quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O martírio bate os sinos.

Escrito por Andres Viriato, especialmente para o Pilórdia.com

Se a imprensa em todo o mundo fosse tecnicamente imperfeita mas politicamente correta, uma espécie de imprensa-cidadã, todos os órgãos de comunicação do planeta, inclusive este blog, estariam manchetando em favor de Dom Luís Flávio Cappio, como o fez a imprensa brasileira com o arcebispo Dom Odilo Scherer, ao assumir o cobiçado assento da hierarquia sacerdotal no colegiiado cardinalício.

Somos um Estado laico, uma vida humana neste país não tem valido muia coisa nos últimos anos, mas a causa não vale a auto-imolação do determinado Cappio.

Por que gastar R$4 bilhões numa obra eletiva quando morre-se nas filas dos hospitais públicos, em todo o país, pelas causas que todos conhecemos? Quando grande parte da população de nossa imensa zona rural vai continuar morrendo de fome, de doenças infecto-contagiosas por falta de saneamento? Quando a segurança pública desceu a níveis insuportáveis e a marginalidade mata mais gente inocente do que morrem solados na guerra do Iraque? E nossas estradas? E nossos portos e aeroportos? E nossas escolas e universidades?

Enquanto o jogo das avaliações técnicas da obra permanece empatado, o poderoso time do agronegócio se prepara para entrar em campo, e é ele que importa, porque dá renda. Quando a obra estiver concluída, tudo continuará como é agora: grandes investimentos canalizando para seus latifúndios altamente produtivos, e Seo João, a mil metros do rio, com o regador na mão alimentando sua horta de subsistência. Presenciei, em Ibotirama, diversas hortas com irrigação artesanal, e a 500 metros do Velho Chico.

Se o pernambucano Presidente da República quisesse mesmo beneficiar seu Estado, que primeiramente ressuscitasse o rio por inteiro, inclusive criando sua hidrovia para cargas e turismo, aí, sim, melhorando a vida, dando emprego e gerando renda para milhões de sertanejos. Mas como este governo tem sido o maior benemérito das elites financeiras de todos os tempos, compreende-se sua determinação de gastar tanto para tão poucos.

O que um presidente consciencioso, administrativamente justo e realmente socialista faria se tivesse R$4 bilhões para gastar num país repleto de urgências urgentíssimas? Não já bastam os milhões gastos na preparação do PAN e os bilhões que serão gastos com a Copa do Mundo de 2014? Vamos continuar brincando de governar para grupos, aqueles que promovem e sustentam o estabhlisment político-social na base do underground.

Pois é, e como à imprensa cabe apenas noticiar, Dom Cappio não passará de um box (matéria à parte, conjugada com a principal) nas matérias sobre a transposição. E se os dois lados mantiverem-se intransigentes, ao bispo não restará mais que pedir a extrema-unção do mártir. Um novo padim, beato sem milagres, porque no interior é assim, e a vida seguirá seu curso, como o próprio rio.