda à solta!!!


(*) André Carvalho não é jornalista, é "apenas" um cidadão que observa as coisas do dia-a-dia. Um free lancer. Ou segundo sua própria definição: um escrevinhador. Seus sempre saborosos textos circulam pela web via e-mails.