terça-feira, 10 de junho de 2008

Berimbau, Harpa e Buzina.

Por André Carvalho - em 30 de maio de 2008
btreina@yahoo.com.br

Berimbau, Harpa e Buzina.
A vida é assim mesmo, uma coisa puxa a outra, como se fosse um novelo interminável. Abelardo Barbosa, o Chacrinha, dizia com propriedade: “Nada se cria tudo se copia”. O francês Lavoisier, em 1774, assegurava que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Se houvesse sido canonizado, Lavoisier certamente seria padroeiro dos restaurantes e lanchonetes espalhados por todo o mundo, independente do credo do chefe de cozinha.

Tudo isso aí, por conta do Natalino e do entrevero com o QI “birimbalístico”. Na oportunidade, vocês sabem, comprei uma harpa pensando em alavancar meus dotes cognitivos. Uma coisa puxa a outra. Não deu certo! Cada vez que olho para aquele instrumento cheio de cordas me sinto mais e mais idiotizado. Com ela tentei acompanhar uma empolgante e plástica roda de capoeira no Mercado Modelo. Não consegui! Um entendido nas artes marciais e musicais confidenciou-me que, com a harpa, só é possível acompanhar luta greco-romana. Na Bahia é duro achar uma luta dessas.

Arrependido, quero agora transformar a dita cuja em uma buzina. Na minha querida cidade de Salvador, na Bahia, a buzina é mais útil do que a harpa. Se prestarmos atenção, berimbau e buzina são os instrumentos mais utilizados por aqui. A buzina em maior escala! Escala no sentido de uso, insistência no uso, não no sentido musical: Dó, Ré. Mi, Fá, Sol, Lá, Si. Não, não, nada disso! Nesse aspecto, o berimbau, tanto quanto a harpa, supera os irritantes Bi, Bi, Bi, Fon, Fon, Fon, Pem, Pem, Pem. Tem até um novo som nas ruas: Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Decibéis pra ninguém botar defeito. Uma coisa de louco.

Segundo o Dicionário Aurélio, vulgo pai dos burros, que consulto e cito com freqüência nos meus escritos, buzina é um “aparelho elétrico sonoro, munido de placa vibratória, de que são dotados os automóveis e veículos congêneres para dar sinais de advertência”. Entendo por congêneres, aquelas imensas caminhonetes, comuns nos tempos atuais, e que imitam, no tamanho e nas formas, os dinossauros pré-históricos. Sem dúvida, nada se cria tudo se copia.

Neste meu “surto de cretinice” acredito que as mulheres, fisiologicamente muito mais prudentes que os homens, disparam um maior número de advertências. Faz parte da natureza! Advertem com um Biiiiiiiiiii médio quando saem de casa ou quando passam em frente a cabeleireiros, shoppings e clínicas de controle estético. Com dois Bis, o primeiro curto e o segundo longo, o que significa Bi, Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, enquanto, estacionadas em fila dupla, na porta das escolas, esperam suas crianças. Sinalizam, com dois longos Bis, -- assim, Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, -- no ato da ultrapassagem pela direita ou na invasão do semáforo. Dois ou três Biiissss, curtos e seguidos, representam um pedido de ultrapassagem. Mais do que isso, de quatro a seis, é ordem pra sair da frente mesmo. Acima de seis toques saiba que a ansiosa chofer está voltando de uma conflitante sessão de psicanálise.

Existe também a turma do Peeeemmmmm, majoritariamente masculina, sempre alerta, avisando ao motorista da frente a abertura do sinal. Parece sincronismo de comando eletrônico. Abriu o sinal, toca a buzina. Nos cruzamentos mais movimentados, “pinta o verde” e ouve-se de sessenta a setenta peeennnnssssssss dissonantes, diferentes da preciosa harmonia do berimbau, tocado com fleuma, em corda única, nas rodas de samba e capoeira.

Não se apoquentem senhoras e senhores, pois que uso buzina também. Entretanto, só o faço para homenagear, com um rápido e discreto Biiii, Biiii, os glúteos oscilantes que perambulam pela cidade.

A Bahia é assim. Sonoridade a torto e a direito. Uns poucos surdos de imaginação não percebem a beleza que é ser e viver, daqui e aqui.

Vida que segue!!!