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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Lágrimas da esquerda

Por Hélio Schwartsman.



Lágrimas da esquerda
O que me surpreende nessa novela do impeachment é que a esquerda ainda defenda a desastrada gestão de Dilma Rousseff.

O governo do PT meteu-se com esquemas pesados de corrupção e mostrou-se administrativamente incompetente. Alega-se que Dilma, como pessoa física, é honesta –com certeza mais honesta do que muitos dos que agora a condenam. Não duvido. Mas isso é muito pouco para transformá-la num modelo de virtude cívica. Ou bem a presidente é uma tonta, que não viu que pessoas ligadas ao partido e ao governo estavam se locupletando, ou então foi conivente com a corrupção. É verdade que os esquemas já existiam antes de ela chegar ao Planalto, mas a posição virtuosa aqui teria sido a de detoná-los publicamente, não tolerá-los em nome da governabilidade.




Para tornar o quadro ainda mais dramático, acho complicado até mesmo afirmar que as administrações do PT buscaram implementar políticas de esquerda. Parece mais preciso descrevê-las como populistas. Enquanto os ventos sopraram a favor, elas distribuíram benesses para todos –muito mais dinheiro foi destinado para empresários do que para os pobres, registre-se.

Em 13 anos de governos petistas, pautas históricas da esquerda, como o direito ao aborto e a descriminalização das drogas, foram tratadas como tabu pelo Executivo. O PT tampouco hesitou em sacrificar bandeiras que lhe eram caras, como a educação sexual nas escolas, sempre que seus aliados religiosos chiavam.



O caso do sindicalismo chega a ser grotesco. Nada foi feito pra implementar a convenção 87 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), aprovada no longínquo ano de 1948, que estabelece a liberdade sindical e que era defendida com unhas e dentes por Lula e pela CUT até chegarem ao poder.

Se há alguém que não deveria derramar nenhuma lágrima pelo governo Dilma, é justamente a esquerda.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A ideologia do ENEM

Por Hélio Schwartsman
FOLHA SP


A ideologia do ENEM
Há algum exagero na acusação de que o governo transformou o Enem numa prova doutrinária, que só aprova candidatos com bons conhecimentos de marxismo-leninismo. Deve-se reconhecer, porém, que o exame, notadamente a parte de ciências humanas, dá generoso espaço a tópicos e autores caros à esquerda.

Fora o tema da redação, que foi a violência contra a mulher, eu contei, usando critérios bem frouxos, 14 perguntas capazes de disparar, ainda que levemente, conexões neuronais esquerdistas nos candidatos. Detalhe importante, a maioria delas não exige que o estudante concorde com a tese para acertar o exercício. São assuntos como globalização, movimentos sociais, feminismo, defesa do meio ambiente. Entre os autores, destacam-se nomes como Simone de Beauvoir, Karl Mannheim, Slavoj Zizek, Agostinho Neto e Paulo Freire. Esse "pot-pourri" representa 31% da prova de ciências humanas – o que não é pouco -, mas mais modestos 7,8%, se considerarmos todas as 180 questões do teste.

Arte de PELICANO



Admitindo um toque de cinismo, eu diria até que o viés ideológico da prova é útil para os candidatos, já que, em caso de emergência, podem recorrer a cálculos mentais de segunda ordem: na dúvida entre duas alternativas, opte sempre pela que tem a resposta mais "esquerdista", pois é maior a chance de que seja essa a que consta como correta no gabarito.

Seria muito melhor, porém, que o Inep, o instituto que elabora a prova, buscasse ativamente uma certa neutralidade ideológica no conjunto das questões. Por mais pantanoso e traiçoeiro que seja esse terreno –a rigor, a neutralidade é menos do que uma quimera–, vale a pena procurar um equilíbrio no "pedigree" dos autores citados justamente para que o exame não seja acusado de ser uma peça de propaganda. O compromisso do Inep não deve ser com correntes de pensamento, mas sim com a qualidade e a reputação da prova.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Neutralidade de gênero

Por Helio Schwartsman.
Publicado na FOLHA SP em 29MAR2015

Neutralidade de gênero
"Uma língua é um dialeto com exército e marinha." O chiste do autor iídiche Max Weinreich escancara as relações entre idioma e poder. Elas são inegáveis, mas qual a sua extensão? É possível para um grupo poderoso impor distinções linguísticas que não estejam antes na cabeça das pessoas? O que vem antes, o conceito ou a palavra?




Depois de mais de uma década de árdua batalha linguística, que opôs feministas e a turma do LGBT aos puristas do idioma, a próxima edição do dicionário da Academia Sueca, a ser publicada no dia 15, vai trazer, além dos  pronomes pessoais "han" (ele) e "hon" (ela), a forma neutra "hen". A ideia é utilizá-la quando o sexo da pessoa é desconhecido, quando o indivíduo ao qual se refere é transgênero ou quando o falante considera que não é o caso de especificar.

O pronome "hen" fora proposto nos anos 60, mas foi só a partir de 2000 que a ideia caiu nas graças de ativistas e se tornou uma causa. A Academia Sueca não tinha alternativa que não registrar a forma, já ela vinha sendo utilizada de modo crescente em meios de comunicação, documentos e até sentenças judiciais.


Arte de DALCIO



Vejo o pronome com simpatia. Ele permite uma cortesia pública para com um grupo marginalizado e dá mais liberdade a autores na hora de falar ou escrever, mas sou cético em relação ao efeito que a novidade possa ter na redução da discriminação.

Embora especificidades da língua possam exercer um efeito limitado e modesto em nossas atitudes, é praticamente impossível fazer com que as pessoas deem peso a ideias que já não estejam antes em suas mentes. Sempre que se tenta esterilizar o idioma com a adoção de um eufemismo –"alcoólatra" no lugar de "bêbado", por exemplo–, é questão de tempo até que ele seja contaminado pelas mesmas conotações negativas e precise ser substituído –"etilista", "dependente". Infelizmente, policiar a língua não basta para resolver injustiças ou quebrar preconceitos.