quarta-feira, 4 de março de 2015
Comida italiana é boa para labradores
Por David Coimbra.
Crônicas
Comida italiana é boa para labradores
Esse cachorro, eu o encontrei num lugar em que gosto de almoçar, aqui perto de casa. É um pequeno mercado de produtos italianos com uma única mesa comprida para refeições. O proprietário, Andrea, um toscano que carrega o sorriso sempre aberto debaixo do bigode, supervisiona ele mesmo a cozinha, bendita cozinha italiana.
Nesse dia, repimpei-me com fettuccine com molho vermelho e carne de porco, uma delícia. Foi na hora de pagar, em frente ao caixa, que vi o cachorro. Era um labrador preto e estava preso pela coleira. Na outra ponta da coleira havia um homem. Um cego. Enquanto ele pagava a conta, eu e o cachorro notamos um pedaço de carne de porco com molho do tamanho de uma moeda de um real, no chão, a um metro da minha botina. Devia ter caído recentemente do prato de algum cliente. O labrador sentiu o cheiro da carne e deu um passo para alcançá-la. Mas o dono, percebendo que ele se afastava, puxou a guia com força, fazendo com que recuasse.
O cachorro ficou fitando o naco de carne, depois levantou a cabeça e olhou para mim. Havia uma expressão aflita em seus olhos compassivos e úmidos de labrador. Era como se me pedisse ajuda. Decidi atendê-lo. Dei um biquinho no pedaço de carne, na direção dele. Mas o chute não foi suficientemente forte, restou ainda a alguma distância, e o cachorro teve de se esticar para tentar pegá-lo. Só que o dono, sem nem virar a cabeça, deu novo repelão na guia, agora com violência, até certa raiva.
O labrador se encolheu, entre resignado e triste. Olhei para ele. Ele para mim. Era um olhar profundo. Um olhar de dor. De fome, talvez? Ou apenas de desejo frustrado? E o homem? Teria ele notado que chutei a carne na direção do cachorro e por isso se irritou? Ou se irritou porque o cachorro fez menção de se afastar? Ou as duas coisas? Ele parecia brabo, ali, pagando a conta. Brabo comigo? Com o cachorro? Com a vida? Afinal, eu devia ou não empurrar a carne para baixo do focinho do labrador? Era o que o labrador queria, disso não tinha dúvida, mas, se o fizesse, não estaria infringindo algum código de ética da relação entre cegos e seus cães guias?
Maldição!
Quer saber? Vou dar comida para esse cachorro! Vou! O cego que embrabeça, se quiser. Azar o dele! Quem manda não dar comida para o cachorro? Dou uma gingada, faço de conta que vou sair pela esquerda, saio pela direita e mando de trivela bem debaixo do maxilar inferior do cachorro. Ele só vai precisar atirar a língua pra fora para pescar o pedaço de carne. O homem nem vai notar. Vou lá. Vou!
E fui. Fiz um movimento para o lado. E o cachorro compreendeu a minha intenção. Aprumou-se. Salivou. Preparou-se para abocanhar a comidinha deliciosa do italiano e, então, puxa vida, então o homem também percebeu. De alguma forma, ele pressentiu o que eu faria, virou de leve o ombro na minha direção e não me olhou, porque olhar não podia, mas demonstrou claramente que sabia o que eu pretendia fazer.
Com o que, hesitei. Fiquei paralisado.
Não me aproximei da carne no chão, disfarcei e perguntei ao Andrea quanto devia. O homem ergueu o queixo, vitorioso, puxou o cachorro e dirigiu-se para a porta. Fiquei observando os dois, homem e cachorro, se afastando. Antes de sair, o labrador girou a cabeça e olhou para trás, diretamente para mim. Entendi o que ele dizia com aquele olhar. Não havia mais aflição ali. Havia desprezo.
Como se rosnasse:
— Covarde!
terça-feira, 3 de março de 2015
Crise do fim do mundo
Por Eliane Castanhede.
Publicado no ESTADÃO em 01MAR2015
Crise do fim do mundo
Publicado no ESTADÃO em 01MAR2015
Crise do fim do mundo
O 15 de março vem aí, com péssimas condições de tempo e temperatura, o governo fazendo barbeiragens e a oposição instigando as manifestações, mas desautorizando o "Fora, Dilma". E ironizando o "Foi o FHC".
Arte de ALECRIM
Na economia, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, acerta ao entregar um superávit de R$ 21 bilhões em janeiro, mas erra feio ao criticar e chamar de "brincadeira" as desonerações feitas pela chefe Dilma Rousseff no primeiro mandato. Não se cutuca a onça com vara curta.
E... o aumento de até 150% nos impostos da indústria vem numa hora de pânico do setor produtivo e não é nada promissor para crescimento, inflação e empregos, que já começam a tremelicar.
Na política, as ameaças ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Entraram na casa dele e isso virou justificativa para seu encontro com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, um mês depois, justamente às vésperas do anúncio da lista de políticos do PT e do PMDB na Lava Jato. Pior: em 48 horas, o procurador desiste da denúncia de políticos e segue pelo desvio de abrir inquérito. Leia-se: jogar tudo para as calendas.
Janot pode estar enveredando pelo pior dos caminhos: aquele que estanca um basta na corrupção sistêmica, dá na impunidade dos responsáveis pela maior roubalheira descoberta na República e, atenção, pode respingar na sua própria biografia.
Arte de SPONHOLZ
Já o ministro da Justiça se encontra com o advogado da UTC, por acaso, ali na porta ao lado do seu gabinete, diz "Oi!, como está você?" e vira as costas. Também recebe a turma da Odebrecht e registra em ata que vai ver direitinho como foi o pedido de dados na Suíça, o que pode resultar em anulação de provas contra as empreiteiras. Depois se reúne com o procurador à noite, numa semana decisiva, para discutir um arrombamento desses que ocorrem às centenas, ou milhares, por dia.
Enquanto a política econômica dá um cavalo de pau, as versões do governo para sua ação na Lava Jato parecem sem pé nem cabeça e a sociedade se move, as investigações do esquemão na Petrobrás avançam. Só não se sabe para onde.
Já eram esperadas as delações premiadas de dois executivos da Camargo Corrêa, o presidente, Dalton Avancini, e o vice, Eduardo Leite (em choque com a própria companhia), que devem reforçar a tese de cartel contra a de esquema político para eternizar o PT no poder.
É o que o governo quer, mas não o que interessa à Odebrecht, onde habitam os maiores amigos de Lula e Dilma no setor. A empresa é a única que não tem nenhum executivo na cadeia e ficou fora da lista que vai pagar multa de R$ 4,5 bilhões, porque seus meandros de financiamento de campanha são muito mais complexos, não se encaixam nas investigações. Mas, se prevalecer a confissão conjunta de "cartel", ela entra na dança.
É mais um choque de interesses, mas o foco continua sendo no grande personagem das investigações: Ricardo Pessoa, o homem bomba da UTC. Tudo depende agora do fator emocional. Digamos que é uma questão de tempo.
Tem-se, assim, que a economia está como está, os ajustes são amargos num momento já de tanta amargura, o PMDB acaba de ir à TV se descolando do governo, cresce a sensação de que o procurador-geral está nas mãos de Dilma e Cardozo e o desfecho da Lava Jato é incerto, depois de tantas revelações escabrosas.
Pois é... e o 15 de março vem aí. Fernando Henrique Cardoso reuniu seus generais na sexta e o recado é: manifestações, sim; incitar o impeachment, não. Lula também reuniu sua tropa e avisou: se necessário, põe nas ruas a "tropa do Stédile" (ou seja, MST e movimentos sociais).
O que talvez os dos dois lados não estejam entendendo é que, desta vez, não se trata de PT versus PSDB. O momento é grave, a situação é complexa e a dinâmica é a de junho de 2013. As manifestações não são de partidos, de governo ou de oposição. São principalmente contra Dilma, mas contra todos eles.
A alma penada de Dilma Rousseff
Por Vinicius Torres Freire.
Publicado na FOLHA em 01MAR2015
A alma penada de Dilma Rousseff
Publicado na FOLHA em 01MAR2015
A alma penada de Dilma Rousseff
"Um negócio que era muito grosseiro;" "brincadeira que nos custa R$ 25 bilhões por ano". Foi com esse discurso de réquiem que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, enterrou o defunto que fora um dos planos mais estimados da primeira encarnação da presidente Dilma Rousseff: a redução de impostos que empresas pagam ao INSS.
Arte de AROEIRA
O que a presidente sente ou pensa quando assiste à morte inglória e ao enterro infame do seu programa econômico? O que diz a seus botões, durante a noite escura da alma, na solidão esplêndida do Alvorada?
Ela acredita nas fantasias mal escritas de seus discursos, que atribui a ruína que provocou a conjurações dos azares da economia do mundo?
Arte de NEWTON SILVA
Acredita, tal como algumas seitas de seus adeptos restantes, que foi vítima de conjurações de elites, "mídia" ou outro demônio? Vítima dessas elites a quem o governo paga e pagará juros aberrantes pela dívida que fez a fim de financiar uma fantasia caricata e transitória de progresso social, em vez de ao menos tentar cobrar-lhes mais impostos?
As elites, que tanto amaram o dinheiro de seu governo enquanto durou, que recebiam grana grossa para financiar a criação de oligopólios, ainda engolem meio trilhão de reais a juro quase zero, o "nacional-empresismo", outro programa que morre pelas mãos de tesoura de Levy.
Arte de SINOVALDO
Parece agora claro que Dilma não compreendia as consequências das encrencas enormes que criava, tal como endividar demais e levar à pindaíba o Tesouro Nacional e a Petrobras, para ficar nas mais rudimentares e estarrecedoras. Parecia mesmo convicta da eficácia de aplicar ao país uma versão decrépita, colegial e amadora do que imagina ter sido o desenvolvimentismo original, em si mesmo um "equívoco bem-sucedido", responsável por vários dos nossos horrores, como desigualdade, cidades monstruosas, ignorância de massa e elitismo disfarçado de "nacional e popular".
Arte de PAIXÃO
A presidente teria agora dúvidas? Ou balança a cabeça e tenta afastar a lembrança da lambança, tal como fazemos quando mentimos para nós mesmos a respeito dos nossos pecados? A julgar por biografias, histórias e exemplos vivos de poderosos vistos mais de perto, é provável que as perguntas sejam tão ingênuas quanto as ideias de Dilma.
Um político que chegou ao ápice do poder é quase tão oco quanto o tronco comido por cupins das árvores que desabam nas ventanias de São Paulo. Nesse quase vácuo há menos resistência para torcer seja lá o que tenha restado de ideias ou convicção. Até líderes maiores e melhores foram assim. Roosevelt tomou posse com um programa, começou a governar com outro e ainda mudou de ideia, com o que fez fama e história.
Arte de CHICO CARUSO
A alma de Dilma decerto não explica este quadriênio de perversões brasileiras, embora a presidente tenha se valido das oportunidades do governo imperial do país como poucos, encarnando a caricatura da Rainha de Copas. Mas o que explica ao menos o movimento dos seus humores? Dilma ora parece se debater furiosa dentro de uma bolha isolada mesmo das versões da realidade menos antipáticas a sua figura e a seu governo. Seria a fúria de alguém inquieta e ansiosa para voltar a sua vida passada, Dilma 1? Ou de uma alma penada sem rumo?
segunda-feira, 2 de março de 2015
Lulla ameaça a democracia
Por Ricardo Noblat.
Publicado em O GLOBO em 02MAR2015
Publicado em O GLOBO em 02MAR2015
Da esperança à ameaça
O que leva Dilma, aos 67 anos de idade, a ser tão rude com seus subordinados? A pedido de quem me contou, não revelarei a fonte da história que segue. No ano passado, ao ouvir do presidente de uma entidade financeira estatal algo que a contrariou, Dilma elevou o tom da voz e disse:
"Cale a boca. Cale a boca agora. Você tem 50 milhões de votos? Eu tenho. Quando você tiver poderá ocupar o meu lugar".
Arte de ANGELI
Dilma goza da fama de mal-educada. Lula, da fama de amoroso. Não é bem assim. Lula é tão grosseiro quanto ela. Tão arrogante quanto. Eleito presidente pela primeira vez, reunido em um hotel de São Paulo com os futuros ministros José Dirceu, Gilberto Carvalho e Luís Gushiken, entre outros, Lula os advertiu:
"Só quem teve voto aqui fui eu e José Alencar,
meu vice.
Não se esqueçam disso".
Em meados de junho de 2011, quando Dilma sequer completara seis meses como presidente da República, ouvi de Eduardo Campos, então governador de Pernambuco, um diagnóstico que se revelou certeiro. "Dilma tem ideias, cultura política. Mas seu temperamento é seu principal problema", disse ele. "Outro problema: a falta de experiência. E mais um: tem horror à pequena política. Horror".
Na época, Eduardo era aliado de Dilma. Nem por isso deixava de enxergar seus defeitos. "Dilma montou um governo onde a maioria dos ministros é fraca", observou. "Todos morrem de medo dela. No governo de Lula, não.ministro era ministro. Agora, é serviçal obediente e temeroso. Lula não pode fingir que nada tem a ver com isso. Foi ele que inventou Dilma".
Lula não perdoa Dilma por ela não ter lhe cedido a vez como candidato no ano passado. Mas não é por isso que opera para enfraquecê-la sempre que pode. Procede assim por defeito de caráter. Com Dilma e com qualquer um que possa causar-lhe embaraço. Se precisar, Lula deixa os amigos pelo meio do caminho. Como deixou José Dirceu, por exemplo. E Antonio Palocci.
Pois foi com o discurso belicoso de sempre que Lula participou de um ato no Rio em favor da Petrobras. Pediu que seus colegas de partido defendessem a empresa e se defendessem da acusação de que a saquearam. E, por fim, acenou com a possibilidade de chamar "o exército" de João Pedro Stédile, líder do MST, para sair às ruas e enfrentar os desafetos do PT e do governo.
Washington Quaquá, presidente do PT do Rio, atendeu de imediato ao apelo de Lula. Escreveu em sua página no Facebook:
"Contra o fascismo, a porrada. Não podemos engolir esses fascistas burgue-sinhos de merda. Está na hora de responder a esses filhos da puta que roubam e querem achincalhar o partido que melhorou a vida de milhões de brasileiros. Agrediu, damos porrada".
Para o bem ou para o mal, este país carregará a marca de um ex-retirante miserável, agora um milionário lobista de empreiteiras, que disputou cinco eleições presidenciais, ganhou duas vezes e duas vezes elegeu uma pessoa sem voto e sem preparo para governar. Lula já foi uma estrela que brilhava. Foi também a esperança que venceu o medo. Está se tornando uma ameaça à democracia.
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