sábado, 23 de fevereiro de 2008

O mistério da transferência de votos




Lucia Hippolito




Segundo a última pesquisa CNT/Sensus, pouco mais de 9% dos eleitores votariam cegamente num candidato a prefeito apoiado pelo presidente Lula. Pouco mais de 35% declararam que precisariam, primeiro, analisar o eventual candidato.
Além disso, nas simulações sobre as eleições de 2010 realizadas na mesma pesquisa, todos os possíveis candidatos do PT estão na lanterna, não chegando a atingir dois dígitos: Dilma Roussef, Tarso Genro e Patrus Ananias. Ou seja, o governo Lula continua sem um candidato com um mínimo de viabilidade.
Isto tudo nos remete ao fenômeno da transferência de votos. Por que Lula não tem conseguido transferir parte de sua imensa popularidade a seus candidatos? (Em 2004, o presidente chegou a pedir votos para a então prefeita Marta Suplicy, que tentava a reeleição em São Paulo, tendo feito um governo bem avaliado pela população. No entanto, Marta foi derrotada por José Serra.)
O presidente Lula está com sua aprovação nas alturas, popularidade voando em céu de brigadeiro, mas não consegue alavancar seus candidatos. Acontece que a popularidade de Lula resulta de uma relação especialíssima entre ele e o eleitorado. Trata-se de um tremendo líder de massas, que se comunica pessoalmente com a sociedade.
Lula é, de longe, o melhor comunicador de seu governo. Fala a linguagem da massa, que se identifica com ele. Mas fala também a linguagem dos ricos, dos empresários, dos banqueiros. O presidente só tem dificuldades junto à classe média, que ele próprio não compreende direito.
Ao dividir o mundo entre ricos e pobres, entre elites e povão, Lula desconhece esta vastíssima e diferenciadíssima classe média brasileira.O resultado de tudo isso é um governo bem avaliado pela população, um presidente muitíssimo bem avaliado, popular como poucos.
E um governo sem candidato para herdar isto tudo. Por enquanto. 2010 ainda está longe, mas se o governo não começar agora a construir uma candidatura viável, poderá perder as eleições. Isto se a oposição não se incendiar em sua fogueira de vaidades internas, o que não é nada difícil, e não cometer haraquiri, o que não é nada impossível.