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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Marin, da Suiça para os States

Por Juca Kfoury


Viagem desclassificada
José Maria Marin está prestes a ser enfiado num avião para fazer a mais angustiante travessia do Atlântico de sua longa vida de mais de 83 anos.

Extraditado pela Justiça suíça para os Estados Unidos, voará de Zurique a Nova York, espera-se, sem algemas, por desnecessárias, apesar de o FBI informar que será com. E na classe econômica, o que é até sorte para quem poderia estar num simples camburão.

Arte de DUKE


Na cidade que nunca dorme, Marin tentará ir para o conforto de seu apartamento na ostentatória Trump Tower, luxuoso edifício de 58 andares, na 5ª Avenida, 725. O apartamento 41-D é dele desde 1989, embora tenha omitido a propriedade em sua declaração de bens quando se candidatou ao senado nas eleições de 2002.

O apartamento está em nome de uma empresa com sede no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas e vale US$ 2,5 milhões

Se conseguir, não sem antes dar uma garantia de US$ 10 milhões, poderá dormir não exatamente em sua cama predileta, a de São Paulo, onde mora também num prédio tão luxuoso que é chamado de Gaiola de Ouro, no Jardim Paulista.

Não dá para sentir pena, porque Marin não se limitou a enriquecer seja como cartola do futebol ou como governador biônico de São Paulo nos tempos da ditadura que serviu com tanto empenho.

Espera-se de quem não teve pudor de endossar denúncias falsas contra o jornalismo da TV Cultura que culminaram com a morte de Vladimir Herzog, exatamente 40 anos atrás, agora dê nome aos bois que foram seus parceiros para ficar milionário.

E que sirva de exemplo para cartolagem.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Brasil, um país onde corrupto julga corrupto

Por Eliane Souza, para o JusBrasil

O time da CPI do futebol ganhou mais um membro. Segundo informações da Folha de S. Paulo, o senador Fernando Collor (PTB) será o representante do bloco parlamentar formado pelo PTB, PR, PSC e PRB na comissão que vai investigar as contas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Até o momento, os senadores Romário (PSB-RJ), Humberto Costa (PT-PE), Zezé Perrela (PDT-MG) e Álvaro Dias (PSDB-PR) já foram indicados por seus blocos. Já os representantes do bloco da maioria (PSDB e DEM) ainda não foram enviados. De acordo com a publicação, a CPI deve ser instalada na próxima semana.




O ex-presidente Collor já foi mandatário do CSA, de Alagoas, e também contou com Zico como secretário de esporte em um curto período de tempo.

De acordo com a Folha, Romário falou que a CPI também pretende investigar as federações estaduais, colégio eleitoral da CPF e que recebe dinheiro da entidade. O senador, autor da comissão que investigará o futebol no país, irá convocar para depor Marco Polo del Nero, presidentes das federações e alguns diretores da CBF.

Com esse tipo de escolha para composição de uma CPI o que se poderá esperar do resultado?

O iludidos que me desculpem, mas acreditar que alguém que segue na Política, depois de um "impeachment", esteja "reabilitado", não "rouba" mais, é exemplo de honestidade e pode julgar alguém, é um utópico! Pessoa que pensa dessa forma é exatamente os que o elegeram novamente. Dando a ele novas oportunidades de "roubar" em nome do povo! Lamentável a mente política da maioria dos nacionais!

E o pior de tudo é que nesse país não é o único exemplo de "corrupto julgando corrupto" - aqui é o que mais há (se fizermos uma busca no judiciário encontraremos dezenas deles aptos a nos julgar), todavia ficaremos por aqui, no julgamento dos diretores da CBF que o assunto é esse!

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Um gol, muitos gols, por Carlos Brickman

Por Carlos Brickmann, em sua página.

Um gol, muitos gols. 
A entrada do FBI americano nas investigações sobre corrupção no futebol muda a regra do jogo: deixa de funcionar a Bancada da Bola, perde efeito o relacionamento internacional bem cultivado, favor prestado não tem mais validade. Se os personagens presos são ou não culpados, a Justiça americana decide. 

Arte de ZAPIRO


Mas:

1 - José Maria Marin, segundo as investigações, teria cobrado propinas nos contratos da CBF. Quem pode ter pago propinas? Patrocinadores da Seleção, talvez; ou concorrentes à compra dos direitos de transmissão. Quem patrocina a Seleção, e quem a patrocinou nos últimos anos? Quem ganhou o direito de transmitir os jogos? Quais empresas firmaram contratos de exclusividade com a CBF?

Arte de DACOSTA


2 - Quando o Brasil ganhou a Copa de 1994, nos EUA, a delegação trouxe 11 toneladas de compras. O secretário da Receita, Osíris Lopes Silva, mandou que as bagagens passassem pela Alfândega. O presidente era Itamar Franco, e Osíris caiu. Quando Ronaldo Fenômeno teve aquele problema na Copa da França, em 1998, já se falava na interferência da Nike na CBF. O presidente era Fernando Henrique. Quando o Brasil ganhou o direito de realizar a Copa de 2014, o presidente era Lula. Ninguém investigou; se investigou, não contou para ninguém. A imprensa paulista foi acusada por Ricardo Teixeira de persegui-lo, só porque andou narrando algumas coisas, que as autoridades não levaram em conta. E como havia gente importante do Judiciário viajando a convite da CBF, com tudo pago!



Agora a bomba explodiu. E vai pegar gente hoje acima de qualquer suspeita.

Quem sabe sabe
Os investigadores americanos tiveram também o apoio decisivo das informações do empresário brasileiro J. Hawilla, dono de uma rede de televisão (a TV Tem) que retransmite a Globo no Interior paulista. Hawilla foi preso e fez delação premiada. Comprometeu-se a devolver aos americanos uns US$ 175 milhões. Meio bilhão de reais. Já pagou a primeira prestação, de US$ 25 milhões. 

Arte de DÁLCIO


J. Hawilla foi preso nos EUA no segundo semestre do ano passado. Alguém soube? Fez o acordo de delação premiada e contou muita coisa (e não deve ter sido o único). Só agora ficamos sabendo - após as prisões. 

Estardalhaço serve apenas para afugentar a presa. Na Suíça, prisão não é ponto turístico. Portanto, ninguém divulga onde está localizada (nem se os demais detentos estão nela ou em outras instituições). Sabe-se que Marin é bem tratado, está preso numa cela com banheiro normal, não precisa fazer acrobacias para usar a privada, tem assistência médica e jurídica. Está mais bem alojado do que em qualquer prisão brasileira. E, caro leitor, de onde é mais provável que não tenha chance de escapar?

Arte de MARIO ALBERTO
 

Chuva de óleo
Americano ainda não dá muita importância ao futebol. A ladroeira na FIFA tem contato apenas superficial com os Estados Unidos: instituições financeiras americanas foram usadas na manipulação irregular de dinheiro, algumas firmas de lá pagaram propina no Exterior. Já o caso da Petrobras, também sob investigação naquelas bandas, bate em cheio nos americanos: a refinaria de Pasadena é lá, os papéis da empresa são negociados nas bolsas dos EUA, milhares de pessoas puseram suas economias em fundos que compraram Petrobras (e que, graças aos problemas da estatal, renderam muito menos do que poderiam). A investigação e a Justiça são mais eficientes que as nossas. 



Os prejudicados farão pressão. E as petroleiras americanas - neste setor ninguém é bonzinho: todos jogam pesadíssimo- não perderão essa ótima possibilidade de atrapalhar a concorrente.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Futebol brasileiro, hora de recomeçar

Por Lúcio de Castro, em sua página
Publicado no ZERO HORA em 31MAI2015

Prisão de Marin é a chance de recomeçar tudo de novo no futebol brasileiro
Foram necessários 83 anos de vida para finalmente conhecer a lei. Em um país estranho, quando mais do que nunca se achava acima do bem e do mal, acima dos homens, acima da justiça. Inimputável. Por trás, milhões de dólares ganhos por caminhos tortos. E um rastro de dor, sombra e morte. 

Arte de CAÓ

Parece atual? Parece óbvio? De quem estamos falando? Estamos falando de José Maria Marin, é claro. Mas poderia ser perfeitamente Augusto Pinochet. Os mesmos 83 anos ao ser preso. Também em terra estrangeira. A mesma certeza da impunidade, a mesma certeza de estar acima de qualquer coisa. Os mesmos milhões de dólares subtraídos na calada da noite. Certamente não é o mesmo rastro de dor, sombra e morte. Mas deixo para outro a tarefa de quantificar a canalhice e a vilania. Tortura é tortura, barbaridade é barbaridade, seja com um ou um milhão. Seja mandando alguém para a morte no Estádio Nacional do Chile ou nas masmorras da rua Tutóia .

Arte de IOTTI


Viverei cem anos e não vou esquecer daquele canto do estádio no pé dos alpes. Os gritos lancinantes de dor ainda parecem ecoar. A escuridão permanece ali como marca indelével daqueles anos de chumbo. Não é diferente quando se anda pela ESMA argentina, ali, a 700 metros de onde se jogava uma final de Copa do Mundo em 78 e gente morria. Os lugares de memória são assim. Fundamentais, pedras da democracia, mas com vozes pertubadoras que o tempo não leva. Se mais cem tiver, também não terei como esquecer da visita no DOI-CODI da Tutóia. Herzog estava ali, tantos anos depois. Foi Marin que o mandou para lá. Sabia o que estava fazendo naquele 9 de outubro de 1975 quando subiu na tribuna e apontou o dedo para os "comunistas da TV Cultura". Naqueles dias era como decretar a morte de alguém. O deputado da Arena, ex-membro do PRP de Plínio Salgado como lembra Mestre Luis Claudio Cunha, deve ter vibrado com o resultado de sua alcaguetagem. Dedo-duro, uma das mais abomináveis faces de um homem. Nenhum pai cria um filho para ele ser um delator. Duas semanas depois, Herzog estava morto numa cela. Marin nunca demonstrou qualquer traço de arrependimento. Não devia mesmo. Tinha convicção no que estava fazendo. E ainda tem.

Arte de BENETT


A mesma convicção que tem quando pensa futebol. Porque ninguém tenha dúvida. A aberração e o caos que vivemos, sintetizados num 7 x 1 que será eterna ferida em nossa alma, esse desgoverno que vai tornando o futebol nossa paixão de toda vida em espaço onde somos incapazes, tudo isso é para ser assim mesmo na cabeça dessa escumalha. De Marin, Del Nero, Teixeira. Ou alguém imagina que estão muito aborrecidos com a tragédia que viraram nossos jogos, nossas competições? Ou alguém acha que se incomodam com tanto passe errado, com tanta bola parada, com tanta falta? Não tem tempo para isso. Estão contando dinheiro. Dinheiro roubado. Querem que se dane o futebol.

Arte de NEWTON SILVA


E vocês vão pagar e é dobrado mesmo. Marin, Teixeira, Del Nero. Um preso aos 83 anos. Como se explica a um neto que "vovô foi preso porque é ladrão"? O outro vivendo nas sombras. Foi tanto dinheiro e eis que já não serve para nada. Vale a pena se não pode dar um passo na rua? Nem mesmo em Boca Raton. E o terceiro saindo corrido da Suíça, tal qual um trânsfuga. Vivendo de sobressalto. Na idade em que se vive de leveza.

Mas, como disse o poeta, "apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia"... A história não tem pressa...Nesta Porto Alegre que me acolhe neste domingo, tenho certeza de que esta mesma história reserva o lixo para Pedro Seelig. E que um dia Jair Krischke, brasileiro maior, homem de ação que salvou tantos em silêncio, ainda estará nos compêndios escolares.

Arte de DUKE


Hora de começar tudo de novo por aqui. Sem essa turma. Botar a bola no chão novamente, povo na arquibancada e não nos camarotes que esses nos empurraram goela abaixo e que agora vamos entendendo onde foi parar essa montanha toda de dinheiro.

Se até aqui só teve agenda para contar dinheiro, agora Marin vai ter muito tempo para refletir enquanto olha pro teto da cela. Sobre essa existência medíocre de alcagueta, sobre a estupidez que é alguém de 83 anos querendo amealhar milhões. Sobre o que fizeram com nosso jogo. Que seja o primeiro de muitos. E que, como castigo, tenham que assistir um jogo do atual campeonato brasileiro no domingo.

Romário: apoio de Pelé a Blatter é ‘vergonhoso’

Por Josias de Souza.

Romário: apoio de Pelé a Blatter é ‘vergonhoso’
O senador Romário (PSB-RJ) considerou “vergonhoso” o apoio de Pelé à quinta reeleição de Joseph Blatter para o posto de presidente da Fifa. Em viagem a Cuba, Pelé definiu como “perfeito” o triunfo de Blatter. Por quê? “Era preciso porque é melhor ter gente com experiência.'' 

E Romário: “O que o Pelé tinha de gênio, de inteligente, pelo que vejo, ele perdeu a partir do momento que encerrou a carreira.



Em conversa com o blog, Romário disse que continua atual um antigo comentário que fez sobre o mesmo personagem: “O Pelé calado é um poeta. A frase, infelizmente, tem que ser repetida. Não tem outro jeito. Essa manifestação é mais uma entre tantas.

Eu respeito o Pelé, não quero fazer nenhuma declaração que desmereça o que ele representa para a gente. Mas ele, nos últimos três ou quatro anos, tem sido para mim uma decepção muito grande. Você tem o direito de fazer as suas colocações. Mas, cara, o Pelé não pode estar de acordo com o quinto mandato de um presidente como o Blatter. Está mais do que nunca demostrado que a Fifa é corrupta.

Arte de CAÓ


Romário prosseguiu: “A investigação ainda não acabou. Muitas coisas vão acontecer. Pode ocorrer inclusive a prisão do Blatter. Eu pergunto: amanhã, o que o Pelé vai dizer?. O cara não pode elogiar a experiência do Blatter diante de tudo isso que está acontecendo. Estou há quatro anos e meio na política. Nunca vou querer ter na minha vida essa experiência que eles têm na Fifa e que outros políticos também têm —experiência para fazer o mal, fazer sacanagem. Isso não é experiência boa para ninguém!

Arte de AROEIRA


Na opinião de Romário, Pelé corre o risco de ser mal interpretado. “Não estou dizendo que é isso o que acontece, mas quem está de fora acaba pensando o seguinte: Pô, esse cara com certeza tem alguma parada com a Fifa. É assim que é. Ninguém fala isso por falar —99,9% das pessoas estão contra o que acontece na Fifa. O Pelé não pode ser o único a favor. Ele não tem argumento. Dizer que o Blatter é experiente! Experiência como essa não serve para ninguém.

Arte de  REGI


Ao longo da conversa, Romário utilizou quatro adjetivos para classificar a manifestação de Pelé: “Foi uma afirmação (1) lamentável e (2) triste. Sobretudo vindo do do jogador do século”, disse de saída. “Tenho notado que opiniões (3) catastróficas como essa têm reduzido a importância que as pessoas dão às coisas que o Pelé fala. O Pelé não pode mais entrar nessas bolas divididas”, acrescentou mais adiante. Súbito, Romário soou como se tivesse encontrado o adjetivo que melhor resume sua opinião: “É (4) vergonhoso, a palavra é essa.”