
Morreu Bob Denard, lendário mercenário francês, que inspirou "Cães de guerra", o famoso livro de Frederick Forsyth. Durante 40 anos, ele liderou vários conflitos armados, revoltas e golpes de estado na África e no Oriente Médio.
Denard envolveu-se na guerra civil de Angola e em conflitos na Nigéria, no Benin, no então Zaire (atual República Democrática do Congo), e na antiga Rodésia (hoje Zimbábue). Ele garantiu a vida inteira que tocou esse rebu todo com aval do governo francês.
Em entrevista ao jornalista Gianni Carta, para o livro "Velho novo jornalismo" (Editora Códex, 2003), Bob Denard admite que trabalhou para SDECE, MI6 (serviços secretos britânicos) e para a CIA. No Iêmen colaborou com a inteligência britânica. Em Angola, com a aprovação da Central de Inteligência Americana, ajudou Jonas Savimbi, o líder da Unita (União pela Independência Total de Angola).
Sobre sua atividade, o mercenário explicava que seu objetivo era conter o crescimento do comunismo e do fundamentalismo islâmico na África. Seu papel era simples: "Às vezes, governos querem proteger seus interesses e, ao mesmo tempo, não querem assumir a responsabilidade pelos seus atos". Aí, Bob Denard e seus parceiros entravam em campo. "Tudo é feito da maneira mais secreta possível. Nós não podemos admitir que somos contratados por eles (governos). É assim que funciona: ou você aceita ou cai fora".

Ele não gostava de ser chamado de mercenário. Preferia autodenominar-se corsário da república: "Na França, os corsários recebiam do rei permissão por escrito para atacar navios estrangeiros. Eu não tinha tal permissão, mas tinha passaportes dados pelos serviços de inteligência".
O corsário nasceu em Bordeaux, a 7 de abril de 1929, fez a Escola Naval, foi mandado para o Vietnã (quando a França lutava para manter suas colônias na Indochina), integrou a polícia francesa no Marrocos e foi preso por envolvimento num plano para matar o então primeiro-ministro francês Pierre Mendes-France. Ficou detido um ano e, ao sair, iniciou suas missões na África, apoiando o movimento separatista de Katanga, no antigo Congo Belga, de 1960 a 1963.
Encerrou sua carreira nos anos 90 em Comores (ilhas entre a costa oriental de África e Madagascar, que se tornaram independentes da França em 1975), onde esteve envolvido em quatro tentativas de golpe de estado. Em 1978, de fato, conseguiu derrubar o governo. Em 1995, numa nova tentativa de golpe, Denard foi apanhado e, em 2006, condenado a quatro anos de prisão. Mas já estava com o Mal de Alzheimer em estado avançado e nem pôde comparecer ao julgamento.
O cão de guerra morreu sábado, aos 78 anos, em Paris. Casou-se seis vezes e teve oito filhos.
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