
Lucas Mendes: Política, prosa e poesia
para BBCBrasil
Barack Obama fala com tanta poesia que há um vídeo com discursos dele e alguns jargões da campanha - Yes We Can - em forma de música. A eloquência é uma das maiores atrações de Obama. Caráter também, mas o currículo dele é curto.
Em conversas e entrevistas com marqueteiros, pesquisadores e mesmo jornalistas, é facil perceber o entusiasmo deles por Obama. O difícil é descobrir até que ponto esta torcida ajuda ou atrapalha.
Depois da vitória em Iowa, previram que ele ia ganhar New Hampshire de barbada. Perdeu. Na Super-Terça, pelas pesquisas e jornais, podia ganhar em Nova Jersey. Perdeu. Massachusetts com a benção de Ted Kennedy estava no papo. Perdeu feio. Na Califórnia algumas pesquisas davam vantagem para Obama. Perdeu. E no Estado de Nova York ele ia humilhar a senadora na própria casa, perdendo por menos de dez pontos de vantagem. Levou uma surra. As pesquisas também erraram nas vitórias de Obama em Iowa e na Carolina do Sul e na Super-Terça ele ganhou em mais Estados do que previram. O jornal New York Times, que endossou Hillary Clinton para as primárias, recebeu uma tonelada de emails de protestos de obamistas com ameaças de não votar na senadora caso ela seja a candidata do partido. Em editorial, o Times alerta para o culto da personalidade de Obama que ele e seus assessores parecem interessados em alimentar. Uma colega que cobre a campanha de Obama, quando ouviu o discurso dele ao vivo pela primeira vez, ficou eletrizada e em busca urgente de uma segunda dose. Na quinta não aguentava mais e saía na hora da "poesia". Foi o ex- governador Mario Cuomo de Nova York quem disse que discurso de campanha é poesia, governar é prosa. Nada contra a poesia do Obama mas se ele for o candidato democrata vai bater com John McCain, um velho guerreiro testado e temperado em muitas batalhas: De cinco anos de prisão, torturas no Vietnã a campanhas eleitorais contra George W. Bush e a extrema direita - onde foi vítima de calúnias que estarão no caminho de Obama (Hillary já passou por elas). Se for uma campanha na base do caráter e biografia, McCain não vai dever nada a ninguém. Quando a grande maioria, inclusive republicanos, estavam contra a guerra do Iraque, ele defendeu o aumento de tropas e disse que se for preciso os americanos vão ficar lá 100 anos. Votou duas vezes contra os cortes dos impostos de Bush, foi contra os conservadores na questão da imigração, no financiamento de campanha apresentou projetos de leis com liberais como Ted Kennedy, e defende suas idéias com uma disposição que vai do palavrão ao safanão. O apelido dele no senado era Cabeça Quente, um temperamento que vem desde criança quando para fazer pirraça prendia a respiração até desmaiar. O pai, um almirante não menos bravo, jogava o filho com roupa e tudo, numa banheira de água com gelo. Na escola naval um dos apelidos de McCain era McNasty (McMaldoso). Em poesia ele leva uma surra de Obama e até de Hillary, mas na prosa do legislativo e em credibilidade, McCain é um campeão.
