"Política é a arte de sujar as mãos”, diz versão publicável de um ditado global. Foi o que fizeram Renan e Lula, dois especialistas na matéria, para salvar o mandato do presidente do Senado, na semana passada.
Como todos sabem, para conquistar apoio parlamentar o governo barganha cargos públicos e administra a liberação de emendas do Orçamento. O PT inovou acrescentando dinheiro em espécie a essa lista (mensalão). Renan foi mais longe, utilizando o esquema em benefício próprio.
Nenhuma surpresa, tanto que o “Você Decide”, programa da Rede Globo do século passado, muitas vezes chocava os críticos de televisão, mas não os telespectadores. Você se lembra? Era apresentada a dramatização de uma histórica vulgar: João achou no banco de trás de um táxi um pacote com US$ 500 mil”. O que você faria?: a) iria à polícia; b) avisaria o motorista; c) ficaria com a grana. Numa freqüência incômoda ganhava a letra “c”, a mais canalha das alternativas.
O Estadão de domingo revela que apenas 23% das pessoas ouvidas numa pesquisa do Instituto Ipsos acham ruim a corrupção, entre as “obras” que identificam na administração petista. Logo, para a maioria isso não tem problema algum, como aliás a eleição do ano passado demonstrou muito bem.
A propósito, Lula inovou em outro capítulo: na justificativa e acobertamento dos delitos de sua turma de aloprados. Ao contrário dos políticos tradicionais, que em geral se envergonhavam e desmentiam os mal feitos que lhe eram atribuídos, o presidente não. Enfrenta a mídia com o raciocínio “e daí? Quem não é?”
Os cientistas políticos Wanderley Guilherme dos Santos e Fernanda Machiaveli, por exemplo, concluíram sobre o “renansalão” que o caso está encerrado e pronto. A gente acabará esquecendo mais esse também. Noblat, com a ironia de sempre, lançou uma campanha tipo “ir contra Renan daqui pra frente é golpe porque ele ganhou jogando com as regras da democracia”.
Que nada! Apesar do cinismo com que o brasileiro em geral encara uma batida de carteira, está certa a mídia que se indigna. Não foi isso que nos ensinaram nossos pais? É preciso acabar com essa história de que político tem que ter uma moral diferente das pessoas de bem e que é lícito ele ficar com o dinheiro do táxi.
Me incomoda o fato de que tudo o que o deputado Fernando Gabeira toca vira marketing, mas eu concordo com ele. É preciso lançar, sustentar, ir até o fim com o movimento anti-Renan “Se entrega Corisco”. Afinal, ele entende disso. Com apenas um grito, dedo em riste, pôs um presidente da Câmara para correr. Poderia começar pedindo um aparte no plenário do Senado durante sessão presidida por Renan.
Enquanto isso, a gente vai cantarolando trecho da música de Sérgio Ricardo para o Glauber em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Você se lembra?:
Se entrega Corisco
Eu não me entrego não
Eu não sou passarinho
Pra viver lá na prisão
Se entrega Corisco
Eu não me entrego não
Não me entrego ao tenente
Não me entrego ao capitão
Eu me entrego só na morte
De parabelo na mão
Se entrega corisco
Eu não me entrego não.
