[Uma equipe interdisciplinar da Universidade de Miami e da Universidade da Costa Rica conseguiu criar um modelo climático que consegue prever surtos de dengue com até 40 semanas de antecedência. E, dependendo de apenas de alguns ajustes, a previsão poderá ser perfeitamente aplicável aqui no Brasil. A equipe da Universidade de Miami já está trabalhando num projeto para fazer as medições necessárias em duas cidades-piloto: Manaus e Recife.
O primeiro modelo trabalhou com variantes de clima e vegetação da Costa Rica para analisar seus impactos sobre a população do mosquito vetor Aedes aegypti. Foram medidas a ocorrência e a intensidade dos fenômenos climáticos El Niño e La Niña, temperaturas da superfície da água do mar (SST, sigla em inglês) e a área de vegetação verde sazonal - o que afeta a evaporação e a umidade do ar próximo ao solo.
A acuidade da previsão chegou a 83%. Douglas O. Fuller, principal investigador do projeto e chefe do departamento de Geografia e Estudos Regionais da Universidade de Miami, ressalta que as temporadas de chuva são um fator determinante para a ocorrência de surtos de dengue, mas não são iguais nos trópicos. Daí a necessidade de ajuste do modelo para os países latinos e o acompanhamento ano a ano das variáveis.
"Alguns anos são mais chuvosos, quentes, secos ou verdes do que os outros. Medir a temperatura da superfície do mar e a cobertura verde captura muito bem estes efeitos interanuais correlacionados com a epidemia de dengue" explica. "Além disso, estes dados são mais fáceis de se obter e coletados mais consistentemente do que índices pluviométricos e temperatura do ar". O modelo previu a grande epidemia de dengue na Costa Rica em 2005. Também foi testado com dados de Trinidad e Cingapura, com resultados extremamente acurados, afirma Fuller. O estudo foi publicado na revista Environmental Research Letters.
"Na Costa Rica, descobrimos que, na verdade, as condições da La Niña (o oposto do El Niño) tendem a favorecer mais casos de dengue: clima menos chuvoso e quente. Isso faz sentido, uma vez que o Aedes cresce e se reproduz mais rapidamente em altas temperaturas, até 35ºC. O vírus também precisa de altas temperaturas, pois não se replica abaixo de 20ºC. E, quando faz calor, as pessoas também tendem a armazenar mais água perto de casa, fazendo criadouros de mosquitos. A principal vantagem do modelo, sustenta o pesquisador, é permitir que governos nacionais tenham tempo hábil para se preparar para uma epidemia, mobilizando recursos, equipando hospitais e laboratórios e treinando pessoal de emergência.
O estudo contribui ainda para um novo campo da ciência, o estudo das relações entre o aquecimento global e o surgimento de doenças. A maioria dos cientistas acredita que o aquecimento global vá aumentar certas doenças infecciosas - como a dengue - porque os vetores vão se espalhar para áreas que antes eram mais frias e passariam a ser mais quentes. O estágio atual da pesquisa no Brasil está na coleta de informações de autoridades sanitárias sobre casos e incidência -o número de casos reportados para cada 100 mil habitantes. Estes dados permitirão a "calibragem" dos parâmetros do modelo brasileiro - cada situação urbana terá o seu. ]
Fonte terra.notícias

