
Tcham, tcham, tcham - fuego muy amigo
Se a mola desprendida do carro de Rubens Barichello tirou Felipe Massa das pistas de Formula 1, a batida de Nelsinho Piquet, no Grande Prêmio de Cingapura 2008, afastou o título do piloto da Ferrari.
A primeira ação foi involuntária. A segunda, a empresa londrina Quest, sob encomenda da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), realiza investigação, mais aprofundada do que se supunha inicialmente, para saber se foi trama premeditada.
Seja qual for o resultado da investigação, o futuro de Nelsinho Piquet na Formula 1 é sombrio. Salvo na imprensa umbilicalmente dependente da presença de brasileiros nos circuitos, a percepção generalizada não se sustenta apenas nas declarações de Bernie Ecclestone, ainda que o “Barão do Paddock” conheça melhor os traçados da Fórmula 1 que as linhas das suas mãos.
O vaticínio baseia-se em inapelável evidência. Muito pouco provável achar uma escuderia disposta a dar emprego para um piloto desleal, se não com o automobilismo, mas certamente, com o ex-patrão.
Inconformado e irado com a demissão por não cumprir clausula do seu contrato - obter 20% dos resultados de Fernando Alonso - Nelsinho saiu da Renaul chutando o pau da barraca. Chamou Briatore de “meu carrasco”; acusou o italiano de não entender nada de Fórmula 1; e agora, emerge a suspeita de que teria sido cúmplice de uma manobra que colocou em risco sua vida, a dos colegas, dos comissários de pista e do público. Isto na pista. Fora dela, o dano pode ser mais amplo.
Se ficar provado que houve armação, a Renault e o seu chefe de equipe Flavio Briatore serão banidos da Formula 1.
A empresa francesa terá que se contentar com, no máximo, fabricar motores para outras equipes. Já não é a primeira vez que a dupla Briatore e Renault se mete em encrenca. Em 1994, na época em que a equipe estampava o nome Benetton, a FIA fez vista grossa com a retirada ilegal de um filtro do sistema de abastecimento dos carros para torná-los mais leves - infração admitida pelos culpados.
Há quem evidencie a dificuldade de colher provas para a eventual armação do acidente noturno nas ruas de Cingapura. Seria necessário nítida gravação da ordem “Bata agora, Nelson!” ou a confissão de alguém dentro da equipe Renault, dizem eles.
A Formula 1 é um pouquinho mais complexa do que os desfiles carnavalescos, embora admita-se que recursos para apresenta-la tal qual, possa seduzir os sonolentos. Mas persuadir quem raciocina, pensa, requer um pouco mais de substância.
Os investigadores da Quest vão analisar, por exemplo, a telemetria do carro de Nelsinho. Ela revela tanto ou mais, pela associação com as imagens do acidente, que uma caixa-preta de avião acidentado.
Sabe-se que Alonso largou com combustível suficiente para completar apenas 12 voltas. Sem a entrada do safety car, era praticamente impossível, terminar a corrida como vencedor.
Qual era o contexto?
A equipe Renault e Alonso não tinham ganho nenhuma prova desde o inicio da temporada. O presidente da Renault, Carlos Ghosn, ameaçava interromper a participação da empresa na Fórmula 1, devido ao alto custo sem resultado compensatório.
A vitória da Renault em um GP na Ásia, mercado automobilístico onde a empresa francesa disputa seu futuro, tinha uma simbologia muito além do mundo esportivo. É inegável, a Renault Formula One desembarcou em Cingapura com a pressão do mote pó de arroz: “Vencer ou vencer”.
Depois da corrida, Felipe Massa, líder da prova até a entrada do safety car, foi se dar com Briatore. Ele teria feito saber ao italiano que o acidente do compatriota Nelsinho foi fraude. Este tipo de inteligência não escapa da Quest.
O que doutos em Formula 1 no Brasil não atentaram, ou propositalmente colocaram no terreno do indizível, é que a investigação encomendada pela FIA tem implicações muito mais sérias. A maior competição mundial sob quatro rodas tornou-se um cassino, onde uma enorme quantidade de apostadores investem uma dinheirama. Os resultados manipulados são passíveis de ações na justiça comum que podem desaguar em condenações criminais.
