domingo, 6 de janeiro de 2008

O governo só pega no tranco

Transcrito do JB Online

Como carro com bateria arriada ou motor desregulado, também o governo do presidente Lula só pega no tranco. Não é de seus hábitos e costumes a rotina que facilita a viagem em marcha obediente aos limites de velocidade e muito menos o planejamento para valer, com prazos para cada fase da obra e a severa fiscalização que cobra a regularidade e a eficiência do serviço.


E, para mal dos seus pecados, não atravessa a fase rósea em que tudo dá certo e até os erros passam despercebidos da assistência. Nem o veículo pegou no empurrão em estrada esburacada nem as reações do presidente, vaidoso do seu carisma, vêm sendo felizes nos entendimentos com a oposição.


Haja vista a escolha das saídas alternativas para sair do buraco da perda dos R$ 40 bilhões com a sua maior derrota política, uma vez derrubado pelo Senado o amaldiçoado imposto do cheque, a CPMF mentirosa de nascença ou desde o batismo como Contribuição Provisória sobre a Mobilização Financeira.
Lula repassou para os prestidigitadores da área financeira a tarefa de encontrarem no saco dos truques a saída marota pela porta dos fundos, sem despertar suspeitas.
Ora, a crise é muito mais política do que econômica. Ou a reabertura das conversas sobre soluções para atenuar o prejuízo que obriga o governo a cortar verbas no Orçamento deste ano terá que passar necessariamente pelos líderes parlamentares que participaram do acerto de undécima hora e que serão atores no segundo ato da temporada do Ano-Novo.
Os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento, Paulo Bernardo, só têm olhos e cuidados com os números para amenizar as dores do corte do imposto do cheque e apelaram para a poda dos galhos taludos. E apelaram para sofismas na tentativa de negar que quebraram o juramento presidencial de não revidar a pancada da derrota com o aumento de impostos.
Mas a dupla acautelou-se e submeteu o pacotaço à apreciação do presidente e fiador do acordo com a oposição. Lula adiou o início das miniférias de uma semana para a reunião com os sábios da economia. A foto publicada nos jornais mostra o presidente sentado entre os dois expositores, com óculos e a atenção concentrada no papelório, que mereceria sua integral aprovação.
Uma pirueta de assustar a platéia, pois duas semanas antes, exatamente no dia 17 de dezembro de 2007, fora categórico na afirmação de que "não há motivo para anunciar medidas de forma extemporânea, para anunciar novos impostos". Em duas semanas, ultrapassado o bloqueio da "forma extemporânea", não há por que recusar os argumentos ministeriais.
Mantega e Bernardo tiveram brilhante desempenho. Mantega brincou com as palavras como se jogasse bilboquê: "O que o presidente disse foi que não haveria pacote. Isto não é uma retaliação à oposição". E completou: "Ele disse que não mexeria na área tributária em 2007, e não o fez. Estamos fazendo em 2008".
Mais comedido, o ministro Paulo Bernardo reconheceu que o governo terá que retomar a negociação com o Congresso, quando os parlamentares retornarem das férias.
Não será nada fácil. Pilhado em flagrante no descumprimento de um acordo alinhavado em horas de reuniões com os líderes da oposição no Senado, teve que ouvir a reação do senador Arthur Virgílio, líder do PSDB: "Não converso mais com o governo. O presidente Lula mentiu ao garantir ao país que não haveria aumento de carga tributária".
E o senador José Agripino Maia (RN), líder do DEM, arrematou: "O diálogo com o governo acabou. Fomos traídos".
Em ano eleitoral, a oposição eleva o tom para ser ouvida pelo voto. E o governo ofereceu de bandeja o melhor dos temas: o da traição aos interesses do eleitor.