Por Antonio Ribeiro, em seu blog
Quem vive nas margens opostas do rio Reno, na Alemanha e na França, sabe bem que seus governantes não tem grandes afinidades. No entanto, contrário à israelenses e palestinos, eles aprenderam a arte da convivência pacífica depois de anos de disputas resolvidas por meio de bala e baioneta — a conversão de países inimigos a aliados na Europa é uma das maiores lições na história moderna.
Desta vez, junto com Barack Obama e animados pela crise econômica e financeira mundial, o casal teuto-francês desembarcará em Londres para reunião do G20, no dia 2 de abril, imbuídos no mesmo combate:
o questionamento efetivo de territórios que permitem pagar menos ou nenhum
imposto, os paraísos fiscais.
Tolerados durante três séculos, os paraísos fiscais e obstinados segredos fiscais são percebidos depois da crise como freio à necessidade de regulamentação financeira mundial.
Cada qual já pegou seu cristo. No mês passado, os Estados Unidos escolheram a Suíça, onde os bancos guardam a sete chaves 2 trilhões de dólares da riqueza mundial.
As autoridades americanas forçaram o banco UBS a fornecer detalhes das contas de 300 nacionais suspeitos de burlar o fisco — estima-se que o país perde anualmente 100 bilhões de dólares em evasões fiscais — e estão tentando conhecer a movimentação de 52.000 correntistas de bancos suiços.
A França celebrou, depois da forte pressão no governo de Andorra, a decisão do próspero principado dos Pirineus de votar lei que acaba com o segredo bancário. “Chegou o tempo de adaptar nosso sistema bancário às regras dos impostos” diz o príncipe do Luxemburgo, Alois von und Liechtenstein, sob cerrada marcação alemã.
A Bélgica propõe acabar com o segredo bancário, enquanto as ilhas Jersey e Guenersey dizem que irão responder as solicitações da administração fiscal britânica.
Em fevereiro, Singapura e Hong Kong anunciaram projetos de leis para mudar sua pratica fiscal.
Para pressionar Andorra, Sarkozy chegou a ameaçar renunciar seu titulo honorífico de co-príncipe — ao lado do bispo de Urgel — se o governo do principado não obrigasse seus bancos a serem mais transparentes. A renúncia significa que Andorra passa a ser espanhola.
Uma reportagem da revista Alternative économiques revela que 100% das empresas do CAC 40 — as 40 mais ricas da França — tem filiais nos paraísos fiscais.
Segundo a ONG Transparencia Internacional, os paraísos fiscais abrigam 400 bancos, dois terços dos 2.000 principais hedge fonds e 2 milhões de empresas de fachada.
Enquanto isso, as autoridades em Mônaco permanecem em silêncio.
Conclusão: O movimento dos governos não é bem uma medida moral, mas a busca de liquidez onde ela existe.

