segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

As alegorias da roubalheira



Texto de Ruth de Aquino
raquino@edglobo.com.br

O governo Lula está mais desnudo do que a passista da São Clemente






A nudez total e depilada de uma goiana opulenta no Carnaval carioca foi fichinha diante do desfile obsceno que chocou o país na semana de Momo. O carro alegórico que ganhou nota máxima em criatividade e ousadia não foi o da Beija-Flor ou o da Viradouro. As alegorias do abre-alas – piscina, mesa de sinuca, halteres, picanhas, bichinho de pelúcia, tapioca, produtos pirateados, hotéis de luxo, jóias – representam gastos pessoais de figurantes do governo Lula. Mais de 7 mil sambaram o enredo do cartão corporativo, que exalta as virtudes do conforto pago com dinheiro público.
Ainda não se sabe quantos passistas atravessaram o samba e quantos perderão pontos, empregos ou cargos. Até agora, não são muitas as alegorias vivas que, comprovadamente, fizeram mau uso do cartão corporativo. Mas a diversidade dos alegres gastadores sugere que os tropeços não escolhiam escalão. Os foliões do cartão vão de motoristas a ministros, secretárias, seguranças e reitores de universidades. A farra envolveu de alas domésticas a mestres-salas.
A ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, campeã de falcatruas neste Carnaval de 2008, foi demitida, mas não pediu desculpas. Foi a oitava vez que Lula perdeu um ministro por episódios ligados à corrupção desde que assumiu, em 2003. Matilde gastou R$ 175 mil só com aluguel de carros.
Nem com Superbonder as desculpas estão colando. Há um festival de retratações e reembolsos. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, prometeu cortar com tesoura seu cartão e mandou investigar a reforma da mesa de sinuca (R$ 1.400) que está na sala dos motoristas.
O reitor da Universidade Federal de São Paulo, Ulysses Fagundes Neto, reconheceu como “equívoco” suas despesas em farmácia com remédios. E teria ressarcido os cofres públicos.
O ministro do Esporte, Orlando Silva, que levou mulher, filha e babá para quatro dias em hotel de luxo em Copacabana, junto à praia, também diz ter devolvido “cada centavo” dos R$ 31 mil que gastou com o cartão no ano passado.
Tudo isso não passa de alegoria, sejamos realistas. Até o momento, o abuso de cartões corporativos não é suficiente para sequer desequilibrar o governo Lula – que já atravessou tempestades bem mais sérias que as deste verão.
Mas o caso demonstra ao país que, por um desvio ideológico do PT ou por uma postura displicente da Presidência, o aparato petista não aprendeu a distinguir a fronteira entre o público e o privado.
Para o cientista político Sérgio Abranches, continuamos a cultivar a cultura sindicalista. “O líder sindical sempre achou que o sindicato tem mais é que financiar a vida dele. Pela mesma lógica equivocada, Lula no poder significa que o governo deveria patrocinar o dia-a-dia de quem trabalha para ele”, diz Abranches.
A reação destemperada da ministra Dilma Rousseff, acompanhada pelo general Jorge Félix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, pode ser mais prejudicial a Lula. O general quer menos transparência porque deseja evitar “ações hostis” contra o presidente. Dilma, brandindo documentos, alega que os gastos do palácio com lavanderia e alimentação são sigilosos: “Não somos uma republiqueta de bananas”.
Agora somos uma república de tapiocas. Se um ministro (Orlando Silva) compra por R$ 8,30 uma tapioca recheada de queijo coalho e manteiga da terra com um cartão estampando o brasão da República, isso tem significado. O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-PR), vai investigar se os seguranças do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também comiam em churrascaria: “As tapiocas são as mesmas. Só mudou o gosto”, disse Jucá.
O problema, senador, é que o PT de Lula foi eleito e reeleito com a promessa de moralizar a administração pública, e não fazer mais do mesmo. Como fica o porta-bandeira do petismo ético? Mais desnudo que a passista da São Clemente, que deixou cair o tapa-sexo e continuou sambando como se não fosse com ela.